Análise do inimigo: O Partido

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Um dos livros distópicos mais influentes, não apenas da ficção científica, como também da cultura pop em geral contém um dos inimigos mais vigilantes, poderosos e atuais: o Partido,d e 1984. Uma entidade tão poderosa que ninguém podia escapar de sua vigilância, de sua presença, de suas ações. O Partido é uma visão ampla e poderosa, aquele que a tudo vigia e do qual você não pode escapar.




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Da primeira vez que li 1984, realmente não entendi como se construía aquela sociedade regrada, cinza e com cidadãos tão hostis. Foi apenas com a releitura semanas atrás que finalmente entendi o quão sua figura marcante se assemelha à uma divindade e o quanto ela impactava na vida dos cidadãos ao ser recheada de mentiras que, de tanto serem repetidas, se tornaram verdadeiras.


GUERRA É PAZ
O Partido é uma figura que se assemelha a um deus: onipresente, onisciente, onipotente (só faltou ser online). O temor é tamanho na sociedade de 1984 que os pais precisam temer os filhos, pequenos membros fervorosos do partido, instruídos a observar qualquer desvio de conduta dos progenitores. São pequenos vigilantes que observam os pais, os outros irmãos, os vizinhos e qualquer movimento suspeito, qualquer palavra mal colocada é motivo para prisão imediata.


Sua própria representação com a frase "O Grande Irmão zela por ti", espalhada em cartazes e fotos de propaganda tem um paralelo com a realidade. Ao vermos grandes líderes, especialmente os ditatoriais, vemos que suas imagens ampliadas e gigantescas se espalham por todos os lugares. Coreia do Norte, Líbia, Iraque, os paralelos são vários. Era necessário pensar no Partido como um indivíduo que, obviamente, ninguém nunca viu ou verá, zeloso por seu povo desde que ele lhe dê a devida obediência. Lembra bastante o caso dos Estados Unidos pós-Onze de Setembro, onde muitos norte-americanos preferiam abrir mão de alguns direitos civis em troca de segurança. Em 1984, todos os direitos civis foram perdidos.

O Grande Irmão cuida, mas cuida até demais. Matrimônios não são por amor, as teletelas vigiam cidadãos constantemente, mentiras são criadas para sempre colocar o Partido como vencedor e como sempre estando certo em qualquer circunstância. De seus atos a seus pensamentos, não há escapatória disso. Tanto Winston sabia que, em seu romance com Júlia, era mera questão de tempo para serem pegos na transgressão que quase não aproveitou do tempo que passou com ela.

Os instrumentos do Partido são seus ministérios e seus lemas. A partir deles é possível mudar relatórios, mudar a memória coletiva, mudar guerras e manter o povo no cabresto. "Guerra é Paz" é uma forma de manter o nacionalismo e patriotismo, a devoção ao Partido, num sistema beligerante que acabe criando uma união social. Não importa quando começou, afinal ninguém mais tem essa lembrança, e mesmo que alguém tente resgatar os registros, tudo indica que a guerra é e sempre foi aquela atual.


"Liberdade é Escravidão" é o conformismo social. Alguns até podem pensar em uma mudança real, mas quem vai fazer isso? Quem vai se engajar numa luta contra... o que mesmo? Temos um povo preso em uma constante superficialidade das coisas, cuja atenção vai para a guerra que nunca acaba, para os problemas cotidianos, mas que não enxerga, e nem deve, o verdadeiro problema. E mesmo que lhes fosse dada liberdade, o que fariam com ela?

"Ignorância é Força" é mostrada com o trabalho do protagonista. Winston tem a função de alterar dados e fatos históricos para que se encaixem com a situação presente. Se um inventário de grãos dizia 1000 toneladas e a contagem real é de 800 toneladas, ele tem o dever de alterar tudo o que mencione as tais 1000 toneladas para caber na realidade. Pronto, a diferença nunca existiu, você é que está enganado. O Partido não.

E mesmo que em pensamento você esteja desejando, ansiando que o Grande Irmão caia, saiba que até seus pensamentos podem ser vigiados. A doutrinação é tão intensa que é mais lucrativo para o Partido converter um indivíduo totalmente do que matá-lo. A morte de alguém pode servir de estopim para outro alguém, mas a conversão pura e completa às ideologias dele traz mais uma pessoa para suas fileiras, mais um fiel defensor do sistema, alguém que pode até ter uma pequena dúvida sobre si mesmo, mas nunca sobre quem realmente manda.


Pontuação
Como viver em uma sociedade onde o mero pensamento pode te jogar numa cela? Como viver em um mundo onde não é possível se relacionar com quem ama ou por quem sente desejo? Como derrubar o Grande Irmão? O olho que tudo vê, que mascara uma sociedade protetora e invencível, é um caçador implacável. Mas ao contrário do que parece, ele não mata. Ele caça e converte. Ele mente e desmente com a mesma facilidade. Suas garras estão tão espalhadas que não desconfiaríamos de sua presença até estarmos todos encarcerados. Como é possível entrar em conflito com um poder tão hegemônico a ponto de mudar constantemente sua história, impossibilitando que aprendamos com o passado? É por isso que ele ganha cinco malvadinhos, a escala máxima de perversidade.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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