Análise do inimigo: os Zumbis

sábado, setembro 14, 2013

Uma das criaturas mais vis e perigosas que existe no universo especulativo. Um ser desprovido de qualquer humanidade, empatia. Ele é movido pelo instinto, movido pela fome, somos seu alvo. Sua motivação é simples de entender, porém difícil de tirar. Somente aniquilando toda a raça humana para parar esta criatura: os zumbis.



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Se existe uma cultura pop-alien, existe também uma cultura pop-zombie, tamanha a fama que estes mortos-vivos têm nos dias de hoje. Apesar de serem figurinhas muito conhecidas para os fãs de Romero e de Resident Evil, a fama explodiu recentemente com a adaptação para a TV dos quadrinhos de The Walkind Dead, o que espalhou de vez os zumbis pela televisão, atingindo um público que, anteriormente, não consumia este tipo de produção.


Braaaains... braaains...
O que leva o ser humano fã deste universo fantástico e especulativo a gostar tanto de zumbis? Em 1929, com A Ilha da Magia, de William Seabrook, estes seres reanimados aparecem pela primeira vez na literatura. A revista Time inclusive atribui a este livro a introdução do termo zumbi na cultura norte-americana. Victor Halperin dirigiu Bela Lugosi em White Zombie em 1932, sendo considerado o primeiro filme de zumbi da história. Podemos rastrear a origem desta devoção aos zumbis nas crenças baseadas no Vodu afro-caribenho. Era comum a presença de servos controlados por um feiticeiro, que era dotado da capacidade de trazer os mortos de volta à vida se assim o quisesse. Por não possuírem vontade própria, eles permaneciam sob este controle.

Muito já se especulou sobre o que levaria estes zumbis (no creole haitiano zonbi) a serem controlados pelos tais feiticeiros ou bokor. Talvez a explicação mais conhecida seja a tetrodotoxina, presente na carne do baiacu e descoberta por Wade Davis, um etnobotânico de Harvard. Davis foi bastante criticado por associar esta poderosa neurotoxina com o fenômeno, já que ela traz sintomas desagradáveis, como vômitos e paralisia, às vezes morte e que não explicava o comportamento que se arrastava por anos dos tais zumbis. A pessoa teria morrido (de novo) neste caso. O mais provável, como outros pesquisadores suspeitaram, é que se tratasse de problemas mentais e coerção à pessoa que, presa por suas crenças espirituais, realmente acreditava ser um zumbi e se devotava ao feiticeiro.

The Walking Dead.

O mito do zumbi verdadeiro deu origem ao zumbi da cultura moderna. Ele é um corpo morto, geralmente de seres humanos, que foi reanimado por alguma razão. Seu corpo apresenta os efeitos da decomposição, mesmo que seja mais lento do que num corpo morto de morte verdadeira. Portanto apresenta ferimentos, mordidas, pele solta, tendões aparecendo, partes faltando. Derrubar um zumbi não é fácil. Ele não sente dor e pode continuar atrás de sua presa mesmo levando porrada e balas pelo corpo. A maneira mais garantida para se acabar com um zumbi é acertando seu crânio e destruindo seu cérebro. Balas na cabeça também resolvem, mas nem sempre, como nos mostram os filmes do Romero, onde até mesmo a decapitação não resolve o problema.

A infecção é ainda um assunto controverso. Existem vários culpados para a causa zumbi, desde o inferno lotado até vírus. Em A Noite dos Mortos-Vivos (1968), especula-se que a culpa seja de um agente extraterrestre. Já The Walkind Dead não deixa claro de onde vem o surto, mas acredita-se que seja algo viral ou parecido, pois no CDC eles descobrem que o cérebro é infectado como na meningite. Resident Evil toca na questão da biotecnologia e nas armas virais, desenvolvendo um vírus capaz de regenerar tecidos e funções motoras, mas que devia ser controlado pelo antivírus. Caso o contrário, teríamos o T-Vírus por aí, transformando as pessoas e também cães, tubarões, aranhas, elefantes...

Resident Evil.

Tem surgido variações do mito zumbi ultimamente. Se temos aquele ser sanguinário, sem memória e com fome de carne humana como a imagem clássica do zumbi, temos alguns que seguem por outras vertentes como os zumbis de Sangue Quente (que foi adaptado para os cinemas com o nome brasileiro horrível de Meu Namorado É Um Zumbi), que precisavam ser compreendidos, precisavam de amor e contato humano de verdade. Muita gente criticou o livro, mas ele é uma análise da sociedade atual, onde as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras, evitam demonstrar seus sentimento com medo de parecerem fracos.

Temos também os agressivos infectados dos filmes da série Extermínio, onde uma variante da raiva - e que infecta e transforma uma pessoa em incríveis 20 segundos! - torna as pessoas absurdamente violentas. Claro que na natureza não existe algo tão drástico, mas o vírus de Extermínio consegue derrubar a civilização em pouquíssimo tempo. Zumbis podem ser rápidos, ligeiros, verdadeiros predadores ou podem ser meio bocós, que ficam vagando ou empacam nos seus lugares.


A fama e a imagem dos zumbis reflete os medos mais profundos do ser humano. Ele é uma perfeita alegoria para os problemas da sociedade, já dizia o Zumbi Hunter, blog onde escrevi por um bom tempo. Assim como os alienígenas na ficção científica, o zumbi reflete alguns dos nossos medos mais básicos. Até mesmo o CDC se utilizou da mitologia para alertar sobre como se preparar para as catástrofes naturais. O primeiro medo é a perda da humanidade. Um zumbi é desprovido de empatia, amor, dor, qualquer sentimento que componha uma pessoa. Ele é uma contradição, pois ao mesmo tempo que vemos que ali existe, ou existiu, uma pessoa, ela não é mais reconhecível. Sua memória, seus pensamentos, tudo o que aquela pessoa era foi suprimido, deixando apenas as partes primitivas como a fome.

A perda da segurança é outra parte importante do mito do zumbi. Como na maioria dos casos de infecção, a pessoa demora a se transformar, é possível ter uma ameaça potencial dentro de casa e nem saber. O seu pior inimigo é aquele logo ao lado, mesmo que não esteja infectado, pois mesmo sendo seu aliado, parente, amigo, amante, se for infectado, se transformará em um predador insaciável, capaz de acabar com sua integridade física, sem ter o menor traço de lembrança. E para impedir a transformação, o jeito é matando a pessoa. De um jeito ou de outro, aquele ente querido é perdido. Este não é um ser com quem você tenha meio termo, pois não se pode apelar ou negociar com ele. E o poder de argumentação sempre transformou amigos em inimigos e vice-versa. Com os zumbis, não.

Um surto da praga zumbi levaria ao caos os serviços públicos e de saúde. Não teríamos o efetivo médico e de segurança necessários para tratar de tantas pessoas doentes e executar as pessoas seria uma medida para lá de polêmica, o que levaria ao famoso apocalipse zumbi. Em uma postagem no blog Zumbi Hunter (infelizmente fora do ar), eu fiz esse cálculo:

Em um país continental como o Brasil, com mais de 8 milhões de km2, com imensas e populosas regiões metropolitanas, o comando das Forças Armadas precisaria deslocar no mínimo 400 mil homens apenas para cobrir estas importantes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife e assegurar estradas, prédios do governo e a distribuição e racionamento de recursos. Dados de 2009 estimam que o nosso efetivo não chega a 380 mil homens e mulheres. Mesmo chamando o pessoal da reserva, que estima-se seja de cerca de 1 milhão de indivíduos, não haveria recursos para armá-los e colocá-los nas ruas em uma situação de emergência como num apocalipse zumbi. Com uma população de 220 milhões de habitantes, se imaginarmos que o vírus (?) zumbi infecte e deixe 20% da população brasileira doente, que é uma taxa de infecção semelhante a muitos vírus que temos por aí, os militares terão que lidar com cerca de 44 milhões de zumbis sedentos de sangue... A matemática não é favorável aos militares neste caso.


Ou seja, ficaríamos entregues à milhões de zumbis que, utilizando-se da estrutura urbana das cidades, tornariam-se um predador fantástico do ser humano. Este é outro medo. O Homo sapiens está no topo da cadeia alimentar, com poucas ameaças para nos tirar esta superioridade. Mas um zumbi nos supera com folga, já que seremos nós mesmos ali, matando, transformando, comendo e atacando. A raça humana não é homogênea, somos bons, maus ou indiferentes quando os momentos exigem, predados constantemente pelo sistema capitalista, por outras pessoas, por empresas, mas o zumbi reduz tudo isso à uma única necessidade, que é a sobrevivência.

Pontuação
Os zumbis são muito difíceis de exterminar. Seu ponto fraco é um só e acertar o crânio de um zumbi com força suficiente para fazê-lo parar não é para qualquer um. Além disso, não dá para acabar com todos eles. A menos que se arrisque a exterminar toda a raça humana, já que nós somos os zumbis, mortos reanimados por alguma razão.

As cidades também favorecem ao surgimento de mais e mais zumbis devido ao adensamento populacional. Quanto mais gente, mais zumbis em potencial temos ali. Não temos estrutura - ainda mais no Brasil - para arcar com grandes epidemias perigosas como um surto zumbi, não temos efetivo policial ou militar para preservar suprimentos e remédios para quem precisar. E além dos zumbis, certamente teríamos outros seres humanos se aproveitando desta situação de caos para os mais variados fins. Assim surgiriam as milícias, muito provavelmente formada por policiais ou por facções criminosas. Ou seja, o zumbi é o inimigo perfeito e altamente perigoso, a maior alegoria de temor criada pela cultura humana.



Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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