25 livros clássicos de ficção científica escritos por mulheres

Neste final de semana eu estava reclamando de ler a 39422 lista de livros obrigatórios de ficção científica. Reclamo dessas listas porque, em geral, elas são copiadas e coladas em sites, já que são sempre os mesmos títulos, os mesmos autores, sem tirar nem pôr. Esse é um problema da nossa indústria literária que privilegiou livros escritos por homens, já que existem grandes livros escritos por mulheres que nunca receberam (e duvido que recebam) tradução por aqui. Mas a produção feminina de ficção científica existe e há sim livros clássicos que merecem menção.

25 livros clássicos de ficção científica escritos por mulheres




Para adiantar o expediente, entenda o seguinte: essa lista é apenas um complemento aos livros clássicos de ficção científica que já são bastante conhecidos e ninguém está te impedindo de ler o que você quiser. Mas infelizmente, quem quiser ler mais mulheres dentro da ficção científica, vai ter problemas para achar algumas sagas e até obras em determinados subgêneros que já estejam traduzidos para o português. A ideia aqui é tornar alguns títulos e autoras mais conhecidos do público leitor e quem sabe inspirar editoras a traduzi-los.

Nesta lista existem alguns títulos bem conhecidos, além de alguns que foram publicados recentemente, mas que já são considerados clássicos do gênero. A lista começa pelos livros não traduzidos ou que estejam fora de catálogo há muito tempo. Vou deixar alguns volumes de fora, então não adianta xingar nos comentários.


25. The Long Tomorrow, de Leigh Brackett
Considerada a "rainha da space opera" e autora do roteiro de Star Wars V: O império contra-ataca, Leigh Brackett foi uma das mais influentes escritoras de ficção científica do século XX. Em 1955, ela publicou seu famoso livro pós-apocalíptico, The Long Tomorrow, onde a sociedade norte-americana busca se recuperar de uma terrível guerra nuclear banindo toda a tecnologia e até apedrejando pessoas nas ruas por usarem qualquer artefato tecnológico. Qualquer livro de distopias pós-guerra nuclear que surgiram depois tem uma dívida com a obra de Leigh Brackett.


24. The Female Man, de Joanna Russ
Joanna Russ foi uma professora, crítica literária e escritora de ficção científica que sempre trabalhava com temas feministas em seus textos. The Female Man, publicado em 1975, seu livro mais conhecido, traz quatro mulheres de quatro realidades alternativas diferentes que acabam tendo suas trajetórias cruzadas, onde elas vivem por algum período as vidas das outras. Este mundos variam de utopias a distopias cruéis, onde há guerras e extermínio. Não é considerado um livro fácil pela forma como a autora vai e volta entre as personagens, pulando entre elas sem qualquer aviso, mas é um marco para a literatura feminista de ficção científica.


23. Woman on the Edge of Time, de Marge Piercy
Marge Piercy é, antes de tudo, uma poeta que também trabalha com ficção científica. Publicado em 1976, Woman on the Edge of Time fala de uma mulher, Connie Ramos, que perdeu tudo, inclusive a família e acaba internada em um hospital psiquiátrico injustamente. É lá dentro que ela começa a ser contatada por uma enviada de 2137, que mostra um mundo diferente, utópico, mas que também mostra um mundo distópico e cruel. O livro é basicamente sobre estar presa. Presa às drogas, ao tempo, às circunstâncias da vida, ao sofrimento e à esperança, além de uma severa crítica ao sistema manicomial.


22. The Tomorrow People, by Judith Merril
Uma das únicas mulheres a integrar o grupo dos futuristas, Judith Merril era uma editora brilhante, responsável por criar algumas das melhores coletâneas de ficção científica. Publicado em 1960, o livro é um mistério e uma ficção científica, que fala sobre o único sobrevivente a uma missão a Marte. O astronauta Johnny Wendt se recusa a dizer o que aconteceu aos seus colegas e várias passagens do diário da missão sumiram. Judith foi uma das primeiras escritoras a tratar dos mistérios do espaço e dos riscos das missões espaciais em seus livros.


21. Missing Man, de Katherine Maclean
Katherine Maclean teve vários trabalhos adaptados para o rádio e para a televisão e um de seus contos, Incommunicado, inspirou cientistas do Bells Labs a criar novos e mais modernos computadores pessoais. Missing Man, uma novela ganhadora do Nebula de 1971, se passa em uma Nova York caótica de 1999, e trabalha com questões pertinentes. O livre arbítrio é mesmo livre? Um controle tido democrático é tão ruim quanto aquele exercido por ditaduras?


20. Dreamsnake, de Vonda McIntyre
Vonda McIntyre foi uma das criadoras da famosa e disputada oficina de ficção científica Clarion West. Seu livro mais famoso, Dreamsnake, publicado em 1979, é um dos poucos livros a ganhar os três principais prêmios de ficção científica (Locus, Nebula e Hugo). Em um futuro que se recupera de um apocalipse nuclear, uma sociedade precisa se reconstruir. A protagonista é uma curandeira que se vale do veneno de cobras e técnicas de bioengenharia para tratar enfermos. Vonda também escreveu romances dentro do universo de Star Trek.


19. The Ship Who Sang, de Anne McCaffrey
Anne McCaffrey é bastante conhecida por sua saga sobre dragões, mas um de seus melhores trabalhos é The Ship Who Sang, publicado em 1969. Neste universo, pessoas que tenham nascido com sérios problemas de saúde, deformidades mortais ou físicas incapacitantes têm seus cérebros doados pelas famílias e implantados em naves espaciais, tornando-se seu computador central, no lugar de uma inteligência artificial. Essas naves acabam se tornando muito ligadas à sua tripulação ou a outras naves e cantam para suas tripulações quando as perdem.


18. Shards of Honor, de Lois McMaster Bujold
Lois McMaster Bujold é uma das maiores ganhadoras do Hugo Awards da história. Publicado em 1986, Shards of Honor faz parte de sua famosa Saga Vorkosigan de space opera. O foco do livro são os relacionamentos interpessoais. A comandante Cordelia Naismith e sua tripulação são atacados e feitos prisioneiros por um comandante inimigo. Os dois se admiram e acabam sobrevivendo a uma série de infortúnios e se conhecem melhor enquanto estão presos em um planeta hostil.


17. Beggars in Spain, de Nancy Kress
Publicado em 1993, o livro se passa em um futuro onde as pessoas foram geneticamente modificadas para não precisarem dormir. Essas pessoas se tornam super-humanas, com uma expectativa de vida muito maior do que a dos comuns. Mas logo a violência explode entre as pessoas, o mundo muda drasticamente e se reorganiza em camadas sociais divididas entre aquelas que não dormem e aqueles que dormem. O livro discute o peso do preconceito na forma como as camadas da sociedade se organizam e é o primeiro volume de uma trilogia.


16. Synners, de Pat Cadigan
Clássico do cyberpunk, Sinners adiantou muitas inovações modernas como o GPS e até as redes sociais. Neste mundo distópico, publicado em 1991, as pessoas buscam refúgio de um mundo doente e em ruínas com implantes cerebrais que lhes permitem viver os sonhos e desejos de outras pessoas. Há também uma proto-rede social, chamada Dataline, que monetiza os dados de seus usuários e até molda a forma como eles pensam. Parece familiar?


15. Downbelow Station, de C.J. Cherryh
C.J. Cherryh é uma das autoras veteranas de ficção científica. Downbelow Station, publicado em 1981, é uma das maiores space operas já escritas, onde ela aborda a exploração humana em sistemas estelares próximos ao nosso, controlada por uma empresa privada que constrói várias estações espaciais em sistemas estelares desprovidos de planetas. Essa empresa descobre o primeiro planeta habitável da história, o que vai deflagrar um conflito entre os que moram nas estações e o domínio desse novo planeta.

Porque se você não falar sua verdade, sempre haverá algo ou alguém que vai falar muito mais alto no seu lugar.

Pat Cadigan


14. The Stars Are Legion, de Kameron Hurley
Um dos meus livros preferidos da vida inteira é esse. Publicado em 2017, este é um universo composto apenas por mulheres, onde existe uma frota de naves-mundo orgânicas, chamada de Legião, que está morrendo. Zan acorda se memória, na companhia de Jayd, que diz que ela é sua irmã e que a sobrevivência da frota depende de Zan. A partir daí, começa uma jornada por um mundo orgânico onde o sentido de maternidade foi totalmente subvertido e reconstruído.


13. The Many Colored Land, de Julian May
Em um futuro próximo, a humanidade desenvolve a tecnologia de viagem no tempo. Como a situação do planeta está se deteriorando, pessoas são enviadas ao passado, para o Plioceno, milhares de anos antes do surgimento do Homo sapiens. Mas tem uma pegadinha: a viagem é só de ida, essas pessoas não poderão voltar ao seu tempo original. Mas quando os exilados chegam ao passado, descobrem duas raças alienígenas exiladas de seu próprio planeta que caíram na Terra. Publicado originalmente em 1981, é o primeiro de uma quadrilogia.


12. The Time Traders, de Andre Norton
Originalmente publicado em 1956, a autora o atualizou em 2000. Aqui nós temos um enredo onde Estados Unidos, Rússia e uma raça alienígena, chamada de Baldies usam a viagem no tempo para seus próprios fins em uma guerra fria que começa a esquentar gradualmente. Uma das ideias interessantes do livro é que se uma civilização descobrir o segredo da viagem no tempo, ela nunca descobrirá a viagem espacial e vice-versa. O livro se alterna entre os dias atuais, uma sociedade tribal comercial na Grã-Bretanha, em 2000 a.C., e um posto avançado glacial na última era do gelo.


11. The Mount, de Carol Emshwiller
Uma veterana da ficção científica, Carol Emshwiller era admirada por Ursula K. Le Guin, que a considerava uma das maiores vozes dentro da FC. Em The Mount, de 2002, Carol nos mostra um planeta Terra no futuro que é controlado por uma raça alienígena herbívora, chamada Hoots. Eles têm dificuldades de se locomover na Terra por causa de suas pernas fracas e usam os seres humanos como montaria, como se fôssemos cavalos ou burros de carga. A raça humana oprimida então se organiza em uma força de resistência na tentativa de se libertar dos Hoots.


10. The Calculating Stars, de Mary Robinette Kowal
Publicado em 2018, The Calculating Stars é um livro que reconfigura o passado. Quando um meteorito cai nos arredores de Washington DC em 1952, o clima do planeta logo se tornará inóspito. Assim, uma coalização internacional com diversos cientistas tenta criar uma maneira de enviar o homem para a Lua. Mas por que não uma mulher? Elma York, uma piloto e matemática da coalização fará de tudo para ser a primeira mulher astronauta e para atingir seu objetivo. O livro ganhou o Locus, o Nebula e o Hugo de melhor romance.


9. The Sparrow, de Mary Doria Russell
Publicado originalmente em 1996, The Sparrow fala sobre o padre jesuíta Sandoz que é escolhido pelo Vaticano como parte de uma missão que entrarará em contato com uma raça alienígena, em parte por causa de sua experiência com a linguagem usada em programas de tradução. Mas Sandoz retorna e é o único sobrevivente da missão, traumatizado e acaba condenado pela igreja por falhar. É um enredo sobre a arrogante suposição humana de que civilizações alienígenas serão compreensíveis para nós e de que será possível estabelecer um contato formal com elas.


8. O conto da aia, de Margaret Atwood
Livro que deu origem à série, o livro publicado originalmente em 1985, fala de uma nação fundamentalista cristã, Gilead, que removeu praticamente todos os direitos das mulheres e as dividiu em castas identificadas pela cor de suas roupas. Neste mundo as mulheres são vigiadas e constantemente acusadas de causarem seu próprio sofrimento como abusos e estupros. As aias são mulheres ainda em idade reprodutiva que são enviadas para as casas de altos oficiais do governo para serem estupradas e deles engravidarem, já que há uma crise de natalidade. Tem resenha dele aqui!


7. A Quinta Estação, de N.K. Jemisin
Primeiro livro de uma premiada trilogia, A Quinta Estação, publicado originalmente em 2015, fala de um mundo que vê constantemente sua destruição. Acompanhamos a vida de Essun, uma mulher em busca de sua filha depois que seu outro filho foi morto pelo marido. Neste mundo dividido entre os quietos e os orogenes, pessoas capazes de manipular as forças tectônicas do planeta, a autora discute preconceito, racismo e xenofobia. Tem resenha dele aqui!


6. A longa viagem a um pequeno planeta hostil, de Becky Chambers
Publicado originalmente em 2014, o livro traz uma visão otimista da raça humana, sem deixar de discutir temas importantes como sexualidade, preconceito, tecnologia, clonagem e a importância da família e dos amigos. A nave Andarilha está a caminho de um planeta perto do núcleo galáctico, com sua diversificada tripulação de humanos e alienígenas, passando por diferentes situações no trajeto. Primeiro livro de uma aclamada quadrilogia. Tem resenha dele aqui!


5. Estação Onze, de Emily St. John Mandel
Publicado em 2014, Estação Onze se passa na região dos Grandes Lagos, nos Estados Unidos, após uma pandemia fictícia de gripe suína, conhecida como "Gripe da Geórgia", ter destruído o mundo, matando grande parte da população. Neste novo mundo, uma trupe itinerante viaja de vilarejo para vilarejo, fazendo apresentações com sua pequena orquestra e apresentando peças de Shakespeare. Eles não têm combustível ou energia elétrica, portanto viajam com a ajuda de cavalos. Mas o grupo de pode estar em perigo após chegar a uma cidade onde está nascendo um culto reliogoso.


4. O livro do juízo final, de Connie Willis
Connie Willis é uma das maiores autoras de ficção científica, ganhadora de vários prêmios. Em O livro do juízo final. publicado em 1992 e no Brasil em 2017, viagem no tempo é algo comum e historiadores se valem disso para presenciar momentos importantes do passado. Aqui temos Kivrin, uma viajante do tempo que decide ir até o começo do século XIV para testemunhar como era a vida das pessoas durante a Idade Média. Mas as coisas não vão sair às mil maravilhas para Kivrin, nem para as pessoas que estão no presente tentando fazê-la voltar para casa. Tem resenha dele aqui!


3. Justiça Ancilar, de Anne Lackie
Primeiro livro de uma trilogia e ganhador do Hugo, Nebula, Locus, Arthur C. Clarke e BSFA, Justiça Ancilar fala de uma inteligência artificial que parte em busca de vingança. Breq é uma nave, ou melhor dizendo, a inteligência artificial de uma nave chamada Justiça de Toren. Essa IA é dividida em centenas de ancilares, pessoas capturadas e escravizadas pelo Império do Radch a servirem à bordo das gigantescas naves. O mais legal do livro: ele é todo no feminino e discute imperialismo e expansão. Tem resenha dele aqui!


2. A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin
Um dos mais aclamados livros de ficção científica, publicado em 1969, aqui temos Genry Ay, um homem terráqueo que é enviado ao planeta Gethen, a fim de convencer as nações e seus habitantes a entrarem para o Ekumen, um tipo de ONU ou Federação dos Planetas Unidos. O povo de Gethen tem a capacidade de oscilar entre o femininmo e o masculino e por ser homem, o povo não encara Genry com seriedade. Muitas armadilhas acabam entrando no caminho de Genry e de seus apoiadores. Livro ganhador do Hugo e do Nebula.


1. Kindred, de Octavia Butler
Considero um escândalo que Kindred tenha chegado a tão pouco tempo ao mercado brasileiro. Uma das principais vozes dentro da ficção científica, Octavia Butler escreveu uma obra sobre viagem no tempo, onde a protagonista, Dana, se vê enviada ao passado escravagista dos Estados Unidos para proteger a vida de um de seus ancestrais brancos, um garoto que quase se afoga no rio. Tem resenha dele aqui!


Esta lista não tem a intenção de encerrar a discussão nem de esquecer de outros livros clássicos. É apenas para mostrar que há muitos trabalhos escritos por mulheres que são hoje considerados clássicos e que nunca ganharam uma tradução ou que nem sempre figuram em listas obrigatórias.


Até mais!


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3 COMENTÁRIOS

  1. Uuh! Que lista! Já li alguns desses títulos e são realmente bons! Vou ir atrás dos outros!

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  2. Olha, tanto nome que eu não conhecia. Muito obrigada!

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