Vonda N. McIntyre, a profetisa do futuro

Vonda Neel McIntyre é uma das grandes damas da ficção científica. Fã incondicional de ficção científica e Star Trek, Vonda foi inspirada por uma geração de grandes mulheres da FC como Anne McCaffrey, Ursula K Le Guin e Joanna Russ, e nas pioneiras obras de Samuel Delany. Tendo partido deste mundo rumo às estrelas em abril de 2019, Vonda deixou um legado humanista na ficção científica, servindo de inspiração para muitas que viriam depois dela.

Vonda N. McIntyre, a profetisa do futuro



Vonda era natural do Kentucky. Passou a infância em várias cidades diferentes tendo nos livros e revistas de ficção científica uma companhia fiel, desbravando novos planetas e fazendo contato com criaturas alienígenas. A família, enfim, se assentou em Seattle, onde ela estudou biologia. Cursava o doutorado em genética pela mesma instituição quando participou do famoso retiro para escritores do Clarion Writers Workshop. Depois de obter o título, largou tudo para seguir na carreira de escritora e em 1971 ela fundou o Clarion West Workshop, em Seattle.

Foi em uma oficina criativa no Clarion Writers que surgiu a ideia de seu romance mais conhecido, misteriosamente nunca publicado no Brasil, o multipremiado com Nebula, Hugo e Locus, Dreamsnake. Na oficina, as pessoas pegavam ideias de um copo de isopor e deveriam escrever um conto a respeito. Ele acabou ficando com as palavras snake e cow. Um colega sugeriu que ela desse o nome ao personagem de Snake e cow em inglês também é um verbo que ela poderia muito bem usar. Surgia assim dos romances mais importantes da literatura de ficção científica.

Vonda quebrou padrões para a época que ainda discutia se mulheres tinham ou não lugar dentro da ficção científica. Não só isso. Tendo crescido nos anos 1950 e sendo fã de bizarras histórias sobre planetas alienígenas e extraterrestres, ela teve que lutar contra a visão cristalizada do que uma mocinha deveria ser. Não só isso, teve que lutar para encontrar mulheres nas histórias que lia, tendo encontrado seu lugar quando Star Trek estreou em 1966.

Seus livros carregados de questionamentos sobre gênero e sexualidade, performance do feminino e protagonistas fortes e vigorosas talvez explique porque sua obra ainda não foi traduzida para o português: em Dreamsnake nós temos uma mulher protagonista, um personagem masculino que performa a masculinidade de outra maneira, uma não-tóxica e uma história que envolve poliamorismo, curandeiras, controle de fertilidade, opressão e abuso.

A primeira mulher a ganhar o Hugo de Melhor Romance foi Ursula K. Le Guin. Depois Kate Wilhelm e a terceira foi Vonda McIntyre, em 1979. Dreamsnake foi um dos poucos romances a ganhar os três grandes prêmios de ficção especulativa. Para a época em que Vonda cresceu, estudou e começou a escrever, as mulheres sofriam ainda mais pressão social se resolvessem seguir caminhos que fossem diferentes de casar e ter filhos. Sendo uma mulher na ficção científica escrevendo sobre temas feministas, com curandeiras como protagonistas em um mundo pós-apocalíptico era enfrentar pressão de vários lugares.

Por isso que Vonda sempre reiterou que teve muitas mulheres em quem se inspirar (e por isso eu bato sempre na tecla de que a representatividade importa). Quem acha que as mulheres começaram a escrever FC nos últimos dez anos conhece muito pouco de ficção científica. Elas estão por aí desde que Mary Shelley sonhou com a criatura numa tempestuosa noite na Suíça. Ainda assim, Vonda recebeu críticas severas por seu livro com uma curandeira, crianças abusadas e cobras capazes de curar ao invés de matar. Só o fato de ter uma mulher fazendo tudo isso já era um problema.

Fã de Star Trek e tendo escrito peças e roteiros quando era adolescente, Vonda também foi a autora responsável pelas novelizações de Star Trek II: A Ira de Khan, Star Trek III: à Procura de Spock e Star Trek IV: A Volta para Casa. Aliás, foi Vonda quem deu o primeiro nome do Sulu, Hikaru, que depois virou o nome oficial do personagem, além de nomear a mãe do capitão Kirk, Winona. Em 1976, escreveu uma famosa coletânea de ficção científica feminista, Aurora: Beyond Equality.

Ela foi fundamental para teorizar sobre controle de natalidade e consentimento sexual no futuro, e fundamentou suas preocupações feministas nas realidades científicas.

Nisi Shawl

The Moon and the Sun, um romance de 1997, é uma história alternativa da França absolutista, que depois virou um filme ainda não lançado, The King's Daughter, em que Pierce Brosnan interpreta um rei Luís XIV, obcecado pela imortalidade. O livro, bem como Dreamsnake, foi rejeitado de cara por alguns editores antes de serem lançados e desbancou no Prêmio Nebula ninguém menos que George R.R. Martin com A Guerra dos Tronos.

Vonda não "escreveu feito homem". Vonda escrevia como uma mulher e defendeu que todas devemos e podemos escrever desta maneira, tendo espaço e reconhecimento no meio. Quando Fonda Lee teve dúvidas, querendo assinar seus livros com um pseudônimo masculino ou abreviado, Vonda disse um sonoro NÃO. E quando seu famoso livro ficou fora das livrarias por dez anos, ela criou o Book View Cafe, um site onde os autores que ainda detinham os direitos de seus livros podiam vendê-los diretamente aos leitores.

O trabalho de Vonda foi tanto como escritora, como editora e professora. Foi uma inspiração para dezenas de escritoras de FC e merece muito mais reconhecimento do que teve até agora. É só uma pena que seu romance mais famoso nunca tenha chegado ao Brasil, o que é um escândalo. Se você tiver o privilégio de poder ler em inglês, leia Dreamsnake.

Até mais!


Leia também:

Leia mais:
Vonda N. McIntyre, 70, Champion of Women in Science Fiction, Dies - The New York Times
Bibliografia de Vonda McIntyre - Site oficial


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2 COMENTÁRIOS

  1. Adoro quando você faz esses perfis de escritoras da ficção científica. Sempre vou atrás das obras e me surpreendo. Por que não fazer de homens também, tipo o Samuel Delany, ou de estilos, tipo o afrofuturismo? Ia ser legal!

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