Marge Piercy, a feminista utópica

Um dos maiores clássicos da literatura de ficção científica feminista é obra de Marge Piercy, Woman on the Edge of Time. É praticamente impossível encontrar seus trabalhos em português, em mais um daqueles casos escandalosos de mulheres da FC que nunca foram publicadas aqui enquanto os velhos homens brancos ganham publicação nova todo ano.

Marge Piercy, a feminista utópica



Antes de ser uma romancista, Marge é uma poeta. Inspirada na avó, que ela considera uma grande contadora de histórias, Marge nunca se encaixou em padrões femininos típicos. Marge cresceu e estudou em um intenso caldeirão de transformação cultural e social e seus primeiros escritos, em forma de poemas, foram fortemente influenciados pela contracultura. Seus romances também viriam na mesma esteira, abordando os mais variados temas ligados ao feminismo.

A doença a fez se encantar pelos livros e pela literatura. Sem poder fazer muitos esforços por conta da febre reumática, Marge descobriu mundos que nunca sonhou existirem e pode se desconectar da realidade quando era necessário. Assim surgiu sua primeira coletânea de poemas, publicada em 1980, um clássico da poesia feminista, The Moon Is Always Female.

Uma característica recorrente de sua escrita são os temas feministas e/ou sociais e todos eles focam na vida das mulheres, que são as protagonistas. São mulheres agredidas, violentadas, que viram seus mundos serem destruídos, mulheres levadas ao limite por companheiros ou pela sociedade e colocadas em manicômios. Mulheres no limite, mulheres que não aguentam mais. Todos esses assuntos já eram lugar comum para Marge ainda nos anos 1970.

Woman on the Edge of Time (1976) é talvez um dos grandes clássicos da FC Feminista, junto de The Female Man, de Joanna Russ. É um livro que trabalha com feminismo, com sociedade e com doenças mentais. Há uma severa crítica à institucionalização de pacientes, em especial as mulheres, que muitas vezes foram jogadas em instituições como o Manicômio do Colônia, aqui mesmo no Brasil, por razões que sequer eram relacionadas a doenças. William Gibson já disse que o cyberpunk começou com este livro.

Apesar do tema parecer distópico, este é um livro essencialmente utópico, um tipo de narrativa que anda em baixa ultimamente, ainda que eu entenda os temores apresentados em romances deste tipo. Porém, é uma utopia que, assim como Star Trek, precisou ver a destruição e as mudanças ambientais severas antes de alcançar a utopia. É um livro essencialmente anarquista, onde a família nuclear foi abolida, bem como os relacionamentos baseados em poder. Foi apenas perto da destruição completa da civilização, que a raça humana enfim entendeu que deveria trabalhar unida para perseverar e lutar contra o sistema vigente de espoliação.

As utopias feministas foram criadas a partir do desejo por algo que não tínhamos em um momento em que a mudança parecia não apenas possível, mas provável. As utopias vieram do desejo de pensar em uma sociedade melhor quando ousamos fazer isso.

Introdução de Woman on the Edge of Time

Assim como Joanna Russ, Marge reparou rapidamente que a FC está cheia de imagens de mulheres, mas quase não há mulheres (ainda mais na época em que escreveu seu principal romance). Ou seja, existem mulheres como esposas dos heróis, mães dos heróis, interesses românticos dos heróis, que estão lá para serem o prêmio, para serem medidas por sua beleza, para morrerem a fim de impulsionar a jornada do protagonista. Marge fez o caminho contrário.

Ela escreveu sobre uma sociedade onde mulheres não eram troféus, nem tinham necessidade de vender seus corpos, onde a experiência de gerar e criar uma criança é dividida igualmente entre homens e mulheres. Homens não performam a masculinidade atual e também são capazes de amamentar. Ao mesmo tempo, na distopia de Woman on the Edge of Time, que faz o contraponto à utopia, as mulheres foram desprovidas de poder, foram geneticamente modificadas e transformadas em mercadorias. Como uma mulher do nosso tempo encararia essas duas sociedades?

O ativismo de suas histórias é o ativismo da autora, desde a juventude tendo lutado pelos direitos das mulheres e pelo fim do patriarcado. Tanto que um dos motivos para seu divórcio com seu primeiro marido foi o fato de ele não ver sua escrita como algo sério e defender a divisão tradicional de gêneros. Com seu segundo marido, Marge viveu um relacionamento aberto e seu terceiro marido lhe deu o espaço necessário para que ela pudesse escrever e criar.

Marge não entende escritores que reclamam de ter que escrever, não porque é algo fácil, mas porque é algo tão envolvente que ela não consegue imaginar nada mais empolgante para se trabalhar. Desde que consiga viver escrevendo, ela se considerará uma mulher de sorte.

Nascida em 1936, Marge hoje ainda se dedica ao ativismo, em especial na comunidade judaica, onde nasceu, e feminista, onde sempre atuou. Adora jardinagem e a sensação de enfiar as mãos na terra, bem como suas personagens o fazem em seu mais famoso livro. Sua poesia também trabalha os temas de seus romances, as lutas femininas, o direito de transcender os limites do feminino e a busca por uma emancipação.

Até mais!


Leia também:


Leia mais:
Biografia de Marge Piercy - Site oficial da autora
Woman on the Edge of Time, 40 years on: 'Hope is the engine for imagining utopia' - The Guardian
Piercy, M. Woman on the Edge of Time, Balantine Books, 2016, 415 páginas


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1 Comentário

  1. Fiquei curioso para conhecer os poemas da autora citada no texto, a tua descrição sobre ela me pareceu interessante! Um abraço.

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