Francis Stevens e a dark fantasy

Leitoras e leitores de dark fantasy, ou a fantasia gótica e até aquelas que admiram os romances distópicos têm muito a agradecer a Francis Stevens, pseudônimo de Gertrude Barrows Bennett, uma escritora cujo fim misterioso embala especulações até hoje. Reconhecida como uma das pioneiras dos romances de gênero nos Estados Unidos, Gertrude foi pioneira em campos que mais tarde, nomes como H.P. Lovecraft e A. Merritt, vicejariam.

Francis Stevens e a invenção da dark fantasy



Tal como suas obras, a vida de Gertrude teve altos e baixos, momentos de desespero, de sátira e de mistério absoluto. Curioso notar que ela começou a escrever profissionalmente porque precisava ganhar dinheiro. Estranho alguém começar a escrever por causa disso, afinal sabemos que são pouquíssimos aqueles que escrevem e conseguem viver disso, mas aquela era uma época diferente e a forma de ganhar dinheiro escrevendo era baseada, principalmente, nas revistas que se multiplicaram tal como o gosto do público pelo imaginário.

Nascida em Minneapolis, em 1883, obteve formação em estenografia e secretariado e começou a trabalhar na área antes de se casar com um repórter britânico chamado Stewart Bennett. O casal foi morar na Filadélfia em 1910, tiveram uma filha, Josephine e oito meses depois do nascimento da bebê, Stewart morreu afogado durante uma tempestade. Sem o sustento do marido, sua única opção era voltar para o mercado de trabalho e ela começou a trabalhar como assistente de um professor da Universidade da Pensilvânia, datilografando trabalhos dos alunos à noite para ganhar um dinheirinho.

Ao fim da Primeira Guerra Mundial, seu pai ficou gravemente doente e faleceu, deixando para trás sua esposa, mãe de Gertrude, praticamente inválida e restrita à uma cama. Como cuidadora em tempo integral da mãe e da filha, Gertrude não tinha como sair de casa para trabalhar, então ela se voltou para a escrita. Martelando sua máquina de escrever nas madrugadas, Gertrude estava otimista que poderia conseguir algo. Enquanto trabalhava em uma loja de departamentos, aos 17 anos, ela escreveu sua primeira história, um conto de ficção científica chamado The Curious Experience of Thomas Dunbar, que ela assinou como G. M. Barrows. A revista de maior prestígio na época, a Argosy, prontamente aceitou e publicou seu conto em março de 1904. A Youth's Companion publicou seus primeiros poemas.

A história de Gertrude é bem parecida com a de muitas mulheres que precisavam escrever nas madrugadas ou acordar bem cedo para aproveitar as primeiras horas da manhã antes de cuidar da casa e da família. Enquanto os homens podiam se dar ao luxo de ficar em silêncio em seus escritórios, as mulheres tinham seus fluxos de pensamentos interrompidos o tempo todo pelas demandas familiares. E Gertrude não estava imune a isso, cuidando de uma filha pequena e uma mãe acamada. Consigo imaginá-la à noite, em seu escritório, uma xícara de chá, martelando as teclas da máquina de escrever, observando a noite sombria, aproveitando a calmaria da madrugada.

A primeira história nessa nova leva de produções, The Nightmare, foi publicada em abril de 1917, onde os protagonistas vivem em uma ilha isolada do mundo onde a evolução toma um novo e bizarro rumo. Depois de mandar uma nova história para seu editor, ela pedira que o conto fosse publicado sob o pseudônimo de "Jean Vail", mas ele optou por outro nome, colocando então "Francis Stevens". A resposta dos leitores foi muito positiva e "Francis" se aprofundou nos temas bizarros e góticos.

Suas histórias estão recheadas de sátiras, de horror e sombras que se movem. Não se sabe ao certo se H.P. Lovecraft de fato tinha contato com o trabalho de Francis, mas este é um período de intensas mudanças nos Estados Unidos, tanto econômicas quanto sociais, que provavelmente serviram de estopim para a intensa imaginação de autores como Gertrude e o próprio Lovecraft. Gertrude apenas publicou antes.

Uma das primeiras distopias modernas que se tem notícia é de autoria de Gertrude. The Heads of Cerberus (1919) foi serializada e depois publicada em forma de livro e trata de três viajantes que chegam em uma realidade distópica, onde a cidade de Filadélfia virou um estado totalitário em 2118. Uma de suas histórias mais famosas é Claimed!, onde um artefato sobrenatural invoca o poder de um deus antigo e obscuro. Temas que hoje nos parecem absolutamente comuns, mas que para a época, onde revistas pulps vendiam feito água, eram novos e bizarramente encantadores.

The Citadel of Fear publicada em 1918, falava de uma antiga raça perdida nas matas do México, onde dois exploradores se perdem e um deles acaba possuído por um antigo mal. Todas as criaturas estranhas, os heróis, o humor ácido, os acontecimento bizarros e as mulheres misteriosas que tanto reconhecemos de histórias neste estilo estão aqui. Um dos protagonistas é irlandês - algo que se repete em The Heads of Cerberus - o que foge do padrão de muitos autores da época de colocar heróis norte-americanos.

No mesmo ano, um experimento "feminista" de Gertrude foi publicado. Friend Island é um enredo um pouco mais maduro que fala de uma sociedade em uma realidade alternativa que rejeita os tradicionais papéis de gênero. Elf-Trap (1919), é um conto de fadas onde ciência e fantástico se unem. Serapion (1920), outra de suas famosas histórias, fala de uma homem possuído por uma criatura sobrenatural. Gertrude, porém, não foge de muitos estereótipos da época, é claro. The Heads of Cerberus tem uma protagonista toda doce e sensível, que chora e se descabela em muita situações e há outros tons preconceituosos em seus escritos.

Sua última história foi Sunfire (1923), serializada na revista Weird Tales. Com a morte da mãe, em 1920, Gertrude foi parando de escrever e voltou a ser secretária para poder sobreviver. Em 1936, subitamente ela se mudou para a Califórnia, correspondendo-se com a filha de tempos em tempos. Isso acaba em 1939. Ela manda uma carta em setembro, dizendo que tem novidades, mas que contará tudo em uma carta mais longa que viria mais tarde. A carta nunca chegou. Sabe-se que ela deixou sua casa e ninguém sabe para onde ela foi. Sua filha nunca soube o que aconteceu. No ano 2000, por acaso, uma certificado de óbito é emitido em seu nome, datando de 1948.

O que aconteceu com ela? Ela morreu mesmo em 1948 ou foi uma homônima? Talvez Gertrude tenha inalando um pó mágico, como três de seus personagens e tenha acabado em alguma realidade paralela. Até mesmo sua aparência é um mistério, pois há somente uma foto online de Gertrude, uma com a resolução e a qualidade bem ruins, aliás. Na verdade, ninguém sabe direito o que houve com ela, mas sabe-se de sua contribuição para com a ficção especulativa e de seu pioneirismo, tendo também sido a primeira mulher a publicar sob pseudônimo em revistas pulps.

Até mais!


Leia também
Ebooks em inglês e em domínio público de Francis Stevens pela Universidade de Adelaide, na Austrália
DAVIN, Eric Leif. Partners in Wonder: Women and the Birth of Science Fiction, 1926-1965. 2005. 446 páginas.


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