Resenha: A Seca, de Jane Harper

Fenômeno de vendas na Austrália, com tradução para mais de 30 países e os direitos comprados para o cinema, A Seca é o primeiro livro da australiana Jane Harper. Em uma cidade minúscula e castigada pela seca na Austrália, um policial resolve voltar para um funeral de um grande amigo.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Kiewarra pode até ser uma cidade fictícia na Austrália, mas ilustra muito bem os problemas que cidades pequenas enfrentam em meio às crises, sejam econômicas, sejam as climáticas. É bem provinciana, com aquele ar de "todo mundo conhece todo mundo", mas com muito segredos guardados entre seus poucos habitantes. Uma terrível seca acabou com muitos negócios e fazendas da região, o rio é somente um leito seco e rochoso e Aaron Falk, um antigo morador da cidade, policial na divisão de crimes financeiros de Melbourne, retorna para a cidade.

Resenha: A Seca, de Jane Harper

Seu melhor amigo na infância e adolescência, Luke Hadler, morreu. Não só isso. Ele atirou na esposa e no filho pequeno, deixando apenas a bebê no berço e depois se matou. Aaron retorna para o funeral, contando os minutos para dar o fora de Kiewarra, porém é atormentado pela mensagem enviada pelo pai de Aaron. Algo no passado dos garotos mexeu com o policial, que é obrigado a conversar com os pais de Luke e o força a ficar mais tempo na cidade. Enquanto toda a cidade está em choque com o crime, os pais de Luke não se convencem da história oficial.

- Eis a questão com problemas financeiros. Eles são contagiosos. Os fazendeiros não têm dinheiro para gastar nas lojas, elas entram em falência e você acaba com mais gente sem dinheiro para gastar nas que sobraram. Ao que parece, elas vêm caindo como dominós.

Página 120

Luke e Aaron eram inseparáveis quando eram jovens. Mas era um trio, pois havia Ellie, que foi encontrada morta no rio, os bolsos cheios de pedras. Ninguém foi preso por conta desse crime misterioso, mas uma forte suspeita acabou recaindo em Aaron, ainda que nada fosse provado. O crime marcou a cidadezinha para sempre, a ponto de Aaron ser mal recebido nos lugares. Isso explica sua vontade de querer fugir da cidade, mas o mistério sobre a morte do amigo o força a ficar.

Ainda que o livro siga o roteiro de livros policiais deste estilo, curti muito a leitura e as inovações que a autora colocou na narrativa. Jane nos leva por vários caminhos na busca da autoria deste crime tão brutal, ao mesmo tempo em que nos faz mergulhar na história dos personagens, seus defeitos, suas virtudes. Aaron, por exemplo, é alguém que vamos conhecendo aos poucos, através de suas memórias e seu comportamento.

A cidade acaba agindo como uma personagem em si, já que a seca anda deixando todo mundo tenso e não é para menos. Algumas famílias dependem exclusivamente de suas fazendas e com o leito seco do rio e a longa estiagem, alguns estão perdendo as esperanças. Essa é a suposição da polícia da cidade grande mais próxima, mas até mesmo o delegado de Kiewarra sente que tem algo estranho no crime de Luke. Junto de Aaron, os dois formam uma dupla dinâmica que começa a desfiar essa longa cadeia de acontecimentos e que vai nos levando de personagem em personagem, descobrindo seus segredos e os da cidade.

O texto tem dois pontos de vista. Quando estamos no presente, vemos a história pelos olhos de Aaron, mas quando voltamos ao passado, lemos na terceira pessoa. Esse foi um recurso bem legal da autora de não se limitar às lembranças de um personagem. Se quiséssemos descobrir o que aconteceu com eles décadas atrás, era preciso expandir o panorama. É desta forma que vemos como as pessoas sabem muito mais do que falam a respeito do passado.

Existem poucas personagens femininas de destaque e a maioria ainda cai em clichês femininos, o que me desagradou, afinal o livro é escrito por uma mulher. Até os protagonistas caem em alguns, o que me desapontou por estarem todos no lugar comum de obras do tipo. Há uma separação clara entre os bonzinhos e os mauzinhos no livro, mas felizmente isso não responde às perguntas que o livro deixa e fiquei bem surpresa com o desfecho do crime de Luke. Não estava esperando aquele final!

A tradução ficou na mão de Claudia Guimarães e está ótima. O livro carece de uma revisão melhor, com erros bobos pela leitura aqui e ali. Como todo livro da Morro Branco, ele vem com um marca página.


Ficção e realidade
Incêndios estão destruindo parte da Austrália neste exato momento. Animais selvagens estão perecendo no fogo, a fumaça já cobre as principais cidades do país. Com o clima global se tornando cada vez mais severos, a pressão sobre populações que dependem da regularidade das estações, da irrigação, da fertilidade da terra, tende a aumentar. Os refugiados ambientais já são um grave problema migratório no mundo e os números vêm aumentando a cada ano. A pressão que a autora criou em sua cidade fictícia sobre a população é bastante real.

Jane Harper

Jane Harper nasceu no Reino Unido, mas se mudou com a família para a Austrália quando tinha 8 anos de idade. É jornalista e escritora, tendo publicado seu primeiro livro em 2016.


Pontos positivos
Aaron
Narrativa bem escrita
Personagens irritantes
Pontos negativos

Preço
Violência

Título: A Seca
Título original em inglês: The Dry
Autora: Jane Harper
Tradutora: Claudia Guimarães
Editora: Morro Branco
Ano: 2019
Páginas: 400
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não espere longas perseguições policiais e tiroteios. Este é um thriller policial bem escrito, mas que não conta com grandes cenas de ação. Mergulhe no passado da cidade e de seus habitantes para descobrir a autoria de um crime tão cruel. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!

MUITO BOM!

Até mais!


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

Seja o primeiro a comentar.

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.