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  • Por que tem gente que odeia ficção científica?
  • O Efeito Matilda e o patriarcado na ciência
  • Não vamos sobreviver outros dez mil anos
  • Star Trek e o Teste de Bechdel

Pessoas com deficiência e ficção científica

Todo mundo que lê o blog sabe que eu considero a ficção científica um gênero literário completo e de infinitas possibilidades. É uma pena ver que tem muito escritorzinho por aí que acha que o mundo é para apenas homens brancos heteros e cisgêneros, como se o restante da humanidade não fosse composta por outros seres humanos e reclama de quem pede maior representatividade no cenário nacional. Seres humanos vêm em várias cores, formas e possibilidades. É aqui que a ficção científica entra para mostrar todas elas.





First things first, por que "pessoas com deficiência" e não "pessoas com necessidades especiais"? Com a palavra, Victor Caparica que, gentilmente, definiu e me explicou:

Dizemos "pessoa com deficiência", e não portador de necessidades especiais, por 2 motivos:
1, "portador" é terminologia médica, e o que temos não é doença, mas uma condição biológica;
2, não temos necessidades especiais, precisamos de água, comida, sono, remédios e um pouco de amor às vezes ;);
"Pessoa com deficiência" é mais correto porque, efetivamente, explica o que a pessoa realmente é.

Ou seja, se antes você falava errado, assim como eu, por desconhecimento ou por ignorância mesmo, fica aí a dica. Mas e aí, as pessoas com deficiência têm espaço na ficção científica? E como tem!

Começando por Star Trek, a série que mais se preocupou em mostrar pessoas com deficiência como pessoas ativas na sociedade, lembrei de cara de três personagens: Geordi LaForge, Riva e Melora Pazlar. Geordi é deficiente visual. Porém, com seu visor especial, ele era um membro importantíssimo da Enterprise devido aos comprimentos de onda que o equipamento era capaz de distinguir, algo muito além do olho humano comum. Com a tecnologia se refinando, ele acabou ganhando olhos biônicos muito avançados e mais confortáveis que o visor.

Geordi LaForge e o embaixador Riva. Star Trek, A Nova Geração.

Riva também é um personagem fascinante. Ele é um importante mediador de conflitos e é chamado para tentar criar um tratado de paz entre dois povos que estão à beira da extinção se não chegarem a um acordo. Riva não tem receptores auditivos no cérebro, portanto nenhum implante funcionaria com ele. A solução: ele tinha um coro, com três sensitivos, que traduziam as palavras dele, cada um ligado a uma determinada área do cérebro. Um para a razão, outro para a libido, ou para a temperança.

Mas um atentado mata o coro especial de Riva e a tripulação da Enterprise se vê impotente, buscando maneiras de se comunicar com ele. É justamente a surdez de Riva que servirá de alicerce para o acordo de paz, pois enquanto os povos aprendem a conversar com ele, aprenderão a conversar um com o outro. Genial!

Uma personagem fascinante de Deep Space 9 é Melora Pazlar. Nativa de um planeta cuja gravidade é menor do que a padrão das outras espécies, ela é a primeira a sair de Elaysa na esperança de inspirar outros a explorar o espaço. Melora sofre com várias limitações para se locomover pela estação DS9. As passagens não foram feitas para a passagem de sua cadeira. Ela precisa usar um aparato especial para não penalizar seus músculos e assim ajudá-la a se locomover e exige ser tratada da mesma maneira que outros membros da Frota Estelar. Fico pensando em quantas pessoas não se identificaram com ela quando sua cadeira não conseguiu passar por um determinado corredor e ela foi ao chão.

Melora Pazlar, Deep Space 9.

Muitas vezes, olhamos para personagens pessoas com deficiência e nem nos ligamos que eles as possuem. Ao olhar para John Vriess de Alien 4, logo notamos que ele está em uma cadeira de rodas (tunada e cheia de armas), mas e quanto ao braço mecânico de Luke Skywalker? Ele sofre uma amputação por um sabre de luz e recebe um braço biônico super avançado. Nem nos damos conta que ele precisa daquele braço. Mas ele é uma pessoa com deficiência e um grande herói de Star Wars. E seu pai, Darth Vader? Todo ele foi reconstruído, assim como o Robocop, com o auxílio da tecnologia e praticamente se tornaram armas ambulantes.

Peeta Mellark, nos livros de Jogos Vorazes, tem uma perna mecânica depois do ferimento que ele recebe nos jogos. Os filmes optaram por deixar isso oculto, mas até mesmo Katniss recebe um implante auditivo. A cena de Julie Gelineau, de Extant, colocando suas pernas biônicas depois do banho me impressionou, pois as próteses são extremamente reais.

Julie Gelineau coloca suas pernas biônicas. Extant. 

O Soldado Invernal, da Marvel, sofreu uma amputação em um acidente de avião. Em uma missão para capturar o Capitão América, uma tropa russa acabou encontrando Buchy preservado no gelo. Ele, então, foi colocado em estase e depois reanimado em 1954, onde lhe foi implantado um braço biônico fodão, adaptado e trocado ao longo do tempo por próteses mais modernas. E quem assistiu a adaptação para o cinema de Eu, Robô deve lembrar que o detetive Spooner tinha uma prótese bem parecida com a de Bucky.

Detetive Spooner reaplica pele artificial em seu braço. Soldado Invernal, da Marvel.

E o que podemos dizer do querido professor Xavier? Um super herói poderoso de cadeira de rodas e líder dos X-Men? De Bárbara Gordon, em Batman? De Kent, cientista do filme Contato, que era deficiente visual? A Ameaça Invisível, segundo livro da Trilogia Anômalos, de Bárbara Morais, também tem um personagem deficiente visual. Temos O Demolidor combatendo o crime, temos o homem de 6 milhões de dólares e a mulher biônica, temos N personagens do mundo da ficção científica e dos quadrinhos, animes, séries de TV, mostrando as infinitas possibilidades que pessoas com deficiência podem ter e como elas são produtivas.

Então, por que o mundo real ainda não aprendeu com a ficção? Por que eles continuam sendo vistos como menos capazes por andarem de cadeiras de rodas ou por terem deficiência auditiva? Para quem já está muito bem representado na ficção, que já possui seus heróis preferidos, esse papo de representatividade é um saco. Cada vez que publico um post por aqui sobre a importância da representatividade, sempre aparece um para chorar, dizendo que a gente, ou "esse povo" ficam chorando de barriga cheia, que é "vitimismo". Bem, acho que vitimismo é ir chorar num post sobre representatividade e não pedir por mais dela. Você, que já está bem representado, não será prejudicado em nada.

Quantas pessoas fãs de quadrinhos não se sentiram representadas por Bárbara Gordon ou pelo Professor Xavier em suas cadeiras de rodas, combatendo o mal? Quantos não desejam a tecnologia de Extant que faz com que Julie, uma amputada, prossiga sua vida e produza como todo mundo? É, isso é de tamanha importância que nem deveríamos ter que pedir por maior representatividade, mas isso ainda é necessário, ainda é preciso ir à televisão mostrar o descaso do poder público com um posto de saúde que não tem rampas para facilitar o acesso dos pacientes.

Charles Xavier, X-Men.

Antes de fazer minha cirurgia de coluna, precisei andar de cadeira de rodas toda vez que saía de casa. Foi por um curto período, para um problema que não era permanente, mas que me deu a perspectiva de quem vive desta maneira. As pessoas são desumanizadas apenas porque são pessoas com deficiência, quando a ficção científica tem mostrado que elas podem muito bem viver integradas à sociedade utilizando-se da tecnologia. Quantas vezes alguém parou para pensar que Luke Skywalker é um "aleijado"? Nunca, certo? Então por que tem quem faça isso na vida real?

Representatividade importa e importa muito. Ela empondera, ela educa e mostra as infinitas possibilidades de convivência, de soluções de problemas, de tecnologia e genialidade. Isso nunca deveria ficar de fora dos enredos porque mais-do-mesmo a gente tem de sobra.

Até mais!

Super obrigada à galera do Twitter que tanto contribuiu com este post!



10 heróis deficientes físicos
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Resenha: Star Wars - Herdeiro do Império, de Timothy Zahn

Conhecida como a herdeira original da trilogia de Star Wars, a Trilogia Thrawn, o primeiro volume, Herdeiro do Império, foi relançado pela editora Aleph depois de anos longe das prateleiras. Timothy teve autorização de George Lucas para escrever estes livros e muita gente ficou decepcionada em saber que este universo não estaria presente nos novos filmes de Star Wars. O jeito é aguardar para ver!





O livro

Cinco anos depois da destruição do Império na Batalha de Yavin, uma nova luta se agiganta diante de Leia, Luke e Han Solo: a de reorganizar a Nova República, cessar os confrontos com os remanescentes do império e reerguer Coruscant, o Templo Jedi e outros planetas da imensa nação galáctica. Leia está grávida e se desgasta entre os outros líderes da Nova República, que vivem em discussão constante.


Personagens vistos na trilogia original estão de volta, como Lando Calrissian e Mom Mothma. No entanto, nem tudo são flores. Contrário ao novo sistema, um grão-almirante do Império, chamado Thrawn, espera restabelecer o antigo regime. Comandando o Destróier Estelar Quimera e inconformado com a queda do imperador, ele espera derrubar a Aliança Rebelde, os Jedi e seu novo governo. Mundos afastados ainda são um desafio para o novo governo, como Kashyyyk, que ainda não se acertou quanto à liderança e quanto aos problemas com contrabandistas e simpatizantes imperiais.

O livro apresenta novos seres, novos personagens intrigantes, retoma a tensão que existia nos filmes, os grandes cenários espaciais e marca uma das grandes estórias dentro do universo expandido de Star Wars que, infelizmente, não será reaproveitado pela Disney nesta nova trilogia. Thrawn é um personagem incrível, pois ele antecipa tudo, consegue tirar vantagem de tudo, está sempre um passo à frente de todos. Han Solo está um pouco mais velho, mais cuidadoso e Luke tem se dedicado a se aprofundar nos estudos da Força. Foi interessante ver o que houve com todos eles depois da destruição do Império.


No entanto, apesar de ter gostado do enredo em geral, tem coisas que não passam despercebidas. Com relação ao enredo, me incomodou o fato de Leia Organa ter o Solo de Han no final do nome. Quer dizer, há muito, muito tempo atrás, numa galáxia distante, essa prática ainda corria solta. Com relação à tradução, o livro peca e peca muito. Algumas frases são toscas, com uma estrutura parca e amadora e cheguei a encontrar algo parecido com um "nóis vai" pelo meio. Levei mais de um mês para terminar o livro, pois aquilo foi tirando a graça da leitura e acabei deixando-o de lado.

Ainda assim, gostaria de ler todos os livros da trilogia, para saber como tudo acaba.


Ficção e realidade

Não sei o que a Disney vai fazer com a trilogia que anunciou e cujo filme estreia ainda em 2015. Mas este livro é um início muito interessante para a última parte do imenso enredo de George Lucas. Temos todos os elementos que nos encantam na saga de Star Wars, além de personagens e ambientes que parecem ter sido parte do enredo desde sempre. Timothy disse que levou um susto quando recebeu autorização de George Lucas para escrever os livros, mas acredito que ele deu conta do recado ao criar Thrawn e todo o embate, tanto político quanto militar, que encontramos aqui.


Pontos positivos
Star Wars
Universo expandido
Thrawn

Pontos negativos
Problemas na tradução
Capítulos arrastados
Baixa representatividade feminina


Título: Star Wars - Herdeiro do Império
Título original: Heir to the Empire
Série: Trilogia Thrawn - Volume 1
Autor: Timothy Zahn
Editora: Aleph
Ano de lançamento: 2014
Páginas: 472
Onde comprar: Grandes livrarias (estava em promoção no Submarino)


Avaliação do MS?

Não fosse pelos problemas sérios da narrativa traduzida, o livro teria uma classificação maior. É uma pena, mas ainda assim indico o livro para todos os fãs de Star Wars e para os curiosos para saber o que houve com nossos personagens favoritos. Thrawn é um inimigo no mesmo nível de Darth Vader, tão sagaz e inteligente quanto ele. Portanto, mesmo com apenas três aliens, o livro vale à pena.


Até mais!
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Análise do inimigo: A Capital

Em mais uma postagem da longa série sobre os inimigos na ficção científica, temos aqui um bem recente: a capital de Jogos Vorazes. A capital é a personificação de todo o ódio dos distritos, especialmente dos mais pobres. Eles são explorados em lavouras e minas, trabalhando para manter uma elite que os controla... Parece bem familiar, não parece?




Leia também:



Em geral, enredos distópicos possuem um poder hegemônico e tirânico, algo que controle a população. A maneira como a população responde costuma variar, mas sempre existe algo que os controle, em maior ou menor grau. Vindo dos grandes clássicos da FC às distopias young adult de hoje, esse poder ou é derrubado ou apenas se torna mais forte com o passar do tempo.


PANEM HOJE, PANEM AMANHÃ, PANEM SEMPRE

Localizada no noroeste dos antigos Estados Unidos da América, em algum lugar entre as Montanhas Rochosas (o que fornece uma barreira natural de defesa), a capital é um nome coloquial para a sede do governo de Panem, país composto por doze distritos (depois sabemos que eram treze), mais a capital. É tecnologicamente muito avançada, de arquitetura arrojada, porém controlada por um governo ditatorial tirânico, comandando pelo presidente Snow, centralizando todo o poder econômico e político da nação. Os distritos mandam carvão, madeira, comida e equipamentos eletrônicos para ela e em troca oferecem segurança e ordem através de seus Pacificadores. Ou é assim que eles querem que o povo pense.

Vista da Capital.

A Capital é o lugar do exagero e da opulência. Tudo é bizarramente exagerado. Assim como em Roma, as pessoas vomitam para poderem comer mais, enquanto as pessoas morrem de fome nos distritos. As roupas são espalhafatosas, maquiagens bizarras que tingem a pele de verde, joias incrustadas na pele, tudo isso marca o exagero, o exibicionismo, o traço cultural da Capital. Mas quando olhamos para os distritos mais distantes, percebemos que sua influência diminui, consideravelmente, e a aversão por ela, ao contrário, cresce. No entanto, toda essa aversão é camuflada, oculta da vista da maioria. A lembrança dos Pacificadores marchando pelas ruas e matando inocentes ainda é muito fresca na cabeça dos mais velhos.

No passado, uma rebelião dos distritos contra o poder tirânico acabou dando origem aos Jogos Vorazes. Vinte e quatro tributos vindos dos distritos, um rapaz e uma moça, eram entregues para a Capital para que lutassem entre si em uma grande arena, de onde somente um deles sairia vivo. Apesar de tentarem dar um ar de festa e comemoração para o evento, de tentarem demonstrar a importância de se dar a vida por Panem, isso é só uma forma de mascarar um massacre deliberado. A função única dele é a de manter os distritos calmos sob a esfera do medo, na esperança de que um dos adolescentes volte para casa.

Os jovens que se candidatam para os jogos mais vezes do que o necessário ganham comida, roupas, óleo para aquecimento e água. É uma forma de comprar as inscrições das pessoas, de manter o povo quieto. É uma forma cruel de controle, mantendo-os próximo à fome absoluta, que é o que leva Katniss à floresta para caçar e alimentar a família. O jovem que volta vivo para seu distrito tem o direito de morar na Vila dos Campeões, onde existem casas com energia elétrica, água quente, conforto e comida. Eles são indenizados todos os anos, mas em troca são obrigados a virarem mentores de novos jovens que serão enviados à arena todos os anos. Os traumas dos jogos deixam marcas profundas neles. Haymitch Abernathy venceu os jogos, mas se tornou um alcoólatra perturbado por conta disso.

Bandeira da Capital, por cannonfire.

Quando Katniss e Peeta chegam ao final dos 74º Jogos Vorazes e a Capital pede que haja apenas um único vencedor, eles decidem optar pelo suicídio. Não havia amor entre eles, como alegaram no programa de auditório de Caesar Flickerman. Era um ato de desafio contra o poder da Capital. Se deixasse que eles comessem as amoras, a Capital admitiria que era impossível manter os distritos em seu devido lugar, mas ao permitir que vivessem eles se mostravam misericordiosos por deixar um jovem casal apaixonado sobreviver. E encarnar o casal apaixonado era a única maneira de sobreviver, tanto para Katniss e Peeta, quanto para suas famílias.

Criar os Jogos Vorazes foi uma maneira inteligente de manter um povo subjugado, com medo e comprado com itens básicos para poderem sobreviver. Funciona muito melhor do que um poder tirânico que assassina inocentes a torto e a direito. Não. A Capital, realmente, mata inocentes a torto e a direito, mas faz isso sob um viés de festa patriótica anual, com a desculpa de manter o povo com a constante lembrança da guerra que quase exterminou a nação. E do perigo de se levantar contra aqueles que os protegem e os guardam. O próprio presidente Snow, conversando com Sêneca Crane, organizador dos 74º Jogos Vorazes, comenta sobre porque eles simplesmente não pegam 24 jovens e os matam de uma vez. Esperança. Para não se revoltarem e acabarem perdendo ainda mais, os distritos se mantém agarrados na esperança de ver o retorno de um deles, ao invés de se agarrarem à chance de combater a Capital.

Os habitantes da Capital. 

As pessoas começam a ver em Katniss uma esperança. Por ter desafiado, abertamente, a Capital no final dos jogos, a população mais pobre enxerga nela uma luz no fim do túnel. Mesmo que Katniss não queira, ela se torna um símbolo vivo de luta contra a capital. Por isso o presidente Snow tenta mostrar que tanto ela quanto Peeta estão do lado do governo e não do lado do povo. O luxo, as festas, as roupas, as entrevistas, a vida opulenta na Capital, que não enxerga os jogos como um massacre cruel, tudo isso é oferecido aos dois. Mas não é a vida que eles conhecem. Peeta, antes dos jogos, diz que não quer ser mudado por eles (o governo personificado na Capital). É isso o que ela faz. Muda as pessoas. Os que não querem ser mudados, são mortos ou vão para os jogos.


Pontuação

Gostaria de saber quem foi que teve a ideia de criar os jogos. Pois ele foi inteligente em elaborar um plano sanguinário que perdurou por 75 anos e que calou as vozes da revolução entre a população fazendo um massacre se parecer com uma festa. As pessoas viviam com medo, assistiam seus jovens indo para jogos mortais e se agarravam à esperança de vê-los retornar em segurança, de terem suas vidas mudadas. Mas a que preço? E ainda pode disfarçar esses jogos com um ar de festa patriótica, de um laço que unia os distritos, porém ninguém na Capital estava interessado em saber o que as pessoas que viviam neles achavam disso. Desta maneira, cinco carcarás sanguinolentos para A Capital. É muita maldade.


Até mais!



Site oficial da Capital
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TAG: Eu Sou do Tempo...

vintage clock
Você é do tempo de que? De qual tempo? A qual tempo você pertence? Você sabe dizer que horas são, de cabeça? Quanto tempo você leva para chegar ao trabalho, à faculdade, em casa? Vivemos regidos pela ditadura do tempo. Nascemos, envelhecemos, morremos e no meio desses três eventos estamos regidos pela infalibilidade do tempo. Tentamos acompanhá-lo, mas nem sempre é possível. Qual é o seu tempo? Quanto tempo a gente tem?





Esta blogagem foi proposta para que a gente relembre algumas coisas, ria de outras, pense no tempo que passou. Deixo o convite em aberto para os blogs que queira participar e mesmo que você não tenha um blog, deixei seu comentário lá embaixo (precisa estar logado no Facebook) sobre o seu tempo. Blogs que participarem, deixem seu link!


Eu nasci em 1980. A guilhotina, na França, seria abolida em 1981. A ditadura militar só seria abolida no Brasil em 1985. Chernobyl derreteu em 1986. O Muro de Berlim caiu em 1989. Daniela Perez foi assassinada em 1992. Ayrton Senna bateu contra a Tamburello em 1994. Em 1997 eu parei de tomar refrigerante. Em 2001, o World Trade Center veio abaixo. Estes são anos que lembro de cabeça, mas nem tudo é possível se lembrar com exatidão. Não há cérebro suficiente para lembrar de tudo.

Sou do tempo em que as peruas escolares tinham o chamado "chiqueirinho". Eram aquelas Kombis, com a faixa amarelo-ovo nas laterais e com bancos desconfortáveis de mola. No chiqueirinho a gente jogava as mochilas e às vezes, com a perua muito lotada, até mesmo a gente ia parar lá. Quando a prefeitura proibiu que crianças fossem levadas na parte de trás da Kombi, nos deparamos com uma grade horrorosa e nos irritamos por não mais poder pular lá pra trás.

A gente chamava o perueiro de "tio". O meu era o Tio Jaime. Pai e filho. O filho, Jaime Jr., adorava rock nacional e colocava o som da perua no máximo no Nenhum de Nós. Ele também me esqueceu na perua uma vez. Eu dormi no banco lá de trás da Kombi e era a última que ele entregava. Quando levantei a cabeça ao sentir a Kombi parar (já na garagem dele), ele tomou um susto e me levou pra casa. E o susto da minha mãe?


Sou do tempo das "chuquinhas" da Pakalolo e dos brinquinhos adesivos. Aquilo que era ostentação, miga! Quem tinha um monte era considerada a afortunada da turma. Também lembro das pulseiras feitas com cordinhas de violão. Mas como eu sempre era do contra, assim que uma coisa popularizava e tudo mundo estava usando, eu tirava. Foi assim com as chuquinhas, com as cordinhas de violão e com os colares de chupetinha. Sou do tempo em que achávamos Vanilla Ice um gato e onde todo mundo cantava Step By Step, do New Kids On The Block. Também sou do tempo do pânico generalizado com as Balas Soft, que diziam ter matado fulano, ciclano e beltrano porque ela causou sufocamento.

Também sou do tempo de esperar na frente do rádio, com a fita K7 no ponto pra gravar aquela música massa e quando a gente, finalmente, conseguia gravar o desgraçado do locutor começava a falar em cima. NÃÃÃÃÃÃÃO!! Mas mesmo assim eu ouvia, com a voz do cara e tudo. Era também a época da pergunta de toda tarde da rádio Transamérica e a gente ligava com uma resposta. A melhor ganhava alguma coisa. Também sou do tempo dos jogos por telefone! Joguei o Hugo, na Gazeta e o Garganta e Torcicolo, na MTV. Mas era horrível jogar pelas teclas do telefone. No joguinho do Hugo eu fui bem, ganhei uma camiseta e um walkman, enquanto que do Garganta e Torcicolo ganhei uma camiseta.


Sou do tempo em que a gente desenrolava fita K7 com caneta BIC (que a gente nunca compra, mas sempre tem) e do tempo em que tinha que sair correndo nas pequenas livrarias da Rua Teodoro Sampaio para procurar livros da Coleção Vaga-lume porque era a leitura do bimestre no colégio. Sou do tempo de carregar fichas da Telesp na mochila e de pagar a passagem de ônibus com umas quinze notas diferentes, antes do Real entrar em vigor, em 1994.

Sou do tempo em que nem havia SPTrans, era a CMTC. Sou do tempo dos baldes de LEGO, dos Pinos Mágicos, do Playmobil e dos bloquinhos de madeira do Mega Construtor. Do pirulito de chupeta, do Aquaplay, dos Changeman, dos Flashman, do programa da Angélica na Manchete e do Xou da Xuxa. Sou do tempo do lápis troca-ponta, do flufy e da Galinha Azul do Caldo Maggi. Tomei muito capote no Pogo-bol, escrevia com aquela caneta de dez cores super desconfortável e tinha o estojo rosa automático, que mais parecia um canivete suíço.

Tive o Fofão, a boneca da Mônica e da boneca possuída pelo capiroto da Xuxa. Tive Dancing Flor, Menina Flor, o Snif-Snif e um par de patins (mas nunca aprendia a andar com ele). Fiz a campanha do "Não esqueça a minha Caloi" e colocava em todos os cantos da casa, até que ganhei uma. Usava as roupas da minha mãe quando ela não estava em casa e andava de bicicleta em volta da mesa da cozinha.

Baby Sybylla and beyond! Qual é o seu tempo?

Enfim... estes são tempos que vivem pelas lembranças, pelas fotos, em nossa memória. E você, qual é o seu tempo? Deixe seu comentário e/ou seu link para a blogagem. A TAG não tem validade, assim como o tempo.

Até mais!



Participam também:

Meteorópole
Tiozinho Nerd
Prosa Livre
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Resenha: A Menina Submersa: Memórias, de Caitlín R. Kiernan

Este não é um livro fácil! Neil Gaiman diz que poucos escrevem como Caitlín R. Kiernan. Fiquei semanas digerindo ele, tal como uma sucuri que acabou de jantar. Foi difícil terminar a leitura, pois este não é um livro como os que costumamos pegar nas prateleiras. A Menina Submersa é um relato louco sobre um enredo fantástico, onde acompanhamos uma protagonista que está escrevendo um livro... confuso? Então bora ler a resenha.





O livro

'Vou escrever uma história de fantasmas agora’, ela datilografou. ‘Uma história de fantasmas com uma sereia e um lobo’, datilografou mais uma vez.
Eu também datilografei.


India Morgan Phelps, ou Imp, é uma menina que tem nos livros, nos vinis antigos de sua mãe e na pintura os grandes companheiros na luta contra seu histórico genético esquizofrênico e paranoico. Sua avó e sua mãe se suicidaram para escapar das garras da loucura e Imp tenta, por caminhos tortuosos entender o que aconteceu com ela e com Eva Canning, com sua namorada e consigo mesma.


A narrativa não-linear nos joga no tempo e na cabeça de Imp o tempo inteiro. Confesso que isso me incomodou porque não é um tipo de narrativa ao qual estou acostumada. Teve momentos em que eu tinha que ler o mesmo parágrafo para tentar entender o que se passava e nem sempre conseguia. Mas sair da zona de conforto de vez em quando faz bem. Nós vemos o passado de Imp com sua avó, vemos sua relação com uma namorada gamer, expulsa de casa por ser trans*. Vemos como ela busca na memória o que é fato e o que é fantasia depois de receber a estranha visita de Eva Canning, uma mulher misteriosa e que se descortina aos poucos.

Imp vagueia pelas impressões de várias obras de arte, especialmente uma que tem fixação, chamada A Menina Submersa, de Phillip George Saltonstall e Fecunda Ratis, de Albert Perrault. Temos uma visão tão ampla e aprofundada destes obras e destes artistas que acreditamos que eles realmente existiram. É preciso ir ao Google para descobrir que tanto os autores como as obras são personagens do livro. E personagens reais ou tão reais quanto Imp quer nos fazer acreditar.

Como sua memória é errática, ela nos avisa várias vezes que não tem bem certeza se algo aconteceu daquele exato jeito, mas que pode ter sido bem parecido com aquilo. É como se tivéssemos um véu o tempo todo que nos impedisse de ver o concreto, apenas o que Imp quer que vejamos. Acho que o único momento em que podemos ver a mente de Imp é quando ela deixa de tomar seus remédios, na tentativa de descortinar Eva, e mergulhamos na esquizofrenia, paranoia, lembranças confusas e feras de sua cabeça. Foi preciso que sua namorada invadisse seu apartamento e a colocasse nos eixos novamente.


O livro é lindo, como todos os livros da editora DarkSide. Temos folhas, besouros e outros bichinhos perdidos por algumas páginas, além de algumas ilustrações. A capa é simples, mas a brochura é bem acabada e a impressão muito boa. O meu livro, no entanto, veio com algumas páginas picotadas na parte de cima, como se a lâmina que corta o papel estivesse meio gasta e com alguns erros de digitação.


Ficção e realidade

Como é entrar na cabeça de um doente mental? Ou de um paranoico? De um lunático? De um esquizofrênico? Como é ver a loucura de perto, como um livro, narrado de forma a nos fazer entender sua loucura? Será que um dia isso será possível? E o mais importante: mesmo que seja possível, teremos condições de compreender a loucura e o que se passa na cabeça de cada um?

Caetano Veloso diz que de perto ninguém é normal. Cada um de nós tem seu lobo espreitando na floresta, tem seus esqueletos no armário, tem sua própria cota de loucura e paranoia, tem uma sereia contando em nossos ouvids. Acho que se tentássemos narrar nossos próprios pensamentos, não sairia tão diferente da narrativa de Imp.

Não vejo muita resolução no mundo. Nascemos, vivemos e morremos, e no fim disso há somente uma confusão feia de negócios inacabados.

Imp


Pontos positivos
Loucura
Protagonista feminina
Seres fantásticos

Pontos negativos
Partes maçantes e confusas
Capítulos arrastados



Título: A Menina Submersa: Memórias
Título original: The Drowning Girl
Autora: Caitlín R. Kiernan
Editora: DarkSide
Ano de lançamento: 2014
Páginas: 317
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

Fica difícil fazer uma resenha de uma narrativa não-linear sem parecer confusa. Mas minhas impressões sobre o livro variavam de acordo com o momento em que Imp estava. Houve instantes em que achei que não entendia mais nada, depois estava novamente no apartamento dela, para logo em seguida ser jogada em uma espiral de loucura com os devaneios dela. Se você está procurando algo para sair do comum, algo para viajar e se surpreender, não pode deixar A Menina Submersa longe de sua estante. Quatro aliens para o livro e uma recomendação para que você leia.


Até mais!
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Resenha: O Círculo, de Dave Eggers

Depois de ler um texto falando sobre as mídias sociais e dos exageros em nome da exposição e que sugeria a leitura deste livro, fiquei bastante curiosa e me coçando para ler. Acabei encontrando um livro que consegue nos mostrar um futuro muito próximo e bastante perturbador. Um mundo onde democracias são obrigatórias e onde privacidade é algo que deve ser combatido.





O livro

Mae Holland mal cabe em si! Ela vai começar a trabalhar no Círculo, O Círculo, um emprego que muita gente mataria para ter. Sua grande amiga da faculdade, Annie, conseguiu este emprego maravilhoso e Mae mal vê a hora de começar. A maior empresa de internet do mundo se situa em um campus idílico, maravilhoso e plenamente funcional na Califórnia. O Círculo unificou todas as redes sociais, serviços de email, transações bancárias e compras virtuais em um sistema universal.


Mae fica maravilhada, conforme é levada para conhecer o campus, com as construções, com as tecnologias ali desenvolvidas, com a civilidade, transparência e com a preocupação que O Círculo tem com seus funcionários. Ela fica sabendo, por exemplo, que uma das grandes inovações dele foi o TruYou, a unificação online de todas as identidades, virtuais e reais. Seu CPF, suas redes sociais, seus sistemas de pagamento em um só lugar. Foi o fim de todas as senhas diferentes, todos os sistemas diferentes. Como tudo era biométrico, você não precisaria nunca mais se lembrar de nenhum número.

Mae é logo treinada para trabalhar na EC - Experiência do Cliente - onde ela deve manter metas altas, próximas ao 100% de satisfação com os serviços dO Círculo. Ela também tem que fazer uma conta no Círculo e upar para a nuvem todas as suas fotos, arquivos pessoais, músicas, O campus possui festas diárias, jantares, eventos desenvolvidos pelos funcionários e palestras constantes. Isso pode parecer bem maçante inicialmente, porque é despejado no leitor de uma vez só. As primeiras cem páginas nos mostram a magnitude dO Círculo e por uma boa razão.

Um dia, Mae está trabalhando e é chamada à sala de seu imediato direto. Lá dentro um colega, que ela conhecia de vista, parecia desolado, com lágrimas nos olhos, e que a olhava como se ela fosse um animal em decomposição. Mae fizera algo de errado? Ela pensava que seria logo mandada embora, mas sem saber o que tinha acontecido. O problema foi que o colega chorão tinha feito um evento sobre Portugal e convidado todo mundo dO Círculo que tivesse ido ao país ou que gostasse dele. Mae tinha colocado em sua rede uma viagem para Portugal e quando ele fez uma busca por usuários que tivessem mencionado Portugal, a convidou imediatamente. Mas como Mae não compareceu ao evento - ela não verificou a caralhada de notificações e zings, e sorriso, e carinhas felizes na rede - ele se sentiu pessoalmente atingido.


Eu fiquei absurdamente espantada com tamanha mágoa deste personagem só porque Mae não compareceu ao seu evento sobre Portugal. Mas não precisei ir longe para ver uma reação igual ou bastante semelhante fora do livro. Minha mãe faz crochê, bordado em ponto-cruz e tricô e participa de vários grupos deste tipo no Facebook. E são constantes suas reclamações sobre o comportamento de algumas usuárias. Elas chegam neste grupos dizendo que é aniversário delas e que querem os parabéns. E quando têm poucas curtidas ou poucos comentários, elas se dizem ofendidas, que nunca se sentiram tão humilhadas na vida, que vão sair do grupo...

Se para nós O Círculo parece algo absurdo pelos eventos que acontecem em suas páginas, devemos nos perguntar: será que ele está tão longe assim no futuro? Também é impossível não notar os paralelos com 1984, de George Orwell quando O Círculo estipula suas leis:

Segredos são Mentiras; Compartilhar é Cuidar; Privacidade é Roubo. 

Mae é rapidamente convertida e subvertida pelo O Círculo. Como se não bastasse ter todos os seus arquivos na nuvem, acessível para qualquer, seus dados médicos são também domínio público. Um dos fundadores lhe apresenta esses "dilemas" sobre privacidade e sobre a falta de compartilhamento e participação nos eventos da empresa de forma que pareça absolutamente natural que a gente não tenha mais nenhuma privacidade. É uma lógica irritante e bastante errada, mas que Mae abraça e se joga.

Isso a afasta de todo mundo. De seus pais, seus amigos, ela passa a dormir no campus e carrega uma câmera por boa parte do dia - ela é Transparente, ou seja, sem segredos - e tem milhões de seguidores pelo mundo, assinando seu feed. Ela não compreende como que alguém pode não gostar de estar nO Círculo, como pode não gostar de um zing ou sorriso do outro lado do mundo.

O livro é repleto de cenas insólitas como a do carinha de Portugal. E uma das mais absurdas que o livro relata é quando Mae mobiliza seus seguidores a achar um amigo que cortou toda e qualquer relação com ela. Os seguidores o encontram com bastante facilidade e ele sai em disparada com seu carro pela estrada, querendo ser deixado em paz. Mae ainda lhe diz "Você está entre amigos aqui". E ele... morre. Amigos? Sério mesmo? Teve momentos em que eu queria sacudir Mae pelos ombros para tirá-la daquele torpor ridículo, fazê-la sair da hipnose.

Ficção e realidade

Enquanto eu lia O Círculo, uma das frases me deixou atônita:

"Aqui a Democracia é obrigatória!"

Dita entre sorrisos e muita expectativa, como se fosse uma festa. O Círculo pretendia criar um sistema chamado Demoxie, onde as eleições presidenciais, qualquer tipo de eleição, todas seriam feitas pelo Círculo. Mas peraí... como que uma democracia pode ser obrigatória? Como podemos confiar num sistema desses, em que somos obrigados a abrir nossas vidas, nossas fotos, nossos relacionamentos, nossa vontade de participação política?

Logo que li essa frase, eu a marquei no Kindle e o aparelho me dá a opção de compartilhar nas redes sociais. O que eu fiz, de tão atônita que a cena toda me deixou. Mas depois fiquei parada, o Kindle na mão, pensando se eu era tão diferente de Mae quando ela mandava zings e sorrisos para seus seguidores ao curtir alguma coisa. Um dos personagens diz que O Círculo não pode se fechar, pois estaríamos fadados ao terrorismo da vida controlada por um poder opressor. Isso me fez lembrar 1984 imediatamente. A diferença é que o Partido nos convertia à força. NO Círculo, nós entramos de boa vontade.


Pontos positivos
Crítica às mídias sociais
Protagonista feminina
O Círculo

Pontos negativos
Partes maçantes
Capítulos arrastados



Título: O Círculo
Título original: The Circle
Autor: Dave Eggers
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2014
Páginas: 528
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

Em parte, o livro é uma distopia opressora como 1984. Por outro lado, ele também ironiza a vida high-tech dos fãs do Vale do Silício e dos usuários ininterruptos das redes sociais. A geração Google tem em O Círculo sua expressão máxima, exacerbada e exagerada para mostrar um possível caminho futuro caso as redes comecem a substituir cada passo da vida social das pessoas. Como será um mundo sem segredos, sem privacidade? Pessoas que queiram ficar fora disso serão deixadas em paz ou serão obrigadas a ter contas em uma rede social para serem consideradas cidadãs? Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para que você leia também.


Até mais!
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