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  • A briga entre ficção científica e fantasia

As mulheres de Stargate - Parte 2

Stargate é uma franquia de sucesso, com filmes, séries, e milhões de dólares em produtos licenciados. Mas o mais marcante de tudo isso são suas mulheres. Dificilmente parecidas, cada uma com seus infernos particulares para enfrentar, elas são uma boa amostra de personagens reais em séries de ficção científica. Elas oscilam por caminhos perigosos, erram, precisam enfrentar inimigos alienígenas e ainda tentar levar uma vida pessoal.





No primeiro post, eu tratei apenas da série Stargate SG-1, por se tratar do maior spin off, com dez temporadas. Então, nesta segunda parte, serão mulheres dos outros dois spin offs menores, Stargate Atlantis e Stargate Universe.


STARGATE ATLANTIS

Elizabeth Weir

Esta série é interessante para quem curte o mito da Atlântida. Aqui, temos uma nave-cidade (sim, ela não só voa como vai para o espaço) que foi afundada no mar de um grande planeta para escapar de um ataque alienígena de grandes proporções. Dez mil anos depois, uma expedição humana vinda pelo Stargate acorda a cidade em uma outra galáxia do grupo-local. Esta equipe é liderada pela Dra. Elizabeth Weir, uma civil em meio a militares. Esse fato por si só já coloca em Weir uma pressão a mais, pois ela sabe o desrespeito que terá que enfrentar ao assumir o comando das missões pelo Stargate e depois da missão de Atlantis.

Elizabeth Weir, líder da missão Atlantis. 

Diplomata, especialista em política internacional, poliglota e mediadora em várias negociações nas Nações Unidas. Foi chamada pelo presidente para liderar o programa Stargate devido sua experiência em negociações. Depois, tornou-se a líder da nave-cidade Atlantis, onde tomou diversas decisões difíceis, negociou com inimigos e foi até mesmo invadida por nanites ultra avançados. Weir deixou o noivo na Terra, avisando que estava tomando uma decisão muito importante e que iria para longe. Tal ato desagradou muito fã recalcado, como se fosse proibido para uma mulher ter ambição. Ela se sente tão confortável no arriscado ambiente da galáxia Pégaso, que quando foi obrigada a voltar para casa, se sentiu deslocada e isolada.


Teyla Emagan

Outra mulher de fibra que podemos conhecer em Atlantis é Teyla. Ela é natural da galáxia Pégaso, tendo nascido no planeta Athos. Seu povo, desde tempos ancestrais, precisa conviver com os Wraith, uma perigosa raça alienígena que se alimenta da força vital dos humanos. Ela cresceu vendo familiares e amigos sendo levados nas colheitas, portanto conhece bem o inimigo e o que é sobreviver.

Teyla Emagan.

Teyla é uma guerreira corajosa. E também tem a habilidade de sentir a presença dos wraith à distância, o que ajudou seu povo a evitar novas colheiras e mais mortes. Teyla vive dividida entre estar com seu povo e lutar ao lado dos humanos para defender Atlantis. Entre criar seu filho, ao lado do pai da criança, ou lutar para evitar a infestação wraith pela galáxia. Que mulher nunca se sentiu dividida entre tantos sentimentos e obrigações? Que mulher nunca se viu cansada, sem conseguir retomar as rédeas de sua vida.


Jennifer Keller

A dra. Keller entrou para a Expedição Atlantis em um delicado momento para a equipe: eles tinham acabado de perder o médico-chefe em uma explosão e estavam todos ainda muito frustrados com isso. Jennifer entra e já se sente deslocada, duvidando de suas capacidades como médica e como membro da equipe. Os casos muitas vezes são inusitados, além de sua capacidade médica e ela se vê em situações que nunca imaginou estar. Civil, assim como Weir, e sem treinamento adequado para guerra, Jennifer reluta em ficar em Atlantis.

Dra. Jennifer Keller.

Seu trabalho era para ser temporário, mas com o tempo, tanto equipe quanto a própria Jennifer se sentem mais à vontade na companhia um do outro. Fica claro, logo de início, que Keller não é voltada para a ação. Em quase todas as vezes em que saiu da cidade, ela teve problemas. Mas o que é inegável é sua dedicação aos pacientes e tendo seu trabalho prejudicado, sem poder ajudar os outros, ela logo se desliga do programa.

STARGATE UNIVERSE

Uma pena que a série acabou prematuramente com apenas duas temporadas. O formato não agradou ao público fã do modelo tradicional, a audiência despencou e a MGM acabou fechando tudo. Mas diferente das outras duas, onde as operações com o Stargate são num lugar fixo, em Universe ela acontece em uma nave há milhões de anos-luz do nosso sistema solar. Parece um Lost versão espacial, mas a ideia tinha muito potencial.

Camile Wray

Camile é civil, tendo trabalhado no conselho que revisa as missões Stargate. Ela se vê presa à nave Destiny, junto de outros membros da Base Ícaro, impossibilitada de retornar para casa e para a esposa. Camile é uma das poucas personagens lésbicas da ficção científica e da televisão e a série soube mostrar os conflitos pelos quais Wray passa, como por exemplo não conseguir ser promovida, sem nem saber exatamente por que.

Camile Wray. 

Wray não tem treinamento militar, por isso ela se vê bastante perdida de início ao chegarem na Destiny. Ela defende seus ideais e bate de frente com a tripulação militar várias vezes, acreditando que o comando da nave deve ficar com ela e não com o Coronel Young. Defende que numa verdadeira democracia, para evitar abusos, os militares são comandados por um governo civil e tenta institucionalizar isso, não conseguindo levar a cabo o golpe. No final, acabamos sem saber o que de fato acontece com a tripulação já que a série terminou, mas Camile é, sem dúvida, um grande destaque na série.

Tamara Johansen

Primeiro-tenente, ou TJ para os amigos, é paramédica e acaba se tornando a médica à bordo da Destiny, tendo que se virar com pacientes doentes, poucos suprimentos, ataques alienígenas e seu conturbado relacionamento com o Coronel Young, com quem teve um relacionamento. Ela terminou tudo pouco antes dos acontecimentos que os levaram para a nave. Young tentou reerguer o casamento, enquanto TJ tentava sair do programa Stargate para cursar a universidade e ficar longe dele.

Tamara Johansen.

TJ é um personagem complexo, ela parece não conseguir encontrar seu lugar. Quando se viu à bordo da nave, perdida, longe de casa, tendo que conviver num ambiente estressante com pessoas assustadas, ela precisou assumir um posto que achava impossível de preencher. O psicológico de todos acabou caindo em suas mãos, enquanto descobria estar grávida de seu oficial superior. Essa foi uma discussão interessante da série: como dar à luz e criar uma criança em um ambiente tão perigoso?


Agora, uma crítica à franquia, ou melhor uma segunda crítica, já que a primeira foi sobre o Princípio de Smurfette. Se você acompanhou desde o primeiro post deve ter percebido a predominância de personagens brancos. Tirando Camile Wray, todas as outras são caucasianas, brancas. A série poderia ter explorado isso muito mais do que explorou, ao fazer uma tripulação mais plural, mais inclusiva. Contudo, tenho que aplaudir Stargate por não cair nos clichês óbvios que muitas séries perpetuam com suas personagens femininas. Vemos aqui mulheres militares, mulheres que lutam, que brigam por seus ideais. Elas não são meros receptáculos vazios para complementar os personagens masculinos.

Até mais!
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A civilização vai acabar um dia

Você tem medo do escuro? Quantas horas por ano você fica sem luz? E do silêncio? Você tem medo? Pergunto isso presumindo que você esteja em uma cidade grande ou razoavelmente grande, com acesso à internet para poder ler este conteúdo. Portanto, posso imaginar que você também viva cercado de eletricidade, produtos industrializados, barulho do trânsito, do vai e vem de pessoas e de aviões. Pois é... Isso vai acabar. Mas não quer dizer que seja bom.





Quando estudamos História na escola vemos as grandes civilizações do passado, seu legado, seu simbolismo, seus monumentos. Particularmente, a antiga civilização egípcia sempre me fascinou. Vai ver é por isso que sou tão fã de Stargate. A questão é que nós vemos civilizações que morreram nas areias do tempo, deixando legados indeléveis, de fato, porém talvez nunca conheçamos realmente seus modos de vida, seu cotidiano, seu humor. Isso se perdeu. Foi-se.

E assim como egípcios, gregos, romanos, maias, incas um dia a nossa civilização, tal como conhecemos, também terá um fim. Ninguém pensa muito nisso, mas a ficção científica já mostrou vários universos possíveis. Podemos apenas trocar de um modo de vida e de sistema econômico para outro ou podemos praticamente voltar para a Idade Média. No final, perderemos alguma coisa e posso apostar que boa parte dela estará relacionada ao conforto da vida moderna, à conectividade, à internet.


Pode não parecer, mas nossa civilização é extremamente frágil. Não consigo ver como a raça humana possa ser extinta (num futuro breve) já que somamos mais de 7 bilhões até o momento. No entanto, a estrutura da civilização, suas bases nevrálgicas são extremamente frágeis, podendo causar o sofrimento de bilhões de pessoas com a ruína de apenas uma delas. E aí fica a pergunta: como sobreviver a esse mundo novo, quase medieval ou pré-industrial? Como esquecer dos confortos e facilidades da vida moderna quando se tem tudo ao alcance do click?

Eu imagino que muita gente vá surtar com a queda dos serviços mais básicos. Eu teria sérias dificuldades logo após a queda da civilização. Estamos tão destreinados para sobreviver que posso prever saques em massa, invasões, roubos, tráfico de influências para proteger os poderosos, mas seria uma questão de tempo até todo mundo perceber que aquele mundo de antes não existe mais. E o instinto de sobrevivência pode fazer surgir um monstro dentro de cada um de nós que talvez nem soubéssemos que existia.

Temos as tecnologias verdes? Sim, temos, mas elas são tão inexpressivas no contexto geral que no final beneficiaria alguns poucos. E aí poderíamos ter uma elite com energia controlando as massas sem ela. Imagine São Paulo, com mais de 35 milhões de pessoas na região metropolitana completamente sem luz e talvez consiga imaginar o cenário ideal de caos.


Os cinco pontos nevrálgicos de qualquer civilização são:

  • população;
  • clima;
  • água;
  • agricultura, e;
  • energia.

Tire qualquer uma delas do contexto e você verá a civilização cair em pouco tempo. Já temos problemas com população, água e clima. Em algumas regiões o péssimo manejo vem causando diminuição de colheitas e empobrecimento do solo, em alguns casos levando à desertificação. São Paulo está pagando por sua negligência ao não pensar no abastecimento de água para o futuro, contando apenas com a benevolência da mãe-natureza. Agora, o reservatório do Sistema Cantareira está abaixo dos 13% justamente na época mais seca do ano para a região sudeste (outono-inverno).

Pretendo lidar com cada ponto frágil da civilização nas próximas postagens, mas se posso indicar uma leitura é Colapso, de Jared Diamond, talvez um dos melhores livros a tratar do assunto, mostrando sociedades que conseguiram evitar a ruína e aquelas que caíram fundo nela.

Até mais!
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Resenha: A Estrada da Noite, de Joe Hill

Em busca de diversificar mais meu repertório literário, comecei a ler mais livros de terror, coisa que não fazia antes. Não por medo, nem nada disso, mas é que eles não me assustavam o suficiente, ou me prendiam o tanto que prometiam em suas sinopses. Nunca foi meu estilo predileto de livro, na verdade. Acabei colocando A Estrada da Noite no Kindle para ler e a narrativa me pegou desde o início.





O livro

Judas Coyne, conhecido como Jude, é uma lenda do metal. Sua banda é conhecida pelo mundo a fora com seu som estridente e pesado. Seu visual gótico meio macabro domina sua vida cotidiana, onde ele se tornou um colecionador de peças bizarras, desde fitas de assassinato até livros com receitas canibais. Muitos de seus fãs até mandaram estes presentes estranhos. Mas um dia, seu assessor e secretário recebe um email de um site de leilões: há um fantasma à venda. Basta comprar o terno e leve de graça o fantasma do padrasto de alguém que tem rondado a casa da família. Judas, sem pensar muito, dá um lance alto e já arremata o terno.


Jude é um astro cinquentão com problemas com o pai, a quem odeia com todas as forças por tudo o que ele o fez passar. Ele se arrepende de perder os amigos de banda, da mulher que usou e jogou fora, da esposa que simplesmente partiu e ele nada fez para segurá-la. Sai com moças trinta anos mais novas, como Morphina, sua nova namorada, gótica e escandalosa que só ela. Ele vive uma rotina caseira, cuidando de seus cães e da coleção de memórias e bizarrices quando chega o tal terno assombrado chega em uma esquisita caixa em forma de coração.

A partir daí, sua vida se torna rapidamente um inferno. O fantasma de fato aparece no corredor, um sombria criatura de chapéu, sentada numa cadeira perto da porta. É possível sentir o suor frio de Judas descendo pela coluna. Nesse meio tempo, sua namorada acorda com o fedor horrível de um cadáver, mas é o terno deitado ao seu lado, onde ela espeta o dedo em um alfinete e sua mão infecciona. Com um pouco de investigação, ele descobre que o morto é Craddock McDermott, padrasto de uma namorada que ele despachou para casa por não aguentar as crises depressivas da moça. O fantasma promete: vai matá-lo, vai fazê-lo matar todo mundo ao seu redor e não há nada que ele possa fazer para impedir isso. Este não é um fantasma qualquer e Jude logo percebe que seu embate com ele não será nada fácil.

O livro parece entregar o jogo logo de cara, mas não. As revelações são feitas aos poucos por Joe Hill, que é filho de Stephen King. Você começa a entender a personalidade não apenas do fantasma, de Jude e de Morphina como também de Anna, a problemática moça que se matou - ou é o que todo mundo acha - depois de seu relacionamento não dar certo com Jude. Começamos a entrar mais neste miolo em doses homeopáticas, com muitas cenas sombrias, onde parece que ninguém está a salvo. Chega uma hora em que o desespero de Jude o faz sair de casa com a namorada, tentando se proteger do fantasma.

Joe Hill.

Achei o começo um cadinho confuso, pois o autor jogou alguns nomes ali sem muita explicação. O final é bom, mas achei que o autor se demorou para terminar e deixar tudo bem explicadinho. Um final mais aberto talvez tivesse coroado o livro como sensacional do início ao fim. Temos personagens tão conflitantes e bem construídos que acho que ele poderia ter pensado num final um pouco menos certinho, deixando que o leitor preenchesse o restante. Mas ainda assim, não chega a estragar a obra. Para quem quer ver o que de fato aconteceu com Jude, vai ter que ler.

Ficção e realidade

Vou ser sincera. Sou cética até o talo, mas alguns filmes de terror me perturbam. Acho que por isso que nunca fui aquela fã incondicional do gênero, como a Camila, do blog Goticity. Eu assisti O Grito no cinema e passei uma semana ouvindo o murmúrio daquela infeliz na minha orelha, fiquei sem dormir, foi um horror. Até então, o único livro de terror que eu tinha lido, e que me deixou com uma baita má impressão, foi Sete Gritos de Terror, ainda na escola. Então, por aí você imagina há quanto tempo eu não lia terror.

Li este livro em um dia. Ele é curto, com uma narrativa intensa. Acho que na posição de Jude eu não teria enfrentado esse fantasma com tanta coragem como ele a encarou. Sou patife, já disse. Mas acho que o principal fator do livro não é sobre o fantasma, mas sobre o medo. Mesmo com aquela carranca de astro de rock, Jude tem medo de muitas coisas e evita encará-las durante a vida. Mas aqui ele é testado por uma força superior e sua sobrevivência dependia disso. É nessas horas que vemos até onde uma pessoa pode ir para sobreviver.


Pontos positivos
Terror
Fantasma
Universo gótico
Pontos negativos

Final previsível
Livro se arrasta em algumas partes

Título: A Estrada da Noite
Autor: Joe Hill
Editora: Sextante
Páginas: 256
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

Aos fãs de terror e suspense, não deixem de ler A Estrada da Noite. Só o universo gótico sombrio da vida de Jude já vale à pena de ser lida. Ainda mais com um fantasma vingativo espreitando pelos corredores, mandando mensagens bizarras, com brincadeiras letais pela casa. Percebemos logo que as motivações do fantasma não são bem aquilo que ele afirma desde o início. Quatro aliens.


Até mais!
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Resenha: Hipersonia Crônica, de Aline Valek

Esta resenha saiu em caráter excepcional durante a semana porque eu sou corporativista mesmo e admito (e também porque estava devendo uma resenha à ela). Aline Valek publicou por conta em seu blog pessoal e nas maiores lojas de ebook (Amazon, Kobo Store) o conto Hipersonia Crônica, uma publicação Fora da Gaiola, pois ele inteiro foi feito por poucas pessoas. Esta é uma tendência que só cresce, com pessoas publicando por conta, alimentando seus nichos.





O conto

Primeiro de tudo, antes de ler o conto, eu fui procurar o termo Hipersonia nas interwebs. Segundo o Wikipedia:

(...) é um distúrbio do sono caracterizado por sonolência excessiva durante o dia e/ou sono prolongado a noite. E ao contrário de problemas de sono causados por noites mal dormidas, dormir durante o dia não diminui a sonolência. Também ocorre em pessoas com ciclo de sono invertido (por exemplo, trabalhadores noturnos). Pode ser classificada como hipersonia idiopática (quando a causa não é conhecida), sintomática (quando for sintoma de outro transtorno) ou medicamentosa (quando for efeito colateral de uma droga). É mais comum entre os 15 e 25 anos e menos de 5% dos adultos (mais de 18 anos) possuem esse problema.

Quem nunca teve um episódio de hipersonia na vida, que arremesse o primeiro travesseiro. De termo definido, vamos ao que interessa. Conheçamos Jonatan, um gerente de projetos, com a vida corrida como qualquer um. Jonatan é um workaholic que começa a desabar por não conseguir lidar com suas tarefas, regadas a tantas xícaras de café. Parece-me o homem jovem típico de uma cidade grande, tentando manter o emprego que ele não parece gostar tanto assim.


Seus distúrbios de sono não surgem de mansinho. O leitor é jogado abruptamente num sonho repleto de ação e você se vê, de repente, em um novo lugar, em uma nova situação, outras pessoas... Porém, nem mesmo Jonatan parece capaz de discernir entre um e outro, que dirá o leitor. Seria o inverso? Como encontrar limites em nossas borradas percepções de realidades? O personagem parece mais um coadjuvante em um enredo em que o sonho e o excesso de café são os protagonistas.

Com o tempo, Jonatan parece perder a noção do que é real e do que não é, como se fosse um Neo eternamente preso à Matrix imaginando se estava em Zion ou não. Ou então como Doug Quaid, tentando ser convencido que tudo é um sonho implantado pela Recall e que ele já não distingue mais as barreiras da realidade. Sua rotina de trabalho começa a se prejudicar. Prazos, clientes, dados, como lidar com isso e ainda responder às perguntas que ele sabe que existem, mas que não sabe como respondê-las? E ainda há Lucile...

Sempre admirei a facilidade com a qual Aline Valek conduz seus enredos. Desde os posts do blog, aos seus contos e crônicas, ela tem uma narrativa fluída, sem complicações ou exageros. Escrever não é um ato simples, ele demanda muito de quem se propõe a trabalhar com isso e é uma constante rotina de experimentações. Em Hipersonia Crônica vemos que Aline brinca com a zona de conforto do personagem e ele quica em diversas situações adversas, levando-nos junto.


Por se tratar de uma obra cuja revisão é do próprio autor, é natural encontrar alguns problemas. Alguns termos errados ou repetição de termos podem deixar a leitura cansativa em alguns parágrafos, mas são pontuais. Não chegam a atrapalhar a leitura.


Ficção e realidade

No último domingo, o Fantástico apresentou um caso bastante peculiar de uma mulher que acordou e tinha esquecido 11 anos de sua vida. Por alguma razão, o caso me fez lembrar do personagem Jonatan. Os casos não chegam a ser parecidos, mas o que me chamou atenção foi o fato de a mulher não lembrar de coisas cruciais da vida, mas cheiros, toques, músicas despertavam um fiapo de lembrança em sua mente. Aos poucos, ela foi recobrando os fatos, pessoas e situações esquecidas.

É curioso ver que coisa plástica e sensível é o cérebro e como ele pode pregar peças nos seres humanos. Muito sono, ausência de sono, traumas parecem ser inócuos num primeiro momento, mas podemos notar por estes casos - da memória perdida e do sono perturbado - o quão poderosas podem ser essas experiências.

Pontos positivos
Dúvida entre o real e a fantasia
Conto curto
Bem escrito
Pontos negativos

Acaba logo
Repetição excessiva de termos

Título: Hipersonia Crônica
Autor: Aline Valek
Editora: Fora da Gaiola
Páginas: 39
Onde comprar: Amazon, KoboStore e direto no blog


Avaliação do MS?

Aline Valek não é a primeira publicar em seu blog para seus leitores. Cada vez mais, escritores se valem de seus espaços virtuais para mostrarem seu trabalho e formarem um público leitor. E Hipersonia Crônica é uma amostra de bons materiais à disposição na rede para leitores em busca de conteúdo de primeira e gratuito ou bem mais barato que um livro numa livraria. Recomendo fortemente que você leia HC e tente delimitar realidade e fantasia. Quatro aliens para o conto com um pedido de continuação.


Até mais!
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Fake nerd e por que isso é uma merda

O universo nerd cansa, sabe? Mas cansa mesmo, especialmente pelo o fato de ele ser dominado por homens. Nem tanto por homens, mas por bebezões da mamãe que adoram classificar mulheres nerds do jeito que eles acham que é correto. São eles que reclamam da ~friendzone~, que reclamam não encontrar namoradas nerds, mas reclamam de moças fazendo cosplay ou querendo participar do clube. Morrem de medo de "perder" privilégios e assediam e ofendem moças nerds. Isso já deu no saco.





Ser mulher também cansa. Afinal, somos medidas e classificadas desde que o mundo é mundo. Todo mundo já ouviu falar do "mulher pra casar, mulher pra transar", certo? Todo mundo já proferiu, em algum momento da vida - assim como eu também já fiz - que "mulher tem que se dar o respeito". Estes são só alguns exemplos de merda machista que infectam a sociedade e reduzem mulheres a meras coisas, sem conteúdo, que precisam fazer algo para ganhar respeito de outro, quando respeito deveria ser um conceito universal, empregado a todos.

No universo nerd, a coisa só piora. Meninas são acusadas de serem fake nerds ou para conseguirem namorados ou para se exibirem. Moças são hostilizadas em eventos por usarem roupas colantes e sensuais ao fazerem cosplays, sendo que estas personagens já usam roupas sensuais e coladas no desenho original (muitas vezes feito por homens). Nossos gostos são sempre relativizados, como se soubéssemos de menos ou tivéssemos aprendido algum dado sobre uma série ou filme apenas para impressionar o namorado nerd. Mais uma vez, somos vistas como coisas vazias, sem gostos, sem preferências, apenas preenchendo os requisitos para conquistar um macho nerd.

Nerd girl, por Valerie Gomez.

Sério, já deu no saco isso. Que pessoa gostaria de ser julgada e avaliada se sabe muito ou não de assunto para só aí ganhar respeito? Por que sempre exigem carteirinha de milhas de moças nerds? Vocês fazem isso com os colegas machos do grupo? Saí de um grupo de ficção científica no Facebook, pois tinha a nítida impressão de preencher cotas para mulheres ali dentro. Era eu abrir a boca para fazer um comentário, surgia alguém para vir me explicar alguma coisa em tom paternalista, como se eu não entendesse de nada do que dissesse. Já me deram aulas de cartografia no Twitter e outro dia de "preconceito" contra criacionistas. Volta e meia aparecem comentários aqui no blog para tentarem me ensinar alguma coisa que já estou careca de saber.

É muito chato ir à uma loja, pedir um quadrinho, um livro ou um game e ter que ouvir do atendente: "É pra você ou pro seu namorado?". Vi um rapaz que se dizia nerd dar um piti quando eu disse que mulheres são excluídas do cenário mainstream de quadrinhos, já que somos sempre retratadas como peitudas e vazias. E que seria muito bom que este cenário pudesse incluir mulheres e retratá-las de maneira mais realista. A resposta que eu tive? Que nós devíamos produzir um conteúdo diferenciado e deixar o mercado mainstream, afinal ele não vai mudar mesmo por nossa causa. Por que não? Ele, como fã de heroínas peitudas, está bem representado, e por que eu tenho que ficar com menos? Quando a MTV quis ampliar o gosto musical na programação, houve um escândalo por parte dos fãs mais antigos, mas ninguém mandou que abrissem um canal Pagode TV. Todos puderam ser representados em um canal de música, com música para todos.

Tire seu preconceito do meu caminho. 

Houve o mesmo escândalo quando o Instagram lançou versão para Android. Quem são essas pessoas que acham que um aplicativo para smartphone perderá a qualidade só por que tem mais usuários? Que medo é esse de perder privilégios que certos grupos têm? Será que eles não enxergam que quando um grupo recebe direitos que eles sempre tiveram, eles não estão perdendo nada e sim agregando? Já disse isso antes e continuo repetindo: PRIVILÉGIO CEGA. E vá dizer para um fã nerd que ele está errado? Ele dá escândalo, da piti, como bebezão da mamãe com medo de repartir para somar e não para subtrair.

A nítida impressão que tenho é que alguns caras nerds preferem que suas namoradas sejam exatamente como a Penny, de The Big Bang Theory: gostosa, peituda e que não saiba nada do mundo nerd para que eles pareçam superiores ou para que pareçam os únicos sabichões do pedaço. Penny é mais uma moça infantilizada por um grupos de homens e hostilizadas por seus gostos e por sua personalidade. E o cara que pensa assim é um grande otário. Se a mulher quiser fazer cosplay ou se ela só quer ir à loja e sair com a nova edição de seu quadrinho preferido, ela deve fazer isso sem ser molestada, assediada, agredida e ofendida por gente que não sabe respeitar o próximo. E isso também deve ser estendido para qualquer mulher, em qualquer lugar, em qualquer situação, seja ela nerd ou não.

Fake nerd é uma merda e tem que parar. Simples assim.
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