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Resenha: The Long Way To a Small, Angry Planet, de Becky Chambers

Eu fiquei completamente apaixonada por esse livro! Não sei bem como que o encontrei, deve ter sido alguma indicação em um blog gringo, mas a capa, a sinopse, o fato de ser uma autora, acabaram me comprando e devorei o livro. Esta é uma jornada sobre pessoas, seus conflitos e, principalmente, seus amores.





O livro

Wayfarer é uma nave de tunelamento. Ela é contratada para construir wormholes em sistemas estelares e assim encurtar distâncias no transporte interestelar. Sua tripulação é composta por 8 pessoas, mas a maioria diz que são só 7, porque não contam a IA da nave, Lovelace, chamada carinhosamente de Lovey. É uma tripulação composta por humanos: o capitão Ashby; o algeist (responsável por algas, um combustível) intragável chamado Corbin; os técnicos, Kizzy e Jenks; e Rosemary Harper, fugindo de Marte, com algum tipo de segredo, contratada para ser a escriturária do capitão; e os aliens: uma Aandrisk, segunda em comando, chamada Sissix; um Grum, apelidado de Dr. Chef, médico e cozinheiro; e um par Sianat chamado Ohan, mas que é tratado no plural e o único entre a tripulação que pode ver o espaço-tempo em toda a sua complexidade.


Por que é necessário apresentar todos esses aliens e humanos que vivem em harmonia sob a GC (Galactic Commons, uma espécie de Federação de Planetas Unidos)? Porque a longa jornada a qual o livro se refere é sobre eles. O pequeno e raivoso planeta do resto do título acaba como coadjuvante diante das aventuras e situações pelas quais os personagens passam. A jornada é deles, dos seres incríveis destas páginas, das relações interespécie e das histórias de cada um deles.

A Wayfarer pega uma missão de construir um novo wormhole que ligará um planeta perto do núcleo da galáxia e pertencente à uma raça beligerante até espaço da GC. Enquanto a nave ruma para o local, a tripulação passa por todo o tipo de situação. Cada personagem ali é finamente trabalhado e temos visões incríveis dos Aandrisks, por exemplo, que lembram dinossauros pela descrição da autora, e que são extremamente curiosos com os humanos.

Dr. Chef é uma simpatia e, naquele momento, é macho. Mas infelizmente sua raça está em processo de extinção e são poucos os Grums viventes. Ohan é um dos mais fascinantes: sua espécie é infectada por um vírus que torna suas mentes capazes de observar o espaço-tempo de maneira que outros não podem. Desta forma, infectados, passam a ser designados no plural. Isso faz deles os membros mais importantes para a missão, já que podem fazer cálculos que ninguém pode.

Apesar de o livro começar com a visão de Rosemary assim que ela chega à Wayfarer, não ficamos restritos à sua visão. Ao contrário. Pulamos entre os capítulos para conhecer a vida dos outros. O capitão Ashby, por exemplo, tem um romance com uma Aeluon, uma das raças mais admiradas na GC por sua beleza e sutileza, que se comunicam por cores nas bochechas e não por voz. O universo criado por Chambers neste livro é otimista. Temos companheirismo, temos amor e amizade, coisas que geralmente vemos em séries e não em páginas de livro.


Ficção e realidade

O que mais espanta aqui são as relações entre os indivíduos. Não dá para dizer exatamente relações humanas, pois mesmo sendo aliens tão absolutamente diferentes uns dos outros, até mesmo humanos irritantes e intragáveis como Corbin, essa tripulação não consegue viver separada. Em tempos de ódio intenso rolando nas comunidades de ficção científica, The Long Way To a Small, Angry Planet nos mostra uma humanidade pacífica, que convive com aliens na boa e ainda constrói wormholes.


O relacionamento entre os personagens, a camaradagem, a amizade e o amor são uma excelente alegoria para todos os problemas que temos no mundo real, onde gays apanham por serem gays, onde genderfluid lutam para ter reconhecimento, onde travestis são vistos como abominação. Chambers prova que viver com as diferenças não só é possível como uma obrigação, afinal não existe padrão na raça humana, tampouco no universo.


Pontos positivos
Tripualação
Aliens
Relações interespécie

Pontos negativos

Começa devagar



Título: The Long Way To a Small, Angry Planet
Autor: Becky Chambers
Editora: Tor Books
Ano de Lançamento: 2014
Páginas: 608
Onde comprar: Amazon


Avaliação?

O livro foi financiado com sucesso no Kickstarter e conquistou os fãs pela narrativa e pelos personagens cativantes. Tem tantas coisas acontecendo nestas páginas que fica difícil fazer uma resenha de apenas um dos fatos. A jornada de amizade e companheirismo é tão intensa que o livro terminou e fiquei com saudade dos personagens. Espero que a ficção científica possa mostrar mais personagens como estes. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para que você também leia.



Até mais!
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Saíram os vencedores do Hugo Awards!

Prêmio Hugo
A premiação aconteceu neste final de semana, madrugada de sábado, 22, para domingo, 23, no Brasil. Este que é considerado uma das mais altas honrarias na ficção científica e fantasia finalmente foi entregue e nos mostrou que os Puppies não eram a maioria, tampouco tinham todo o peso que afirmavam ter. E quem ganhou muito com isso? A gente, claro!





Entendendo a treta

Como o babado é longo, vou deixar aqui os links para você saber o que aconteceu tim-tim por tim-tim.


Um resumo bem rápido: valendo-se das regras flexíveis de indicações ao prêmio, dois grupos de reaças insatisfeitos criaram painéis de votação e emplacaram entre os indicados autores e obras que eles gostariam de ver premiadas, de homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais. Na cabeça deles, o prêmio foi dominado por uma conspiração esquerdista feminazi gayzista dos unicórnios satânicos e a maioria "perseguida" de homens-brancos-cis-heteros estaria sendo discriminada.


Os Puppies

Os ombros da comunidade de FC e Fantasia estavam tensos e não era para menos. Desde o chorume liberado pelo Gamergate e por todos os episódios machistas na Science Fiction & Fantasy Writes of America que as coisas andavam bem ruins. Já tem alguns anos que uma insatisfação de meninos brancos mimados em fóruns vinha rolando e crescendo, pululando aqui e ali, até que chegamos aos Sad e Rabid Puppies. Todos eles são homens, são brancos e são escritores de FC. Chegaram a ser indicados ao Hugo e nunca ganharam.

Só para a gente ter uma ideia, Vox Day (Theodore Beale), criador dos Rabid, falou que a ficção científica escrita por mulheres, que ele chama de "Pink SF" é uma invasão superficial que conta as mesmas histórias bobas e narcisistas, livros de "menininhas", que foram contadas várias vezes nos livros da Harlequin e em contos infantis de Hollywood. Ele ainda diz:

Pink SF é um câncer. É uma perversão parasitária. É aquela morte pequena que mata todo sub-gênero literário. (...) Pink SF são as meninas vindo brincar na caixa de areia dos meninos e cagando nelas como gatos.

Duvida? O original está no blog dele, mas para não gerar link, usei o naofo.de. Este é um sujeito que pensa que mulher só escreve romances e histórias de amor, e não há nada de errado nisso. É um sujeito tão desprezível que fica difícil encontrar uma classificação para ele no reino animal.

A principal alegação de Puppies e derivados é: os painéis criados por eles visavam reconhecer bons trabalhos, ao invés de apresentar uma agenda política. Entretanto, este argumento cai por terra ao analisarmos os indicados. Eles não escolheram escritores com enredos "divertidos", com ficção científica "de raiz". Eles optaram por indicar pessoas como John C. Wright, que disse que homens devem abominar homossexuais em nível visceral e Theodore Beale, que diz que os direitos das mulheres são ruins para a sociedade e que negros são incapazes de construir uma civilização avançada. A única intenção para a criação desses painéis era a de agredir e caçoar dos avanços rumo à maior diversidade e representatividade do gênero, com a inclusão de novas vozes na FC.

John C. Wright foi indicado cinco vezes para o Hugo deste ano e perdeu em todas as categorias. TODAS. Com mais uma ele podia pedir duas músicas no Fantástico. Wright é do tipo que não consegue escrever uma personagem feminina sem carregar nos esterótipos de gênero, que acha que devemos ser femininas e delicadas, a típica mocinha que vai gritar e ser resgatada pelo herói.


A reação do público

Para votar nos indicados ao prêmio é preciso pagar a membresia de US$ 40. Isso lhe dá o direito ao voto e lhe confere acesso às obras indicadas todos os anos. Em 2015, desde o anúncio dos painéis dos Puppies, o número de votos e de novos membros subiu vertiginosamente. Foram quase 6 mil votos, 65% a mais do que nos anos anteriores. As categorias emplacadas pelos Puppies e que mais incomodavam o público receberam No Award, ou seja, por não concordarem com os indicados, os membros optaram por conferir o prêmio a ninguém.

A ganhadora do Hugo 2015, Laura J. Mixon, na categoria de Best Fan Writer, fez um dos melhores discursos da noite:

Há espaço para todos nós aqui. Mas não há meio-termo entre 'nós pertencemos' e 'você não'. Acredito que devamos encontrar maneiras menos tóxicas para discutir nossos pontos de vista conflitantes. Estou com as pessoas dos grupos marginalizados que procuram, simplesmente, serem vistas como seres humanos. As vidas dos negros importam. [Laura é branca]

Uma coisa que os Puppies não perceberam, bem como todo mundo que apoiou os painéis (incluindo aí alguns autores brasileiros), é que não existe uma conspiração de esquerda. O que existe nestes últimos anos e na geração de autores e leitores é uma mudança de mentalidade. O mundo avançou - apesar de precisar de mais avanços - nas questões sociais, garantindo igualdade de direitos e maior visibilidade para as minorias que antes eram relegadas à obscuridade. Se Prêmio Hugo teve entre seus indicados livros que representem essa literatura, não é por uma conspiração, foi pelo gosto do público.

Paradise, I am coming, arte de Kimonas

Quem pegar uma obra clássica de FC pode observar toda uma ideologia ou uma crítica embutida no enredo. A FC nunca foi apolítica. Sempre houve uma ideologia que por muito tempo permaneceu dominante. Narcisistas inflados pelo ego frágil, como os Puppies e todos os seus apoiadores, se sentiram incomodados por verem que tinha mais gente escrevendo, mais gente tendo relevância no mercado do que eles e se irritaram. Isso não passa de pirraça.



Mike Resnick foi indicado 37 vezes ao Hugo, ganhando 5 foguetes. Em 1989, seu primeiro prêmio foi para Kirinyaga, um enredo que explora o conflito entre os valores ocidentais e as sociedades tradicionais africanas. Joe Haldeman, em Forever War, de 1975, falava de uma sociedade em que homossexualidade era a prática padrão. Robert Henlein, que ganhou o Hugo em 1960, com Tropas Estelares, fala de uma meritocracia futurista onde o serviço militar é uma virtude.

Mas esses caras são homens brancos. Eles podem e sempre escreveram dessa forma. O que realmente incomodou os Puppies é que não eram mais caras brancos fazendo todos esses enredos e até dando pinceladas de críticas, e ainda criando grandes aventuras espaciais. O problema foi mulheres escrevendo sobre mulheres, negros escrevendo sobre negros, gays escrevendo sobre gays, trans* escrevendo sobre trans*. As minorias se atreveram a escrever e isso lhes é intolerável. Os caras brancos podem ter voz e escrever sobre os outros, às vezes bem, muitas vezes mal, mas dar voz àqueles que a querem é um desafio para as pessoas que sempre estiveram no controle. Um desafio e uma afronta.

No prêmio de 2014 mais mulheres foram indicadas do que os homens. E entre os ganhadores temos Ann Lackie, com Ancillary Justice, um livro incrível onde não há distinção de gênero; The Water That Falls on You from Nowhere, de John Chu, sobre homossexualidade, e; o ensaio de Kameron Hurley, We Have Always Fought. Mais do que em qualquer ano, 2014 trouxe mulheres, negros e comunidade LGBTQ. Não é de se estranhar o que aconteceu em 2015.


Mas o recado nítido que foi entregue esta semana, onde quase 1/3 dos prêmios teve No Award, é: nenhum tipo de cruzada contra as minorias será aturada, muito menos premiada. Preconceito não é opinião. A comunidade reagiu da maneira que esperávamos e estará atenta para manobras torpes que visem destruir não só a ficção científica como também a possibilidade de trabalhos bons e de escritores marginalizados serem reconhecidos. O espaço é de todos e obras de caráter mais conservador existiram e sempre existirão, mas elas não podem dominar os painéis de votação, nem devem ser o padrão da produção porque não há padrão na raça humana.

Sabendo dividir, todos terão acesso e direito a competir de maneira igual. Só queremos espaço.

Até mais!

O bom trabalho foi premiado e as más ações penalizadas. Um pequeno grupo de pessoas tentou jogar com o prêmio em benefício próprio e um grupo ainda maior de pessoas valorizou a integridade da premiação, escolhendo No Award sobre os indicados dos painéis que manipularam o sistema.

John Scalzi


Leia mais:

Lista com os vencedores e No Award
No ‘Puppy’ Love at Science Fiction’s Hugo Awards
What The Complete Puppy Shutout Means And Doesn’t Mean
Hijacking the Hugo Awards Won't Stifle Diversity in Science Fiction
Sad Puppies, Rabid Chauvinists: Will Raging White Guys Succeed in Hijacking Sci-Fi’s Biggest Awards?

PS: um fórunzinho de nerds reaças estava defendendo um dos líderes dos Puppies, dizendo que não tinha nada de preconceito na campanha já que um deles era casado com uma negra. Deixo esse texto aqui sobre a questão.
Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!
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Resenha: O Exterminador do Futuro: Gênesis (2015)

Não sei para onde a franquia de Terminator vai, pois já retorceram tanto a linha do tempo que se mostrar um exterminador inventando a roda eu não vou mais me espantar. Gênesis chegou aos cinemas brasileiros no começo de julho, demorei para ver por pura preguiça e acho que usei bem o meu tempo por ter evitado o longa por tanto tempo.





O filme

O ano é 2029. A Resistência, liderada por John Connor, conseguiu desferir um golpe preciso e letal sobre a Skynet. Mas antes da ofensiva bem sucedida, a Skynet conseguiu enviar um T-800 para o passado com a finalidade de matar Sarah Connor (Emilia Clarke), mãe de John. Kyle Reese (Jai Courtney), braço direito do líder, logo se voluntaria para ser enviado ao passado para impedir o robô, mas enquanto flutua no campo da máquina, ele vê John sendo atacado e recebe memórias de sua infância em 2017. Kyle fica confuso e retorna ao passado, revivendo a famosa cena do primeiro filme, protagonizada por Michael Biehn.


Mas ao chegar no passado, Kyle é logo atacado por um T-1000 (Lee Byung-hun) e é Kyle quem é resgatado por Sarah. O T-800 chega, mas é destruído por outro T-800, que é o guardião de Sarah. Kyle não entende nada e teme o robô, afinal na realidade dele as máquinas querem matar seres humanos. É quando Sarah e seu guardião revelam como construíram uma máquina do tempo improvisada e Sarah planeja viajar para 1997, quando a Skynet se torna auto-consciente. Mas Kyle sabe que o futuro mudou. Eles precisam ir para 2017, já que suas memórias lhe mostram que a linha do futuro está diferente.

Já em 2017, Sarah e Kyle chegam no meio de um viaduto, são presos e quem aparece como oficial do governo?? John Connor! Enquanto isso, Sarah e Kyle descobrem que a Skynet é chamada de Genesys (Gênesis), um sistema operacional prestes a entrar em operação e que está em contagem regressiva em telões pelo mundo. E agora a coisa fica muito confusa. John não é bem John. A Skynet no futuro transformou o líder da resistência no inimigo e agora o pau quebra. Aliás, acabaram com John Connor, pois a gente tem quatro filmes falando que ele é o salvador da humanidade e de repente o cara concorda com a Skynet.

Eu curti muito Emilia Clarke como Sarah. Acho que ficou uma homenagem bem digna à Sarah de Linda Hamilton. Kyle Reese está durão e teimoso, bem do jeito do Kyle original de Biehn. O Exterminador guardião artrítico e com problemas de "idade" também ficou foda e até a reconstrução do jovem Schwarzenegger ficou muito boa. O problema é a quantidade de informações que estão disponíveis no filme que foram jogadas a esmo e acabaram lotando o filme de coisa inútil. Tá, Sarah foi resgatada pelo Exterminador quando criança. Por que? Quem mandou ele pra lá?


Todas as homenagens feitas às cenas anteriores dos outros filmes mais parece uma recauchutada na franquia do que um novo filme que celebre essas obras. Isso tem bastante a ver com a falência da The Halcyon Company, que era a detentora dos direitos originais. A ideia era fazer de EdF: A Salvação o primeiro de uma trilogia, mas problemas legais e até o leilão dos direitos interrompeu a produção da continuação. Este novo filme era para ser um longa em 3D, mas novamente houve problemas com os direitos.

São tantas situações, explicações e linha do tempo e o KCT que o filme ficou chato. Tínhamos material aqui o suficiente para rodar mais três filmes de Exterminador, já que os personagens passam o longa inteiro só explicando as coisas.


Ficção e realidade

O futuro muda o tempo todo com as decisões que tomamos. Tentar antecipar o futuro é sempre complicado porque erramos quase sempre. O Exterminador do Futuro não é tanto sobre extermínio da raça humana, mas sim sobre como lidar com o futuro. Sarah Connor foi parar em um hospital psiquiátrico porque não conseguiu lidar com ele e acabou surtando.

T-1000

Há também uma crítica à evolução das máquinas. Temos visto hoje em dia as discussões sobre os drones e de sua regulamentação, que falta, já que os drones estão se popularizando. Há uma discussão sobre o uso de robôs com maior intensidade e na substituição de seres humanos no mercado de trabalho. Esse é um dos pontos mais válidos de toda a franquia do Exterminador. A questão do futuro que não conseguimos prever nem definir e o uso amplo de máquinas a ponto de elas se tornarem conscientes.


Pontos positivos
Amelia Clarke
Jai Courtney
Efeitos especiais

Pontos negativos
John Connor
Excesso de informações
Final óbvio

Título: Terminator: Genisys
Direção: Alan Taylor
Data de lançamento no Brasil: 2 de julho de 2015
Duração: 126 minutos


Avaliação do MS?

Não era para o filme ter saído tão ruim. Mas eles jogaram um monte de informações e os personagens ficaram o tempo todo explicando a linha do tempo, e a Skynet, e a missão, e o John e Whiskas sachê e no final o enredo ficou super confuso. Se eles tivessem seguido apenas uma dessas informações como, por exemplo, o resgate de Sarah quando pequena, o longa ficaria muito melhor. Dava para fazer mais duas sequências bem feitas só com o tanto de coisa que colocaram em Gênesis. Um apena. Só dois aliens.


Até mais.
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Como funciona o motor da Enterprise?

A ficção científica é capaz de nos levar aos confins do tempo e do espaço de maneira notável. Seja com poderes quase sobrenaturais, seja com máquinas fictícias, seja com uma ciência plausível, porém inviável, podemos viajar pela galáxia com poucas dificuldades. E o motor de dobra, ou warp drive, é uma destas sonhadas máquinas que nos levarão aos recantos do cosmos. Isso se puder ser tão eficiente e seguro como é em Star Trek.





Esse post ficou no freezer por muito tempo porque é tanta informação referente ao funcionamento da Enterprise que eu fiquei perdida na hora de colocar as informações aqui. Por isso, pedi ajuda ao físico de plantão do Holodeck e do Twitter, o Dbhor, para dar uma refinada na coisa. O resultado, você lê abaixo.


O motor de dobra mais conhecido da ficção científica é de Star Trek. É ele que move as várias Enterprises e a Voyager, além de várias outras naves em suas missões. Mas o motor de dobra ou FTL (faster than light) é velho conhecido de muitos outros enredos, como Star Wars e Battlestar Galactica. A ideia por trás é que ele não corta caminho como o Stargate, mas cria uma bolha de dobra à frente e ao redor da nave para aproximar dois pontos distantes do espaço. A diferença entre a dobra espacial e o wormhole é que neste último a viagem é instantânea, enquanto que a Enterprise podia levar vários dias ou semanas até um determinado lugar.


Zefram Cochrane

O gênio por trás da Federação e da Frota Estelar e de sua capacidade de viajar pelo espaço emprestou também seu nome para medir as velocidades de campos de dobra. Ele sabia que para fugir dos motores não-Newtonianos era preciso ter várias camadas de campo de dobra agrupadas. Cada camada exerceria uma quantidade controlada de força contra a camada mais próxima. O efeito da acumulação impulsionaria o veículo para frente e é conhecido como manipulação de campo assimétrica e peristáltica (MCAP).

Nacele de dobra

As bobinas de campo de dobra nas naceles do motor são energizadas em ordem, da frente da nave para trás. Cada nova camada de campo se expande para longe das naceles, experimentando uma rápida aplicação e perda de força a distâncias variáveis das naceles, simultaneamente transferindo energia e se separando das camadas anteriores. Quando a força é aplicada, a energia irradiada faz a transição necessária para o subespaço, resultando em uma aparente redução de massa no veículo. Isto facilita o deslizamento da nave através das camadas sequenciais de campo de dobra.

As naceles utilizam a energia gerada pela reação de matéria e anti-matéria do reator na Engenharia para gerar, ao redor da nave, uma "bolha". A energia não convertida em campo de dobra escapa como luz visível, que são aquelas luzes azuladas que vemos nas naceles de todas as naves das séries.

As bobinas de campo de dobra nas naceles do motor são energizadas em ordem, da frente da nave para trás. Cada nova camada de campo se expande para longe das naceles, experimentando uma rápida aplicação e perda de força a distâncias variáveis das naceles, simultaneamente transferindo energia e se separando das camadas anteriores. Quando a força é aplicada, a energia irradiada faz a transição necessária para o subespaço, resultando em uma aparente redução de massa no veículo. Isto facilita o deslizamento da nave através das camadas sequenciais de campo de dobra.

As naceles utilizam a energia gerada pela reação de matéria e anti-matéria do reator na Engenharia para gerar, ao redor da nave, uma "bolha". A energia não convertida em campo de dobra escapa como luz visível, que são aquelas luzes azuladas que vemos nas naceles de todas as naves das séries.

USS Enterprise 1701-E e suas naceles de dobra iluminadas.

O cochrane é a unidade usada para medir a tensão de um campo subespacial e para medir a distorção de campo causada por outros dispositivos de manipulação espacial, incluindo raios tratores, escudos defletores e campos de gravidade artificial. O valor em cochranes para cada fator de dobra corresponde à velocidade aparente da nave viajando neste fator. Uma nave viajando em fator de dobra 3, por exemplo, está mantendo um campo de dobra de pelo menos 39 cochranes e está, portanto, viajando a 39 vezes a velocidade da luz.

  • Dobra 1 = 1 cochrane
  • Dobra 2 = 10 cochranes
  • Dobra 3 = 39 cochranes
  • Dobra 4 = 102 cochranes
  • Dobra 5 = 204 cochranes
  • Dobra 6 = 392 cochranes
  • Dobra 7 = 656 cochranes
  • Dobra 8 = 1024 cochranes
  • Dobra 9 = 1516 cochranes

Em 2368, cientistas da Frota Estelar perceberam que as bolhas subespaciais estavam corroendo, lentamente, o tecido do subespaço, o que levaria a danos irreparáveis ao espaço-tempo. Desta forma, eles baixaram uma diretriz para todas as naves para manterem dobra 6 em viagens de rotina, ultrapassando esse valor apenas em situações de emergência.

A propulsão de dobra, seguindo as especificações da classe Galaxy, onde todo o sistema fornece energia de aplicação primária e secundária, consiste em:

  • o conjunto de reação matéria/antimatéria,
  • dutos de condução de força e;
  • naceles do motor de dobra

O conjunto de reação matéria/antimatéria (M/A) se utilizada do cristal de dilítio, único material conhecido pela Federação que não é reagente à antimatéria quando exposto a um campo eletromagnético (EM) de alta freqüência na faixa dos megawatt, tornando-o “poroso” ao anti-hidrogênio. Ele passa diretamente por sua estrutura cristalina sem tocá-la, devido ao efeito de dínamo criado pelos átomos de ferro adicionados.


Einstein e o warpdrive

Mas de onde veio a ideia de dobrar o espaço-tempo para viajar mais rápido que a luz, afinal? Bem, ela se baseia na teoria da relatividade geral, proposta por Albert Einstein em 1915.

Einstein descobriu que grandes massas criam curvaturas no espaço-tempo, concentrando não só massa e energia, mas também o tempo. O universo tem três dimensões de espaço mais o tempo. Não podemos ver a curvatura do espaço-tempo, mas podemos facilmente detectá-la usando uma caneta laser comum. A trajetória descrita pelo laser (e de fato por qualquer facho de luz) mapeiam o espaço-tempo local.

"Spacetime curvature". Licenciado sob CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Einstein descreve a dinâmica da relatividade geral através de um conjunto de equações de campo. Podemos ver de relance essas equações numa cena de Star Trek: O Filme quando o sr. Spock ajuda a equipe de engenharia a consertar uma anomalia no motor de dobra. E o que essas equações dizem? Basicamente, que a presença de massa e energia numa região do espaço altera a própria geometria do espaço, mas também que a geometria local do espaço diz à matéria e à energia como podem se mover.

A dobra espacial seria, portanto, uma forma de aplicar uma determinada força que poderia criar um tipo de ponte entre os extremos desta curvatura, "dobrando" o espaço para encurtar as viagens entre um ponto A e B. A relatividade nos diz que a velocidade da luz é o limite absoluto de velocidade em nosso Universo para qualquer objeto que tenha uma massa real. Quando um corpo se aproxima da velocidade da luz, mais e mais da energia fornecida ao corpo para continuar acelerando aparece sob a forma de inércia adicional, ou seja, fica mais difícil de acelerar.

As leis de Newton consideram que tempo e espaço são os mesmos para os diferentes observadores de um mesmo fenômeno físico. A teoria da relatividade considera que o tempo é relativo para o observador dependendo da velocidade com a qual um corpo se move. A ideia por trás do motor de dobra não é superar a velocidade da luz postulada pela relatividade especial (também chamada de relatividade restrita), que é um limite intransponível, mas superar a velocidade da luz postulada pela relatividade geral usando a curvatura do espaço-tempo sugerida pela própria relatividade geral.


Assim, em vez de dizer que nada pode viajar mais rápido que a velocidade da luz, precisamos dizer que nada pode viajar mais rápido que a luz localmente. Isso significa que nada pode viajar mais rapidamente que a luz em relação a sistemas de referência locais. Porém, se o espaço é curvo esses marcos de referências locais não precisam ser globais e, possivelmente, este limite pode ser superado. Embora a relatividade especial proíba objetos de se moverem mais rapidamente que a luz dentro do espaço-tempo, desconhecemos o quão rapidamente o próprio espaço-tempo pode se mover.


A Propulsão Alcubierre

O físico mexicano Miguel Alcubierre propôs, em 1994, um método de alongamento do espaço em uma onda que, em teoria, poderia fazer com que o tecido do espaço à frente de uma nave espacial se contraia, enquanto que o tecido que está atrás da nave se expanda. A nave, desta forma, se deslocaria "surfando" esta onda dentro de uma região conhecida como "bolha de dobra" onde as características normais do tecido espaço-tempo se manteriam inalteradas e os passageiros da nave não sofreriam envelhecimento ou danos.

Modelo proposto por Alcubierre.

Para entender melhor a teoria de Alcubierre, vejamos a imagem acima:

1. A dimensão vertical representa o quanto um determinado volume de espaço-tempo se expande ou se contrai no modelo de Alcubierre. Os valores positivos (em vermelho) implicam uma expansão.
2. No interior da bolha, o espaço-tempo neutro deixaria a nave livre de perturbações. Os passageiros experimentariam um ambiente calmo de gravidade zero.
3. Os valores negativos (em azul) implicam uma contração no espaço-tempo. Esta contração equilibraria a expansão do espaço-tempo, da mesma forma como uma bolha se move pra frente.

Se o espaço-tempo pode ser dobrado localmente de maneira que se expanda atrás de uma nave e se contraia à frente dela, então a nave será impulsionada junto com o espaço que a contém. Localmente, a nave nunca viajaria mais rápido do que a luz, porque a luz também será impulsionada junto com a onda de espaço em expansão. Mas, globalmente percorreria distâncias incrivelmente grandes em pequenos intervalos de tempo. Está aqui a chave para o motor da Enterprise.

O problema: esse tipo de manipulação do espaço-tempo requer o uso de “matéria exótica” e “energia negativa”, que são coisas que a física atual desconhece. Ainda é possível? Talvez. Ou talvez o segredo para a propulsão de dobra esteja escondido na formulação quântica da gravidade, ou ainda alguma outra coisa que sequer imaginamos hoje. Quem viver verá!

ENGAGE!

Até mais!



Leia mais:
Velocidade de dobra pode ser possível, dizem físicos
USS Venture
Motores de impulso
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Resenha: Jogador Número 1, de Ernest Cline

Demorei muito para ler esse livro por um motivo bem simples: como o Jovem Nerd tinha indicado e disse que era maravilhoso, logo assumi que era o Tratado do Nerd Punheteiro e deixei de lado. Dito e feito. Li o livro e tudo o que eu imaginava que seria estava por lá. Existem altas referências à cultura pop, nerdices e games, um prato cheio de conhecimento e informação, mas é só também.





O livro

Em 2044, a vida no planeta se tornou ainda mais difícil. Guerras constantes, os recursos naturais foram exauridos, a vida é dura para as pessoas pobres, vivendo à margem, em favelas e casas comunitárias. Assim é a vida de Wade, um adolescente que consegue computadores e outros equipamentos retirando do lixão e consertando. Desde que sua mãe morreu, foi obrigado a morar com uma tia que só o tolerava por causa do cheque que vinha todo mês.


A vida só é mais suportável por causa do OASIS, uma plataforma de jogos online onde as pessoas podem assumir os mais variados avatares e até estudar, como faz Wade. O OASIS foi criado por Jamie Halliday, um gênio da computação, nerd de carteirinha. Porém, Halliday faleceu, deixando um mundo atônito com um desafio deixado para qualquer pessoa que quisesse se tornar milionária: ele escondeu um ovo no OASIS. Quem o encontrar primeiro ficará com sua fortuna de 240 bilhões de dólares, mais o controle do OASIS. Começa uma corrida contra o tempo, a imprensa fica em polvorosa. Surgem especialistas em Halliday, em cultura nerd, mas depois de cinco anos a busca pelo ovo acabou virando uma piada.

Wade Watts é um dos caçadores de ovo. Garoto pobre, 17 anos, terminando a escola. O OASIS é sua forma de escapar do mundo cruel em que vive. Seus amigos, seus jogos, seus estudos, está tudo lá dentro. Como nunca tem dinheiro, não pode viajar para outros mundos dentro do OASIS. Ele passa o tempo lendo, jogando, vendo filmes, séries e ouvindo música que Halliday gostava, tudo na tentativa de encontrar o ovo.

Mas aí seu nome fica famoso. Ele encontra a primeira pista. Assim que o placar online mostra seu nome, uma corrida perigosa começa. Até amigos começam a desconfiar um do outro. Perigos tanto reais quanto virtuais se aproximam de Wade, que acaba tendo que fugir dos trailers onde mora quando tentam matá-lo. Surge então o inimigo número dos caçadores de ovos: a IOI, empresa concorrente que quer achar o ovo para controlar o OASIS e assim botar a mão na grana de Halliday.

Se você curte referências nerds sobre games, filmes, séries, e tudo o que se refira aos anos 80, se joga nesse livro. Eu me diverti com as informações coletadas na pesquisa do escritor e vários fatos e curiosidades sobre o período e sua cultura. Isso é o que tem de mais legal no livro. Foi um grande esforço para recolher tantas informações geniais sobre um período tão rico.

Agora vamos para as partes ruins. Houve momentos em que o autor discorria tanto, mas tanto sobre tecnologia, isso e aquilo, que eu fiz leitura dinâmica, passei os olhos por cima e prossegui para a próxima página. Wade sabe tudo, entende tudo, já jogou tudo e mesmo as mancadas que ele dá, ou as justificativas que dá para saber tudo aquilo não convencem. As mancadas não o prejudicam, ele tem plano para tudo. As longas explicações que dá para qualquer coisinha são profundamente irritantes, reforçando o estereótipo do nerd que tem que saber o número do seguro social do dublê de Patrick Stewart em Star Trek Nemesis. Se não souber isso, você não é nerd o suficiente, especialmente se for mulher.

É claro que esse nerd é gordo, é claro que é antissocial, é claro que é punheteiro e que tem um crush mal resolvido. Como eu disse no começo da resenha, este livro é o Tratado do Nerd Punheteiro, com direito a todos os estereótipos já conhecidos. O nerd era mal visto, concordo. Talvez 15 anos atrás este livro fosse endeusado como sendo o momento da vitória. Mas não. As pessoas podem ser nerds, podem não ser, podem gostar do que quiser. Ao menos um ponto positivo foi a de não ver Wade se lamentando de ter ficado na ~~~~friendzone~~~~ ideia esta tão ridícula e fantasiosa quanto a de exigir carteirinha de milhas de moça nerd.

Por mais assustadora e dolorosa que a realidade possa ser, é também o único lugar onde se pode encontrar felicidade de verdade. Porque a realidade é real. Entendeu?

Halliday


Ficção e realidade

Um mundo distópico com exaurimento de recursos naturais não é tão absurdo quanto parece. Já temos visto o que a falta d'água tem feito em algumas cidades tanto pelo mundo quanto no Brasil. É um risco real.

A forma com que os personagens se utilizam do OASIS para fugir dessa realidade terrível não é tão diferente dos nossos perfis nas redes sociais e nas conversas, tuítes, curtidas e check ins que damos nelas. A diferença é que a imersão ainda não é total como no caso do OASIS. Tirando o resto temos nossos amigos virtuais, salas de bate-papo, perfis e fotos para compartilhar.


Ouvimos música, vemos filmes e séries, relembramos os tempos da infância e adolescência através da rede. Não é tão diferente do mundo de Wade, certo? Mas tem uma coisa que o próprio Wade percebe. Ele se isolou tanto da sociedade em um determinado momento que chegou ao extremo de ter uma roupa especial que recolhia seus excrementos só para não sair do OASIS. E sabemos que existem pessoas já viciadas em smartphone, redes sociais e games.


Pontos positivos
Nerdismo
OASIS
Cultura pop

Pontos negativos

Nerd punheteiro
Deus ex machina


Título: Jogador Número 1
Título original: Ready Player One
Autor: Ernest Cline
Editora: Leya
Páginas: 464
Ano de lançamento: 2011
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

O livro tem suas partes legais. As referências à cultura pop, aos anos 80. Nota-se que foi uma pesquisa bem feita. Só que o personagem não apresenta nada de novo. Ao contrário, tem mais do mesmo no que se refere a estereótipos e reforça uma cultura do nerd obcecado sem vida social que tem paixão platônica. É algo tão previsível quanto o final. Se quiser ler, fique à vontade.


Até mais!
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Quantas mulheres você leu?

Nem é uma pergunta difícil, certo? Mas para algumas pessoas é sim. Ler livros escritos por mulheres acaba sendo uma afronta a um mercado dominado por autores homens e brancos, heterossexuais, que contam e recontam seus dramas. Mas e as mulheres? Onde estão os livros delas? Por que elas são quase invisíveis?





Muitas vezes a gente pode dizer que vive um Paradoxo de Tostines na literatura. Já vi gente dizendo que não lê livros escritos por mulheres porque sempre são livros com romance ou erotismo, como se isso fosse algo muito ruim. Ou então que livros para mulheres sempre são "sensíveis demais", outra coisa que também não é ruim.



Quem lê mais ficção científica que qualquer outro gênero também sofre em encontrar livros escritos por mulheres. No Brasil temos poucas e corajosas mulheres escrevendo no gênero, ainda que em editoras menores e de menor expressividade nas livrarias. Livros traduzidos também chegam, especialmente no ramo de young adult e juvenil. E só. Se o livro lá fora não ganhou algum mega prêmio de literatura dificilmente vai chegar por nossas terras. Ancillary Justice, de Anne Leckie, que foi anunciado pela editora Aleph, só ganhou tradução por ter ganhado o prêmio Hugo. Octavia Butler também ganhou e nunca ganhou tradução.

Arte de Charlie Bowater. 

Vemos menos mulheres indicadas a prêmios de literatura, menos mulheres editoras, menos mulheres organizando e participando de eventos literários, sendo que compomos a maioria dos leitores de ficção. Mulheres acabam sendo sub-representadas nos enredos e também no mercado. Esse machismo passa como algo natural, como se a escrita da mulher fosse voltada para mulheres apenas, chick-list, enquanto o que é escrito pelos homens é "universal".

Há no meio editorial a ideia de que toda autora quer ser Clarice Lispector, oferecendo um tipo de pastiche clariceano odiado pelo público. Com um número tão inferior de mulheres publicadas, é natural que elas sejam menos contempladas nas premiações.

Luciana Villas-Boas, ex-diretora editorial da Record

Onde elas acabam crescendo: nos gêneros e sub-gêneros que o público "culto" e chato odeia, como a literatura juvenil, erótica e young adult. O filtro de publicações deixa de fora mulheres que não se enquadrem nestes círculos. Logicamente, não há nada errado em escrever nestes nichos, mas nós escrevemos em outros lugares e cenários que acabam desconhecidos. Quantas mulheres escritoras de space opera você conhece?

Tanto as personagens femininas quanto as autoras mulheres são mais criticadas do que livros de autores homens e personagens homens. Um exemplo é que a maioria dos protagonistas do John Green são extremamente parecidos, mas quase ninguém fala como se isso fosse algo negativo, enquanto vivem reclamando que todas as protagonistas de literatura YA são iguais como um modo de desvalorizar esse tipo de livro.

Dana Martins - Conversa Cult

Muitas mulheres, por anos, tiveram que ocultar seus gêneros para poderem ver seus livros publicados. Isso as tornaria mais sérias e deixaria seus livros nulos de gênero para não desagradar o público leitor. Frases como "você escreve como homem" também são bem comuns na vida da mulher que escreve. A escritora é constantemente alvo de críticas, obrigada a explicar o funcionamento de seu enredo, de não fazer uma personagem muito parecida com ela, enquanto homens escrevem para e sobre si mesmos, admitindo isso com muito orgulho.


Catherine Nichols submeteu seu manuscrito para 50 agentes literários e recebeu apenas duas propostas de publicação. Quando reenviou o material com um novo email e um novo nome, desta vez de homem, ela recebeu 17 propostas. E os próprios comentários melhoraram, em especial sobre o protagonista, sobre o enredo em si.

A pergunta que nomeia o post permanece: quantas mulheres você já leu? Quantas autoras negras você conhece e leu? Fui olhar meu volume de resenhas e vi que mulheres são minoria. E isso porque eu me esforço para sempre buscar obras escritas por elas, mas na ficção científica qualquer minoria vem sendo empurrada para a obscuridade por movimentos como os dos Sad e Rabid Puppies. Elas são menos publicadas e traduzidas por aqui e aí ficamos mesmo com a impressão que mulheres não leem nem escrevem FC.

A literatura escrita por mulheres é tão boa e tão significativa quanto aquela escrita por homens, mas é bem provável que as capas desses livros sejam capas "de menininhas", com moças magras e brancas em cenários vintage, com tons pastel, flores e laços. Maureen Johnson comentou no Twitter que gostaria de ver pedidos para capas femininas em que não houvesse esses estereótipos e chamou os seguidores para comporem capas alternativas para livros já conhecidos. Dois exemplos estão abaixo.

Capa original, esquerda, capa da direita se a autora fosse homem. 

Capa original, esquerda, capa da direita se o autor fosse mulher. 

Ler mulheres é uma afronta. Afronta a um mercado dominado por homens, seus livros, dramas e romances. E alguém pode até se questionar "mas você quer me obrigar a ler um livro escrito por mulher??". Eu quero que você pense porque isso parece tão absurdo e desconstrua o preconceito. E não quero que o #leiamaismulheres seja só um projeto bacana para postar foto no Instagram. Quero que você leia mulheres pensando que elas podem escrever coisas boas, que têm coisas pra contar e que encare a literatura como um espaço para todos, não apenas para um modelo. Ler mais mulheres não deveria ser um projeto, deveria ser algo corriqueiro.

Até mais.


Leia mais:

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Lady Sybylla
Geógrafa, professora, mestra em Paleontologia. Fã incondicional de ficção científica e cadete da Frota Estelar.

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