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Resenha: Vestígios da Terra, de Beth Revis

A jornada de Amy e Elder chega ao fim. O destino da Godspeed e da população é incerto, mas eles têm o direito de decidir o que fazer agora que estão livres do controle exercido pelos líderes anteriores. Beth Revis termina sua trilogia com um livro intenso e cheio de surpresas, uma ótima pedida para os fãs de ficção científica.





Se você não quer spoilers sobre os outros livros, não leia esta resenha, que é a última sobre a trilogia. Infelizmente, eles são necessários.


O livro

Amy e Elder estão ansiosos. Eles, mais metade da tripulação, mais suprimentos e mais os congelados, estão na nave auxiliar sob a Godspeed, criando coragem para descerem e deixar para trás o restante da tripulação. A nave estava de fato parada. Mas Terra-Centauri estava ali embaixo o tempo todo. A pergunta era: por que a tripulação não desceu? Por que o sistema controlador de Eldest se manteve por tantas gerações?


A descida não foi suave. A nave quase se espatifou no chão e tem gente morta ou ferida no compartimento de carga. Apesar de seu funcionamento ser praticamente automático, a nave tem mais de 300 anos de idade e nem tudo ali está em perfeito funcionamento. Assim que estão estabilizados no chão, Amy corre para o compartimento criogênico e começa a tirar os cem tripulantes congelados de seus esquifes, incluindo seus pais. Elder não sabe dizer se isso é prudente, já que ele desconfia destas pessoas nascidas na Terra e que são militares, mas sabe que Amy precisa dos pais.

O pai de Amy é um poderoso coronel, sua mãe uma cientista. Eles parecem surpresos por reencontrar Amy, mas ficam muito felizes de vê-la. Logo que acorda, seu pai assume o comando da missão, mas percebe que tem algo de errado. Não compreende tudo o que aconteceu na Godspeed, pois para ele todo aquele tempo não passou, ele esteve adormecido. Amy é que tem que agir como uma ligação entre o povo de Elder e seu próprio povo, e uma cissão surge na população tão logo eles precisam conviver juntos. Precisando evacuar a nave, todo mundo se vê em um ambiente estranho, onde existem flores tóxicas e animais esquisitos. Além disso, fica uma questão: estão mesmo sozinhos naquele planeta? Se sim, então por que tem pessoas sendo mortas?

Beth criou um ambiente familiar, mas ao mesmo tempo diferente. Os mistérios vão se descortinando aos poucos, deixando o leitor meio que desesperado, às vezes esperançoso e também completamente irritado em alguns momentos. Você passa por picos emotivos durante a leitura, o que é ótimo. Os personagens continuam irritantes, múltiplos, humanos, mesmo aqueles que parecem esconder algo terrível. O planeta guarda muitas surpresas para a população e você pensa, com pena, a respeito da Godspeed e imagina se tudo não teria sido diferente para eles caso a ganância humana não interferisse. Cerca de 300 anos de diferença existem entre as pessoas ali, e lidar com as diferenças não é nada fácil. A autora conseguiu, até certo ponto, forçá-los a conviver, pois se não colaborassem, nunca sobreviveriam.


Ficção e realidade

A primeira coisa a se notar é o desespero de algumas pessoas que estavam livres das paredes da nave pela primeira vez na vida. Um céu azul de ofuscar e um horizonte que parece infinito para quem conheceu limites o tempo todo pode ser bastante opressivo, assim como o contrário também é, o que explica o medo de Amy de permanecer à bordo de Godspeed. Uma população que permaneceu isolada e fechada em uma nave por gerações teme o espaço aberto e teme não se adaptar a ele, mas a sobrevivência precisa falar mais alto.


Terra-Centauri não é o que ninguém esperava. Nem eu. E imagino que a exploração espacial seja assim também, ainda mais se for possível empreender uma viagem como aquela feita pela Godspeed. Colonizar planetas não é apenas se instalar em sua superfície, é reproduzir modos de vida, credos, política e sociedade. Acredito que o trabalho de psicólogos à bordo terá que ser redobrado para tentar apaziguar uma tripulação que esteja nesta situação e conflitos certamente existirão.


Pontos positivos
Protagonista feminina
Viagem para outro planeta
Engenharia genética

Pontos negativos
Final em aberto
Elder é e continua um mala
Algumas cenas longas demais

Título: Um Milhão de Sóis
Título original: A Million Suns
Série: Através do Universo
1- Através do Universo (2012)
2- Um Milhão de Sóis (2013)
3- Vestígios da Terra (2014)
Autor: Beth Revis
Editora: Novo Século
Páginas: 416
Onde comprar: Grandes livrarias



Avaliação do MS?

Tive a impressão que essa trilogia terá sequência, mas por enquanto, aqui temos o fim de uma excelente trilogia espacial, com personagens múltiplos e profundos, com uma nave moribunda e um planeta misterioso. Temos todos os conflitos humanos esperados para um ambiente tão restrito e para uma missão tão longa. Fica aqui uma forte recomendação para que você leia toda a trilogia. Quatro aliens para Vestígios da Terra.


Até mais!
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Suspensão da descrença

Quem lê o blog há mais tempo sabe que eu critico muitas coisas dentro da ficção científica. De estruturas narrativas a clichês, o gênero não é perfeito, mesmo sendo, para mim, o mais completo. Também crítico as críticas vazias que em nada acrescentam à FC, apenas desvirtuam sua produção e sua capacidade de nos entreter. Ou o fã viaja com a ficção, ou ele não entendeu seu propósito.





Quando lemos um livro de fantasia ou de ficção científica, ou vemos um filme, série, temos contato com alguma produção artística deste tipo, somos levados a acreditar nesta realidade alternativa. Nós nos permitimos iludir pelo enredo, mas ele deve ter seus limites, ele deve ser crível. No caso da fantasia, não tem tanto problema. O problema começa na ficção científica. O roteirista ou escritor precisa percorrer caminhos tortuosos para chegar a cenários que, mesmo tendo sua parcela de viagem na maionese, pareça ser real e autêntico para a plateia que se deixa levar por ela.

E qual seria a graça, por exemplo, de Star Wars e suas poderosas batalhas espaciais sem o som das explosões? É, sabemos que o som não se propaga no vácuo, mas nos permitimos um momento de ignorância para apreciar a batalha contra o Império. Também nos permitimos ignorar que a gravidade em outros corpos celestes pode não ser a mesma que a da Terra, mas ainda assim os heróis andam normalmente em corpos celestes menores.


Isso se chama suspensão da descrença. É quando um leitor ou espectador aceita como verdadeiras as premissas de um trabalho de ficção. Sejam impossíveis, contraditórias ou fantásticas, ela nos mostra cenários e acontecimentos com a premissa do entretenimento. É assim que agimos com explosões no espaço ou invasões alienígenas, com robôs do mal ou robôs do bem, com epidemias zumbis ou terra oca. Nós nos deixamos levar para nos entreter ou nos fazer pensar. A ideia original, de Luciano de Samósata, poeta satírico, encontra-se na introdução de seu livro Uma História Verdadeira. Após mencionar outros autores que contaram mentiras, ele completa que também é um mentiroso e pede, humildemente, ao leitor que seja um incrédulo. Samuel Taylor Coleridge, poeta inglês, trouxe de volta a ideia em 1817.

Quando temos um cenário como o da trilogia Divergente, com a população fixada em facções, de onde só podem sair ou não aos 16 anos na seção de escolha, temos que esquecer que isso é um cenário que não parece plausível para poder entender a crítica e a construção da lógica da autora. Por trás deste papo de facções e da imobilidade social estão histórias de pessoas que não se encaixam em apenas um lugar, que não se contentam em ser apenas uma coisa. Trata de contradições profundas que atingem o espectador e leitor atentos.

Cena do filme Divergente.

Para que o leitor e/ou expectador aceite este cenário como verossímil, o escritor ou roteirista deve criar um mundo capaz de sustentar a ilusão. Deve ser algo crível, que seja capaz de sustentar o enredo, que não pareça ilógico ou impossível demais para acontecer. Em ficção científica nem sempre isso é simples, pois não basta jogar conceitos e teorias no enredo e esperar que as pessoas acreditem naquilo. É por isso que os filmes 2012 e Núcleo, Viagem ao Centro da Terra, foram um fiasco. Eles falharam em adotar um enredo que fizesse a plateia acreditar no que estavam mostrando.

Toda obra vai acabar datada em algum momento. A tecnologia avança a passos largos e todo dia mostra coisas novas. O computador que era uma excelente máquina há dois anos já está datado. O smartphone com um ano de uso já se mostra ultrapassado diante das opções do mercado. O carro 2015 já é melhor que o 2014 (e mais caro também). É natural que as coisas acabem. Mas uma ideia, um conceito, uma crítica, uma realidade que nos leve a pensar... isso é algo que não envelhece, que não sai de moda e que não fica datada.

Se pegarmos obras de Asimov, Heinlein, Bradbury, Clarke, Lem, veremos que muitas coisas ali ficaram datadas. Recomendo fortemente que qualquer fã de FC sempre retorne aos clássicos, entretanto algumas pessoas parecem largar a leitura, achando-os chatos e empoeirados, preferindo algo mais recente. Sabemos hoje que Marte não possui civilizações avançadas em sua superfície, mas Bradbury não falou de marcianos em suas crônicas. Ele usou esta alegoria para criticar a raça humana e seu comportamento diante do que é diferente e de quando está sob pressão. Você pode trocar Marte por Qo'Nos e a crítica será a mesma.


É aí que mora a mágica da ficção. É manter a crítica viva. Olhe para os grandes blockbusters nas salas de cinema, veja quantos deles estarão datados em pouco tempo, trapaceando e roubando a atenção dos espectadores por duas horas de efeitos especiais. Agora pegue uma obra como Admirável Mundo Novo, Divergente, 1984, O Homem Bicentenário, e veja como suas críticas e estrutura de enredo se mantém atuais. Ao entender o conceito por trás destes mundos, a obra se mantém atual. Não importa se os robôs de Asimov parecem datados diante do mundo atual de drones. O que ele critica em suas obras mudou?

Não podemos datar obras e achar que os autores trapacearam simplesmente porque eles não conseguiram prever o futuro. Ficção científica não tem a menor obrigação de prever nada. Se ela conseguiu vislumbrar certas tecnologias, ótimo. É sinal que seus autores conseguiram concatenar as ideias vigentes em sua época, junto com a tecnologia também da época. Eles souberam ponderar o que era possível e o que não era possível e acabaram acertando. Mas quantos outros erraram o futuro e ainda assim estavam certos em suas críticas? É isso que devemos buscar na ficção científica, não ficar comparando qual robô é mais avançado ou não.

Até mais!
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Racismo e o astronauta no passado

Eu evito muito, mas muito mesmo, em tocar no assunto do astronauta no passado devido ao furor com que os fãs de Daniken (que apelidei de daniketes) chegam aqui para me agredir. Até torceram para que, um dia, eu fosse "abduzida" por ser uma "descrente" sobre a "teoria" do alienígena ou astronauta no passado. Mas existem fatos em todo esse imbróglio que são difíceis de ignorar.





A ideia do astronauta no passado não me desce por um motivo muito simples: porque ela reduz o ser humano a um mero lacaio burro de alienígenas benevolentes e empilhadores de pedras, que "criaram" a humanidade e depois sumiram sem deixar vestígios críveis e legítimos. Ou seja, toda a força do intelecto, do braço e da boa vontade da raça humana passam longe diante da magnificência dos alienígenas que tinham capacidade de viagem interestelar, mas precisavam de plataformas de pedras e desenhos no chão para poderem pousar. A meu ver, o astronauta no passado não é uma teoria, mas uma verdadeira seita e se você fala algo ao contrário, os ataques começam.

Elizabeth Taylor como Cleópatra espalhou a ideia de que a grande rainha era mais europeia do que africana.

Quando li Eram os Deuses Astronautas? ele realmente impressiona, mas não se sustenta. Erik Von Daniken é apenas um escritor que abusa do sensacionalismo para tornar suas afirmações mais críveis. Não são poucas as afirmações dele que foram derrubadas pela arqueologia. E também não são poucos os processos que Daniken já sofreu, inclusive por falsidade ideológica e fraude. Daniken não responde a nenhuma pergunta, ele não consegue provar nenhuma hipótese. Ele mesmo já disse que é indiferente à verdade e que só escreve histórias fantasiosas para fazer dinheiro. E fez muito.

Seguindo o princípio de que o ser humano é um lacaio burro de aliens, fica assim bastante fácil dizer que povos como os antigos egípcios, ou os maias, incas e astecas, ou o povo do Zimbábue eram incapazes de construir suas magníficas civilizações. E pode reparar que estes povos têm algo em comum: não são brancos. Na verdade, falar de um Egito Antigo com reis e rainhas negros parece causar urticária em algumas pessoas. No entanto, nunca vi alguém dizer que o Coliseu, a Muralha de Adriano, ou o Partenon foram construídos por aliens.

Cleópatra, por exemplo, foi retratada no cinema sempre como branca, de porcelana, olhos azuis. Mesmo o ramo de Ptolomeu, a casa de Cleópatra, sendo macedônia, o próprio povo do mediterrâneo não é porcelanado de olho azul e já existem dados indicando que parte de sua descendência vem da África. Toda a realeza egípcia, inclusive das dinastias mais antigas, é ainda retratada como branca, porque parece um absurdo admitir que uma das maiores civilizações do planeta, que já era considerada antiga pelos próprios gregos, tidos como os "fundadores" da civilização, pudesse ser negra. Quem quiser se aprofundar nisso, procure pelo escritos de Cheikh Anta Diop. Em geral, os negros ficam relegados aos papéis secundários nas produções de cinema. Se você acha um absurdo isso, clique aqui e veja o elenco do novo filme de Ridley Scott e veja quem são os ladrões e quem é a realeza egípcia, incluindo Moisés, a Rainha Tuya e o próprio Ramsés.

Quetzalcoatl.

Exemplos desta "branquização" estão por aí. José do Egito, da rede Record, tem apenas atores brancos nos papéis principais, bem como outras produções de época. Basta assistir ao filme Cleópatra, com Elizabeth Taylor e procurar pelos negros. Eles, em geral, estão em posições subalternas ou até mesmo escravos.

Um dos exemplos mais escandalosos de tentar rebaixar povos do passado ou de retratá-los como brancos é sobre o mito do deus Viracocha. Nas aulas de história das Américas, no ensino médio, eu aprendi que os incas receberam os espanhóis muito bem, pois eles pareciam com seu deus Viracocha, brancos e de barba. Cronistas espanhóis do século XVI disseram que Francisco Pizzaro foi bem recebido pelos nativos devido à sua pele clara e barbada, que lembrava a descrição do seu principal deus. Pedro Cieza de León, em 1553 foi o primeiro a relatar isso e mais tarde Pedro Sarmiento de Gamboa fez o mesmo. Histórias semelhantes de outros cronistas descrevem Viracocha como um deus branco, barbado. Os relatos dos próprios povos nativos não fazem menção alguma à descrição de seus deuses como semelhantes aos conquistadores.

Situação semelhante aconteceu com os astecas e com seu deus Quetzalcoatl e diversas outras divindades das Américas Central e do Sul. Por muito tempo se sustentou a ideia de que a barba representava um papel central na mitologia destes povos, pois os ligaria à pré-história europeia, de onde teriam partido os primeiros habitantes das Américas, que posteriormente ficaram conhecidos como seus deuses. Povos nativos das Américas, em geral, não têm barba, mas a cultura Moche, no Peru, e sua famosa cerâmica é toda retratada com barba, isso bem antes da chegada dos espanhóis. E quando os padres Silvestre Vélez de Escalante e Francisco Atanasio Domínguez entraram em contato com a cultura Paiute, ambos relataram que:

"Some of the men had thick beards and were thought to look more in appearance like Spanish men than native Americans"
Alguns homens tinham barbas finas e pensamos que eles se pareciam mais com espanhóis do que com americanos nativos.

Cerâmica Moche, mostrando homens barbados.

Como se isso não bastasse, voltemos ao caso de Daniken, onde ele "disserta" sobre as origens "raciais" do ser humano em seu livro Signs of the Gods. A tradução eu fiz livremente, pois não encontrei o livro em português.

“The evolutionists say that man descends from monkeys. Yet who has ever seen a white monkey? Or a dark ape with curly hair such as the black race has?”
Os evolucionistas dizem que o homem descende dos macacos. Mas quem já viu um macaco branco? Ou um macaco negro com cabelo enrolado como a raça negra tem?

“Were the extraterrestrials able to opt between different races from the beginning? Did they endow different human groups with different abilities to survive in different climatic and geographical conditions?”
Eram os extraterrestres hábeis em optar por diferentes raças desde o começo? Eles teriam dotado diferentes grupos humanos com diferentes habilidades para sobreviverem em diferentes condições climáticas e geográficas?

”Today it is assumed that primitive men had dark skins.”
Hoje assume-se que os homens primitivos tinham pele escura.

“Was the black race a failure and did the extraterrestrials change the genetic code by gene surgery and then programme a white or a yellow race?”
Teria sido a raça negra uma falha e os extraterrestres mudado o código genético por cirurgias genéticas e, então, programado uma raça branca ou amarela?

“Nearly all negroes are musical: they have rhythm in their blood.”
Quase todos os negros são musicais: eles têm ritmo em seu sangue.

“I quite understand that I am playing with dynamite if I ask whether the extraterrestrials ‘allotted’ specific tasks to the basic races from the very beginning, i.e. programmed them with special abilities.”
Entendo que estou brincando com dinamite se questiono se os extraterrestres atribuíram funções específicas desde o começo, i.e. os programaram com habilidades especiais.

“I am not a racialist… Yet my thirst for knowledge enables me to ignore the taboo on asking racial questions simply because it is untimely and dangerous… why are we like we are?
Eu não sou racista... Mas minha sede pelo conhecimento me permite ignorar o tabu ao fazer questões raciais simplesmente por ser inoportuna e perigosa... por que somos como somos?

“Once this basic question is accepted, we cannot and should not avoid the explosive sequel: is there a chosen race?”
Uma vez que a a pergunta foi aceita, não podemos nem devemos evitar sua explosiva consequência: existe uma raça escolhida?

Hernan Cortes e a conquista do México. 

Já ouvi de muitas pessoas que eu devia ser mais "mente aberta" para a ideia do astronauta no passado, pois é perfeitamente "plausível" que os aliens tenham vindo para cá e auxiliaram o ser humano a construir a civilização. Para a ficção científica é sim muito plausível, Stargate taí que não me deixa mentir. No entanto, sinceramente, acreditar que somente alguns povos da antiguidade eram capazes de construir monumentos impressionantes, enquanto outros - especialmente europeus - não são acusados de conspiração com aliens em suas construções é um exemplo de racismo científico e preconceito contra os povos nativos. Eu também ouvi na escola que os indígenas eram, "naturalmente", preguiçosos e vagabundos e no filme Dança com Lobos acontece um diálogo igual enquanto o personagem de Kevin Costner vai para seu posto na fronteira.

Este tipo de mito é danoso e ainda é o responsável pelos preconceitos que existem na sociedade para todos aqueles que não são caucasianos. Por várias vezes durante a história, pseudocientistas tentaram rebaixar as populações não-europeias com base em características físicas e/ou sociais. Para alguém que afirma que a raça negra foi um "erro", é um passo para afirmar que os aliens tiveram que dar uma forcinha para construir as pirâmides.

O próprio Carl Sagan teceu alguns comentários sobre Daniken, nem um pouco elogiosos.

Aquela forma tão descuidada de escrever como a de von Däniken, cuja principal tese é de que os nossos antepassados eram bonecos, ao ser tão popular é um comentário sobre a credulidade e desespero dos nossos tempos. Mas a ideia que seres de qualquer outro lado viriam salvar-nos de nós próprios é uma doutrina muito perigosa - semelhante ao do médico charlatão cujos tratamentos impedem que o cliente procure um médico competente para o ajudar e, quem sabe, talvez curar a doença.

Carl Sagan, no prefácio de The Space Gods Revealed

O desespero dos nossos tempo também tem uma explicação. Darwin nos tirou de "sua imagem e semelhança" com Deus e Copérnico tirou a Terra do centro do universo. Se nossos deuses e religiões deixam de responder às questões mais fundamentais da civilização - de onde viemos, qual nossa posição no universo - a melhor saída para isso é procurar respostas em outro lugar. E os alienígenas visitando a Terra, alterando o código genético, selecionando raças para serem dominantes e auxiliando aquelas que não eram tão hábeis se encaixa como uma luva.

Como artifício de ficção especulativa, não tenho problemas. Mas tentar fazer isso se encaixar na arqueologia, desmerecendo a ciência séria por alegações sensacionalistas de um programa de TV e de um charlatão é demais para a cabeça. As pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem, mas não aceitem isso pronto, mastigadinho. Daniken teve seu apelo em mim na época em que li Eram os Deuses Astronautas?, porém com pouca pesquisa é fácil perceber que ele não tem noção do que está dizendo e que o programa do History não passa de entretenimento barato e bastante falho, com alegações fabricadas para caberem na fala dos "especialistas".

Até mais!



Leia mais:

"Leading Expert on UFOs" Nick Pope: Ancient Astronaut Theory "Borderline Racist"
The Astonishing Racial Claims of Erich von Daniken
Is pseudoarchaeology racist?
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10 Arguments That Prove Ancient Egyptians Were Black
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Resenha: Um Milhão de Sóis, de Beth Revis

O segundo livro da trilogia de Beth Revis retorna à nave Godspeed para mostrar o que aconteceu a Amy e Elder na nave-mundo que se dirigia para outro sistema solar. Nem tudo aqui é respondido, mas os protagonistas precisam lidar com o caos, as dúvidas e ainda tem que descobrir se a missão da nave falhou ou não.





Se você não leu o primeiro livro, pode ter spoilers nesta resenha.


O livro

Amy está acordada há três meses. E ela ainda não consegue se adaptar às paredes da nave Godspeed. A nave a oprime. Tudo nela a oprime. Sua chuva falsa, a ausência de um céu, tudo ali é falso. As pessoas não sentem falta de um planeta porque nunca viveram em um. A nave e seus ambientes controlados são tudo o que eles conhecem. Controle é tudo o que eles conhecem.


São 2.298 passageiros na nave, sem contar os cem adormecidos no setor da criogenia, incluindo os pais de Amy. Elas os visita com regularidade, sentando ao lado de seus esquifes de gelo, enquanto pensa no que fazer. O composto colocado na água, o Phydus, e que controlava a população para serem facilmente governadas foi removido e Elder, o líder treinado para cuidar da nave e do povo. No entanto, agora que seu povo pode experimentar a liberdade de pensar e de agir pela primeira vez, o sistema começa a ruir. Os questionamentos sobre a legitimidade de Elder no poder surgem e a fome e a violência também.

Enquanto isso, existe um mistério a respeito deste sistema há tanto tempo implantado e a localização da nave. No primeiro livro, Eldest, o líder mais velho que vinha treinando Elder, disse que demorariam ainda muitos anos para chegar a Terra-Centauri. Já a equipe da ponte disse que a nave estava parada. Então onde diabos estavam? Por que não estavam se mexendo? O que houve com o motor e o que houve tantas gerações atrás para que o sistema Elder fosse implantado para controlar a população?

O livro traz muitas reviravoltas. Parece que ninguém está seguro e que a viagem nunca terá fim. Além disso, os personagens podem ser irritantemente reais e próximos, como se fossem pessoas de verdade. Elder tem que amadurecer muito para ser considerado um líder de seu povo, tem que descobrir quais segredos estão escondidos pela nave e porque estão parados. Tem que vencer a apatia e tentar seguir com a vida ao descobrir que ela é, grande parte, uma mentira. Amy tem que lidar com a ansiedade e com os perigos a ela impostos já que a população monoética de Godspeed não conhece alguém de etnia tão diferente quanto ela, com sua pele branca e seus cabelos ruivos.


Acho que a Novo Século pecou com o título. Ao invés de Um Milhão de Sóis, ela poderia ter colocado Um Milhão de Estrelas. Sol é o nome da nossa estrela central, então por que nomear as outras de sóis?

Ficção e realidade

Uma coisa que o livro me fez pensar é sobre como controlar conflitos que, certamente, existirão em um ambiente fechado por gerações. Além da incerteza de não saber onde se está, o que vai acontecer com eles, se a nave vai perdurar mais por tanto tempo... São muitas as questões trabalhadas por Beth e mesmo o romance aqui não toma conta da narrativa o tempo todo como outros livros de YA fizeram. O tema aqui é sobre como sobreviver em meio a tantas adversidades. Uma população isolada em uma nave que está a tanto tempo no espaço e sem a certeza de chegar a lugar algum é certamente algo estressante demais para alguém aguentar. Não é de se estranhar que tantos conflitos surgiram na Godspeed e como as pessoas praticamente surtaram. Você quase pede para Elder retornar com o uso do Phydus para que as pessoas parem de morrer.

Mas controlar as pessoas com drogas não é a maneira certa de se governar. Me fez lembrar o Soma de Admirável Mundo Novo e como este era um recurso de controle. Beth fez uma ótima analogia em sua série de livros, mas pensando em um ambiente confinado e em como tornar as coisas mais fáceis para qualquer déspota maníaco controlar a população.

Pontos positivos
Nave-mundo
Protagonista feminina
Viagem para outro planeta

Pontos negativos

Elder é um mala em várias partes
Algumas cenas longas demais

Título: Um Milhão de Sóis
Título original: A Million Suns
Série: Através do Universo
1- Através do Universo (2012)
2- Um Milhão de Sóis (2013)
3- Vestígios da Terra (2014)
Autor: Beth Revis
Editora: Novo Século
Páginas: 304
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

O livro é mais intenso que o primeiro, pois agora que a população está livre para pensar, opinar e experimentar a liberdade pela primeira vez elas se enchem de questionamentos. Sem contar que existe todo um pano de fundo sobre a missão da nave, sobre sua localização e sobre Terra-Centauri. Você não quer parar de ler, mesmo com os problemas que existem no livro. O enredo cativa mais do que eles. Quatro aliens para Um Milhão de Sóis e uma recomendação para que você leia a trilogia inteira. No próximo post, a resenha do terceiro e último livro, Vestígios da Terra.


Até mais!
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O que é dieselpunk?

A ideia para este post veio do Twitter, logo depois que publiquei O que é distopia?. P.S.L. OFabuloso pediu que eu falasse um pouco sobre dieselpunk e fiquei surpresa de ver tanta coisa legal de um subgênero que pouco conhecia. Acho esse visual retrô muito bonito e bacana, mas ainda não tinha associado esse "futuro" retrô com dieselpunk.





Diesel é um óleo derivado da destilação do petróleo bruto usado como combustível, constituído basicamente por hidrocarbonetos. É um produto pouco inflamável, mais ou menos tóxico, pouco volátil, límpido, isento de material em suspensão e com odor forte e característico. Recebeu este nome em homenagem ao engenheiro alemão Rudolf Diesel que criou um meio mecânico para explorar a reação química originada da mistura de óleo e do oxigênio presente no ar.

Já o dieselpunk é um gênero que combina a estética da tecnologia baseada em diesel (e às vezes outros combustíveis) com influências do período entre guerras mundiais até, mais ou menos, 1950 e mescla tecnologia pós-moderna futurista com este combustível. O termo foi cunhado em 2001 pelo designer de jogos Lewis Pollak e por Dan Ross para descrever seu RPG Children of the Sun. Desde então, ele foi aplicado à uma grande diversidade de produções nas artes.


Ele é derivado do bem mais conhecido sub-gênero cyberpunk, que geralmente é associado aos anos 80. Na cultura ocidental ele se popularizou bastante, pois até os anos 50, a locomoção era quase que inteiramente movida por diesel. A presença do sufixo -punk representa uma contracultura de maneira a se opor à estética contemporânea. Ele difere do steampunk que foca numa ficção científica da era vitoriana.

Dieselpunk é carregado no estilo noir, aquele ar enevoado, perturbado pelo barulho dos motores e pelo jazz saindo dos bares e pubs. Foi dele que surgiu também o decopunk, numa alusão a art déco, em 2008. Muitos consideram que o dieselpunk seja a parte suja do steampunk, enquanto o decopunk, baseado no visual e tecnologia dos anos 10-20, seria a parte limpa, com um visual cromado e brilhante.

Churchill estilo dieselpunk. 

A principal inspiração é a Era Diesel, período que começa no momento entre guerras mundiais. Vai desde o fim da Primeira Guerra até o final da Segunda. Mas o fim desta era ainda é alvo de controvérsias, com alguns autores estendendo o período até o começo dos anos 50. Mesmo sendo um termo bem novo, vemos que vários elementos do dieselpunk já estavam presentes na cultura como nas artes, com o expressionismo abstrato, Art Deco, Bauhaus, o Construtivismo, o Cubismo, o Futurismo e o Surrealismo. O Jazz, o Blues e o cabaret.

Normalmente, o mundo imaginado aqui ainda tem a Segunda Guerra Mundial como se fosse uma Guerra Fria prolongada. A Quebra da Bolsa de 1929 não teria acontecido, garantindo os avanços tecnológicos e financeiros da sociedade ocidental no período. É um mundo onde o Japão não se rendeu e os nazistas prosseguem suas experiências na área da biotecnologia.

É muito comum vermos representações feitas neste período entre guerras sobre o futuro como sendo um lugar retrô, guardando características do passado, com as tecnologias que eram a sensação da época. Esta visão de futuro não acertou muita coisa depois de todas estas décadas, mas serviu de inspiração para autores e artistas que nos deram aventuras com estilo noir. Assim como na sociedade, as guerras mundiais trouxeram suas consequências em tecnologia - tanto benéfica quanto maléfica - e sociedade e o dieselpunk usa este fértil caminho para seus enredos.


Os mundos podem ser distópicos ou não, pós-apocalípticos ou não. Em alguns vemos o desenvolvimento de tecnologias espaciais, nucleares e até o melhoramento das tecnologias a diesel, sempre com ambientes semelhantes aos filmes da época. Este é um gênero para saudosistas e até para aqueles que estão começando na ficção científica e gostariam de ter algo mais próximo dos ambientes passados, sem detalhes técnicos tão profundos.


Obras de referência:

Livros: Dieselpunk, da Editora Draco talvez seja a obra mais importante em língua portuguesa. Guerra dos Mundos, de H. G. Wells e A Torre Negra (série) de Stephen King também são considerados dieselpunk.

Cinema: Capitão América, Sin City, trilogia MadMax, Sucker Punch, Brazil, Hell Boy, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã. Toda a série Indiana Jones e os dois filmes de Batman, dirigidos por Tim Burton.

Televisão: Astro Boy,

Quadrinhos, graphic novels e mangás: Sin City, de Frank Miller. Full Metal Alchemist, de Hiromu Arakawa

Games: Final Fantasy VII, Fallout e BioShock, Bandits: Phoenix Rising, Crimson Skies e Command & Conquer: Red Alert.



Leia também:


The 10 Best Dieselpunk Movies


Até mais!
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