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Blogagem Coletiva: Livros que marcaram a infância

Semana passada eu visitei o blog Sem Serifa. Sinceramente, não lembro como cheguei lá, mas vi um post muito legal das autoras sobre os livros que marcaram suas infâncias. Acabei deixando um comentário sobre dois livros muito marcantes e mais tarde acabei lembrando de outros. Aí pensei, "vou fazer um post sobre esses livros", e depois pensei novamente "e por que não convocar os blogueiros para que eles também falem de seus livros marcantes?". Pronto, estava começando a blogagem coletiva.





Como comecei a ler?

Minha mãe sempre teve livros em casa. Mas confesso que não conseguia ler Jorge Amado (e ainda não consigo). Minhas primeiras leituras, aquelas que mais lembro e as mais antigas são os gibis da Turma da Mônica que eu comprava com as moedinhas que minha mãe deixava em cima da geladeira. Assim que comecei a ler, com sete anos, estas foram minhas primeiras leituras. Adorava as aventuras de Chico Bento, pois como típica criança urbana, a roça despertava um encanto singular.

Em seguida, a escola. Estudei 11 anos no Colégio Stella Maris, colégio de freiras, tradicional, no bairro de Pinheiros, em SP. E lá o incentivo não apenas para a leitura, como para a escrita, era intenso. Lembro que na 2ª série, a professora Rita nos levou para a biblioteca pela primeira vez. Falou sobre o que era aquela sala imensa, cheia de livros e porque era importante que a gente retirasse livros dali e os lesse. Foi também nessa época em que todos nós fizemos carteirinhas da biblioteca e éramos avaliados por nossa frequência lá.

Cavalgando o Arco-Íris, de Pedro Bandeira

Este livrinho, que tenho ainda hoje e está todo caquético, é o primeiro de que tenho lembrança. Li com 8 anos e guardei com carinho porque adorava os poeminhas e as ilustrações dele. São menos de 70 páginas, mas eu li várias vezes. Chegava no final e voltava para o começo. A foto abaixo é do meu exemplar e você pode ver o estado lamentável do coitado. São poemas sobre família, sobre os medos comuns da infância, como do escuro. Uma leitura muito gostosa, ainda hoje.


Fui olhar qual é o ano da edição dele, que é a 6ª, pela Editora Moderna, e o meu exemplar é de 1986! Eu tinha 6 anos! Ou seja, já deu não só para prever há quanto tempo tenho esse livro como também minha idade, neam?


Sete Gritos de Terror, de Edson Gabriel Garcia

Este foi meu primeiro livro de contos e também de terror. E ainda o tenho, apesar de estar em um estado pior do que o Cavalgando. Eu o levei para a praia quando tinha 13 anos e minha mãe sentou sobre dele depois de sair do mar... Imagina meu desespero em ver o livro molhado, salgado e todo desbeiçado? Felizmente, consegui secá-lo a tempo, mas ele ainda tem manchas de água nas beiradas e tive que passar durex nas bordas da capa para ela não se desfazer. Ainda assim, a cola da brochura envelheceu e soltou e tive que fazer uma gambiarra para segurá-la no lugar.


São sete contos obtidos de diversas fontes. De amigos mais chegados, livros, revistas e almanaques, até causos do seu Zequinha que contava histórias de terror para os meninos que viviam fazendo bagunça. Mas não espere continhos bobos para crianças. Temos necrofilia, fantasmas, demônios e vinganças em contos curtos, mas intensos. Um dos melhores contos sobre o diabo que já li está neste livro. Abaixo estão imagens que abrem os contos.

O Jardim de Inverno do Barão e Os Dentes de Madalena ficaram cortados, uma peninha. 

Também é um livrinho pequeno, mas rico em conteúdo, com 72 páginas. A edição que tenho é de 1991, pela editora Moderna. Ou seja, mais de 20 anos, como o Cavalgando.


O Destino de Perseu, de Luiz Galdino

Este livro tenho certeza que ainda tenho, mas infelizmente não o encontrei. Foi um daqueles livros paradidáticos que a gente lê na escola e este foi indicação da professora de língua portuguesa, Regina, na 4ª série. Para quem lembra de mitologia (ou assistiu Fúria de Titãs) deve lembrar da história de Perseu. O filme tem várias modificações, mas aqui temos a história de Dânae, filha do rei Acrísio. Ela é extremamente infeliz, pois o rei queria um filho para ser seu herdeiro e culpava a mãe e a filha por isso. Aconselhado a procurar o Oráculo de Delfos, Acrísio se surpreende ao saber que ele seria morto por seu neto. Depois de muito pensar sobre o assunto, sua solução: isolar a filha do contato com o mundo.

Em uma funda prisão, com paredes de bronze, ela vivia com sua ama e chorava dia e noite, sem entender seu destino. Até que um dia, compadecido de sua situação, Zeus fez cair uma chuva de ouro na prisão e Dânae descobre estar grávida do poderoso deus. O menino nasceu e foi chamado de Perseu. Ela conseguiu escondê-lo das vistas do pai, mas quando o menino cresceu e ele descobriu a criança, mandou matar a ama, pois seu plano tinha fracassado. Eis que ele surge com outra macabra solução: mandou construir uma arca e arremessou ao mar com mãe e filho.

Minha edição é igualzinha à essa capa aí de cima. Pena que não a encontrei, mas lembro que este livro me surpreendeu muito na época, pois a história de Perseu é longa, acidentada e, no fim, a profecia se cumpre. Temos um caso clássico de jornada do herói aqui e só recentemente descobri que este livrinho foi o primeiro grande exemplo do gênero que li.


O Menino no Espelho, de Fernando Sabino

Este também foi um livro paradidático, sugerido pelo professor Gustavo, de Língua Portuguesa e Redação, na 5ª série. Lembro que o tamanho dele, um pouco maior do que os livrinhos da Série Vaga-Lume ao qual estávamos acostumados, me assustou inicialmente, mas devo ter lido em menos de dois dias na época. Temos a infância do autor, que conta sobre sua galinha Fernanda e de como a salvou de ir para a panela. Conta do imenso quintal de terra com os mais variados bichos e do grupo secreto que ele fundou com sua melhor amiga, Mariana, o Departamento de Investigações e Espionagem Olho de Gato.

A capa da minha edição era essa. 

É um mundo observado do ponto de vista de uma criança e quando você é uma, vivendo na cidade grande, sem contato com aquela bicharada no quintal, acaba descobrindo um mundo novo. Foi um livro que me emocionou na época e ainda hoje. Uma pena que ele não está mais em casa, acho que ele acabou indo para o sebo quando fizemos uma mega limpa na casa e me arrependo de não tê-lo guardado. O mais engraçado é que enquanto eu buscava a capa deste livro na internet descobri que ele virou filme e que o autor morreu em 2004. Sabino dizia:

Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam:
- O que você quer ser quando crescer?
Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.


O que percebi com a blogagem?

Duas coisas percebi ao pesquisar para este post.

1. Fui estimulada desde criança em casa e, principalmente pela escola, a ler. E depois de ter trabalhado em escolas públicas posso afirmar que eu não fui uma regra, fui uma exceção. Os alunos leem, mas não gostam do modo como isso é feito pela escola e buscam obras que seus professores não entendem, não leem ou ambos. Isso distancia a leitura por prazer da leitura por pura obrigação e também afasta aqueles que até leriam se fossem devidamente estimulados.

2. São todos autores nacionais. Hoje leio muito mais literatura de fora do que nacional e leio muito mais livros escritos por mulheres do que lia na infância e adolescência. É curiosa essa inversão e me intrigou. Acho que o fato de ler mais homens antes era pelo simples fato de não haver tanta abertura para as escritoras na época. Hoje isso está muito mais aberto, apesar de ainda ser um mercado pequeno. E o motivo de ler tanta ficção científica me faz buscar livros de fora ao invés de livros nacionais que também constituem um mercado pequeno.


E acho que quem me acompanha a mais tempo deve ter reparado que não tem ficção científica na lista! Pois é, eu li pouca FC na adolescência e zero na infância. A FC surgiu em mim, na literatura, com O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov, quando eu tinha 19 anos, mas começou bem antes com as séries de TV e filmes, especialmente Star Trek e Babylon 5. Antes disso, o único livrinho de FC, mas com uma pegada danikete, foi Os Guardiães de Soterion, de Ganymédes José, também um livrinho paradidático que fala de uma civilização perdida na Amazônia.

Ansiosa para saber sobre os seus livros de infância e adolescência! Conforme os posts forem saindo, vou linkando abaixo.

Até mais!

No Twitter e no Facebook, use a tag #BCLivrosdaInfância para achar mais blogagens!

Também estão falando de seus livros de infância!

Luz de Luma
Uma Pandora e Sua Caixa
Meteorópole
aceita um Leite?
Coruja de Quinta
Marta Preuss
Tiozinho Nerd
A Maior Digressão do Mundo
Cabaré das Ideias
Quinas e Cantos
Ponto Livro
espelho de si
ConversaCult
Kel Campos

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Resenha: Guardiões da Galáxia (2014)

Robert Downey Jr. disse que Guardiões da Galáxia é o melhor filme da Marvel até agora. Com US$500 milhões de dólares em bilheterias ao redor do mundo, o filme provou que a fórmula da Marvel de juntar cenas de ação com comédia dá muito certo. Batendo recorde de bilheteria logo na estreia, o grupo desacreditado se mostrou uma ótima opção nos cinemas e superou em 30 milhões o último recorde, que era de O Ultimato Bourne.





O filme


Peter Quill/Senhor da Galáxia (Chris Pratt) é abduzido por aliens contrabandistas, liderados por Yondu, logo depois da morte da mãe. No melhor estilo cool e brincalhão, Peter segue pela galáxia em sua carreira de crimes. Mas eis que uma das lendárias Joias do Infinito, um orbe, vai parar em suas mãos no planeta Morag e os problemas começam. Quill é interceptado por Korath, um alienígena Kree subordinado ao terrorista Ronan. Quill fuja com o artefato, Yondu descobre o seu roubo e emite uma recompensa por sua captura. Ao mesmo tempo, Ronan envia a assassina Gamora atrás do orbe.


Para iniciar a conquista do universo, o impiedoso Thanos e seu fiel súdito, Ronan, O Acusador (Lee Pace), precisam dessa joia, que põe o planeta de Xandar, liderado por Irani Rael (Glenn Close) em perigo. Quill tenta vender o orbe em Xandar, mas ele é atacado por Gamora. A briga se espalha pela cidade, onde um par de caçadores de recompensas, liderado pelo guaxinim geneticamente modificado Rocket e a árvore humanóide Groot, também correm atrás de Quill. Porém, as tropas conseguem chegar a tempo e prendem todo mundo na prisão de segurança máxima Kyln, onde Gamora é quase morta e salva por Quill.

É então que ela revela que não pretendia devolver o orbe para Ronan, pois sabe que ele o usará para destruir planetas inteiros e que já tem um comprador para a joia. Desta forma, o grupo resolve se unir para escapar de Kyln. Acompanhados por Drax, que busca vingança contra Ronan pela morte de sua família, o grupo de Quill escapa do Kyln em sua nave Milano e fogem para Luganenhum, um lugar no espaço feito com um pedaço da cabeça de um ser celestial.

Gamora, Peter, Rocket, Drax e Groot.

É fácil ver semelhanças entre Guardiões da Galáxia e Star Wars, portanto os fãs logo se encantam pelo filme que além de ser bem feito, tem uma trilha sonora dos anos 70 e 80 que é sensacional, tendo desbancado Frozen do primeiro lugar da Bilboard. O humor está na medida, com várias situações hilárias, seguindo o estilo que a Marvel vem adotando em suas obras ultimamente. Mas além do visual deslumbrante e das cenas de ação, há também os conflitos pessoais dos personagens. É muita gente em tela para apenas 120 minutos, porém isso ficou na medida.

Uma crítica é que a representatividade feminina é baixa e temos um novo exemplo de Princípio de Smurfette. Além disso, a maioria dos negros do filme, incluindo Gamora, são todos de outra cor (verde, azul). Não entendo qual é a dificuldade de mostrar negros em posições de destaque com suas peles intactas. Apesar disso, o filme é descolado, divertido, um entretenimento completo para quem curte filmes deste tipo e que vai agradar até o fã mais chato.


Ficção e realidade

O mais legal é que temos personagens que são anti-heróis. O grupo decide juntar forças enquanto está num presídio e o mais badass da turma é justamente o guaxinim. Temos um grupo heterogêneo: uma mulher verde, um humano (que é homem-branco-cis-hetero, mas né?, o que esperar...), uma planta humanoide (I AM GROOT!!), um guaxinim arretado e um valentão em busca de vingança. É um grupo que consegue representar a diversidade de vida de maneira excelente, afinal temos até uma planta humanoide. Inclusão aqui é o que não falta.

I AM GROOT

É uma jornada do anti-herói, se podemos dizer assim. Criminosos que acabam ganhando redenção por salvarem as vidas de bilhões de pessoas que certamente seriam destruídas se o orbe fosse usado pelos vilões.


Pontos positivos
Ótimos efeitos especiais
I AM GROOT!
Trilha sonora

Pontos negativos

Clichês óbvios
Baixa representatividade feminina


Título: Guardiães da Galáxia
Título original: Guardians of the Galaxy
Direção: James Gunn
Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento: 2014
Onde ver? estreou no Brasil em 31 de julho de 2014.

Baby Groot! 


Avaliação do MS?

Quem ainda não assistiu esse grupo, por favor, corre para o cinema, pois não vai se decepcionar. Sou sincera em admitir que tinha uma expectativa baixa com o filme, mas mudei de ideia logo no começo, com a trilha sonora e em seguida com Groot e seu amigo guaxinim. Um filme divertido, seguindo a fórmula da Marvel, mas que agrada até o mais chato dos fãs. Quatro aliens para os Guardiões e uma forte recomendação para que você assista.


Até mais!
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Mais diversidade, por favor!

Já discuti tanto sobre diversidade aqui no blog que já deve ser um papo cansativo para quem acompanha o Saga há mais tempo. No entanto, o tema não está esgotado, ao contrário. Cada vez mais é preciso bater na tecla de que precisamos SIM de maior representatividade, maior participação não apenas de mulheres, mas de todos os outros representantes da diversidade humana. Ninguém será oprimido por isso, ao contrário.





Tem gente que cai de paraquedas no blog e vem me acusar de uma coisas completamente sem sentido. Outro dia comentei no Facebook que um destes paraquedistas praticamente me acusou de ~heterofobia~ porque eu questionava a ausência de personagens homossexuais na FC e em Star Trek. Ele teve ainda a capacidade de me perguntar "qual era o problema de ser hetero?". Por isso que eu digo que o tema não estará nunca esgotado enquanto existirem pessoas com esse tipo de mentalidade reducionista e preconceituosa.

A FC é, há muito tempo, dominada por autores e roteiristas masculinos, brancos e heterossexuais. E quem discordar de mim, pode olhar para os escritores laureados e para os filmes de sucesso e veja quantos negros, trans*, mulheres ou gays existem nas franquias, especialmente nos papéis principais. Este ano, Lupita Nyong'o foi adicionada ao elenco do novo Star Wars. É a segunda negra da franquia em 37 anos. A primeira, Femi Taylor, aparece em O Retorno de Jedi, coberta por tinta verde, enquanto dançava para Jabba. O padrão se repete em Guardiões da Galáxia, um filme que adorei, que têm um dos grupos mais heterogêneos da FC, mas que mantém um homem cis hetero como líder e uma negra pintada de verde. Outros personagens coloridos do filme também são, originalmente, negros.

Guardiões da Galáxia, o filme. 

O filme Her, um ótimo filme, por sinal, com críticas pertinentes à sociedade moderna, em uma Los Angeles do futuro, não tem um personagem negro sequer. Star Trek, nos anos 60, revolucionou muita coisa trazendo um asiático, um russo e uma negra para a ponte da Enterprise, mas a nave ainda era comandada por um trio branco e heterossexual. E o pior, Uhura praticamente faz trabalho de secretária na série inteira, mesmo que sua presença tenha sido de extrema importância para gerações de meninas negras que viraram atrizes e astronautas.

Vejamos alguns números baseados nos 100 filmes de FC e fantasia de 2014 que mais renderam:

  • 14% tem protagonistas femininas
  • 8% tem protagonistas negros, nenhum deles mulher, sendo que 6 são com Will Smith e um era uma animação (Aladdin)
  • 0% de personagens da comunidade LGBT
  • 3% dos vilões são negros
  • 1% dos protagonistas tinham alguma deficiência física

Dispensa apresentações. Mas são todos brancos, cis e heteros. 

Olhando para o futuro da humanidade retratado nos filmes e livros percebe-se que, ao que tudo indica, uma guerra racial violenta explodiu e deixou apenas homens brancos cis hetero como líderes, heróis, vilões, capitães, guerreiros e salvadores da galáxia. E isso é péssimo, pois em se tratando de ficção científica uma de suas maiores virtudes é a POSSIBILIDADE. É neste gênero que podemos criar mundos onde os padrões e normas culturais opressoras possam cair por terra para que possamos mostrar um lugar que realmente inclua todo mundo. É aqui que podemos e devemos fazer críticas entrelaçadas aos enredos que criamos. Star Trek é um reflexo de sua época, ao tratar da discriminação de gênero e de raça. Battlestar Galactica, em sua nova versão, tratou fortemente de direitos civis, políticas de estado, xenofobia e genocídio.

É por isso que muitas vezes eu fico frustrada com a FC, pois justamente essa possibilidade ilimitada está totalmente amarrada aos padrões e normas culturais opressoras que queremos derrubar. Os filmes e livros continuam ignorando as mulheres, os negros, os gays, os trans*, mesmo em enredos onde eles existam. Katniss Everdeen é descrita mais como uma indígena do que uma caucasiana nos livros, e ainda assim a escolha da atriz Jennifer Lawrence deixa nítida essa diferença. É também frustrante perceber que a globalização deveria ter tido um efeito contrário, o de exaltar e representar as minorias, o que não aconteceu.


Muita gente pode dizer que, no futuro, raça e etnia não importam. Só que nós não vivemos neste futuro, vivemos? Vivemos em um mundo onde cor, orientação sexual, gênero, tudo isso é usado para rotular pessoas e até estabelecer se devem viver ou não, se podem sair na rua ou não, se serão estupradas ou não. Dizer que no futuro estas questões não importam é apagar a questão, tratando-a como irrelevante, quando elas são muito, mas muito relevantes.

Mesmo com todos os problemas de Star Trek, o mundo de Roddenberry conseguiu o que poucas franquias alcançaram: pessoas de diferentes mundos, cores e gêneros convivendo e trabalhando juntas, justo em uma época de grande preconceito e discriminação na sociedade norte-americana dos anos 60. Foi possível mostrar para aquela geração e paras as futuras que todos teriam espaço no futuro da humanidade. E se nós vemos um filme ou livro onde apenas personagens brancos são os protagonistas, fica claro para o restante da humanidade que não há lugar para eles neste futuro.

Para muitos dos espectadores e leitores brancos e masculinos, qualquer papo de inclusão parece ser uma chatice. Quando já se é bem representado, a falta dela nunca foi sentida. Mas pensar sob o ponto de vista de descendentes de indígenas - exterminados e hoje minoria em seus países de origem - ou de negros - arrancados de sua terra natal e trazidos à força para um novo continente como mão-de-obra escrava e oprimida - se faz necessário para entender porque representá-los é tão importante. Se Whoopi Goldberg se sentiu inspirada a ser o que quisesse na vida por ver Uhura na ponte da Enterprise, o que mais a ficção científica pode fazer por gerações que se sintam representadas em telas e páginas?

Comandante Chakotay, descendente de nativos americanos, personagem inspirado no pioneirismo de Uhura, em Star Trek.

O comandante Chakotay, de Star Trek Voyager, é o único indígena de toda a franquia, um passo importante para a representatividade de um povo historicamente excluído e ignorado das produções artísticas. Este é um bom exemplo de representatividade e diversidade, mas onde estão os outros? Se sentir representado, certamente, inspirará futuros escritores e roteiristas a escrever sobre si mesmos, trazendo visões de um futuro e de uma ficção científica mais plural e inclusiva.

Até mais!



Leia também:

Por que a representatividade importa?
As mulheres estão destruindo a ficção científica!
Onde está o resto da humanidade em Star Wars?
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Ebook gratuito: O Sonho da Sultana, de Roquia Sakhawat Hussain

Enquanto o volume II de Universo Desconstruído, Ficção Científica Feminista, não sai, trouxemos algo tão bom quanto! O primeiro conto de FC Feminista, escrito em 1905, por Roquia Sakhawat Hussain, uma feminista e ativista pelos direitos das mulheres de Bangladesh. É mais um belo trabalho em conjunto com a minha querida e fofa Aline Valek.





Quem é Roquia Sakhawat Hussain?

Roquia foi uma ativista dos direitos das mulheres, escritora, ensaísta, poeta e professora. Nascida em 9 de dezembro de 1880 no que hoje é o distrito de Rangpur, em Bangladesh, foi uma das mulheres mais notáveis de seu tempo. Nascida em uma família abastada e instruída, foi desde cedo incentivada a estudar e a escrever, em especial por seu marido, com quem se casou aos 16 anos. Escrevendo em bengali, o idioma comum e das camadas mais baixas da população, Roquia conseguiu levar palavras como emancipação e direitos para mulheres muçulmanas oprimidas pelos maridos, pela família e pela religião.

Roquia, arte de Aline Valek.

Ela criticava abertamente a distorção causada no Islã. Para ela, se as mulheres tivessem o direito de seguir a profissão que quisessem e se tivessem liberdade, elas exaltariam a verdadeira palavra de Alá. Roquia entendia que a opressão era fruto da divisão desigual do trabalho e de um Islã corrompido por provincialismos e conservadorismo excessivo da sociedade patriarcal. Fundou uma associação para mulheres muçulmanas e também uma escola para meninas, em Kolkata (antiga Calcutá), que funciona até hoje. Na Universidade de Daca, em Bangladesh, existe uma estátua em sua homenagem e a data de seu aniversário e morte é celebrado como Dia de Roquia.


O Sonho da Sultana

O conto fala de uma utopia feminista onde os papéis de gênero foram invertidos. As mulheres é que mandam na esfera pública e os homens ficam confinados nas casas. Esta foi a maneira de Roquia demonstrar a opressão sofrida pelas mulheres por suas famílias. Inverter os papéis coloca o opressor no papel do oprimido e o faz repensar seu lugar no mundo. Temos aqui um mundo de carros voadores e energia solar, tudo isso em 1905! Ele foi publicado na revista Indian Ladies Magazine em bengali e em inglês.

A belíssima capa criada por Aline Valek. 

Eu traduzi o texto para o português, mas tentei deixar o tom clássico da escrita de Roquia. Não quis retirar sua pessoalidade da narrativa. É um texto com mais de 100 anos, que já está em domínio público, mas que nunca tinha sido traduzido para o público brasileiro e, acredito, que nem para o público lusófono. No ebook tem também um prefácio falando sobre a importância da obra e um com uma pequena biografia sobre Roquia. Quem quiser ler mais, na página do Wikipedia tem um perfil mais completo sobre ela.


O download

Para baixar o ebook, a única coisa que Aline e eu pedimos é que você compartilhe isso no Twitter ou no Facebook através do PagSocial. É uma maneira de incentivar a leitura de ficção científica, de FC feminista e de levar a outras pessoas um conto inédito e importante. Esse é o único pagamento. Ele encontra-se em três formatos: PDF, epub e mobi. Quem quiser, pode ler ebooks pelo smartphone pelo aplicativo Aldiko, que lê epubs (android). O mobi pode ser lido no Kindle.

PDF



epub



mobi



Se você quiser comprar a versão impressa, ele está disponível no site Clube de Autores, no formato pocket, por 21 reais!

Você também pode visitar o novo site do Universo Desconstruído, onde a coletânea está disponível para download, além do conto de Roquia. O design lindo ficou por conta de Marcos Felipe.

Espero que goste! Volte aqui para me contar o que achou!

Até mais!
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Resenha: Vestígios da Terra, de Beth Revis

A jornada de Amy e Elder chega ao fim. O destino da Godspeed e da população é incerto, mas eles têm o direito de decidir o que fazer agora que estão livres do controle exercido pelos líderes anteriores. Beth Revis termina sua trilogia com um livro intenso e cheio de surpresas, uma ótima pedida para os fãs de ficção científica.





Se você não quer spoilers sobre os outros livros, não leia esta resenha, que é a última sobre a trilogia. Infelizmente, eles são necessários.


O livro

Amy e Elder estão ansiosos. Eles, mais metade da tripulação, mais suprimentos e mais os congelados, estão na nave auxiliar sob a Godspeed, criando coragem para descerem e deixar para trás o restante da tripulação. A nave estava de fato parada. Mas Terra-Centauri estava ali embaixo o tempo todo. A pergunta era: por que a tripulação não desceu? Por que o sistema controlador de Eldest se manteve por tantas gerações?


A descida não foi suave. A nave quase se espatifou no chão e tem gente morta ou ferida no compartimento de carga. Apesar de seu funcionamento ser praticamente automático, a nave tem mais de 300 anos de idade e nem tudo ali está em perfeito funcionamento. Assim que estão estabilizados no chão, Amy corre para o compartimento criogênico e começa a tirar os cem tripulantes congelados de seus esquifes, incluindo seus pais. Elder não sabe dizer se isso é prudente, já que ele desconfia destas pessoas nascidas na Terra e que são militares, mas sabe que Amy precisa dos pais.

O pai de Amy é um poderoso coronel, sua mãe uma cientista. Eles parecem surpresos por reencontrar Amy, mas ficam muito felizes de vê-la. Logo que acorda, seu pai assume o comando da missão, mas percebe que tem algo de errado. Não compreende tudo o que aconteceu na Godspeed, pois para ele todo aquele tempo não passou, ele esteve adormecido. Amy é que tem que agir como uma ligação entre o povo de Elder e seu próprio povo, e uma cissão surge na população tão logo eles precisam conviver juntos. Precisando evacuar a nave, todo mundo se vê em um ambiente estranho, onde existem flores tóxicas e animais esquisitos. Além disso, fica uma questão: estão mesmo sozinhos naquele planeta? Se sim, então por que tem pessoas sendo mortas?

Beth criou um ambiente familiar, mas ao mesmo tempo diferente. Os mistérios vão se descortinando aos poucos, deixando o leitor meio que desesperado, às vezes esperançoso e também completamente irritado em alguns momentos. Você passa por picos emotivos durante a leitura, o que é ótimo. Os personagens continuam irritantes, múltiplos, humanos, mesmo aqueles que parecem esconder algo terrível. O planeta guarda muitas surpresas para a população e você pensa, com pena, a respeito da Godspeed e imagina se tudo não teria sido diferente para eles caso a ganância humana não interferisse. Cerca de 300 anos de diferença existem entre as pessoas ali, e lidar com as diferenças não é nada fácil. A autora conseguiu, até certo ponto, forçá-los a conviver, pois se não colaborassem, nunca sobreviveriam.


Ficção e realidade

A primeira coisa a se notar é o desespero de algumas pessoas que estavam livres das paredes da nave pela primeira vez na vida. Um céu azul de ofuscar e um horizonte que parece infinito para quem conheceu limites o tempo todo pode ser bastante opressivo, assim como o contrário também é, o que explica o medo de Amy de permanecer à bordo de Godspeed. Uma população que permaneceu isolada e fechada em uma nave por gerações teme o espaço aberto e teme não se adaptar a ele, mas a sobrevivência precisa falar mais alto.


Terra-Centauri não é o que ninguém esperava. Nem eu. E imagino que a exploração espacial seja assim também, ainda mais se for possível empreender uma viagem como aquela feita pela Godspeed. Colonizar planetas não é apenas se instalar em sua superfície, é reproduzir modos de vida, credos, política e sociedade. Acredito que o trabalho de psicólogos à bordo terá que ser redobrado para tentar apaziguar uma tripulação que esteja nesta situação e conflitos certamente existirão.


Pontos positivos
Protagonista feminina
Viagem para outro planeta
Engenharia genética

Pontos negativos
Final em aberto
Elder é e continua um mala
Algumas cenas longas demais

Título: Um Milhão de Sóis
Título original: A Million Suns
Série: Através do Universo
1- Através do Universo (2012)
2- Um Milhão de Sóis (2013)
3- Vestígios da Terra (2014)
Autor: Beth Revis
Editora: Novo Século
Páginas: 416
Onde comprar: Grandes livrarias



Avaliação do MS?

Tive a impressão que essa trilogia terá sequência, mas por enquanto, aqui temos o fim de uma excelente trilogia espacial, com personagens múltiplos e profundos, com uma nave moribunda e um planeta misterioso. Temos todos os conflitos humanos esperados para um ambiente tão restrito e para uma missão tão longa. Fica aqui uma forte recomendação para que você leia toda a trilogia. Quatro aliens para Vestígios da Terra.


Até mais!
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