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Resenha: Old Man's War, de John Scalzi

Assim que eu comecei a ler John Scalzi engatei um livro no outro. Depois de Lock In, peguei um de seus livros mais conhecidos e premiados e não consegui largar mais. Li em dois dias. Old Man's War é uma deliciosa space opera que começa com um mistério. Por que as Forças Armadas Coloniais recrutam apenas mulheres e homens acima dos 75 anos na Terra para integrar seus batalhões?





O livro

John Perry completou 75 anos. Ele então faz duas coisas. Visita o túmulo de sua amada esposa, Kathy e se despede dela em um tom melancólico, pois sabe que não vai mais voltar. Em seguida, ele se alista nas Forças de Defesa Coloniais. Elas fazem parte da União Colonial, que atua fora da Terra, em contato com raças alienígenas e assegurando colônias e colonos humanos espalhados em vários sistemas solares. Eles recruta idosos na Terra, homens e mulheres, mas ninguém sabe exatamente porque. A única promessa é o rejuvenescimento.


Muitos mistérios rondam a União Colonial. Eles deixam a Terra na completa ignorância para o que acontece lá fora e uma das cláusulas para o alistamento é que a pessoa nunca mais poderá voltar para casa. Ou seja, é uma viagem sem volta. John se despediu dos filhos e foi até o centro de recrutamento sem remorso. A promessa de ficar mais jovem é um atrativo suficiente para arrastar muitos idosos para lá. A recrutadora lê diversas regras e normas que John deve seguir, ele assina os papéis e alguns dias depois está no elevador orbital, conhecendo novos colegas e especulando sobre o que enfrentarão.

Todos os amigos de John estão também em dúvida sobre o que vão encontrar. Eles então são examinados, entrevistados, fazem testes idiotas, de aptidão, físicos, passam por psicólogos. Alguns dos testes nem fazem muito sentido para Perry. Mas no fim, tudo tem um propósito. E quando ele e seus colegas se veem em novos corpos turbinados, recebem a orientação de se divertirem, conhecerem seus corpos novos e de fazerem sexo. Era a melhor maneira de saber como esse novo corpo funcionava e eles precisariam saber, afinal tinham dez anos de serviço obrigatório e a maioria não chegava ao final do prazo.

Perry então visita mundos exóticos, conhece alienígenas perturbadores, se mete em missões arriscadas e quase morre. Mata mais do que gostaria, o que o perturba profundamente. Fica sabendo de raças alienígenas que parecem grotescas, mas que são aliadas dos humanos. Conhece raças alienígenas que parecem fofinhas, mas que acham a carne humana uma iguaria refinada e mantém humanos como gado. O espaço é um lugar muito hostil para os humanos e suas colônias.


A narrativa de Scalzi é muito divertida e fluída. Não quero dar spoilers, mas a ideia dos novos corpos é fantástica. Temos muita tecnologia envolvida, desde nanotecnologia até tecnologia alienígena. Temos raças aliens esquisitas, muito avançadas, outras nem tanto, algumas são extremamente xenófobas e muitas cenas de ação. As explicações científicas e a tecnologia usada no livro são de fácil compreensão e caem bem na situação em que Perry e os colegas se enquadram.


Ficção e realidade

Sou muito fã de ficção científica militarista, apesar de ter lido pouco a respeito, pois é fácil cair em estereótipos e clichês quando se usa este sub-gênero. Scalzi tem uma grande vantagem sobre outros autores: ele se vale da representatividade e por isso temos personagens gays, mulheres, negros, em seus enredos, todos convivendo muito bem. A alegação de muitos pseudo-escritores que não conseguem escrever personagens femininos ou negros porque não sabem como é não passa de desculpa esfarrapada. Não apenas Scalzi como outros autores souberam escrever personagens completos sem cair nos estereótipos. Isso prova que tem gente muito ruim escrevendo por aí.

Temos várias discussões no livro. As próprias relações pessoais dentro do militarismo e a hierarquia. Casamento, amizade, companheirismo, as questões individuais e o que fazem um ser humano ser realmente humano. Será que se tivermos corpos novos ainda podemos ser humanos? Como um idoso de 75 anos vai agir com um corpo de 20 anos? É possível ser imortal dessa forma? Scalzi se inspirou nas obras de Robert Heinlein, especialmente Tropas Estelares para escrever essa série. Sim!, tem mais livros!

Pontos positivos
Ficção científica militar
Explicações científicas
Alienígenas

Pontos negativos
Não tem tradução para português
Acaba rápido



Título: Old Man's War
Série Old Man's War
1. Old Man's War
2. Ghost Brigades
3. The Last Colony
4. Zoe's Tale
5. The Human Division
6. The End of All Things
7. The Sagan Diary (conto)
8. After the Coup (conto)
Autor: John Scalzi
Editora: Tor Books
Páginas: 320
Ano de lançamento: 2005
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?

É uma pena que este livro, ou nenhum outro livro de Scalzi tenha sido traduzido para o português. Se não me engano este livro foi traduzido em Portugal, mas ainda assim, por aqui, a galera leu em inglês mesmo. Scalzi já entrou no rol de meus autores favoritos mesmo sem ter lido nada dela antes, já que ele se posicionou contra o que aconteceu com o Hugo Award desse ano e atraiu a ira dos filhotinhos tristes e raivosos que acham que só eles podem se divertir na ficção científica. Se você lê em inglês, é fã de FC e quer algo diferente, invista em Old Man's War. Quatro aliens para ele e uma recomendação para você ler também.


Até mais!
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Gravidez, maternidade e ficção científica

Capa do quadrinho SAGA
Um tempo atrás fiz um post que falava da forma como reprodução e aborto foram tratados na ficção científica. Mas ainda não tinha falado nada a respeito da maternidade ou da gestação em si. Como ela é tratada na FC? Como isso aparece em enredos? Percebi que existe um certo padrão nas representações de mães e filhos em vários enredos ou então não existe nenhum. E não é um padrão bonito de se ver.





A discussão sobre maternidade e amamentação no mundo nerd entrou na roda das tretas da semana passada quando um conhecido e famoso podcast brasileiro tocou no assunto da amamentação rapidamente e os participantes expeliram as opiniões machistas de sempre. De "herança erótica da amamentação" até ser um ato "horroroso" de se ver. Quem quiser e tiver estômago, pode ver a transcrição da conversa no blog PacMãe. Eles além de não enxergarem a amamentação como se deve, acham que existe um ~~instinto~~ do macho que o obriga a olhar para o peito de uma mulher nessa hora. E apelar para este tipo de argumento, do instinto, é o retrato de uma sociedade misógina que sempre culpará as mulheres pelas agressões que sofre.

Padme Amidala dando à luz a gêmeos. Que barriguinha hein, amiga??

Foi pensando na questão da maternidade que resolvi analisar a questão pelo viés da ficção científica. E fiquei surpresa, se não chocada, ao ver o mesmo padrão sendo repetido em várias franquias. Um padrão de maternidade quase sempre centrado na gravidez não consentida. A partir daí parece que as crianças somem de vista, como se o único período de vida de um ser humano fosse apenas sua gestação e nascimento. E gestação não é algo novo na FC, ao contrário. Podemos ver uma bizarra forma de concepção através de Victor Frankenstein e sua criatura, de "gravidez masculina" com Alien, o Oitavo Passageiro, até à rainha alien sendo retirada do peito de Ellen Ripley em Alien 4.

Geralmente, a ficção científica trata a gravidez como algo não planejado. Ela apenas acontece. De repente começam as dores na hora em que ela menos pode parar e parir. Aí chega a hora do parto. A mulher fica na cama deitada berrando e suando, muitas vezes sem a companhia do pai da criança. E algumas até morrem (Padmé, oi). Essas mulheres não sofrem com nenhum sintoma clássico de gravidez antes disso - como náuseas, pés inchados, dores nas costas - nada. É como carregar um simbionte e não gerar um novo ser humano. Padmé Amidala foi a grávida mais irreal que já vi sendo retratada na ficção científica, carregando gêmeos com aquela barriguinha de gases.

Qual é o problema com isso? Simples, são irreais. São gestações completamente inexistentes, onde nada acontece, e de repente a criança nasce. Uma mãe com mais de um filho experienciou várias gestações. Cada uma foi diferente da outra, mas a FC ainda bate na mesma tecla de mais do mesmo quando o assunto é esse. E já falei outras vezes, não adianta o escritorzinho vir com o papo que ele não sabe como é ser uma mulher grávida. Essa incapacidade de empatia e de pesquisa é pura preguiça de quem está acostumado a escrever apenas sobre si mesmo.

Além de essas gestações idílicas, a concepção em si costuma ser sobrenatural e não consentida. Pensei em alguns exemplos aqui só para ilustrar o problema. A agente Scully, de Arquivo X, ficou estéril depois de sua abdução. De repente, ela aparece grávida. Vala Mal Doran, de Stargate SG-1, do nada, foi impregnada com um feto Ori, que nasceu e ficou adulta em questão de horas. Conselheira Troi, de Star Trek Nova Geração, ficou grávida do nada, deu à luz a um ser alienígena que queria entender a raça humana e que também tomou fermento e cresceu vertiginosamente rápido. Em Extant, Molly Woods volta para a Terra depois de uma missão de 13 meses no espaço e volta grávida de um ser alienígena.

As crianças de A Cidade dos Amaldiçoados

Em A Cidade dos Amaldiçoados temos um dos casos mais bizarros de gravidez não consentida: uma cidade inteira desmaia por seis horas e, quando acordam, várias mulheres estão grávidas. O governo então propõe à essas mulheres que elas levem a gravidez adiante, oferecendo total assistência médica e bolsa em dinheiro para as famílias, desde que possam realizar exames e o acompanhamento desses bebês. Alguém aí lembrou do Bolsa-Estupro? As crianças são dotadas de poderes alienígenas e agem se dó nem piedade, até que os cidadãos e o governo se reúnem para combatê-los.

O que todas essas gestações têm em comum é que nenhuma delas consentiu. As mulheres foram forçadas à uma gravidez porque seus filhos tinham que cumprir um propósito. E dane-se a vontade e o corpo da mulher, dane-se sua autonomia. Em geral, os enredos perdem uma grande oportunidade de mostrar gravidez e gestação e, posteriormente, a maternidade como se deve. Não me lembro de ver nenhuma delas amamentando também.

Isso foi algo que, quando assisti Arquivo X, achei bem estranho. Scully mal amamenta seu bebê (acho que existe uma cena que sugere que ela está amamentando) e ele já aparece com mamadeira pouco depois, quando ela volta ao trabalho. Nos Estados Unidos, a licença não é remunerada, então Dana deve ter ficado pouco tempo com William e já precisou voltar. A série poderia ter criticado isso. Não fez.

A própria posição do parto retratada em tantas franquias já mostra a falta de pesquisa e criatividade de escritores e roteiristas. O dito "parto normal", com a mulher totalmente deitada, não sofre variação. Partos de cócoras, na água, nem cesáreas, apesar dos pesares, nada disso aparece. E não se engane, não há humanização nesses partos. A mulher berra e sua como louca para a criança nascer e pronto, nasceu! A única versão humanizada de parto que vi foi no parto da major Kira, em Deep Space 9, com direito a doula, massagens e relaxamento antes do nascimento.

Cena de Filhos da Esperança 

O modo como gravidez, maternidade, amamentação são retratados na ficção científica é o mesmo que temos no mundo real. Mulheres sendo consideradas meros receptáculos para bebês, que serão salvadores da humanidade ou da galáxia, onde sequer consentem a respeito da gestação. Seus corpos são tidos como horríveis e são meras ferramentas, que podem ser invadidas e deformadas pelo bel prazer de um ser superior. Os nascimentos são envoltos em sofrimento, dor e suor e depois não há amamentação, troca de fraldas, nada, o bebê some.

Essa ignorância poderia ser sanada. Além de ter mais mulheres e mães escrevendo, os homens deveriam, no mínimo, fazer uma pesquisa para suas obras. Pelo menos conversar com suas próprias mães, o que já garantiria uma visão da maternidade de alguém que passou pelo processo. Diante de tantos quadros como esse, não é de se espantar que mulheres grávidas e mães não se sintam bem representadas pela ficção científica.

Um bom exemplo de gravidez na ficção científica vem de Teyla Emmagan, de Stargate Atlantis. Teyla é líder dos Athosianos, uma guerreira, mas que tem um romance com um homem de seu povo e engravida. Ela fica dividida entre continuar trabalhando com a equipe do coronel Shepard ou se dedicar à gravidez. Temos uma mulher que está com as dúvidas sobre se dedicar ao seu trabalho, sobre como levar uma gravidez adiante e ser uma boa mãe em um mundo violento como aquele, e que se mostra ativa no enredo ao invés de desaparecer dele. Uma pena que a série terminou prematuramente sem mostrar seu desenvolvimento como mãe.

Teyla, Stargate Atlantis

Temos também um bom exemplo em Star Trek Voyager, onde Naomi Wildman nasce na nave que está perdida no Quadrante Delta. Acompanhamos seu crescimento ao longo de alguns episódios, sua angústia pela mãe, acidentada com uma nave, os problemas de crescer em uma nave estelar sem outras crianças por perto. Não ficamos restritas ao seu parto, temos um acompanhamento dela e de sua mãe, as duas sozinhas numa nave perdida. Viu como não é difícil trabalhar com o tema?

Mães e gestantes também consomem ficção científica e precisam de melhor representação nos enredos. Já vimos o quanto eles falham, está na hora de acertarem.

Até mais!

Leia mais:

A licença-maternidade no mundo
Gravidez em Star Trek
A Plea to SFF Writers for Variety in Pregnancy and Childbirth Depictions
10 Most Disturbing Movie Pregnancies
Maternidades anómalas. Reproducción en la ciencia ficción cinematográfica de los años noventa
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Ficção científica e o medo do futuro

Se tem uma coisa muito boa que toda a discussão pelo o que houve com o prêmio Hugo gerou foi a respeito do medo de algumas pessoas com o futuro. Elas temem um futuro que consiga incluir todas as pessoas esquecidas pela mídia e pelas artes. Acima de tudo e de todos os preconceitos, elas temem a mudança. E mudança, meus caros, é a ordem nesse universo desde que ele surgiu.





Tudo no universo está em constante mudança. De nuvens moleculares que se transformam em protoestrelas, de estrelas que se transformam em supernovas, de um planeta estéril e sem vida para um planeta Terra, rico em fauna e flora, onde todo o tipo de bicho esquisito andou por sua superfície. De árvores ao contrário, até pterodáctilos com 2 metros de envergadura, de Archeas a seres humanos. Mudança faz parte da vida. Nada ao nosso redor é estático, nem mesmo nosso planeta e suas placas tectônicas.

Infelizmente, o pensamento de algumas pessoas é estático, engessado, mumificado. Pessoas que vivem no passado causaram um racha sangrento na ficção científica e na ficção especulativa em geral ao sequestrarem o prêmio Hugo e ainda ameaçarem dizendo que farão algo pior com ele se as pessoas forem contra o movimento. Essas pessoas alegam que a ficção científica perdeu seu componente fantástico, de aventuras espaciais e heróis e que qualquer coisa fora disso é chato pra KCT, uma agenda política.

Se essas pessoas fossem realmente fãs de ficção científica elas saberiam que o componente político esteve presente em toda a sua totalidade. Tudo o que nós produzimos é dentro de um contexto, dentro de um tempo, até mesmo aquela novela de FC onde o herói é homem-branco-cis-hetero, que vai em um planeta salvar a mocinha de uma tribo de selvagens em meio a dinossauros e plantas gigantes. Essa obra foi escrita em um contexto de dominação de uma comunidade patriarcal machista, em meio às explorações aos confins do planeta, em terras exóticas. É um texto de reafirmação de superioridade. Não é algo isento de poder.

Se surgiram escritos que vão contra essa dominação, como por exemplo, com mulheres protagonizando enredos e derrubando regimes, salvando o mundo, se temos negros e gays como protagonistas em filmes, séries, livros e quadrinhos, esse é um contexto de luta e reafirmação, de pensamento futuro. É algo que vai contra a dominação. Se antes tínhamos apenas a visão dominante, hoje temos a oportunidade de dar voz àqueles que antes estavam sufocados. É um sinal de mudança e de uma mudança bem vinda, pois ela garante que todos possam ter seu espaço numa arte que só ganha ao agregar.

Foto de Tejal Pajni.

Vejo esse medo do futuro em muitas obras por aí. Seja por falta de imaginação, seja por não pensar nisso, seja por falta de criatividade, seja por todas as anteriores. Isaac Asimov parece ter um sério problema com mulheres, pois além de se utilizar pouco delas, ainda as descreve de maneira pobre e estereotipada. Parece que houve alguma guerra gênica e racial no futuro de Asimov, que apagou da existência toda a diversidade humana. E não adianta vir para cima de mim com a Dra. Calvin.

Clarke também não sabia escrever personagens que não fossem uma personificação de si próprio. No livro 2001 só temos duas personagens femininas: uma criança e uma aeromoça. Em A Cidade e as Estrelas, temos três mulheres: uma não fala nada, a outra é irracional e emotiva, a outra é quase masculinizada e comparada a um homem por ser a líder.

O medo do futuro é visível nos fãs também. Na minha lista de 10 livros preferidos de FC, a maioria esmagadora das respostas dos leitores tem dez livros escritos por homens. Brancos. Cisgêneros. Heterossexuais. Vejo esse medo nas editoras, como a Aleph, que ao ser confrontada por não trazer diversidade em suas publicações, alegou dar preferência pela qualidade e não por "agendas". Olhe o catálogo dela e veja o conservadorismo de suas obras. Uma editora de ficção científica onde o futuro não chegou.

Pessoas que se dizem escritoras que bradam não poder escrever personagens negros, mulheres ou gays porque não sabem como é ou nunca conviveram com eles, também têm medo do futuro. Não só do futuro, como da criatividade, que é um requisito básico para ser escritor. Mostram a incapacidade de se colocar no lugar do outro e de experimentarem; mostram a incapacidade de pesquisar e de conhecer pessoas. Se mostram totalmente incapazes, apesar de publicarem seus livros.

O medo do futuro não se traduz nas distopias adolescentes. O medo do futuro se traduz nas críticas feitas por leitores por esses livros trazerem moças adolescentes como protagonistas derrubando regimes autoritários. Ele se traduz a cada vez que um homem manda uma mulher nerd lavar uma louça porque deu pitaco em um assunto machista, pois ele tem medo do futuro em que ele seja também responsável pela tarefa.

O medo do futuro se traduz no conservadorismo de Sad e Rabid Puppies, de escritores que alegam haver uma conspiração editorial, em editoras conservadoras e a cada vez que você prefere reler um livro do Asimov ao invés de pegar um livro recente escrito nos últimos cinco anos, por uma mulher.

Foto de Tejal Pajni.

A mudança está aí e algumas pessoas estão perdendo o Shinkansen que vai direto para o futuro. Uma pena. Neste futuro há espaço para todos aqueles que se livrem dos medos e dos preconceitos. Neste passado estranho não tem lugar para nós.

Até mais!

O passado é uma terra estrangeira. Lá eles fazem as coisas de outro jeito.

L.P. Hartley
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Resenha: A Passagem, de Justin Cronin

A Passagem é um livro que assusta muita gente, especialmente, por contar com mais de 800 páginas. Confesso que tive um pouco de preguiça de começar esse livro e mais preguiça ainda para terminá-lo. Livrões não me assustam, mas livrões chatos me incomodam muito. E em A Passagem temos alguns problemas.





O livro

Amy é uma menina retraída e assustada. Temos sua vida inicial contada com detalhes, a forma como foi concebida, um pai que batia na mãe, a falta de comida, a estrada e o carro onde morava com a mãe que precisava se prostituir. Enquanto temos flashes da sua vida, recebemos dados a respeito de um estranho vírus encontrado que aumenta e muito a longevidade do ser humano. Mas ele também pode matar e transformar as pessoas de uma maneira assustadora.


Algum tempo depois, dois agentes do FBI recolhem prisioneiros condenados à morte para serem usados em uma experiência do Exército. Eis então que chega uma ordem estranha, que o agente Wolgast treme ao pensar em cumprir: uma órfã foi deixada em um convento, cuja mãe foi acusada de assassinato. A experiência agora requer uma criança para testar o vírus. Ele não consegue deixar de pensar em sua própria filha, morta tão jovem e em seu doloroso divórcio.

O problema desse vírus é que ele tem transformado esses prisioneiros em seres abomináveis. Uns os chamam de virias, ou de fumaças, mas eles são parecidos com vampiros. Possuem uma grande sede por sangue, hipersensibilidade à luz e matam indiscriminadamente. Apenas alguns se transformam em virais, e somente Amy não foi transformada pelo vírus. Ela ficou com sensibilidade à luz, mas não se transformou. O agente Wolgast consegue tirá-la da base militar onde tinha passado por vários experimentos e se refugia nas montanhas. Conforme o tempo passa, ele recebe poucas informações de fora, mas sabe que tem algo errado. Até que Amy acaba sozinha.

O tempo então pula para mais de 90 anos. Temos alguns flashes sobre o desespero dos últimos dias, de como crianças foram embarcadas em trens, dos ataques, da escuridão e de como somente a luz potente poderia manter os virais longe. Até que chegamos à Primeira Colônia, onde alguns sobreviventes conseguiram se manter por décadas usando potentes holofotes sobre os muros para manter os virais longe. Poucos dados existem sobre "os dias de antes" e as pessoas vivem sem conseguir ver as estrelas nem se sentem tranquilas sob a escuridão.

Um viral.

A narrativa de Cronin é boa, mas poderia ser muito melhor se ele não ficasse narrando todo mero pensamento de cada um dos personagens, da garçonete sem nome ao coronel responsável pelos experimentos. Isso quebrou a narrativa várias e várias vezes tornando-a exaustiva, porque você está naquela tensão e de repente cai na lembrança adolescente de um dos personagens secundários e de como ele ficou tímido de beijar alguém que não devia numa noite atrás do barracão, ou sei lá o que. Ou então da lembrança da mãe de alguém morrendo, ou a lembrança de estar, pela primeira vez, no muro sob uma noite, tendo que abater os virais. Isso encheu o saco e tirou o gosto pela leitura.

Este é um recurso que, quando bem usado, é muito interessante. Mas Cronin exagerou nas lembranças secundárias e aí, de repente, você tem uma caralhada de pensamentos aleatórios que em nada contribuem para a narrativa. Além disso, o autor usou de eventos sobrenaturais e inexplicáveis, para vários momentos do livro, como quando Amy está num zoológico, antes do experimento, os animais se aproximam dela e "dizem" o que ela é (e você não sabe o que ela mesmo depois de acabar o livro). Este tipo de evento sem explicação pode cair bem em algumas narrativas, mas ficou completamente aleatório em A Passagem e foi desnecessário.


Ficção e realidade

Uma coisa que o livro narra bem é o desespero que acomete o mundo com a chegada dos virais e o que restou das construções humanas após o apocalipse. Temos a sensação de estar em locais abandonados e toda a cena de Las Vegas foi carregada de tensão pela cidade vazia, abandonada, a decadência das construções. Isso passa uma sensação de extremo isolamento que os personagens também sentiam, pois acreditavam serem os únicos humanos no país, até mesmo do mundo.


Pontos positivos
Distopia
Personagens femininas fortes


Pontos negativos
Narrativa arrastada
Eventos sobrenaturais
Personagens aleatórios


Título: A Passagem
Título original: The Passage
Autor: Justin Cronin
Editora: Arqueiro
Páginas: 816
Ano: 2010
Onde comprar: grandes livrarias


Avaliação do MS?

Sou muito fã de distopias, mas Cronin errou a mão neste livro que é o primeiro de uma trilogia. O segundo volume, Os Doze, já foi lançado no Brasil e não estou com a menor pressa de ler. A Passagem tem eventos, personagens e situações aleatórias que o deixam exaustivo. Eu passei os olhos em vários momentos pelos parágrafos porque sabia que viria mais um pensamento aleatório daquele personagem que não ia viver muito tempo. Tive a nítida impressão que o livro não teve edição nenhuma, pois existem eventos demais ali que de nada servem. E mesmo os virais sendo essas criaturas vampirescas horríveis que deixam todo mundo cagando de medo, o leitor não sente esse medo todo. Três aliens para o livro.


Até mais!
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2 ebooks para você baixar de graça!

Esta semana estou meio off do blog por um bom (e doloroso) motivo: tirei meus quatro sisos no sábado passado e estou de repouso e sem poder falar ou ficar pendurada no computador. Mas aproveitei esse hiato para fazer uma pequena auto-promoção. Os leitores do blog que apenas leem por email nem sempre veem os compartilhamentos das redes sociais ou veem as novidades na página, por isso eu trouxe aqui dois ebooks que estão disponíveis de graça para você baixar.





O blog tem uma página apenas para os ebooks gratuitos. O pagamento é feito usando o PagSocial, onde você compartilha na sua rede social (Facebook ou Twitter) que está baixando o arquivo. Peço isso apenas como uma maneia de reconhecimento. Escrever, revisar, diagramar são tarefas trabalhosas e os ebooks estão aí, gratuitamente para você ler.

Eu já tinha disponibilizado aqui três ebooks - Diga Meu Nome e Eu Viverei, Universo Desconstruído e O Sonho da Sultana - e de uns meses para cá disponibilizei mais dois:

Missão Infinity

Em um site distante, numa outra galáxia, eu publiquei quatro contos a respeito de uma hipotética colonização de Marte. Isso deve ter sido em 2011. Tenho resgatado recentemente estes contos, revisando e diagramando em três formatos de ebook para download gratuito. A única forma de "pagamento" é um compartilhamento na sua rede social favorita.


Missão Infinity trata de uma missão de colonização enviada por um consórcio internacional aqui na Terra, mas as coisas não dão muito certo. Sei que muita gente - se for ler - vai perceber várias similaridades com outras obras marcianas. Eu tentei fazer algumas homenagens nos contos, mas isso tudo foi escrito ANTES do livro Perdido em Marte. Se ainda quiser ler sobre a missão, é só escolher o seu formato favorito abaixo.

E agradeço imensamente a duas mulheres maravilhosas que me ajudaram com a leitura beta, delta, ômega deste ebook, Samantha, do Meteorópole e à Manu Najjar, do Garota da Biblioteca. Vocês são foda!

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Mais Um Dia Glorioso Em Tau Ceti!

Um tempo atrás (ok, mais de um ano atrás), recebi um convite da Revista Black Rocket, de ficção científica, para publicar um conto com eles. Escrevi com certa rapidez, mas o conto foi aprovado e publicado na edição número 5 da revista, em dezembro de 2013, uma edição dedicada às heroínas.


Como eu gosto muito dele, achei que ele merecia uma revisão, uma complementação e uma edição nova para o blog. É um conto pequeno, mas espero que goste! A única coisa que peço como pagamento para a leitura do conto é que você compartilhe que fez o download no Twitter ou no Facebook. É uma forma de apoio à uma escritora independente e uma maneira de incentivar mais produção.

Uma moça órfã trabalha numa colônia de mineração e precisa sobreviver a um ataque terrorista. Como lutar contra a opressão? Como se salvar e ainda fugir dos terroristas?


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Se houver qualquer problema com o download, é só me dar um toque pelas redes sociais ou pelo email sybyllla arroba gmail.com

Até mais!
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Resenha: Despedaçada, de Teri Terry

E mais uma trilogia chega ao fim, desta vez de Reiniciados e da jornada de Kyla, que conhecemos como uma delinquente juvenil em uma Inglaterra totalitária, mas que na verdade era mais uma vítima de um sistema opressor e ditatorial. A trilogia inteira foi uma boa surpresa, até mesmo o final, que não era o que eu esperava. Vem comigo e leia você também a trilogia.





Este livro pode conter alguns spoilers dos dois primeiros. Tentei reduzir ao máximo as informações, então acho que você pode ler tranquilo.


O livro

Kyla não sabe mais quem é. Suas memórias estão aos pedaços, emergindo aqui e ali, de um passado que ela busca, desesperadamente, conhecer. Como é procurada pelo governo, precisa mudar sua aparência. Seus cabelos, antes loiros, são agora castanhos, volumosos e cacheados. Um óculos especial muda a cor de seus olhos. Ela parte em busca de informações sobre sua mãe em uma cidade perto da sua e se instala em uma pensão para moças, enquanto finge procurar um estágio para começar a trabalhar.


Neste lugar ela faz novas amizades enquanto tenta decifrar a mãe e os novos colegas. Seu pensamento sempre cai em Ben, alguém que ela amou e perdeu e nos amigos da resistência que se arriscaram para poder levá-la ao encontro da família perdida. Suas descobertas, porém são assustadoras. Os Lordeiros, um governo opressivo, que acha que pode "resolver" o problema dos adolescentes "delinquentes" apagando suas memórias e implantando outra, estão atrás dela e do DEA, a resistência. Kyla nem imagina que pesadelos antigos estão para voltar durante sua busca pelas respostas.

A cada dia que passa, percebo mais e mais que há momentos em que, não importa o risco, alguma coisa precisa ser feita. Algumas coisas devem ser ditas. Este é um desses momentos?

Devo dizer que eu esperava uma distopia juvenil como várias outras onde menina conhece menino, os dois acabam juntos e derrubam o governo. Mas Teri é muito realista em sua escrita e em sua construção de mundo. Kyla é uma personagem que evoluiu muito ao longo dos três livros, assim como Katniss evolui ao longo de Jogos Vorazes. Ela é forçada pelas circunstâncias a ser forte e partir em busca das respostas. Kyla é, inicialmente, uma adolescente assustada no primeiro livro, para no terceiro estar madura e endurecida pelos eventos pelos quais passou.

O final em si tem elementos que a gente espera que vá acontecer, mas também se revelou maduro e certeiro. Não esperava pelo o que aconteceu e achei a decisão de Teri muito madura, fugindo do que tem acontecido ultimamente em muitas distopias juvenis. Foi uma boa surpresa ter lido essa trilogia.

Gosto muito dessas capas!

Ficção e realidade

Uma coisa que é interessante é o modo como a Inglaterra, tomada por um governo totalitário e vigilante, tal como o de 1984, tentou "resolver" o problema dos adolescentes (como se eles fossem um problema). A técnica não é conhecida no livro, mas o adolescente sai do processo de reinicialização com a mente em branco, é enviada para uma família adotiva e tem um aparelho no pulso que mede a atividade cerebral.

Se for retirado, a pessoa morre. Se certas atividades cerebrais atingirem um nível considerado perigoso, a pessoa desmaia. É um controle cruel e desumano, visando exterminar qualquer tipo de revolta ou sentimento de rebeldia entre a população jovem. Um controle extremo sobre a pessoa. Acompanhamos ao longo da trilogia a maneira tortuosa com a qual a mente age, pois mesmo com o procedimento, ainda é possível resgatar memórias perdidas e sensações.

Há uma parte de mim que deseja levantar e dizer já chega!. E outra parte está feliz por manter a aparência diante dos estranhos, por esperar e observar.


Pontos positivos
Distopia
Protagonista feminina
Reiniciar cérebros

Pontos negativos

Como eles reiniciam o cérebro não é explicado
Alguns personagens mal trabalhados

Título: Despedaçada
Título original: Shattered
Trilogia Reiniciados
1. Reiniciados
2. Fragmentada
3. Despedaçada
Autor: Teri Terry
Editora: Farol Literário
Páginas: 528
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

Entre tantas distopias juvenis, algumas muito boas, outras nem tanto, a trilogia inteira é uma leitura muito boa. Mesmo com alguns clichês típicos, a autora não fez sua personagem e seu mundo caírem na mesmice. Kyla começa como uma apática adolescente para alguém forte, esperta e que luta por si e pelos outros. Quatro aliens para Despedaçada e uma forte sugestão para que você também leia toda a trilogia.


Até mais!
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Lady Sybylla
Geógrafa, professora, mestra em Paleontologia. Fã incondicional de ficção científica e cadete da Frota Estelar.

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