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Resenha: Lua de Larvas, de Sally Gardner

Este foi um livro que me pegou de surpresa. Comecei a ler sem muita pretensão, apenas porque queria um livro menor do que os que eu estava lendo ultimamente e que fluísse rápido. Comecei Lua de Larvas e acabei devorando depois, pois seu enredo, apesar de simples, é profundo e cheio de significado. E apesar de ser uma distopia, é um enredo de amor e amizade.





O livro

Standish Treadwell vive em um mundo totalitário, distópico e repressor. Ele é tido como um menino devagar, mas tem dislexia e vê o mundo sob um viés diferente da maioria das pessoas. Vive com o avô depois que os pais foram embora e frequenta uma escola perto de casa onde um bando de valentões sempre aparece para bater nele no intervalo. Sua vizinhança possui casas em ruínas, mas ainda assim Standish sente que o mundo não precisa ser violento e cinza daquele jeito.


Este mundo é governado pela totalitária Terra Mãe. Fome, miséria, doenças são coisas comuns. A vizinhança é estimulada a dedurar qualquer um que tenha algum tipo de comportamento que eles julguem estranho. Mas o mundo estéril de Standish muda quando ele conhece Hector, que vai morar na mesma rua e frequenta a mesma sala de Stantish na escola. Ele percebe que com Hector sua vida tem sentido, pois finalmente tem um amigo, alguém com quem brincar de ir para Júniper (um planeta de brincadeira) e alguém com quem dividir as angústias.

Mas um dia, ao descer para tomar o café da manhã, Standish encontra o avô desolado, sentado à mesa. Foi preciso sair de casa, com medo que pudessem ser ouvidos por escutas secretas para contar que Hector e seus pais tinham sumido. Eles foram levados pelo governo. Standish contém o grito, mas não desiste de encontrar seu amigo e os pais dele e precisa enfrentar esse mundo cruel, um mundo onde ele assiste um professor matar um aluno espancado no pátio.


O livro vai e volta nas memórias de Standish, que é o narrador. Podemos sentir seus medos e toda a confusão com um mundo que parece complicado demais para ele. Todo aquele ambiente opressor de uma distopia, como 1984, é sentido aqui, mas pelo viés de um adolescente muito especial. A narrativa flui rápido, mas não se engane. O livro é rico em conteúdo e emoções. Quando cheguei a final do ebook, eu pensei "ahhhhh, poxa..." porque a situação, apesar de não poder ser outra, é tratada de forma muito singela.


Ficção e realidade

O livro trata de temas que são muito atuais e que sempre podem ser envelopados na ficção científica para levar a reflexão ao leitor. Amor, amizade, família, poder totalitário, opressão, viagens à Lua. Mesmo no ebook, a arte que acompanha a história de Standish é muito bem feita e misteriosa, que vai acompanhando os capítulos. Não se engane pela aparente simplicidade do enredo.


O enredo distópico com um poder totalitário não é incomum, mas mesmo em se tratando de algo que não é incomum, Lua de Larvas conseguiu manter um caráter único ao focar no narrador, Standish, e sua relação com o mundo e com as outras pessoas. Disléxicos ainda sofrem de preconceito e ter um protagonista disléxico é de uma grande sensibilidade.


Pontos positivos
Standish e Hector
Distopia
Missão à Lua

Pontos negativos
Baixa representatividade feminina
Acaba rápido



Título: Lua de Larvas
Título original: Maggot Moon
Autor: Sally Gardner
Editora: Martins Fontes
Páginas: 291
Ano de lançamento: 2014
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

Indico esse livro para qualquer idade, qualquer gênero, qualquer pessoa. Se você precisa de um livro que flua rápido, este é seu livro. Se você quiser se surpreender, se emocionar, refletir, também é seu livro. Lua de Larvas é uma obra genial e bem escrita, com personagens cativantes, mesmo que tenhamos poucas mulheres. Cinco aliens para ele e uma forte sugestão de leitura para você.


Até mais!
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"Como assim você quer que eu escreva sobre outras pessoas e não sobre mim??"

Por conta dos posts sobre diversidade, representatividade e prêmio Hugo costuma cair todo tipo de alucinado nos comentários do blog. Normalmente eu não respondo nem aprovo. Apenas dou um banimento básico no sujeito e pronto, a vida segue. Mas o comentário que recebi é tão sem propósito e tão problemático que vi que ele seria bem educativo para um post sobre a magnífica e misteriosa arte da escrita.





Leia também:
O sequestro do Hugo Awards
Ficção científica e as aventuras dos garotos brancos


Eu escrevo desde os 14 anos, quando comecei a ter aulas de redação no colégio. Eram duas aulas semanais, onde produzíamos conteúdo das mais diversas formas, descrição, narração, fazíamos revistas, HQ's e teatro. A ideia era sair do lugar comum. Era partir da fala simples e quase infantil e aumentar o nível de conhecimento tanto da forma narrativa quanto da gramática. Sou eternamente grata às aulas do professor Gustavo, porque sem elas não sei onde eu estaria hoje. Sério. Eu cresci e evolui enquanto ser humano por conta da escrita.

Participei de concursos de redação, fui ghost writer, organizei o Universo Desconstruído com outros escritores maravilhosos. Digo isso sem medo porque meus trabalhos anteriores e o trabalho do blog me levaram a conhecer e trabalhar com essas pessoas fenomenais. Pessoas de extrema importância para meu contínuo crescimento enquanto pessoa e enquanto escritora, quanto alguém que usa as palavras para se comunicar, criar mundos, personagens e expressar opiniões.


Infelizmente tem muito escritor com cabeça tacanha que esquece que a escrita é uma arte de experimentação, uma arte que nos faz sair do lugar comum e nos faz interpretar outras pessoas. Quando estamos em um livro, imersos na leitura, imersos naqueles personagens, podemos verdadeiramente sair da casca que nos cerca, casca essa de sociedade, de normas e de preconceitos, para poder viver em outras pessoas. Isso é fantástico, certo?

Bem... não para esse rapaz, que teceu este comentário (não vou publicar aqui o comentário completo):

Eu sou homem, sou branco, sou hetero e cis (termo idiota) e escrevo com base naquilo que sei, e seu texto basicamante propõe que eu escreva sobre ser gay?ser negro? ser mulher? é isso? eu não sei o que é ser essas coisas, mas sei que todos somos humanos e é sobre isso que eu escrevo, sobre o que é ser humano em situações incriveis e tento fazer disso algo de qualidade e é sobre isso que o premio deve tratar ficção cientifica de qualidade, e não bandeiras e babaquices que muitas vezes não podem nem ser retratadas como ficção cientifica!

Vamos começar pela incoerência deste trecho aqui:

seu texto basicamante propõe que eu escreva sobre ser gay?ser negro? ser mulher? é isso? eu não sei o que é ser essas coisas, mas sei que todos somos humanos e é sobre isso que eu escrevo, sobre o que é ser humano em situações incriveis e tento fazer disso algo de qualidade

Então, vejamos. Ele não sabe como é ser "essas coisas", que na verdade são seres humanos, mas ele alega saber que todos são humanos e que é basicamente sobre isso que ele escreve. Ele não escreve sobre essas "coisas", mas escreve para todos. Isso tem coerência? Se ele escreve para todos os seres humanos, mas diz não ter obrigação de escrever sobre mulheres, gays e negros, então ele está assumindo que escreve enredos para homens brancos cis e heteros, ou seja, ELE MESMO.

E foi exatamente isso o que eu disse no texto sobre a Ficção Científica ser um gênero dominado por aventuras de e para garotos brancos cis e heteros, que crescem e acham que sua única função na vida é escrever sobre e para si mesmos. Qualquer coisa que sinalize uma mudança na curva e no gosto dos leitores para uma maior inclusão e um grupo reaça de homens brancos cis heteros sequestram um prêmio do porte do Hugo e ainda ameaçam que destruirão o prêmio todo caso haja muitos casos de No Vote. O No Vote é quando nenhum livro indicado é votado.

Os escritores batem no peito na hora de dizer que eles escrevem sobre o que quiserem, que ninguém manda na escrita deles e ponto final. Vamos baixar um pouco a bola e olhar para o mundo que nos cerca. Tenho certeza que se um escritor assim quiser escrever nesse segmento ele terá público e visibilidade. Mas quem clama por diversidade só toma esporro. Se vocês não querem dedos estranhos em sua escrita, por que vêm se intrometer na nossa? E se alguém diz que não pode escrever sobre "essas coisas", então cadê sua empatia? Onde está sua capacidade criativa - afinal escritor deveria ser dotado de muita criatividade - para sair do pensamento estanque e experimentar?

Deixa eu escrever mais um livro sobre meus dramas.

Quando sento para escrever qualquer coisa eu faço pesquisa. Seja post, seja conto, seja livro, eu paro e pesquiso, junto fontes, guardo informações, faço resumos, pego livros e falo com as pessoas. Falar com as pessoas é o principal trunfo de um escritor. E se alguém se sente incapaz de escrever sobre outras pessoas que não seja si próprio, é sinal de que não é um bom escritor. Sinal de que aprendeu a sempre se achar o centro das atenções e que o mundo deve girar ao seu redor. Qualquer coisa que não o coloque no pedestal é agressivamente combatida.

Um escritor que se restringe a escrever apenas sobre o que sabe é alguém que não tem condições de sair da zona de conforto. Acaba perdendo o status de escritor e torna-se apenas alguém que coloca uma palavra na frente da outra. Se eu coloco um negro, uma mulher, um gay nos meus escritos é porque eu os considero seres humanos e penso fora da caixa o suficiente para tê-los como meus personagens. Utilizar-se de diversidade num enredo deveria ser um curso natural da escrita e não uma "babaquice", que é como muita gente, inclusive o comentarista acima, define isso.

Eu escrevo sobre o que me incomoda e sobre o que eu gostaria de ler. Eu escrevo sobre o que eu gostaria de poder mudar por minhas próprias mãos. Então se não posso fazer isso na realidade, a ficção é minha aliada nessa tarefa. E como disse Ursula K. Le Guin, as mudanças ocorrem primeiramente na arte, e muitas vezes, na nossa arte, a arte da escrita. Mulheres, negros, gays, trans*, travestis, não são COISAS, não SERES HUMANOS. Merecem respeito e a digna representatividade. O comentarista acima deve ter faltado nessa aula.


Até mais.
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Ficção científica e as aventuras dos garotos brancos

Desde que a polêmica com o Hugo estourou eu venho acompanhado em portais gringos e nacionais o que vem sendo discutido. Infelizmente, quase tudo ainda está em inglês. Aqui pela terra brasilis parece que ninguém liga, desconhece, ou ambos. E até os escritores nacionais estão em um silêncio estrondoso, tirando raras exceções. Mas uma coisa que fica de lição sobre o assunto é que FC ainda é considerada uma aventura para os garotos brancos. E se você que não é um garoto branco quiser participar da brincadeira, será excluído.





Acho que é meio óbvio dizer que não há problema em ter aventuras com e para homens brancos cis heteros. Sempre que toco neste assunto aparece alguém pra vir com "ain, qual é o problema, ain heterofobia??", como se heterofobia existisse. O problema é ficar somente neste modelo, neste padrão, que vem dominado a ficção científica há décadas e que também dominou o Prêmio Hugo de 2015, um dos mais importantes prêmios de ficção científica e fantasia que existe. Sequestrar o prêmio para torná-lo "mais justo", porque um bando de gente que já tem tudo se sente discriminada, foi algo infantil e desonesto.

Desonesto no sentido dos motivos para isso, pois o sistema de nomeações do Hugo permite que as pessoas votem em quem quiser e indiquem quem quiser, desde que comprem as associações e se tornem membros. Ele é um prêmio que, apesar de não ser perfeito, foi feito com a intenção de tentar, veja bem, TENTAR, ser justo e avaliar o gosto do público.

Homens brancos cis heteros everywhere.

E o que levou ao sequestro desse ano e sim, considero isso um sequestro? Nos últimos anos o prêmio vem sendo povoado por mulheres, por negros, por escritores da comunidade LGBT, que estão trazendo pautas para suas ficções que fujam das tradicionais aventuras da ficção científica mais clássica. São enredos que possuem personagens das minorias e nem sempre existe uma preocupação em defender uma pauta ou agenda da comunidade feminista, negra ou LGBT.

No entanto, não é isso o que Torgersen, Correia e Vox Day pensam. Na cabeça deles e de muitos escrotos sujeitos que os apoiam, o prêmio Hugo deixou de representar a "ficção científica de raiz", aquela com aventuras e exploração do espaço, para levantar bandeiras de esquerda e bandeiras de pessoas que, sem qualidade literária, estariam vendendo suas ideias por meio de seus livros e sendo indicados por isso ao Hugo. Desta maneira, eles acharam que eram melhor fazer o que fizeram e indicar aqueles livros QUE ELES ACHAM que representam a "ficção científica de raiz".

Mimimimimimimimi

Acontece que a ficção científica SEMPRE foi dominada por obras de homens brancos cis heteros, que escreviam seus livros, novelas e contos para outros homens brancos cis heteros. O próprio prêmio Hugo foi dominado por eles por décadas. Se o público leitor começou a colocar livros no prêmio com uma maior representatividade, isso não é nenhum tipo de conspiração para exterminar homens brancos cis heteros da face do planeta, é um sinal de mudança de mentalidade e de mundo. As coisas evoluem, mentalidades mudam, direitos são adquiridos, a literatura, junto de outras vertentes da arte, acabam evoluindo com ela.

Se tem algo errado aqui é a mentalidade ultrapassada de escritores que acham que o mundo lhes deve algo. Eles se sentem discriminados por serem homens brancos cis heteros sendo que o mundo inteiro JÁ É DOMINADO POR ELES! Suas histórias, seus dramas, seus amores, suas lutas, suas naves, suas perseguições, suas aventuras estão o TEMPO TODO na TV, nos cinemas, nos livros, nas séries, nas HQs. Mas a cegueira intelectual e a desonestidade de quem acha que deve ser recompensado por isso fez com o prêmio Hugo virasse um palco para todo o tipo de absurdos.

Pra gente entender porque essa "luta" dos Sad e Rabbid Puppies é sem propósito, vamos voltar aos tempos dourados da ficção científica e das revistas de FC, e da forma como elas tratavam autores negros e mulheres. Desde que o gênero se popularizou (e muito disso por conta de Hugo Gernsback, que cunhou o termo ficção científica) que a FC é um clube do Bolinha. Por décadas, as únicas mulheres que fizeram sucesso nessa área precisaram publicar por pseudônimos ou abreviando seus nomes para não denotar gênero: C.L. Moore, Leigh Brackett, James Tiptree, Jr., são alguns exemplos. Até quem não fez isso, admitiu ter que usar um ponto de vista masculino em suas obras para conseguir editora.

Ursula K. LeGuin assim disse para a Paris Heview:

Escrever era algo para o qual os homens fizeram as regras e eu nunca questionei. As mulheres que questionavam essas regras eram muito revolucionárias para que eu pudesse até mesmo conhecê-las. Então, eu tive que me ajustar ao mundo masculino da escrita e escrever como um homem, apresentando apenas um ponto de vista masculino. Meus primeiros livros são todos ambientados em um mundo dos homens.

Samuel R. Delany tem muito a dizer a respeito do fandom norte-americano de FC, já que ele é negro e gay. Isaac Asimov disse, quando Delany ganhou o Hugo em 1968, que ele ganhou por ser "Negro", um termo pejorativo, como nigger. Seus enredos tinham personagens negros e de origens diversas, em um grau de realidade e experiência que muitos leitores adoravam, como personagens de origens multiétnicas.

Samuel R. Delany
Samuel R. Delany

O editor da revista Analog, John W. Campbell, um dos mais influentes editores de ficção científica do século XX, disse que curtia sacudir a audiência com este tipo de enredo, mas um das obras de Delany, Nova, chegou a incomodar até mesmo a ele. Tudo porque ele acreditava que seus leitores "não conseguiriam se identificar com um protagonista negro", personagem este com origens norueguesas e senegalesas, e avisou ao agente de Delany sobre isso.

Campbell acabou se utilizando da desculpa do despreparo de seus leitores para ocultar seu racismo, pois em 1968, ele endossou a candidatura de um famoso segregacionista, George Wallace, para presidente. E antes disso, Campbell também publicou editoriais argumentando que a escravidão era um sistema perfeito para as sociedades pré-industriais e que uma das razões para o povo negro ter tanto problema em aceitar isso é que os negros não estariam fazendo um bom trabalho para disciplinar seu próprio povo (!). Delany precisou aceitar que suas publicações passassem pelo filtro de Campbell para poder ser publicado.

Se uma pessoa de tal relevância para alavancar tantos autores como Asimov, Sturgeon, Heinlein, Herbert, entre outros e que comandou as publicações em uma revista de grande circulação e importância para tantos jovens leitores pensava desta maneira, o que dizer dos leitores e, posteriormente, os escritores que cresceram vendo uma ficção científica pasteurizada pelos preconceitos de seus editores?

Star Trek Deep Space 9, spin off de sucesso e, para mim, a mais subversiva de todas, explorou o racismo na ficção científica de maneira simplesmente genial, na figura de Benny Russel. E olha que Star Trek é um grande clube do Bolinha desde os anos 60. Benny Russel era uma identidade que o comandante da estação, Benjamin Sisko, adquiria quando recebia visões dos profetas. Benny era um escritor de ficção científica muito bom nos anos 50 e que queria mais espaço para publicar suas obras em uma famosa revista. Seus contos eram publicados, mas o editor era extremamente relutante em revelar que Benny era negro.

Benny Russel - Deep Space 9

Benny estava determinado a ter seus textos devidamente publicados com sua identidade racial à vista. Mas seus amigos, conhecidos e até sua noiva diziam que era perda de tempo lutar por isso, pois aquela era uma sociedade branca que não aceitava ler histórias escritas por um negro. Mas Benny rebatia, dizendo que a voz dos negros precisava ser ouvida. No fim, a tarefa o consume e o desconsola de tal forma, que Benny acaba parando em um hospital psiquiátrico.

Se o mundo não está preparado para uma mulher escritora - imagine o que aconteceria se ele soubesse que um negro é um escritor - corra para as colinas! É o fim da civilização!

Herbert (Quark) - DS9

O silêncio estrondoso que vejo de muitos escritores brasileiros é o que mais me entristece. E tem gente que acha que existe mesmo uma conspiração editorial para promover agendas das minorias e que o que foi feito no Hugo foi uma maneira de revidar. Eu não sei se choro ou se corto os pulsos com faquinha de rocambole. Ou os escritores nacionais não ligam a mínima para o que vem ocorrendo, ou no mínimo concordam com as ideias de quem fez isso.

Os apoiadores do sequestro do Hugo acham que a ficção científica de hoje perdeu a nostalgia e a diversão, pois ela ficou muito consciente socialmente e pretensiosa devido à uma "conspiração da esquerda" para doutrinar seus leitores e que a ficção científica tem que ser apolítica. Gente, isso já é caso para psiquiatra. Isso é fruto de uma histeria coletiva, no melhor estilo "os russos estão chegando!". A Guerra Fria acabou, minha gente. O trem do mundo passou e vocês ficaram na estação.


Dizer que a ficção científica é apolítica é fechar os olhos para todos os enredos em que homens brancos cis heteros são os guerreiros, os presidentes, os fundadores, os heróis, os libertadores, os soldados, os cientistas, os gênios criativos. É óbvio que eles vão enxergar chifre em cabeça de cavalo, eles não enxergam os próprios privilégios. E reconhecer os próprios privilégios é coisa para os fortes, para aqueles dotados de empatia.

E para mostrar bem como reconhecer os privilégios que possui é para poucos, este foi um comentário que vi numa discussão sobre a representatividade feminina em videogames e porque ela é importante:

Mas por que essa necessidade de se sentir representado?

Ou seja, o comentário mostra que a gente que pede por diversidade e representatividade não tem porque se sentir representado. Mas ele que está muitíssimo bem representando em TUDO, está questionando a importância disso. É fácil reclamar quando não é você que se sente frustrado e desanimado com uma produção cultural que te ignora, porque representatividade importa, empondera, diverte e significa, pois estabelece que todas as pessoas são seres humanos e, como tais, merecem respeito e boas histórias.


Foi como eu disse antes. A diversidade veio para ficar. E tudo o que foi feito antes não vai ser queimado numa mega fogueira em praça pública. Todos podem ter seu espaço, por que só eles querem os holofotes?

Até!



Bonus track:

Recomendo muito a leitura deste artigo (em inglês) e o podcast do AntiCast 178 – A Polêmica do Hugo Awards, que tem a participação de Fábio Fernandes, que manja muito de ficção científica, de Hugo Awards e de mercado nacional.
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Resenha: Outlander, de Diana Gabaldon

Demorei muito para digerir este livro imenso, com 800 páginas. Não foi nem pelo tamanho, pois adoro o enredo que ele apresenta, mas por vários eventos que acontecem nele que me deixaram bastante incomodada. É um livro com muita violência gratuita e explícita, o que pode incomodar algumas pessoas. Mas ele lida com viagem no tempo e com um período histórico bastante conturbado para a Escócia.





O livro

Claire Randall está com o marido para um período de férias na Escócia. Ele, como bom historiador, não se cansa de contar sobre as histórias sangrentas das guerras dos clãs, da invasão inglesa, enquanto busca as origens de sua própria família. Durante a Segunda Guerra Mundial eles ficaram separados, cada um trabalhando em um canto da Europa e agora podiam matar a saudade um do outro em uma lua de mel há muito adiada.


Em uma conversa informal, eles descobrem que ainda existem celebrações druídicas pela localidade e resolver assistir, bem cedo, escondidos nos amieiros atrás de um misterioso círculo de pedras, conhecido com Craig na Dun. E assim acontece, as pessoas vêm, com lençóis brancos amarrados ao corpo, realizando preces e danças em gaélico. Enquanto seu marido Frank fica encantado, Claire encara tudo com certo enfado.

No dia seguinte, devido a seu interesse em botânica, Claire retorna de manhã cedo ao local do círculo de pedras. A pedra mais alta do círculo tinha uma fenda vertical, que a dividiu em duas grandes partes. E havia um estranho zumbido vindo de algum lugar... Até que a pedra gritou, em seguida as outras também gritaram e tudo se tornou extremamente confuso. Quando Claire volta a si, enjoada e tonta, o mundo parece o mesmo. Até que ela desce a colina.

Claire se depara com homens de kilt, correndo pela clareira, com estampidos distantes que pareciam ser tiros. Pensando se tratar de um filme, ela volta para o bosque para não atrapalhar as gravações, até que sente uma forte mão tapar-lhe a boca e atirá-la ao chão. Num primeiro momento, ela pensou que fosse seu marido Frank, devido à semelhança física. Mas, na verdade, este é o personagem mais nojento, canalha, odioso e violento que já tive o desprazer de ler em um livro: o capitão Black Jack Randall, capitão da Oitava Companhia de Dragões de Sua Majestade, servindo na Escócia.

Escócia.

A partir deste evento, Claire é jogada na história da Escócia em 1743. Ela acaba sendo acolhida pelo clã dos MacKenzie, depois de ajudar Jamie, ferido à bala por ingleses e, sob suspeita de ser espiã, acaba tornando-se a médica do castelo do clã. É através dos olhos de Claire que vemos o mundo escocês às vésperas do massacre que dizimou os clãs escoceses.

Em determinado ponto do enredo, a vida de Claire corre perigo. Os escoceses acham que ela é uma espiã inglesa, os ingleses acham que ela é uma espiã francesa e por isso querem sua cabeça. Para evitar que isso aconteça, Jamie e ela se casam em uma cerimonia apressada, o que a assusta, afinal ela já é casada, só que em outra época. A personagem sofre todo o tipo de violência como tapas, beijos não autorizados, sofre várias tentativas de estupro e é surrada pelo marido escocês, Jamie, por tê-lo desobedecido. São vários episódios de violência gratuita contra Claire. Várias. E vieram me dizer que "era o costume da época". Não, não engulo essa. Mulheres ainda apanham e morrem pelos mesmos motivos nos dias de hoje. Aquilo, além de outras cenas estranhas, são violência gratuita mesmo, sem nenhuma reflexão da parte da autora.

Sem contar que ficamos sabendo de tudo, TUDO, TU-DO, da vida de Jamie. Seus amores, suas tragédias, seu primeiro beijo, sua virgindade, sua família, suas dúvidas sexuais, as vezes em que aprontou quando criança e apanhou do pai. Mas de Claire temos pouquíssimas informações. A protagonista acaba virando uma espectadora silenciosa dos eventos, com pouca contribuição para o enredo, já que ele é todo conduzido por outras pessoas.

Cena da série de TV Outlander.

Senti falta de duas coisas no livro, que não sei se faltou na nova edição da editora Saída de Emergência, ou se é porque nunca constou do livro original. Uma delas é um mapa. Mapa é algo essencial em um enredo como este e sinto falta de mapas em vários outros livros. O mapa nos ajuda a colocar no espaço os eventos do enredo. E a segunda coisa foi um pequeno comentário sobre história da Escócia, os eventos narrados e as inspirações do livro, escrito pela autora, o que nesta edição não tem.


Ficção e realidade

Gosto muito da história da Escócia. Conheço bastante sobre ela, desde as invasões vikings, pois fui ghostwriter, justamente, sobre vários momentos da história deste país e achei incrível toda a pesquisa feita por Diana Gabaldon para o livro. Este é um período de grande perturbação para os escoceses. Os Levantes Jacobitas eram insurreições que tinham o objetivo de reconduzir Jaime II de Inglaterra, e mais tarde os descendentes da Casa de Stuart, para o trono após este ter sido deposto pelo Parlamento durante a Revolução Gloriosa. A origem do nome da série de conflitos está em Jacobus, a forma latina do nome inglês James.


O mundo feito de alianças entre clãs, o financiamento dos levantes, os problemas com os soldados ingleses e a insatisfação geral com a situação do país são muito bem retratados no livro. O medo da bruxaria, as superstições, cataplasmas e poções, o paganismo em meio à uma nação cristã, tudo isso faz com que nos sintamos em meio às clareiras, lutando junto dos escoceses.


Pontos positivos
Viagem no tempo
Claire e Jamie
Pesquisa histórica

Pontos negativos

Cenas sem nenhum sentido
Muita violência gratuita e estupros


Título: Outlander, A Viajante do Tempo
Título original: Outlander
Série Outlander
1. Outlander
2. A Libélula no Âmbar
3. O Resgate no Mar
4. Os Tambores de Outono
5. A Cruz de Fogo
6. Um Sopro de Neve e Cinza
7. Ecos do Futuro
8. Written in My Own Heart’s Blood
Autor: Diana Gabaldon
Editora: Saída de Emergência
Ano de Lançamento: 2014
Páginas: 800
Onde comprar: Grandes livrarias


Avaliação do MS?

Apesar dos pesares, da violência gratuita contra Claire, das cenas odiosas de tortura e estupros que são descritas e de várias cenas sem noção alguma, o livro é muito bom. Sinto que Diana experimentou demais em várias partes, talvez resultando nas cenas sem noção alguma - como transar loucamente depois de matar alguém e sair rolando pela charneca dando risada. Mesmo assim, os fãs de viagens no tempo, história da Escócia, guerras e insurreições vai encontrar neste livro um prato cheio. Três aliens para ele.


Até mais!
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O sequestro do Hugo Awards

Prêmio Hugo
Algumas pessoas têm acompanhando a treta no Hugo Awards e o caldo por lá nos istaites tá fervendo depois que a lista de indicados a um dos prêmios mais cobiçados da ficção científica saiu. Tudo isso porque uma onda conservadora se apoderou deste que é um dos prêmios mais importantes para a ficção especulativa. Obviamente, muitos autores estão de cabelo em pé com tamanha idiotice.





O Prêmio Hugo

O Hugo Awards ou Prêmio Hugo tem esse nome devido a Hugo Gernsback, fundador da primeira e mais importante revista de ficção científica, a Amazing Stories. Ela foi a responsável por muitos nomes conhecidos da ficção científica hoje em dia existirem, pois publicava contos de Asimov, Clarke, Bradbury, Heinlen e etc.. É praticamente um patrimônio da humanidade para os fãs de ficção científica por ter popularizado o gênero.

A premiação em si ficou conhecida, até 1992, como Science Fiction Achievement Awards e vem sendo entregue aos melhores trabalhos no meio desde 1953, quando acontecia a 11ª World Science Fiction Convention, sendo entregue todos os anos desde 1955. As categorias mudaram com o tempo, mas o Hugo ainda é entregue todos os anos na World Science Fiction Convention como o foco central do evento. O Hugo já foi chamado pelo Los Angeles Times como "uma das mais altas honrarias concedidas em fantasia ou ficção científica".

Para ser elegível ao prêmio, as obras não precisam ser escritas, necessariamente, em inglês e publicadas no ano anterior. São cinco indicados por categoria escolhidos por membros apoiadores ou atendentes da World Science Fiction Convention, ou Worldcon. Não é preciso estar presente no evento para votar. O prêmio em si, o estiloso foguete retrô, foi criado por Jack McKnight e Ben Jason em 1953, baseado no desenho de ornamentos de capôs de carros da década de 1950. Cada prêmio subsequente, com a exceção o de 1958, foi similar ao original em desenho. O troféu de foguete foi formalmente redesenhado em 1984, e desde então apenas sua base mudou em cada ano.


A polêmica

Nos últimos anos, o Hugo vem se mostrando aberto à maior diversidade. Todo mundo que é fã de ficção científica e fantasia sabe que são gêneros literários extremamente conservadores. Pegue qualquer livro de Asimov ou Clarke e procure pela diversidade. Você não vai encontrar, pode esquecer. Os velhos e batidos estereótipos de gênero, cor, orientação sexual, estão todos lá. Por isso, o Hugo vinha sinalizando nos últimos tempos uma maior abertura para mulheres, negros, genderfluid, comunidade LGBT como um resultado de uma audiência antenada com as mudanças sociais e maior visibilidade de minorias.

Mas assim como a representatividade importa ela também incomoda. E muito. Sempre vemos aquela ala de escritores brancos heteros cisgêneros que se incomodam com os pedidos por maior diversidade. No Brasil, então, diversidade parece tabu para alguns escritores que continuam se inspirando neles mesmos, para escrever enredos que gente parecida com eles vai ler.

Nos Estados Unidos não é diferente. Há toda uma ala conservadora atacando minorias, em geral de supremacia branca e afins, como vimos no caso do Gamergate, como vemos com todo o chorume que Anita Sarkeesian recebe, única e exclusivamente por questionar o papel da mulher em videogames e por aí vai. Se levantar questionamentos já gera toda essa dor de cotovelo, é óbvio que ela logo chegaria a outras instâncias. E chegou na premiação do Hugo.

No Hugo a decisão da elegibilidade de uma obra é deixada para os votantes, ao invés de um comitê organizador. Ou seja, é possível se utilizar das regras da premiação para colocar lá quem quiser. E foi o que uma galera conservadora, em geral escritores de direita reacionária, incomodada com o excesso de diversidade no prêmio, fez. No ano passado, muita gente ficou feliz com a diversidade de autores e obras ganhando o Hugo e este ano a vingança chegou.


Olhando os indicados deste ano é notável que muitos deles derivam de uma lista organizada por fãs em uma campanha chamada Sad Puppies, organizada por Brad R. Torgersen e Larry Correia. E isso não é contra as regras da premiação, afinal ela é feita pelos fãs e quem for membro da Worldcon vota por dois anos seguidos. Torgersen e Correia acreditam que exista uma agenda voltada apenas para colocar mulheres e pessoas de cor na premiação, promovendo suas próprias campanhas pessoais, e deixando de lado "a verdadeira ficção científica". No entanto, para quem olhar de fora e para quem não está incomodado como esses dois, diversidade é ótimo. Chega de tantos enredos contatos por homens brancos cis e heterossexuais.

George R.R. Martin e vários outros escritores ficaram abismados com a campanha e no que aconteceu com os indicados. Muitos autores pediram que seus nomes fossem retirados da lista. Escritores com posições homofóbicas como John C. Wright, que teve total apoio dos Sad Puppies, está concorrendo em três categorias e seus comentários sobre The Legend of Korra foram fortemente repudiados e descritos como "nojentos e levianos", já que Korra tem um relacionamento romântico entre duas mulheres. Martin foi além, dizendo que Torgersen e Correia quebraram o Hugo Awards de uma maneira que pode nem mesmo ter conserto.

Outro grupo claramente de direita e conservador é o dos Rabid Puppies, liderados por Vox Day (Theodore Beale), que também colocou seus escritores pelo sistema de votação em bloco, alegando que a premiação é controlada por uma ala esquerdista, que o controla e que tem controle ideológico sobre o Hugo por mais de duas décadas. Movimento este que está - na cabeça deles - fazendo o mesmo com a indústria de games ao pedir melhor representatividade de minorias. Beale acredita que mulheres não deveriam ter o direito ao voto e que negros são, naturalmente, "selvagens".

Para George RR Martin o que os Sad e Rabid Puppies fizeram foi trapaça pura e simples. Eles se utilizaram das regras do Hugo para promoverem sua agenda reacionária e Martin ressalta que não é porque uma coisa tem respaldo legal que ela é boa. Os Sad Puppies não inventaram essa maneira de votação em massa e em bloco, mas eles a subverteram para espalhar um movimento reacionário e danoso não apenas para a ficção científica e fantasia como gêneros, mas para os autores em si. O que serão dos ganhadores dos próximos anos se nada mudar? A qual grupo eles vão atender?

É uma merda atrás da outra, minha gente... 

Larry Correia tem ligações com o Gamergate e tanto ele quanto Torgersen foram indicados para o Hugo em premiações anteriores e não ganharam. Não apenas eles, mas outras vozes aliadas ao Gamergate acreditam que a ficção científica está em perigo, assim como os games e que qualquer coisa que não valorize a cultura masculina, branca e heterossexual deve ser combatida. O io9 disse que este ano praticamente todos os indicados foram publicados pela Patriarchy Press. E a premiação, por décadas, foi dominada por ela, afinal o que mais temos neste meio são autores homens brancos cis e heteros escrevendo e sendo os heróis de seus enredos.

Foi em meados dos anos 90 e nos últimos cinco anos que campanhas por maior diversidade de autores, enredos e por maior representatividade surgiram, o que engrandeceu o Hugo e elevou nomes até então pouco conhecidos. Larry Correia ainda foi acusado de se utilizar dos comentadores de seu site para entregar ao Gamergate nomes dos Social Justice Warriors, um termo pejorativo aplicado a blogueiros, ativistas e comentadores engajados que se envolvem em discussões online, especialmente contra injustiças sociais.

A campanha está trazendo todo esse passado de volta. Com tantos homens brancos heterossexuais nas categorias, o Hugo envia uma mensagem perigosa para os leitores e escritores que não concordam com isso. Sabemos bem o que acontece com todo mundo, especialmente mulheres, que criticam machismo, racismo trans e homofobia na rede. Somos violentamente atacadas e no caso de Sarkeesian, chegam ameaças de estupro e morte. É esse o cenário do Hugo hoje, reacionário, masculino, branco e de direita.

Martin também sugeriu que os Sad Puppies deveriam criar uma premiação só para eles com categorias como "Melhor Ficção Científica Conservadora" e "Melhor Ficção científica dos velhos tempos que nunca deveria ter mudado". O que me mata é saber que livros conservadores, com heróis dos moldes que eles querem, escritos por autores machistas, racistas e homofóbicos já existem e aos montes. Isso não é uma exceção, é uma regra nos gêneros literários. Mas o movimento por maior diversidade incomodou tanto que eles optaram por sequestrar a premiação e dizer "olha, tamo incomodado, vocês não vão escolher os melhores, nós é que vamos".


Há futuro?

Muitos autores ganhadores em outras edições do Hugo e contrários a todo esse chorume estão movimentando os fãs para que usem o sistema de votação da premiação e coloquem No Vote em todas as categorias. Já que o sistema é tão fácil de manipular, que seja então manipulado agora para demonstrar a profunda insatisfação com o que aconteceu.

E se eles pensam que fazendo isso destruirão autoras e autores que lutam pela diversidade, eu esperaria sentada. Deitada, em coma, na UTI seria melhor. Enquanto estamos preocupados em construir mundos e futuros possíveis para todos, eles estão preocupados em manter a própria hegemonia num futuro que chegou, envelheceu, caducou e foi ultrapassado por um mundo onde mulheres são capitãs de naves, onde negros, gays e trans* possam ser bem representados em enredos. Isso já começou e não vai parar porque uma cambada de cara mimado tá incomodadinho.


Vocês podem tentar nos calar, mas não vamos nos dobrar nem aceitar seu conservadorismo. O mundo não vai dar passos para trás só porque vocês estão incomodados em perder privilégios. Vai ter mulher, negro, gay, lésbica e trans* na ficção científica e fantasia SIM!

Resistência e mudança, muitas vezes, começam na arte e muitas vezes em nossa arte, a arte das palavras.

Ursula K. Le Guin



AntiCast 178 – A Polêmica do Hugo Awards
Science Fiction's White Boys' Club Strikes Back
Awards Version
Puppygate
George RR Martin says rightwing lobby has 'broken' Hugo awards
Are the Hugo nominees really the best sci-fi books of the year?
The Hugo Awards Were Always Political. But Now They're Only Political
Gamergate-style factionalism has changed the face of this year's Hugo Awards
Hijacking the Hugo Awards Won't Stifle Diversity in Science Fiction
Calling for the Expulsion of Theodore Beale from SFWA
Racism and Science Fiction, by Samuel R. Delany
George R. R. Martin faz campanha contra sequestro do Hugo por conservadores
Bizarre Sexism From GamerGate and Co. at the Hugo Awards
A Detailed Explanation
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Resenha: Ordem, de Hugh Howey

A tão aguardada sequência de Silo, de Hugh Howey demorou, mas saiu pela editora Intrínseca! Devo dizer que era uma das continuações que eu mais aguardava para 2015, pois o primeiro livro é simplesmente fantástico. E enquanto o primeiro é maravilhoso, o segundo livro não é tão mara assim.




Esta resenha conterá fatos do primeiro livro. Se você já leu o primeiro, pode seguir, se não e não se importa, pode continuar lendo. Se quiser ler a resenha de Silo, só clicar aqui.


O livro

Washington, capital dos Estados Unidos. O ano é 2049 e Donald Keene acaba de ser eleito deputado estadual. Deixou uma carreira como arquiteto, pensando em fazer a diferença no governo, fazer algo pelas pessoas. É então que o senador Thurman, um conhecido político linha dura, o chama para um projeto ultra secreto. Donald tinha que projetar um edifício cilíndrico, abaixo da superfície, com cerca de cem andares, que servisse como abrigo de emergência em caso de catástrofe. O pior de tudo é ter que trabalhar com Anna, uma antiga paixão, que o manipulava e o tentava.


A ideia era usar o dinheiro dos contribuintes para criar silos de armazenagem para lixo nuclear. Ou era isso que o senador Thurman dizia para a opinião pública. Na verdade, as pessoas envolvidas não sabiam exatamente qual era a função dos outros. Enquanto isso, no Irã, as notícias da guerra mostram que ela vai de mal a pior. Há boatos de uso de armas dotadas de nanotecnologia que poderia acabar com o planeta num piscar de olhos.

O livro salta para 2110. Troy é acordado do congelamento profundo para assumir seu posto por seis meses. A vida é assim. Dorme por décadas, acorda, trabalha seis meses, volta para a geladeira. Sem memórias, sem mulheres ou crianças, apenas revezamentos tediosos, um após o outro, para manter a estrutura do Silo 1 funcionando. Troy tem a função de supervisionar os cinquenta silos existentes naquela planície. Um não podia saber do outro, mas mesmo com os cuidados vez por outra um silo caía para revoluções e violência.

Esta é uma característica do livro inteiro. Temos saltos entre um silo e outro, entre um personagem e outro e entre as memórias de Troy e Donald. Em princípio parece que nada vai se encaixar, mas há sim uma conexão entre alguns fatos isolados, em especial no Silo 1. No entanto, ao vermos alguns dos silos com problemas, percebemos que eles foram colocados na narrativa não por terem conexão com os personagens principais, são apenas para mostrar a situação de guerra civil dentro de alguns silos.

O mundo fora dos silos.

Sendo bem sincera: eu esperava muito mais do livro, quando comparo com Silo. Gosto muito do enredo em si e do mundo que Howey criou, além de sua escrita, mas o livro deixou a desejar. O sistema de capítulos intercalados e vários fatos sem conexão direta com a narrativa encheram o saco num determinado momento que comecei a ler meio que por cima. Além disso, o livro dá uma explicação (que achei bem meia boca) do porque os silos foram habitados e viviam na situação deplorável que muitos deles viviam.

Temos alguns de eventos dos silos do primeiro livro e de dois personagens, Solo e Juliette, mas bem lá na frente, depois da metade. Solo aparece primeiro e Juliette, a maravilhosa protagonista de Silo, vem quase no epílogo. Entendo que livros que estejam no meio de uma trilogia precisem explicar uma pancada de coisas, mas a explicação dada por Howey poderia ter sido bem melhor. No geral: o livro me decepcionou bastante.


Ficção e realidade

Não consigo imaginar como seria viver em um silo, trancada por gerações. Claro, estou falando do ponto de vista de alguém que viveu acima da superfície por 35 anos. Para quem nasce e cresce em um lugar fechado e isolado embaixo da terra é bem provável que os amplos espaços da superfície e a visão do horizonte sejam apavorantes. Sem contar a capacidade de uma doença se espalhar por um lugar desses. É incrível que eles tenham sobrevivido por tanto tempo sem algo como uma epidemia acontecer.


Pontos positivos
Mundo pós-apocalíptico
Sombra e Solo
Silos

Pontos negativos

Explicações meia boca
Muitos eventos precisam do primeiro livro

Título: Ordem
Trilogia Silo
1. Silo
2. Ordem
3. Legado
Autor: Hugh Howey
Editora: Intrínseca
Páginas: 512
Onde comprar: Grandes livrarias



Avaliação do MS?

É... Uma pena que Ordem tenha ficado tão bagunçado e pobre de explicações como ficou. Fiquei com a impressão de que Hugh Howey deixou a coisa crescer demais e em seguida ficou sem uma explicação convincente para o que aconteceu com o mundo em seu livro. Acho que essa é a palavra, convincente. Ele não convenceu. Felizmente o epílogo é animador e realmente espero que o terceiro livro volte com nossa heroína, Juliette, para contar o que será dos Silos, de Donald e do restante do planeta. Três aliens apenas e na torcida para o último livro sair logo. Vai Intrínseca!


Até mais!
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Lady Sybylla
Geógrafa, professora, mestra em Paleontologia. Fã incondicional de ficção científica e cadete da Frota Estelar.

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