O que falta na ficção científica?

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20 de agosto de 2012

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science fiction
Estamos vivendo um impasse dentro do gênero da ficção científica. Seja uma crise criativa, seja uma crise financeira, seja falta de leitores, há algo faltando neste que foi um gênero visionário e que antecipou muitas inovações. O que será que está havendo?

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Quem mora no Brasil tem um problema sério quando o assunto é ficção científica na literatura, pois o mercado é pequeno e são poucas as editoras que se arriscam a publicar livros do gênero. Quando temos os filmes, temos muita ação e pouca ficção científica e a descaracterização quase completa dela em algumas obras.

Então, o que falta? O que está errado?

Mercado
Com o advento das tecnologias avançadas, parece que não faz mais sentido ler ficção científica. E ver... bem, todos os dias têm novidades do gênero, mesmo que o cinema repita sempre o modelo distopia-invasão-apocalipse. No Brasil a coisa é ainda mais complicada, pois se formos a uma livraria buscar por obras, veremos os grandes clássicos do ABC da FC - Asimov, Bradbury, Clarke. Mas onde estão os livros de Octavia Butler? E a trilogia marciana de Kim Stanley Robinson? E autores mais novos, como Larry Niven e Edward M. Lerner? O retorno da robótica com Daniel H. Wilson? Pois é, me pergunto o mesmo. As poucas editoras que hoje se arriscam à publicação de livros de FC temem sair da zona de conforto em apostar em obras menos conhecidas, com medo de não haver mercado para elas. Mesmo que seja uma tiragem pequena, 500 exemplares, ainda acredito que haveria demanda.

astronauta futurista
Visão de mercado é necessária.

Diversão
Os enredos de hoje estão preocupados em geral com uma visão apocalíptica, decadente, distópica e desgraçada da humanidade, o que deixa toda a questão da diversão, das aventuras, da conquista por mundos e de heróis incríveis relegada às antigas pulp fictions e às velhas obras de ficção científica. Quem lê ou vê aos enredos hoje não vê mais os grandes cenários, as grandes aventuras interplanetárias. Vê apenas invasões alienígenas, batalhas, mais do mesmo. Em busca de um futuro plausível, toda essa aventura sumiu. E foram justamente essas aventuras em mundos imaginários e fantásticos, obviamente inspiradas nas expedições aos locais selvagens da Terra como África e as grandes florestas tropicais, que geraram os épicos que sustentaram todo o gênero em seu início. Mas parece haver uma opção por uma ficção científica séptica, que pouco se arrisca.

Cenário de ficção científica
Tá faltando alguma coisa aqui...

Otimismo
Pelo menos no cinema, as obras são um desastre completo. Desastre no sentido de como tratam o ser humano e a civilização. Não há uma visão boa sobre o que vai acontecer com a humanidade, existem visões desastrosas o tempo todo, repetindo o mesmo clichê destrutivo. O ser humano é capaz de resolver problemas, devemos acreditar que um mundo melhor possa ser moldado e em partes aplicado, então por que não vemos isso? Talvez a geração de autores tenha nascido num universo dominado pela Guerra Fria, pela iminência de um desastre e isso tenha refletido em seus roteiros, mas isso já passou. Inovação é sempre bem vinda. O foco deve ser a raça humana, deixar um pouco a questão do herói, do único de lado para vermos o conjunto.

Distopia
Chega de distopias.

Interesse em ciência
Para uma sociedade que desacredita o feito de enviar o Curiosity para Marte, não é de se estranhar que não se tenha interesse em ciência. Bem ou mal, as pessoas associam à ficção científica aquela ciência pura, experimental. Sabemos que não é bem assim, mas foi assim que chegou ao imaginário das pessoas e isso gera preconceito com as obras. Ninguém precisa ter doutorado para ler Isaac Asimov, por exemplo. Por isso ele é considerado um gênio no assunto, pois popularizar a robótica, a ciência, são poucos que conseguem fazer. Mas ainda assim vemos a baixa apreciação do público para com a ciência, ainda vista aqui no Brasil como algo incompreensível e até incompatível com a vida das pessoas, demonizada por "gastar" recursos que poderiam ser usados em outras áreas, como eu tratei neste outro post. Clarke foi o mais sensato: acabem com as guerras que as nações terão dinheiro de sobra. Precisamos também formar autores. De novo, eles não precisam ter doutorado para escrever ficção científica, mas precisam ter noções básicas de princípios elementares e claro, ser criativo.

robô
Ciência em ficção científica? Claro!

Criatividade
Se a dormência do gênero precisa de algo urgentemente, esse algo é a criatividade. Quando olhamos os lançamentos no cinema, vemos que é sempre mais do mesmo, engessado, sem perspectiva de obras grandes. E quando a Disney tentou algo diferente, John Carter - Entre Dois Mundos, o resultado foi péssimo. Filmes com super-heróis também estão cansativos. Com o avanço da exploração espacial e com a descoberta de novos planetas o tempo todo, por que não explorar o que estes mundos têm a oferecer? A diversidade de planetas por aí, com diferentes características, gravidades, estrelas, tudo isso conta na hora de um autor criar seus personagens, seus ambientes. Se existem escritores trabalhando nisso, o Brasil ainda não conheceu. E nem o cinema, que se mantém na ignorância, produzindo mesmices. Se a cor de uma estrela muda, as plantas em um planeta capaz de sustentar vida também mudam. Eu não vi isso em nenhum enredo ainda. Bora criar, meu povo!

Ainda há muito que se explorar. 

Tudo o que foi apontado acima são observações minhas com base no que tenho lido e visto por aí. E você, o que acha que está faltando? Até mais!


Domínio Público (download) - Utopias Pós-Modernas: uma leitura da trilogia marciana de Kim Stanley Robinson
 
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