Resenha: O Império de Ouro, de S. A. Chakraborty

E chegamos ao fim da maravilhosa trilogia de Daevabad! Poucas obras de fantasia me fisgaram como essa aqui. Personagens cativantes, reviravoltas, uma jornada que dá gosto de acompanhar, um mundo maravilhosamente bem construído. Impossível de parar de ler é tudo o que você poderia querer na conclusão de uma trilogia, com emoção e beleza de sobra!

Pode haver spoilers dos livros anteriores!





Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco



O livro
Começamos nossa jornada quase que imediatamente após o final de O Reino de Cobre. Daevabad caiu. Nahri e Ali foram parar no Egito e Banu Manizheh agora controla a poderosa cidade tomada dos Qahtani junto de seu comandante renascido, Dara. A conquista brutal de Daevabad também gerou uma grave consequência: a cidade está sem magia. O povo está com medo, as alianças estão se rompendo e tudo pode dar muito errado se Manizheh não retomar o controle da cidade. O livro é narrado por três pontos de vista: Nahri, Ali e Dara.

Resenha: O Império de Ouro, de S. A. Chakraborty


No Cairo, Nahri e Ali entram em uma rotina doméstica bastante agradável, mas o pensamento sobre o povo em Daevabad e tudo o que ficou para trás os atormenta. Eles devem permanecer em segurança no Egito, vivendo vidas pacatas e longe das pessoas que os odeiam ou devem retornar e ajudar a libertar a cidade? Não são decisões fáceis e ambos sofrem em busca das respostas. Deixar tudo como está é entregar a cidade a uma tirana que não pensa em nada além de si mesma. E aqueles amigos e familiares que ainda estão lá? O que fazer?

A autora não coloca problemas de fácil solução para nossos heróis neste livro. Eles são constantemente assolados por um passado distante e recente que cobra decisões difíceis de se tomar. Seus ancestrais tomaram decisões que agora estão impactando o mundo conhecido e trazendo uma grande cidade ao colapso, conforme parte do povo se recusa a se submeter ao controle de Manizheh. Não só isso, o mundo em que vivem foi construído com base na desiguldade e não será fácil mudar esta estrutura.

Existem tantas, TANTAS revelações impactantes neste livro que você começa a repensar tudo o que achava que sabia sobre os personagens. É sério! Não posso revelar quais são, mas acredite, você verá as ações deles de maneira diferente quando se deparar com elas. Nahri e Ali têm um passado mais conturbado do que parecia em princípio, mas assim que esses segredos são revelados as coisas começam a fazer um sentido tão brutal que você para e pensa "nossa, como que eu não vi isso antes?!".

Se Dara esteve um pouco sumido do livro anterior, neste aqui nós temos uma imersão maior em seus pensamentos e dúvidas. Ainda que esteja servindo a Manizheh, ele também começa a repensar a estratégia de domínio da cidade. Além disso, ele é o único na cidade a ter magia nas mãos e por isso é importante demais para ela. E Manizheh... ahhhh, Manizheh. A espiral em que esta personagem entra é alucinante. Suas ações vão escalando de tal forma que a gente sente que ela vai passar dos limites de uma maneira irreversível. Ela está bem construída - assim como todo mundo - mas ao ponto de ser profundamente odiosa e má. Esse arco todo dela com Dara é bastante trágico e fiquei com o coração na mão por ele o tempo todo.

– Acho que é um erro julgar o Criador pelas transgressões dos mortais.

Página 286

Se tem uma palavra que resume bem este livro é sacrifício. Todos os personagens, seja Nahri, Ali, ou Zaynab, Dara, até mesmo Manizheh, cada um deles vai ter que sacrificar algo a fim de restaurar a ordem em Daevabad. O que fica bem claro pelas ações tomadas por eles é que as coisas não são binárias - bem e mal - mas sim divididas em várias gradações de cinza entre os opostos, criando um mundo complicado e repleto de camadas, tal como nossa própria realidade caótica. Temos aqui pessoas presas a tradições e erros familiares, pagando por erros do passado. Até mesmo Manizheh, que toma decisões horrendas ao longo do livro, não nasceu má. Ela foi quebrada e torturada até se render à vingança e ao ódio até que isso foi tudo o que restara dela.

Um dos pontos altos do livro é sua caracterização única, impecavelmente detalhada, em múltiplas camadas bem trabalhadas. É possível sentir os cheiros, a textura dos tecidos, o sabor das comidas, a areia no rosto. Tudo é tão vívido e bem descrito que é uma imersão única em um mundo mágico que poucos livros conseguiram fazer. A habilidade de Chakraborty de trabalhar com os detalhes sem parecer que está apenas enchendo linguiça é incrível. O livro não me cansou em nenhum momento, ao contrário, é apenas impossível parar de ler e praticamente troquei a noite pelo dia desde que ele chegou.

Outro ponto alto é seu final. Meu maior temor com relação aos finais de livros é que tudo se resolva lindamente, com casais saltitando aos beijos por aí. Nada contra romance, o livro tem vários, mas não gosto de saídas fáceis como essa. Chakraborty, felizmente, não se rende às essas saídas. Ela deixa muito espaço para que possamos imaginar o que vem depois, já que a parte difícil já foi feita. Daevabad não é um mundo muito diferente do nosso, com preconceito e exclusão e derrubar tudo isso para reconstruir uma sociedade leva tempo. Os personagens têm outras coisas na cabeça e devo dizer que amei como ela atou as pontas.

Eu gostaria de ter visto mais sobre Zaynab, uma das melhores personagens da história, e os conflitos entre os diversos povos oprimidos da cidade. Acredito que a intenção da autora era mostrar que, mesmo lutando entre si por tanto tempo, suas diferenças acabaram aplainadas pela tirania de Banu Manizheh, que se tornou o verdadeiro alvo. Como o livro já é bem grande, com mais de 800 páginas, talvez essa parte tenha ficado de fora para dar mais ênfase à luta de Nahri e Ali para retomar a cidade.

O livro segue o padrão dos anteriores, em capa dura e papel amarelo. Há poucos problemas de revisão ou diagramação. A tradução foi de Mariana Kohnert e está ótima. O trabalho gráfico do livro também está impecável.


Ficção e realidade
O que é mais notável no trabalho de Chakraborty foi a intensa e brutal humanidade de seus personagens, mesmo aqueles seres mágicos. Esses seres primordiais escolheram viver como humanos, mas abominam os seres humanos que vivem na cidade. As tribos vivem em pé de guerra, ainda que tenham mais semelhanças do que diferenças e aqueles que querem adotar uma postura de união, encarando as escrituras e ensinamentos por outro viés é visto como herege. Parece familiar? A autora inseriu o nosso mundo em um belo conto épico de fantasia onde seres primordiais se debatem com as mesmas questões que nós ainda debatemos, criando um mundo familiar e estranho, colorido e diverso.

Justamente por essas complicações todas que as soluções dadas pela autora no livro não são fáceis. Os personagens precisarão deixar algo para trás, precisarão se perdoar ou perdoar atos de terceiros, precisarão abandonar velhos preconceitos e crenças se quiserem fazer com que Daevabad floresça como um lugar onde todos possam viver. Sei que o livro não vai agradar a todo mundo por essas decisões que a autora tomou, mas para mim o livro funcionou e fechou muito bem a trilogia.

S. A. Chakraborty


S. A. Chakraborty é uma ávida leitora de ficção científica e fantasia desde muito jovem. Cresceu na comunidade árabe e se converteu ao Islã. Mora em Nova York com o marido e a filha, adora cozinhar e tricotar.


Pontos positivos
Protagonista feminina
Ambientação
Criativo e bem escrito
Pontos negativos

Algumas resoluções apressadas
Preço

Título: O Império de Ouro
Título original em inglês: The Empire of Gold
Trilogia Daevabad
1. A Cidade de Bronze
2. O Reino de Cobre
3. O Império de Ouro
Autora: S. A. Chakraborty
Tradutora: Mariana Kohnert
Editora: Morro Branco
Páginas: 848
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Intenso, brutal, humano, colorido, mágico, triste, tudo isso pode ser usado para descrever o mundo de Daevabad e seus seres fantásticos, suas pessoas capazes de façanhas incríveis, suas figuras mitológicas transcendentes. Se você é fã de fantasia e de intrincados enredos vai curtir a saga de Daevabad e seus personagens imperfeitos e inquietos. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais! ☽


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