Resenha: Viúva de Ferro, de Xiran Jay Zhao

Queria ter amado e dado cinco aliens para este livro, queria estar agora compartilhando passagens dele, entusiasmada, falando sobre seus personagens, mas infelizmente não rolou. É uma ótima ideia, uma premissa que fisga qualquer fã de ficção científica - tem robôs gigantes! - em uma China futurista, trabalhando com vários temas como misoginia, repressão, tortura e representatividade, mas algo aqui não está certo.





O livro
Estamos em Huaxia, um mundo pós-apocalíptico e futurista com elementos da China Imperial. Atacada pelos Hunduns (sobre os quais a gente sabe muito pouco ao longo da leitura para tomar uma revelação vazia no final), Huaxia precisa de pilotos para seus robôs gigantes, ou crisálidas, que lutam contra os invasores depois da Grande Muralha. Mas para que os pilotos consigam fazer isso, eles precisam da piloto-concubina, moças conectadas aos pilotos homens para juntos fornecerem energia vital às crisálidas ― máquinas de guerra gigantes que protegem a humanidade.

Resenha: Viúva de Ferro, de Xiran Jay Zhao


É neste mundo que vive Wu Zetian (nome da primeira e única imperatriz da China), reimaginada aqui como uma garota de uma vila pobre que sonha em vingar a morte de sua irmã mais velha (que não tem nome no livro todo). A conexão do piloto com a piloto-concubina é tão forte que é comum que as moças morram no final dos combates. Isso garante uma recompensa financeira às famílias que enviam suas filhas para o que quase sempre significa a morte certa. Mas Wu Zetian pretende se vingar do piloto que matou sua irmã.

O que começa como uma vingança joga Zetian em uma estrada perigosa onde ela vai ter que lidar com pilotos poderosos, com robôs gigantes, com figuras poderosas da sociedade e com a misoginia de uma sociedade patriarcal que vê as mulheres como menores, dispensáveis. Essa estrada transforma Zetian na Viúva de Ferro, uma mulher que, ao contrário do esperado, suga a energia dos homens nas crisálidas e os leva à morte.

Desde que nasci, tenho ouvido tantas mentiras. Que eu não era gentil o bastante, que não tinha consideração o bastante, que não era humilde o bastante, nem honrada, nem bonita, nem agradável. E que, se falhasse em suprir as necessidades daqueles ao meu redor, não mareceria viver.

Zetian é uma moça que foi criada nessa sociedade patriarcal. Ela teve seus pés quebrados ainda na infância (o chamado "pé de lótus", que foi padrão de beleza por muito tempo), tendo assim dificuldade de se locomover. Vive um relacionamento difícil com a família, ainda que o livro não mostre exatamente as situações de conflito. Da forma como foi colocado, Zetian é uma pirralha insuportável que briga com todo mundo. Nem mesmo sua ligação com a irmã mais velha é mostrada. Ela só quer vingança, mas tá, por que? Ao mesmo tempo que Zetian simpatiza com a condição de mulher de sua irmã, o que levou à sua morte, ela não simpatiza em nenhum momento com a mãe e com a avó e parece odiá-las tanto quanto odeia o próprio pai. Romance feminista? Como pode ser se a protagonista odeia todas as mulheres ao seu redor, não faz o menor esforço de se conectar com elas, nem faz qualquer coisa para libertá-las da opressora sociedade de Huaxia? Há momentos em que ela fala que quer libertar as mulheres deste sistema, mas aquelas que ela conhece foda-se?

Este é só um dos aspectos sem explicação do livro. Existem muitos outros. O enredo começa confuso e não foram feitas tentativas ao longo da leitura de elucidar melhor as coisas. Nem mesmo um pequeno glossário no começo, que teria sido muito útil, sabe? Nada desse tipo existe. Quem está lendo fica patinando naquela salada de informações sem saber direito o que está acontecendo. O qi, por exemplo, que é mencionado várias vezes e energiza as crisálidas, tive que ir no Google para entender melhor o que é.

As cenas de batalhas, que poderiam salvar os capítulos são confusa, mecânicas (sem ironia aqui) e fiquei sem entender direito como boa parte daquelas transformações das crisálidas acontecem. Por que elas se transformam? Pra que? Já não tem um robô gigante? Por que eles precisam de uma nova transformação? Não sabemos. A questão do Qi ser tipo Metal, tipo Água, tipo Terra, de novo, não é explicado. A informação é só jogada ali, sem qualquer explicação de sua serventia no universo criado.

Há um romance poliamorista no meio do livro que é tão raso, aconteceu tão rapidamente, se desenvolveu absolutamente do NADA, que você passa por isso e blegh. Sério, tinha muito potencial e sei que é horrível descrever dessa maneira o que poderia ter sido um dos pontos altos do livro, mas o trisal surge tão rápido e do nada, sem gerar qualquer consequência, sem ter tido desenvolvimento, que ele fica solto lá pelo meio e é isso aí. Aconteceu com muita frequência na leitura, aquelas informações jogadas e não trabalhadas. As coisas se resolvem facilmente, Zetian vê um desafio, supera, vem outro, supera, vem outro... Ela não para pra pensar, é só movida pela força do ódio, parece que não cabe mais nada nela.

A impressão que eu tive é que o livro foi escrito e publicado logo em seguida. É como se le autore tivesse sentado e escrito para elu, da maneira como elu via em sua cabeça e depois mandado para a gráfica, sem qualquer trabalho de edição sobre a obra. Para quem está lendo está tudo incompleto, faltando explicações e partes cruciais para entendermos este mundo que, infelizmente, não estão lá. E eu entendo de verdade a sensação de colocar tudo no papel, como vemos em nossa cabeça, mas para quem está pegando aquele texto pela primeira vez vão faltar partes importantes. Nem tudo é fácil de se deduzir.

Algumas pessoas aprenderam a lição mentirosa de que causar dor aos outros alivia sua própria dor. Mas talvez não lhes tenha sido ensinado nada além disso.

Li o ebook, não o livro físico, e encontrei poucos problemas de revisão e diagramação, mas que não chegam a atrapalhar a leitura. A capa de Ashley Mackenzie é lindíssima, pelo menos.


Obra e realidade
Wu Zetian, conhecida como Imperatriz Wu, foi a única mulher na história da China a ocupar o trono imperial. Embora outras mulheres tenham tido influência sobre o poder, com posição de imperatrizes consortes ou regentes, a Imperatriz Wu foi a única que reinou como soberana, chegando a proclamar a sua própria dinastia, a que chamou Zhōu (周). Reimaginar essa mulher poderosa como uma jovem futurista foi bem legal, apesar do desenvolvimento ruim do livro.

Zhao conseguiu trazer para as descrições dos lugares, roupas e armaduras uma China vibrante, complexa, com seus problemas como preconceito e misoginia, além de cenas de tortura por parte de um governo opressor. Zhao não mostra um mundo perfeito, ao contrário, mostra um mundo quebrado, tal como os pés da protagonista, um mundo torcido e dolorido por tradições excludentes. Um mundo que poderia ser salvo apenas se tratasse suas mulheres da maneira correta e respeitosa. Sua escrita é rápida, ágil e é fácil de ler.

Xiran Jay Zhao


Xiran Jay Zhao (1997) nasceu em uma pequena cidade da China e cresceu sob influência da internet. Formou-se na Simon Fraser University, no Canadá, onde passou mais tempo do que deveria escrevendo fantasia e ficção científica, e não estudando bioquímica. Xiran costuma postar memes no Twitter, cosplays e looks incríveis no Instagram, além de fazer longos vídeos sobre história e cultura chinesas no YouTube. Viúva de Ferro é seu romance de estreia.


Pontos positivos
Protagonista feminina
China futurista
Robôs gigantes
Pontos negativos
Enredo confuso
Personagens rasos
Muitas informações sem explicação

Título: Viúva de Ferro
Título original em inglês: Iron Widow
Autore: Xiran Jay Zhao
Tradutora: Caroline Chang
Editora: Intrínseca
Páginas: 480
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Zhao precisou fazer muita propaganda boca a boca, usando seus canais da rede social, para conseguir uma editora para seu livro. Isso talvez explique porque ele está mal editado, com informações faltando, com tantas lacunas e cenas ruins. Sinto que um bom trabalho de edição teria transformado esse livro em uma grande saga, uma jornada que teria dado gosto de acompanhar. Arrisco dizer que poderia ser dividido em dois livros, tamanha a quantidade de coisa que Zhao trouxe para cá e deixou incompleta. Três aliens para o livro.




Até mais! 🏮


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1 Comentário

  1. Que pena que tem essas falhas. Também tinha ficado empolgada com a sinopse. E com essa capa linda também, confesso.

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