Resenha: Godsgrave, o espetáculo sangrento, de Jay Kristoff

Depois do final bombástico do livro anterior, comecei a ler Godsgrave, incapaz de parar a leitura deste universo incrível e bem construído de Jay Kristoff. Mia não desistiu de seus planos de vingança, mas nada no caminho dessa assassina será fácil. Se ela quiser mesmo concluir seus planos depois de tantos anos de espera, ela precisará ser a melhor entre os melhores. Essa é uma história sombria, pesada e adulta e não indicada para o público juvenil.

Esta resenha pode conter spoilers do livro anterior!



O livro
Mia agora é uma lâmina da Igreja da Nossa Senhora do Bendito Assassinato. Diferente do que ela esperava, entretanto, Mia não é alocada em Godsgrave, mas sim em uma cidade menor, onde recebe ordens da igreja. Entre um assassinato e outro, ela não perde seu objetivo de vista, que é o de matar aqueles que mataram sua família. Mas concluir a tarefa de uma vida não será nada fácil.

Resenha: Godsgrave, o espetáculo sangrento, de Jay Kristoff

O autor intercala o passado e o presente de Mia para nos contar a história, então nós vamos e voltamos no passado breve da protagonista para entender como ela chegou à uma estrada empoeirada, onde será vendida como escrava. Existe um motivo para que ela faça isso e tudo vai se explicando conforme a leitura avança. Achei uma acertada decisão do autor de seguir nesse ritmo por um tempo até que a gente compreenda a razão de tal movimento ousado.

Mia vai parar em uma arena de gladiadores. Lembre-se que este universo caminha bem perto da sociedade romana, então vários aspectos do império e da cultura romanos estão descritos pelas páginas e o autor não os deixou de fora. Escravidão, violência, gladiadores, senadores e o divertimento das massas estão aqui. A ideia de Mia é muito simples: é pela escola de gladiatii que ela conseguirá chegar mais perto daqueles que aniquilaram sua família. E nessa escola ela viverá um dilema sobre continuar sua missão ou se apegar e fazer amigos. Há uma discussão em determinado momento sobre os escravos que eram "parte da família", mas sempre lembrados de seu lugar quando convinha, algo absolutamente real quando se fala das empregadas domésticas.

Mas pensa um mundo difícil esse de Mia? Tinha horas que as porradas que ela levava doíam em mim. Este livro conseguiu ser ainda mais violento do que o primeiro. O autor conseguiu mostrar um pouco da brutalidade da vida desses gladiadores que, tenho certeza, ilustram o que teria sido na realidade. Ainda que pasteurizado pela ficção, o autor nos mostra um universo cruel e em que ser forte era a única opção das pessoas. Ainda que seja um mundo violento, o autor não direcionou essa violência às mulheres, então o mundo não tem misoginia gratuita ou estupros. Uma pessoa era vendida como escrava se um parente tivesse dívidas, por exemplo.

Achei interessante o autor destacar a sexualidade da Mia, de sair do convencional hetero de muitos livros do gênero e conseguir construir uma relação que não é um fetiche de autor, porém a repetição de cenas de sexo acabou cansando um pouco. Eram todas iguais, então eu acabava pulando as cenas, pois o enredo não depende delas para se desenvolver, assim como as notas de rodapé, que podem até ser divertidas, mas cansam. E o narrador misterioso continua sem se revelar.

Não há travesseiro mais macio do que uma consciência limpa.

O autor constrói muito bem seus personagens. Amei os personagens dos gladiatii que convivem com Mia, mais até do que a dupla que protagoniza boa parte da história até o fim. Aliás, comecei a pegar um certo ranço de Mia e ele me seguiu até o fim, até a última página de Darkdawn, que é o último livro. Mas não por ela ser uma personagem mal construída, ao contrário, por ela ser tão bem-feita pelo autor, ela é insuportável. E sabe disso. E nem liga. Ela é uma pessoa horrível de muitas formas, mas que também tem um bom coração.

Devo dizer que gostei mais da leitura desse aqui do que do primeiro livro, ainda que eu tenha desgostado de várias decisões do autor. Achei a decisão de matar uma personagem e de redimir outra muito questionáveis. Ele sequer deu oportunidade de uma delas poder mostrar a que veio e simplesmente cortou a personagem sem nem ter tido tempo de desenvolvê-la melhor. Aliás se tem algo que o autor não tem é dó de seus personagens.

Li o ebook e não o livro físico. O ebook tem problemas de qualidade, tanto de diagramação quanto de tradução, ortografia e gramática. Há palavras racistas como "denegrir" que foram usadas ao longo do texto que poderiam muito bem ter sido substituídas por outros sinônimos. O tradutor é o mesmo do livro anterior, o Clemente Pereira, que continuou fazendo um bom trabalho na adaptação de termos do livro original para o português.


Ficção e realidade
Muitos temas relevantes aparecem na trilogia de Jay Kristoff e acho que ele as abordou com bastante competência. A questão da escravidão por exemplo, diferente da escravidão negra, não tem relação com raça e racismo, mas sim com o forte dominando o fraco e como uma pessoa podia ir parar na arena apenas porque um parente não gostava dele e o vendeu para os gladiatti. A questão da violência que era uma forma de entretenimento bastante cruel da qual até as crianças gostavam. Como seria nascer e crescer neste lugar? O que ele faria com a mente das pessoas?

Mia volta e meia se questiona sobre como teria sido sua vida se seus pais não tivessem sido mortos. O que teria sido dela em um mundo menos violento? É um questionamento que podemos facilmente transportar para o nosso próprio mundo, que massacra os pobres como uma colheitadeira, ceifando vidas daqueles que são menos favorecidos. Que tipo de contribuições eles poderiam ter dado à sociedade se tivessem tido a oportunidade de viver e crescer?

Jay Kristoff

Jay Kristoff é um escritor australiano de fantasia e ficção científica e escreve tanto para leitores adultos quanto para jovens adultos.

Se a vingança tem mãe, seu nome é Paciência.


Pontos positivos
Construção de mundo
Personagens bem descritos
Os gladiatii
Pontos negativos
Violência
Problemas de revisão


Título: Godsgrave, o Espetáculo Sangrento
Título original em inglês: Godsgrave
Crônicas da Quasinoite
1. Nevernight, a Sombra do Corvo
2. Godsgrave, o Espetáculo Sangrento
3. Darkdawn, as Cinzas da república
Autor: Jay Kristoff
Tradutor: Clemente Pereira
Editora: Plataforma 21
Ano: 2018
Páginas: 592
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Mais um livro com a frequente sensação amor e ódio durante a leitura. Mesmo com os problemas aqui e ali, eu não conseguia largar a leitura. É impossível parar. Você realmente quer chegar ao final, nem que seja para xingar a protagonista ou o autor pelas decisões tomadas! Por tudo isso e mais um pouco, quatro aliens para Godsgrave e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! ☠


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