Resenha: Darkdawn, as Cinzas da República, de Jay Kristoff

E chega ao fim uma das mais densas trilogias de fantasia que já li! Não vou dizer que foi uma leitura fácil. Tinha horas em que Mia testava a minha paciência, mas a culpa é do autor que escreveu personagens de maneira tão intensa. Após o final bombástico do segundo livro, Mia acha que alcançou seus objetivos. Mas nada vai ser tão simples assim.

Pode haver spoilers das edições anteriores!



O livro
Mia chegou onde ninguém pensou que ela chegaria. Não foi um caminho fácil, repleto de sangue e mortes e seu incansável desejo de vingança. A jornada de nossa anti-heroína foi longa e complicada e nem tudo saiu do jeito que ela gostaria, perdendo pessoas pelo caminho. Mas Mia conseguiu! Ou é o que ela pensa, claro. Neste mundo da República de Itreya tudo é muito mais complicado do que parece.

Resenha: Darkdawn, as cinzas da república, de Jay Kristoff

Enquanto no primeiro livro nós conhecemos uma jovem moça que tem um objetivo, que é o de se tornar uma assassina, no segundo, já sendo uma lâmina da Igreja Vermelha ela vai arriscar tudo em um plano extremamente perigoso para chegar perto das pessoas que aniquilaram sua família. E quando chegamos ao final bombástico, fica aquela sensação de que LÁ VEM. E veio mesmo!

A sensação era de que tudo aquilo – as aulas, o treino, a dor – estava perfeitamente destilado em suas veias. Cada escolha que ela fizera na vida a tinha levado àquele momento. Cada trilha que seguira dava inexoravelmente para lá. Onde sempre iria acabar.

Mia sai da arena em uma fuga doida por Godsgrave, com um fardo nos braços apenas para descobrir que pessoas muito queridas caíram em uma armadilha. Não só isso, ela pensou que tinha enfim completado sua vingança, se permitiu acreditar em tal fato, quando na verdade ainda tem um inimigo para derrotar, e um que é tão ardiloso e poderoso quanto ela mesma. E agora?

Senti que Mia está muito mais afiada do que nos livros anteriores e, igualmente, mais insuportável. O que me levou adiante nessa leitura são os protagonistas, como os gladiatii companheiros de luta de Mia na arena, pois fora isso a maioria dos personagens são insuportáveis. Sério, não me afeiçoei a Mia, nem a Ash, mas sim às pessoas ao seu redor, como Mercúrio, como os gladiatii. Apesar de sentir empatia pelo sofrimento de Mia, ela é uma personagem tão bem construída que você pode odiá-la ou amá-la com a mesma facilidade.

Interessante apontar que o autor usou muitos palavrões pela narrativa, mas os palavrões que, normalmente, são carregados de misoginia no nosso idioma, como puta, são usados no sentido de Mia ser ardilosa, uma cretina às vezes. Curti muito essa inversão de sentido dos palavrões que normalmente conhecemos e usamos. Foi uma ótima apropriação. Há também inúmeras cenas de sexo, mas depois de você ler "ai, me fode" quinze vezes, a coisa fica cansativa. Achei a forma como o autor usou a sexualidade de duas mulheres muito boa, mas a repetição das cenas ficou bem cansativo.

Fiquei muito surpresa com algumas das reviravoltas que o autor colocou na história. Elas não têm um intuito único de chocar, elas servem para o enredo, elas colocam a máquina que Mia é para frente e arrasta todo mundo com ela. Em alguns momentos eu achei que não havia saída para o grupo, mas Mia acabava encontrando uma. Isso não quer dizer que todos vão acompanhar Mia em sua jornada. É bom você não se apegar aos personagens, pois é com grande facilidade que o autor mata alguns deles.

Não gostei do triângulo amoroso que o autor enfiou aqui. Existia muita coisa entre esses três, inclusive muito sangue e ressentimento. Acho que Mia nem devia ter a companhia que teve, pois Mia aceitou muito de boa tudo o que a pessoa vez, quanto mais ter um triângulo amoroso. Sinto que aqui o autor poderia nem ter abordado ou ter tentado abordar um, pois de fato não precisava e ele meio que sobra na história.

Apesar dos altos e baixos, inclusive no final, a trilogia me prendeu do começo ao fim e acho que é uma leitura que vale à pena, principalmente para quem curte um dark fantasy mais adulto. Não se engane pelo fato de a protagonista ser uma adolescente, esses livros não são juvenis. Uma coisa bem divertida é que o autor usa o narrador misterioso da história toda para tecer críticas a si mesmo. Me peguei rindo nesses momentos.

O amor quase sempre enferruja e vira ódio ao ser regado pelo desprezo.

A tradução de Clemente Pereira continua muito boa, com ótima adaptação de termos da mitologia muito bem construída deste mundo caótico de Mia. Mas o ebook tem alguns problemas de diagramação e revisão, dando a impressão de ter sido um lançamento apressado.


Ficção e realidade
Mia volta e meia se questiona sobre como teria sido sua vida se seus pais não tivessem sido mortos. O que teria sido dela em um mundo menos violento? É um questionamento que podemos facilmente transportar para o nosso próprio mundo, que massacra os pobres como uma colheitadeira, ceifando vidas daqueles que são menos favorecidos. Que tipo de contribuições eles poderiam ter dado à sociedade se tivessem tido a oportunidade de viver e crescer? Neste livro isso fica muito evidente quando Mia percebe tudo o que foi tirado dela por conta da ganância dos poderosos. E isso a torna ainda mais perigosa.

Jay Kristoff

Jay Kristoff é um escritor australiano de fantasia e ficção científica e escreve tanto para leitores adultos quanto para jovens adultos.

Se a vingança tem mãe, seu nome é Paciência.


Pontos positivos
Construção de mundo
Personagens bem descritos
Revelação do narrador
Pontos negativos
Violência
Problemas de revisão


Título: Darkdawn, as cinzas da república
Título original em inglês: Darkdawn
Crônicas da Quasinoite
1. Nevernight, a Sombra do Corvo
2. Godsgrave, o Espetáculo Sangrento
3. Darkdawn, as Cinzas da República
Autor: Jay Kristoff
Tradutor: Clemente Pereira
Editora: Plataforma 21
Ano: 2020
Páginas: 704
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Mais um livro com a frequente sensação amor e ódio durante a leitura e acho que foi o que mais me causou essa sensação. E entendo porque algumas pessoas não gostaram do final, mas entendo o motivo de ter sido assim. Você realmente quer chegar ao final, nem que seja para xingar a protagonista ou o autor pelas decisões tomadas! Por tudo isso e mais um pouco, quatro aliens para Godsgrave e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! ☠


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