Resenha: A Ilusão do Tempo, de Andri Snær Magnason

segunda-feira, julho 31, 2017

Quem for pegar esse livro para ler, muita atenção: faça isso em um dia sem nenhuma obrigação, nenhum compromisso. Você, uma caneca de chá e o livro, pois acho difícil que você consiga parar e fazer qualquer outra coisa. Li este livro em um domingo, sem conseguir parar de virar as páginas, que viravam praticamente sozinhas. Tal como sugere o título, você não vê o tempo passar e de repente, terminou de ler.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Uma crise econômica abala a nação (que não é identificada no livro). Vitória vê seus pais grudados na televisão, acompanhando cada pronunciamento. Economistas brigam nos telejornais e ela já está cansada disso tudo. Entre os comerciais aparece uma tal de Caixa do Tempo TIMAX, onde você pode entrar e hibernar até a crise econômica passar. O pai de Vitória então sai de casa e retorna com várias placas que começa a montar apressadamente no meio da sala. Eles decidem que o melhor é todo mundo entrar nas caixas, já que a vida ficará "insuportável" com o déficit na economia. Vitória então fecha a tampa de sua caixa e no segundo seguinte seu mundo virou do avesso.

A Ilusão do Tempo, de Andri Snær Magnason

Vitória encontra sua casa abandonada, com animais, insetos, plantas tomando conta de tudo. A natureza tomou conta da cidade. Aves fizeram ninhos na sala. Quando um garoto a encontra e a leva até Rosa, uma senhora enigmática que arrebanhou diversas crianças, Vitória tenta descobrir o que está acontecendo. Mas Rosa começa a contar uma história a respeito da Princesa da Pangeia, chamada Obsidiana. De alguma maneira, a história da princesa se relaciona aos eventos que levaram o mundo até aquele momento trágico. A única maneira de salvar o mundo é chegar ao final da história.

Os reis de Pangeia tinham aprendido com três irmãs na floresta a domar os animais através de encantamentos. Eis então que surgiu o Rei Dímon XIII, que se apaixonou perdidamente por uma mulher que pescava trutas em um lago. Ela se chamava Luz da Primavera e se casou com o rei. O casal real teve uma filha, chamada Obsidiana, de cabelos negros como penas de corvos e lábios vermelhos como sangue. O parto difícil acabou levando a vida de Luz da Primavera, o que transtornou o rei para sempre. Apavorado, pensando no conforto e na felicidade da filha, a quem queria manter segura para sempre, ele parte para conquistar o mundo. E conquista. Toda Pangeia é sua, mas seu tempo com sua filha é perdido. Ele tem milhares de solicitações de milhares de reinos diferentes, milhares de litros de vinho que nunca chegará a tomar. Que vida é essa?

- Eu não tinha mais certeza se o mundo estava enfeitiçado ou se ele havia se livrado de um feitiço. As pessoas o tinham destruído tanto. As pessoas estavam em uma corrida contra o tempo, tentando acumular tantas coisas e tanto lixo quanto pudessem. Destruíram tudo que havia de belo e agora elas se fechavam dentro de sua própria idiotice.

Página 195

Há uma pegada ambiental no livro, mas as alfinetadas são de ordem econômica, filosófica, social. Acumulamos tanto para que? Estamos esperando o que? Assim como as pessoas que se fecharam em suas caixas TIMAX, que estavam esperando a crise passar, mas sem terem participação ativa na mudança, como podemos querer que as coisas mudem sem fazer nada? O tempo não vai esperar que nós estejamos prontos até que tudo esteja perfeito para que possamos viver. O tempo vai correr como um rio, você querendo ou não. Isso é o que o rei Dímon acaba percebendo quando vê que sua filha vai um dia perecer e morrer. Que ela terá muitos dias chuvosos, muitos dias frios. Eis então que ele descobre uma caixa mágica que impede a entrada do tempo, onde ele a deita para preservá-la de qualquer infelicidade. Começa então a ruína de seu gigantesco reino. Ele conquistou o mundo, mas o tempo não para por ninguém.

Você vai reconhecer referências a alguns famosos contos de fadas e vai se deparar com personagens absolutamente irritantes em alguns momentos. Tudo foi lindamente descrito por Andri, o leitor é capaz de sentir o cheiro dos ambientes, o humor das pessoas, a luz que incide na janela. A história da princesa eterna da Pangeia é intercalada com as histórias de algumas crianças no tempo "atual", enquanto conhecemos mais sobre quem elas são. O autor criou uma fábula e a estendeu pelo tempo até chegar a uma sociedade semelhante à nossa, a qual critica sem piedade.

Amei essa capa. O livro está bem diagramado e com poucos erros de revisão. Senti falta de questões para o clube do livro como teve em Nossos Dias Infinitos. É um livro ótimo para se usar em sala de aula. Há questões ambientais, econômicas, filosóficas e sociológicas para se trabalhar com os alunos, além de ser uma delícia de ler.

Ficção e realidade
Li outro dia que eu faço parte da última geração que viveu em um mundo analógico. Vi a transição dos vinis e K7s para o CD, o VHS para o DVD, o DVD para o streaming, o telefone fixo para o celular, a burocracia ser diluída para serviços ultra rápidos pela internet. Hoje pelo celular eu pago contas, carrego o bilhete único, tiro foto, faço vídeo, uso a calculadora, uso como rádio relógio, como leitor de ebooks, como navegador, uso as redes sociais, faço ligações, recebo mensagens... Mas curiosamente, no mundo analógico, eu sentia que tinha mais tempo.

Um colega de faculdade dizia que computador e internet vieram para resolver todos os problemas que nós não tínhamos. Era uma brincadeira, claro, mas muitas vezes achamos que sempre teremos tempo para sair com os amigos, deixa só eu entrar aqui rapidinho no Instagram... O tempo não para por ninguém. Você pode ter tudo e ao mesmo tempo nada ter, se não tiver tempo para desfrutar. Ao invés de ter, como fez o rei Dímon da fábula, consumido pela ganância e pelo medo, é preciso viver e experimentar mais e não ter medo da ação do tempo.

- Mas é possível chorar mesmo com o sol brilhando lá fora - disse ela - e rir num dia de chuva e ventania.

Página 167

Pontos positivos
Obsidiana
Bem descrito
Críticas à sociedade moderna
Pontos negativos

Pode ser lento em algumas partes

Título: A Ilusão do Tempo
Título original em islandês: Tímakistan
Autor: Andri Snær Magnason
Tradutora: Suzannah Almeida
Editora: Morro Branco
Páginas: 320
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Andri Snær Magnason ganhou diversos prêmios com este livro, bem merecidos aliás. Com um enredo atravessando anos e séculos, viajamos através da ganância, do medo e do tempo e de como as pessoas, transtornadas demais para perceberem que o que havia de mais importante em suas vidas não era material. Uma fábula sobre nossos dias modernos, cada vez mais apressados, cada vez mais regidos pelo tempo. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Resenha interessante
    Hoje tem o que Bauman chama de Modernidade Líquida, perde-se a solidez dos eventos, dos fatos, das experiências, tudo é ultra-rapido e momentâneo.
    O que antigamente durava anos na memória, hoje fica segundos, e se necessário, encontramos na Internet. Preza-se mais pelo individualismo, o homem no centro de tudo, e afasta a coletividade, a interação humana primordial. O tempo parece passar mais depressa, somos abarrotados de atividades todos os dias. As pessoas se tornaram robotizadas. O mundo perdeu a cor. Somos como água em um córrego, correndo para um destino que não sabemos bem ao certo qual é. No fim, tudo passa num piscar de olhos e fica a sensação de que podia-se ter feito mais. Aproveitado mais. Somos flexíveis. Somos líquidos. Somos seres sem forma...

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