Resenha: Nossos Dias Infinitos, de Claire Fuller

quinta-feira, julho 20, 2017

Sabe quando você lê o livro que te emerge na vida dos personagens e depois chega um momento em que a ficha cai sobre o que realmente aconteceu e você perde o chão completamente? Então, este é Nossos Dias Infinitos, de Claire Fuller, livro da Editora Morro Branco.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Peggy tem apenas 8 anos e mora com a mãe, uma famosa pianista alemã, chamada Ute e seu pai, James, que aparentemente não tem trabalho e apenas se reúne com seus amigos em casa para falar do fim do mundo no subúrbio de Londres. James é um sobrevivencialista que participa de um grupo conhecido como Refugiados do Norte de Londres e nas conversas que vão e vem com os amigos, ele resolve construir um abrigo antinuclear no porão para proteger a família, aproveitando para estocar comida, água e ainda treinar a filha para correr caso o ataque comece.


Peggy é sozinha, sem irmãos e volta e meia tenta chamar a atenção dos pais. Como é ela quem narra o livro, nós oscilamos em suas lembranças em 1976 e em 1985, que é quando ela retorna para casa. Você já é fisgada pelo mistério logo aí, sobre o que aconteceu com ela durante aquele período. Ute e James parecem ter uma relação tensa, mesmo que uma grande história de amor tenha surgido entre eles, o rapaz adolescente e a pianista mais velha e famosa.

O problema começa quando Ute parte para uma turnê na Alemanha e deixa pai e filha sozinhos em casa. Ele se muda com a menina para o jardim, onde eles vivem da natureza, sem usar nada de dentro da casa, comendo esquilos que caçam atrás do terreno. Peggy para de ir à escola e a chegada do estranho amigo de seu pai muda a rotina dos dois. Então um dia, ele parte com a menina de Londres, atravessam o canal, vão para o continente, trocando de trem, de ônibus o tempo todo, até que passam a andar pela floresta, chegando à uma cabana no meio do nada.

Fiquei pensando nessa mudança drástica para a cabeça de uma criança que não quer desapontar o pai. Ela se revolta, diz que quer voltar para casa, que não aguenta viver daquele jeito, já que a casa está caindo aos pedaços, mas o pai lhe solta a bomba: o mundo acabou. Só existem eles dois e ambos precisam um do outro para sobreviver. Sabemos que é cascata dele porque o livro já começa em 1985, quando ela volta. Então, o que aconteceu?

Foi isso o que havia acontecido, era assim que eu me lembrava. Mas os médicos dizem que meu cérebro está me enganando, que passei muito tempo com deficiência de vitamina B e minha memória já não funciona como deveria. Diagnosticaram síndrome de Korsakoff e prescreveram grandes cápsulas laranjas que Ute me faz tomar com o primeiro gole de chá preto de manhã. Eles acham que me esqueci de coisas que realmente aconteceram e inventei outras.

Página 99

A vida dos dois é puxada, pois eles dependem da floresta para tudo. Peggy pegou trauma do rio depois da travessia em que quase se afogou por não saber nadar e não se arrisca a chegar perto. Além da floresta existe apenas a Grande Divisa, onde o mundo acaba. Em casa, de volta para a mãe, ela se pega pensando no pai e sabemos que ela está com deficiências minerais e de vitaminas, com os dentes podres, e falhas de memória pela desnutrição. É aí que temos que enxergar algumas de suas memórias por outro viés. Se eu falar mais, entrego o spoiler.

O livro é pequeno, mas cheio de significado, cheio de memórias e traumas, vidas partidas e mentiras. Você termina pensando no que acabou de ler, em como uma pessoa precisa conviver com o trauma e até em nossos próprios traumas. O livro tem uma capa linda, porém triste. Bem diagramado e com poucos erros de digitação ou revisão.

Ficção e realidade
Assim que virei a última página, fiquei sem saber se eu odiava a autora pelo o que fez ou se a aplaudia pela genialidade na condução do enredo. Ela nos leva por caminhos tortuosos, mostrando uma visão da realidade e quando a realidade se desnuda diante de nós a vontade é de querer gritar, espernear e chorar pelo o que aconteceu. Claire, meus parabéns pela forma como conduziu a vida de Peggy. Te odeio\amo.

A mente humana é plástica, maleável e facilmente influenciável. Pense no tamanho da influência do pai de Peggy em sua personalidade, em como ele enganou essa criança de 8 anos, na atrocidade de fazer a vida dessa criança parar no tempo para voltar de maneira tão traumática ao mundo real. Pais mentem por diversas razões para seus filhos, mas o crime cometido por James é ignóbil e revoltante.

Pontos positivos
Thriller psicológico
Bem escrito
Personagens irritantemente bem descritos
Pontos negativos

Trigger warning
Pode ser lento em algumas partes

Título: Nossos Dias Infinitos
Título original em inglês: Our Endless Numbered Days
Autora: Claire Fuller
Tradutora: Carolina Selvatici
Editora: Morro Branco
Páginas: 330
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Não vou dizer que será uma leitura fácil, porque você vai querer chegar até a última página rapidamente. Porém, quando você chegar, é provável que tenha a mesma reação que eu, querendo chorar e gritar pelo o que acabou de ler e pela forma como a autora te conduziu. No final, ainda tem algumas perguntas para um potencial clube do livro, para poder discutir sobre o que foi lido e tentar aceitar os fatos traumáticos da vida de Peggy. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Que babado!!!
    Fiquei instigada agora.
    Adoro triller psicológico, nunca mais li nada nesse gênero.
    Vou favoritar pra ler posteriormente.
    Fiquei tensa ÓÓ

    xoxo
    http://rascunhosehistorias.blogspot.com.br/

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  2. Confesso que fui leviano e ao juntar uma capa comum com uma editora que está começando agora fiquei desconfiado, mesmo sabe que ela trará Octavia Butler.
    Eis que leio esse review e fico animado pra ler a obra
    Desculpa Morro Brancos. Vocês realmente começaram bem.

    ResponderExcluir

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