Resenha: Legado, de Hugh Howey

sexta-feira, setembro 30, 2016

E chega ao fim a trilogia Silo, de Hugh Howey. Silo foi publicado na Amazon, pela ferramenta de autopublicação e virou um fenômeno. O primeiro livro foi escrito nas horas de folga do autor que, na época, trabalhava em uma livraria. O segundo livro, Ordem, nos explica sobre a origem dos silos e Legado deveria finalizar a trilogia de maneira brilhante com uma solução para Jules, a protagonista e seu povo no silo 18. DEVERIA.



Esta resenha conterá spoilers leves dos dois primeiros livros.

O livro
Juliette causou um rebuliço no Silo 18 onde mora e é prefeita quando decidiu perfurar o fundo do silo para chegar ao 17, onde uma pequena população está isolada e desassistida em um lugar com poucos recursos e parcialmente alagado que ela conheceu quando foi banida do silo. Centenas de anos vivendo em um ambiente lacrado como aquele gerou uma imensa desconfiança da população, algo que o autor soube trabalhar bem. Alguns personagens são irritantes em vários sentidos devido à boa construção dada pelo autor.


Os capítulos se alternam entre a visão do silo 18, do silo 17 e do silo 1, onde ficam as pessoas responsáveis pela idealização e construção dos silos. Conhecemos melhor essas pessoas no segundo livro, Ordem e depois em Legado algumas dessas pessoas querem consertar tudo o que fizeram de errado com todos os silos ao redor deles. E eles querem saber se há uma possibilidade de viver fora destes espaços lacrados.

OK. Adoro a personagem Juliette. Ela não segue os estereótipos batidos de personagens femininas como vemos por aí. Ela é uma líder, mesmo que controversa para seu povo, já que busca respostas para a situação em que estão, sabendo que a população não quer que o delicado equilíbrio do silo se quebre. Ela luta para chegar à verdade, fazendo até uma arriscada saída do silo para colher amostras, que lhe diz que o problema não é exatamente lá fora e não se importa se sua vida estará em risco para isso. Ela sabe onde estão os culpados, sabe que vivem uma mentira e quer ir atrás deles por tudo o que fizeram ao longo de centenas de anos.

O problema é que o autor, nitidamente, perdeu a paciência de explicar com mais detalhes o mundo em que eles vivem. E tudo bem, existem momentos em que manter o mistério é legal para deixar que o leitor preencha as lacunas. O problema não é esse. Hugh começa a explicar sobre o que levou o mundo a ficar tóxico daquele jeito e para. Começa a explicar porque algumas pessoas sobrevivem ao ar tóxico e para. Começa a explicar sobre a nuvem tóxica sobre os silos e para! Isso é extremamente irritante. Tão irritante, que o final do livro chega e ficam aquelas várias pontas soltas que Howey tentou amenizar com o final otimista.

Lembro que quando comecei a ler Silo, ficava pensando em várias hipóteses para eles. Cheguei a pensar que eles estariam em mundo alienígena e que vivessem protegidos da atmosfera tóxica. E a explicação para a construção do silos me soou forçada e ridícula demais. Vemos que, no final, aquele ambiente super tóxico não era uniforme e o autor não consegue explicar como que apenas uma porção da superfície conseguiu ficar centenas de anos tóxica. Desculpe, Hugh, mas não colou sua explicação de poucas linhas.

No final, acredito que a experiência positiva da trilogia é com os personagens e como eles evoluíram. De pessoas acostumadas e acomodadas em sua vida restrita no silo para gente que arriscava tudo para encontrar uma solução. Isso foi bem positivo e otimista de Howey, mas as explicações dadas para tudo isso não me convence. Um planeta desse tamanho teria praticamente acabado com sua civilização apenas pela megalomania de um punhado de políticos de Washington? E tão rápido? Por favor, né?

Ficção e realidade
Uma das coisas que sempre me fez pensar em Silo foi a forma como as pessoas veem seus espaços e até a própria geografia. Como ensinar as montanhas, os oceanos, as rochas para alguém que sempre viveu confinada em um espaço fechado? Os grandes espaços abertos causariam um temor imenso em alguém assim. Ver o céu estrelado sobre sua cabeça, o nascer e o pôr do sol, experiências que são tão simples para nós, que chegam a passar batido durante o dia, seria um acontecimento para essa população.

Os silos nos lembram também do temor da guerra nuclear e de como ensinavam para as pessoas a se protegerem no caso de uma detonação, fruto da paranoia da Guerra Fria.


Pontos positivos
Juliette
Distopia
Final positivo
Pontos negativos
Explicações incompletas ou sem pé nem cabeça
Ponta soltas demais


Título: Legado
Título original: Dust
1. Silo
2. Ordem
3. Legado
Autor: Hugh Howey
Editora: Intrínseca
Páginas: 368
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Enquanto Silo é um livro viciante e primoroso, os outros dois desceram a ladeira e Legado quase se arrebenta lá embaixo, sendo segurado apenas por Juliette, personagem incrível, completa, bem construída. Infelizmente, o mundo em que ela vive, tirando a solidez e frieza dos silos, não foi bem construído para nos explicar convincentemente a urgência da construção dos silos, a megalomania dos construtores e a manutenção daquele ambiente tóxico fora deles, que era o que mais me interessava saber. No fim, todas as essas páginas não conseguem te convencer da urgência da situação. Apenas três aliens.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Eu gostei muito do primeiro livro, mas não me animei para ler os outros dois. E quando leio resenhas dos livros seguites confirmo que não darei continuidade à trilogia Uma pena porque, como você apontou, tinha muito potencial.
    Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu fiquei muito triste com a forma como o autor desenvolveu esses dois livros. Parece que ele perdeu o jeito, o fio da meada, deixou tantas pontas soltas... Acho que faltou um editor pra dizer pra ele, AMIGUE, SEJE MÁS!, ao invés de 'seje menas'.

      Excluir

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