O estranho (e hilário) futuro de O Demolidor (1993)

Os anos 1980 e 1990 estão recheados de filmes de ação com heróis másculos e oleados, salvando a mocinha e o mundo no final. Mas em 1993 surgia um filme que tirava sarro dos filmes de ação e ainda apresentava um futuro perturbador, uma distopia disfarçada de utopia, onde todo mundo PARECE ser muito feliz. Neste futuro clean não tão distante da gente se desenrolava boa parte do enredo de O Demolidor.

O estranho (e hilário) futuro de O Demolidor (1993)




O Demolidor fala de um policial daqueles bem caricatos, John Spartan (Sylvester Stallone), que tem uma relação de gato e rato com o super vilão, também caricato, Simon Phoenix (Wesley Snipes). Uma situação de reféns termina mal para Spartan que acaba condenado por várias mortes e acaba na prisão junto de tantos bandidos que ele mesmo mandou para lá. Tanto Spartan quanto Phoenix são condenados à crioprisão, onde ficarão congelados criogenicamente por várias décadas. Mas em sua audiência de condicional, Phoenix escapa e a polícia, completamente despreparada para lidar com esse tipo de criminoso, acaba por descongelar Spartan, em 2032, na esperança de prendê-lo.

É uma premissa batida de qualquer filme de ação que já tenhamos visto, mas o diretor, Marco Brambilla, usa a tiração de sarro como uma ferramenta para criticar o futuro clean que tantos outros longas futuristas mostraram. Será que no futuro teremos mesmo resolvido todos os problemas? Ou será que ele esconde podridão sob o verniz de modernidade?

Spartan acorda em um mundo onde tudo o que é considerado ruim para uma pessoa é contra a lei. Gravidez, carne vermelha, sal, até os palavrões, tudo isso é ilegal em San Angeles, região que abrande San Diego até Santa Barbara depois que um terremoto destruiu Los Angeles em 2010. Nesta cidade a violência foi eliminada da sociedade a tal ponto que os policiais não têm como lidar com ela. Assim, quando Phoenix surge nas ruas e começa a fazer picadinho dos cidadãos, a polícia é inútil. Ainda que contenha cenas de ação ridiculamente impossíveis para um ser humano comum executar, o filme mostra uma política higienista que foi levada até às últimas consequências, onde não há equilíbrio.

San Angeles reprime fortemente a liberdade pessoal, achando adequado restringir as ações das pessoas para seu próprio suposto bem. Porém, debaixo da cidade vive um contingente de excluídos, liderados por Edgar Friendly (Denis Leary), que é a ponta oposta do espectro. Enquanto em cima tudo é proibido, lá embaixo Friendly é quase autodestrutivo, querendo fumar um monte de charutos de uma vez e se entupir de queijo gorduroso, acreditando ser essa a liberdade que San Angeles não fornece. De novo, não há equilíbrio nas duas sociedades.

Sandra Bullock, Sylvester Stallone e Benjamin Bratt


Leia também: 10 coisas que você não sabia sobre O Demolidor

O consumismo grosseiro se estabeleceu de tal maneira que acabou substituindo até mesmo os prazeres mais mundanos. Ouvir música? Só se for jingles de comerciais, pois a música como conhecemos acabou. Inclusive houve uma Guerra de Franquias que acabou com apenas um vencedor, a rede Taco Bell. Assim, todos os restaurantes de San Angeles são Taco Bell. Adeus concorrência e adeus também livre-arbítrio. O filme tanto faz uma crítica quanto também dá um exemplo perturbador do que acontece dentro de um mercado de massa.

Um exemplo bem didático de como a repressão "para o seu bem" existe é na cena de sexo entre Lenina Huxley (Sandra Bullock) e Spartan. Eles não se tocam em nenhum momento; o sexo é virtual, por conectores na cabeça que enviam os sinais de uma mente para a outra. O motivo para isso foram as infecções sexualmente transmissíveis que surgiram depois da AIDS. Então, a lógica desse mundo doido é proibir o sexo de uma vez ao invés de investir em prevenção e em pesquisa em saúde. Se formos parar para pensar, o mundo de Friendly, nos esgotos de San Angeles, tem mais liberdade do que as pessoas da superfície que não podem nem mesmo soltar um palavrão sem pagar uma multa.

Longe de ser uma obra-prima, o filme é divertido e brega como só os anos 1990 conseguiam ser. Mas ele tem sua parcela séria quando precisa, em especial na crítica sobre liberação e proibição, entre livre-arbítrio e repressão. Ele mostra um mundo onde as pessoas renunciaram suas liberdades por um suposto bem coletivo, sob a promessa de viverem em um mundo livre de perigos. Mas o que pode ser mais perigoso do que viver sob a repressão? Não importa se esse mundo é clean e limpinho como uma loja da Apple, ele ainda reprime seus cidadãos que se orgulham de viverem na cidade.

O Demolidor está disponível para aluguel no Amazon Prime!

Até mais! 🐚🐚🐚


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1 Comentário

  1. Saudações joviais!
    Lembro desse filme que passou várias vezes no SBT, e como sempre me diverti assistindo justamente por essa subversão de um futuro "clean", com tolerância e felicidade quase artificial. Se não fosse pelo ratoburguer, viveria mais feliz em Friendly mesmo, ahaha.
    Abraços!

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