Resenha: Carrie, de Stephen King

Eu sou uma relutante leitora de Stephen King. Não tenho medo de admitir que seus livros mais recentes como Depois e Ascensão me agradaram muito mais do que os livros mais antigos. Por isso eu estava ansiosa pela leitura de Carrie, com uma nova tradução e projeto. O primeiro livro do mestre poderia ser muito bom ou muito ruim. E aí, ler ou não ler??





O livro
Carrie White é uma adolescente de 16 anos que mora em uma fictícia cidade do Maine chamada Chamberlain, em 1979. Oprimida pela mãe, uma cristã fundamentalista completamente ababublé das ideias, que vê pecado em tudo, inclusive na filha, Carrie também sofre um bullying pesado na escola. Sem amigos, isolada, vista como estranha, Carrie é solitária e temerosa. Incapaz de olhar as pessoas nos olhos de tanta vergonha, ela vive seus dias calada, sem perspectiva e sem futuro.

Resenha: Carrie, de Stephen King

Um dia o bullying contra ela chega a níveis insuportáveis. No chuveiro, as alunas tomando banho após a educação física, Carrie tem sua primeira menstruação. O sangue começa a escorrer pelas pernas e fica visível para as colegas que começam a debochar dela. Principalmente Chris Hargensen, uma personagem insuportável de tão nojenta. As colegas jogam absorventes sobre a pobrezinha da Carrie que achava estar morrendo ao ver o sangue fluindo. Quem a socorre é a professora de educação física que não apenas explica o que está acontecendo como a ensina a usar absorventes.

Misturando a visão da Carrie com recortes de jornais, depoimentos, relatórios e trechos de livros e artigos científicos, sabemos logo de cara que algo acontececu de muito grave com ela, pois até mesmo uma comissão estadual foi aberta para investigar os eventos que envolviam a cidade de Chamberlain e Carrie. Em uma narrativa rápida, mas que não sacrifica a profundidade dos personagens, acompanhamos com angústia o sofrimento da garota, bem como os relatos que reconstroem sua infância e os eventos anômalos que a cercam.

Carrie era telecinética, ou seja, era capaz de mover as coisas com a mente. Eventos como uma chuva de pedras são mencionados nos trechos de artigos e livros sobre o caso, mas uma coisa que eles ressaltam é que os poderes de uma pessoa telecinética se acentuavam na adolescência. Acometendo principalmente mulheres, os poderes ficavam muito fortes após a primeira menstruação. Está montando o cenário de desastre na cidade.

As pessoas não se tornam melhores, só mais inteligentes. Quando se fica mais inteligente, você não para de arrancar as asas das moscas, só procura motivos melhores para fazer isso.

King não poupa adjetivos na hora de descrever Carrie, o que chega a incomodar em vários momentos. Não sei se ele falou isso porque era a forma como ela era vista pelos colegas ou se o narrador era tão cruel quanto eles. Principalmente no começo do livro a coitada é descrita quase como de forma animalesca e depois, quando as pessoas param para olhar para ela, como Tommy, eles percebem que ela não era a baranga que achavam que era, que era na verdade uma moça bonita e gentil. Mas é assim que o bullying funciona, reduzindo as pessoas a algo menor que um ser humano, animalesco.

Nunca assisti ao filme de 1976, assisti apenas o de 1999, que é um filme derivado, mas com o mesmo desfecho macabro. E mesmo assim me surpreendi com os eventos do livro e, principalmente, a forma como terminou. Para um livro tão curto (não tem nem 210 páginas), muita coisa acontece nele. Eu até leria mais páginas sobre Carrie, aliás. Quando ela começa a se descobrir, começa a sentir seu poder, ela passa a mudar, a ficar mais confiante, a ser vista pelos outros de forma diferente. Mas aí, né? Aí a gente já sabe o que aprontaram para cima da coitada, nem preciso dizer porque você já deve saber o que é.

Não li o livro físico, li o ebook, o que é uma pena, pois ele está com capa dura, novo projeto gráfico e nova tradução. Aliás, devo dar os parabéns à tradução de Regiane Winarski, tradutor já calejada no mestre. Ela adaptou muito bem algumas expressões para o nosso bom português brasileiro de 2022, tendo expressões como "seu arrombado do caralho" lá pelo texto. A leitura flui bem em grande parte pelo trabalho de tradução. Parabéns Regiane pelo trabalho excepcional. O livro está bem revisado e diagramado, não encontrei problemas durante a leitura.


O ensino médio não é um lugar muito importante. Quando estamos nele, achamos que é, mas quando acaba ninguém acha que foi ótimo, a não ser que encha a cara de cerveja.


Obra e realidade
Além do bullying, o livro também toca em outros temas, como o da maternidade. A mãe de Carrie nunca tentou entender a filha, nunca se conectou com ela. Ao contrário, achava que a menina era filha do demônio e tentava afastar "o mal" por meio das orações, dos castigos físicos, do isolamento da menina. O papel do fundamentalismo religioso é muito importante aqui, mas sinto que Margaret não amava a filha, ou não teria decidido erguer uma faca contra ela. Margaret precisava era de muita terapia, mas no fim ela é tanto vítima quanto algoz de Carrie.

Achei bem interessante a introdução do próprio autor no livro, onde ele conta sobre como Carrie nasceu e como chegou à publicação e, o principal, as inspirações em seu próprio período escolar e em jovens que conheceu. De certa forma ele meio que lava a alma daquelas garotas ao fundi-las na imagem da Carrie. Também é interessante pontuar que este livro foi para o lixo e foi salvo por sua esposa, Tabitha. Aqui fica uma grande lição para todo mundo que escreva: nunca decida nada quando estiver frustrado, com raiva ou cansado.

Stephen King
Stephen King

Stephen King é um mestre do terror e do suspense. Eu era muito nova quando assisti Cemitério Maldito e dormi mal por dias!


Pontos positivos
Bem escrito e traduzido
Carrie
Sue Snell
Pontos negativos
Acaba logo!
Violência

Título: Carrie
Título original em inglês: Carrie
Autor: Stephen King
Tradutora: Regiane Winarski
Editora: Suma
Páginas: 208
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Este é um livro para fãs do King e também para aqueles que querem começar a ler as obras do mestre, mas têm medo de pegar um calhamaço como It, a Coisa. É um livro curto, que voa na sua mão, mas que tem ótimos personagens, daqueles que a gente ama odiar, além de um enredo que te fisga desde o começo. E claro, tem Carrie, a heroína e vítima e vilã, tudo junto e misturado com maestria por King. Quatro aliens para o livro e uma forte indicação para você ler também!


MUITO BOM!


Até mais! ☠


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6 COMENTÁRIOS

  1. Quero muito ler esse livro! Bom saber que você gostou.

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  2. A-ca-bei de ler esse livro Sybylla! No geral eu gostei, mas acho que por ter assistido o filme do Brian de Palma, alguns elementos não foram assim tão surpreendentes, o que tirou um pouco da diversão da leitura. Esse é o problema de ver o filme antes de ler o livro, né? Mas gostei especialmente do final, do prolongamento da destruição para a cidade de Chamberlain (que acaba não sendo muito explorado no filme). Beijos :*

    Não Me Mande Flores

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    Respostas
    1. Ainda preciso ver o filme! Só vi o Carrie 2, aquele dos anos 90. Mas curti muito o livro! E a tradução tá ótima, né? Super atual e bem feita.

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  3. As traduções da Regiane são ótimas, né? Já faz bastante tempo que li Carrie, mas lembro de ter gostado bastante na época.
    Parabéns pela Resenha!

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