Resenha: BTK Meu Pai, de Kerri Rawson

Este é um livro bastante emotivo, com muitos altos e baixos, muitas revoltas e perguntas sem respostas. Kerri Rawson é filha do notório assassino em série BTK, Dennis Rader, preso em 2005 depois de trinta anos de terror em Wichita, no Kansas. Aqui ela conta sobre o pai que conheceu, atencioso e carinhoso, e como a notícia de sua carreira de crimes quase destruiu sua vida.





Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Era 2005 quando Kerri abriu a porta para um homem que esteve observando seu apartamento por meia hora, em Detroit. Tendo sido ensinada pelo pai a sempre desconfiar de estranhos, ela ligou para o marido. Mas o homem bateu na porta e se identificou como um agente do FBI. E ele trazia uma notícia difícil de digerir. O pai de Kerri, Dennis Rader, tinha sido preso enquanto caminhava para almoçar em casa. A polícia estatual e o FBI estavam convictos de que ele era o famoso assassino em série BTK (bind, torture, kill, ou amarrar, torturar, matar). Kerri sentiu sua vida acabar naquele mesmo instante.

Resenha: BTK Meu Pai, de Kerri Rawson


👉🏼 Leia também: resenha de BTK Profile, Máscara da Maldade

Kerri lembra de muitas coisas de seu pai na infância. Lembra que ele era atencioso, carinhoso, mas que tendia ao destempero às vezes. Sua mãe dizia que o melhor era se afastar e deixar que ele se acalmasse por si só do que confrontar. Ele também era rígido com a segurança da casa. Ensinou os filhos a nunca abrir a porta para estranhos, a sempre verificar se os policiais eram quem diziam ser, a trancar portas e janelas. Kerri via um pai zeloso com a família. Mas talvez fosse a paranoia de ser investigado pela polícia falando mais alto.

Recheado com fotos de arquivo da própria Kerri, o livro conta sobre suas memórias de uma convivência que ela acreditava ser o normal para muitas famílias. Seu pai gostava de acampar e sempre levava os filhos e sobrinhos junto. Há muitas menções a viagens e aventuras em cânions aos finais de semana e nas férias da família. Kerri teve seus problemas de adolescente, mas entrou em depressão com a morte da prima em um acidente de carro que afetou toda a família. Suas notas na faculdade despencaram, ela oscilava no curso, sem saber se conseguiria terminar.

Quem deu força para ela nesses momentos? A família e, principalmente, seu pai. Algumas das lembranças mais queridas de Kerri são com ele. Então como fica a cabeça de uma filha que descobre que seu pai era um assassino em série cruel que matou crianças? Lembro que quando li BTK Profile, Máscara da Maldade, a primeira coisa em que pensei foi na família dele. A ex-esposa, mãe de Kerri, é bastante reclusa e até se mudou do Kansas para evitar o assédio da mídia. Kerri é a única que resolveu falar abertamente do trauma constante que é o de pensar no pai e em tentar conciliar o que ele fez com a imagem de pai amoroso que tinha dele.

Vencer as primeiras 150 páginas do livro pode ser difícil. Kerri retorna às memórias da infância e adolescência, até sua entrada na faculdade, ao seu casamento enquanto conta eventos marcantes da vida ao lado do pai. Apesar de trabalhar e de estudar, Dennis Rader estava presente para os filhos e há fotos dele junto de Kerri decorando a árvore de Natal, junto dela na formatura, juntos em uma pescaria animada, o dia do casamento de Kerri. Quem poderia imaginar que o líder dos escoteiros, presidente da congregação da igreja faria tais coisas tão brutais?

Quando a gente perde alguém , sempre há últimas vezes. O último abraço, o último Natal, as últimas férias. O último milkshake de chocolate, a última pescaria, a última vez que caminhou com a pessoa que amava.

(...)

Mesmo no meu caso, em que o homem que havia perdido ainda estava bem vivo. Mesmo no meu caso em que todas as lembranças que tenho do homem que amo ficarão manchadas de preto por muitos anos ainda.

Página 163

Como eu disse lá no começo dessa resenha, é um livro muito emotivo. É palpável a sensação de perda com a qual Kerri precisa lidar todos os dias desde a prisão do pai. Não consigo imaginar como deve ser ainda ter amor por uma pessoa que cometeu atos abomináveis. Porque ele é o pai dela, querendo ou não. Aquelas lembranças doces das viagens, dos acampamentos e das pescarias ainda existem. Como lidar? Kerri e sua mãe desenvolveram um trauma sério e que precisou de longos anos de terapia. Kerri perdoou o pai, mas fiquei pensando em sua mãe e em como ela se sentiu ao pensar que dormiu ao lado de um assassino em série por décadas.

Quando as famílias das vítimas ouviram tudo o que o BTK fez aos seus entes queridos, uma família não foi considerada: a própria família Rader, esposa, casal de filhos, ouvindo àquelas barbaridades, sendo duplamente punidas pelos crimes de Dennis. Não consigo imaginar como deve ter sido. Kerri admite que ama o pai e sente falta daquele homem que conheceu, aquele que a ensinava a dançar, que a levou até o altar, que tratava dos seus machucados.

O livro conta com fotos de arquivo da própria Kerri em várias fases da vida. São momentos de intimidade de uma família aparentemente normal, onde ele parece um pai atencioso e dedicado. Há também reproduções de algumas cartas que ele escreveu para a filha e cartas de Kerri ao pai. A autora vem desde a infância, passando pela adolescência, idade adulta, intercalando eventos com sua própria vida. Há momentos que Kerri relata que naquela mesma semana alguma vítima do pai tinha sido morta. Mas há momentos em que Kerri se pergunta se ele dava indícios de ser um psicopata. Como as vezes em que explodia e esbravejava com a esposa ou com os filhos. Poderia ser um traço de sua verdadeira personalidade insensível e imoral?

A edição da DarkSide está ótima, com capa dura e papel amarelo e um ótimo trabalho gráfico interno. A tradução foi de Monique D’Orazio e está ótima. Encontrei poucos problemas de revisão e de diagramação que não chegam a atrapalhar a leitura. Fitilho marca página já tradicional e várias fotos de arquivo de Kerri com seu pai.


Ficção e realidade
Quando Dennis matou a família Otero, sua esposa estava grávida de três meses. O mesmo homem que colocava a filha nos ombros para pendurar a estrela de Natal teve coragem de estrangular uma criança aos poucos, para poder assistir. Para alguém que disse aos policiais que a família atrapalhava sua sede de sangue, isso dá a entender que ele nunca sentiu amor de verdade por ninguém, nem mesmo os filhos. Uma análise psicológica feita a mando do tribunal indica que Dennis é narcisista, antissocial, com distúrbios de personalidade obsessivo-compulsivo, com necessidade patológica de atenção e total falta de empatia pela vítimas.

E aí você lê as memórias de Kerri, todos os momentos felizes que teve ao lado do pai. Os olhos dele marejados quando levou a filha ao altar. Essas memórias são reais ou o tempo acabou preenchendo os espaços e criando memórias falsas na cabeça de Kerri, desesperada por encontrar sentido onde não havia? Ainda é amor se não for correspondido?

Dennis Rader foi sentenciado a 10 penas consecutivas de prisão perpétua, com um período mínimo de 175 anos para pedir condicional. Ele cumpre pena na Penitenciária de El Dorado, no Kansas.

Kerri Rawson


Kerri Rawson é uma professora e escritora norte-americana.


Pontos positivos
Bem escrito
Bem pesquisado
Trabalho gráfico
Pontos negativos

Pode ser lento em algumas partes

Título: BTK Meu Pai
Título original em inglês: A Serial Killer's Daughter: My Story of Faith, Love, and Overcoming (2020)
Autora: Kerri Rawson
Tradutora: Monique D’Orazio
Editora: DarkSide (selo Crime Scene)
Páginas: 384
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon ou no site da DarkSide com um brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
Intenso, brutal, humano, riste, tudo isso pode ser usado para descrever este livro. Kerri foi muito honesta em seu relato sobre a perda, sobre a dor, sobre a saudade que sente daquele homem capaz de coisas tão abomináveis, sobre sua fé e a falta dela. Kerri admite sentir falta do pai, ainda que saiba que ele perdeu a vida assim que foi preso e encarcerado na segurança máxima de uma penitenciária. Ele nunca conhecerá os netos, nem fará parte da vida deles. Se você é fã de true crime, então deve ler este livro. Cinco aliens para BTK Meu Pai e uma forte recomendação para você ler também.




Até mais!


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1 Comentário

  1. conheci esse caso assistindo mindhunter semana passada (série que me deixou tristíssima por esse indefinido hiato-cancelamento). deve ser incrível a leitura, porque já é complicada a situação killer x vítimas, quando o assassino possui família a coisa piora ainda mais. vou anotar na minha lista de leitura!

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