Resenha: Uma história da leitura, de Alberto Manguel

Sabe quando você se apaixona por um livro? Então, foi o que aconteceu com essa leitura aqui. O autor não quis resgatar a história do livro em si, ainda que aborde em alguns momentos, mas sim quis resgatar nossa relação com a leitura, como ela evoluiu acompanhada dos livros e a forma como lemos se alterou ao longo dos séculos.





Parceria Momentum Saga e
Companhia das Letras


O livro
Interessante começar essa resenha pelo título do livro. Uma história da leitura é apenas isso, uma entre várias. Querer elencar a forma como a leitura se desenvolveu, como ela evoluiu na civilização, é um trabalho de uma vida. Manguel queria ser mais conciso e direto e por isso resolveu abordar apenas algumas questões, sendo essa mais uma história da leitura, mais uma forma de analisar essa incrível capacidade humana que a de ler.

Resenha: Uma história da leitura, de Alberto Manguel


Uma biblioteca, antes que o leitor faça uma escolha, é como a sopa primordial de átomos da qual surgiu toda a vida. Tudo está à sua disposição: cada ideia, cada metáfora, cada história, bem como a identidade de cada leitor individual.

Página 14

Originalmente publicado em 1997, fruto de vários anos de trabalho, o livro ainda se mantém atual, já que a ameaça sobre o livro continua. Muitos alardeiam que o livro é exclusivo da elite ou que as tecnologias dos e-readers vão acabar substituindo o livro físico, como se não houvesse espaço para ambos nas mãos dos leitores. Quem diz que o livro está com os dias contatos muito provavelmente não lê por prazer, lê por obrigação, porque precisa no trabalho e não entende a indescritível sensação de mergulhar em uma leitura, seja pelas páginas de um livro de papel, seja pela tela do meu Kindle.

Dividido em quatro eixos temáticos, o livro de Manguel traça um longo histórico sobre o desenvolvimento e variação da atividade da leitura na civilização, principalmente ocidental. Sempre com impressões muito pessoais de sua vida como leitor, Manguel aborda a importância da leitura e como ela sempre precedeu a escrita nas sociedades. Fala da forma divina que livros adotaram para as religiões numa época em que os deuses não exigiam nenhum escrito.

Achei bem interessante o capítulo que fala sobre o espanto de Santo Agostinho ao ver Santo Ambrósio lendo em silêncio. Desde as tábuas de argila que as palavras registradas deveriam ser lidas em voz alta. Aliás, é o registro de Agostinho em sua obra Confissões o primeiro relato sobre a leitura silenciosa, o que implica que a leitura era sempre feita em voz alta. Manguel inclusive se questiona como seriam as bibliotecas na época, sendo que hoje o que mais se cobra lá dentro é o silêncio absoluto. A leitura silenciosa evoluiu, principalmente, com a invenção dos sinais gráficos de pontuação, que nos diziam onde parar, onde pausar e onde continuar a ler, sem a presença de alguém lendo em voz alta.

A tarefa do leitor era a de dar voz às palavras silenciosas de um texto escrito. É fácil imaginar isso acontecendo em um mundo onde a maioria da população era analfabeta. Poucos privilegiados tinham a habilidade de ler, então para que todos pudessem usufruir dos ensinamentos de um texto, era preciso ler em voz alta para todos. Mas mesmo assim a leitura em voz alta não sumiu de todo. Há registros de leituras em conjunto em residências vitorianas, autores recitando seu texto para uma audiência ansiosa e até mesmo os lectores das fábricas de charutos em Cuba.

O livro é um instrumento tão poderoso que sempre meteu medo em regimes totalitários. Uma das primeiras providências dos fascistas é dizer que o livro é um luxo supérfluo, que só as elites têm acesso ou então categorizá-los como subversivo e promover queimas em nome de seus regimes. Mas por muito tempo, o livro foi visto como um túmulo das ideias. Na Antiguidade Clássica, houve filósofos que eram contrários ao registro das palavras. Eles acreditavam que as ideias precisavam da memória e não do registro, onde ela eventualmente se perderia.

Um leitor precisa ser singularmente simplório para acreditar que as palavras escritas podem fazer mais do que recordar a alguém o que ele já sabe.

Sócrates, página 77

Com uma linguagem clara, sem rebuscamentos acadêmicos, o autor discorre deliciosamente sobre a evolução do ato de ler, a evolução do objeto livro, o medo que a leitura exercia e que acabou levando à proibição do ensino para as mulheres, a evolução da educação e da alfabetização com base nos livros e os significados que damos às leituras. Um livro que me emociona pode ser uma leitura banal e sem graça para outra pessoa, algo que não aconteceria com a leitura em voz alta por outra pessoa para uma plateia.

O autor chega a escrever sobre o lugar da leitura e como ele também evoluiu. Gosto muito de ler no conforto da minha cama, mas este é um hábito novo, afinal por muitos séculos, as pessoas dormiam em camas comunitárias. Não existia o conceito de um quarto próprio, um local de descanso único. Ter seus livros dispostos na cabeceira, enquanto você termina um capítulo antes de dormir é algo que poucas pessoas têm acesso até mesmo hoje em dia.

Como séculos de ditadores souberam, uma multidão analfabeta é mais fácil de dominar; uma vez que a arte da leitura não pode ser desaprendida, o segundo melhor recurso é limitar seu alcance. Portanto, como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras.

Página 296

É uma pena que o livro seja em formato pocket, o que leva à deformação da capa e que a revisão tenha deixado a desejar. Encontrei São Agostinho e Santo Tomás de Aquino, para mais para frente estar São Tomás de Aquino. Há também uma rainha Isabel, que no Brasil é conhecida por rainha Elizabeth. Coisas assim tiram um pouco a graça da leitura. A tradução é de Pedro Maia Soares e está muito boa. A leitura fluiu muito bem, tirando esses problemas de revisão.


Obra e realidade
Me identifiquei horrores com o livro e com a experiência de Manguel conforme lia. Seja no Kindle, seja no livro físico, eu quero é ler. Tenho meus gêneros favoritos, como todo mundo tem, mas busco sempre diversificar as leituras para conhecer mais e saber mais. Costumo dizer que a pessoa que diz não gostar de ler apenas não encontrou uma obra que atraísse sua atenção, pois se tem algo mágico na literatura é isso: há um livro para cada tipo de leitor.

Percebi conforme lia que muitas coisas que temos hoje como garantido são recentes e que a mente humana ainda está evoluindo junto da capacidade de ler. Achei bem interessante conhecer essa evolução da leitura nas sociedades e ver como o objeto livro está em constante mutação, mas mantendo a importância da leitura em si. Seja no papiro, seja no pergaminho, no códice que evolui para os livros atuais, até aos leitores digitais, a tecnologia apenas nos deixou mais ligados à leitura do que antes.

Como muita gente, comecei a ler na escola. Na 2ª série, nossa professora nos levou à biblioteca da escola, nos falou o que era, para que servia, como procurar livros e emprestá-los e ainda nos estimulou a fazer a carteirinha, mostrando como poderíamos usar os livros para pesquisar ou apenas ler pelo prazer de ler. Apenas lamento que tantas crianças não tenham a mesma oportunidade que tive.

Alberto Manguel


Alberto Manguel é um escritor, tradutor, ensaísta e editor argentino e atualmente cidadão canadense. É autor de vários livros de não-ficção e análise literária.


Pontos positivos
Textos bem escritos
Evolução da leitura
Reflexões sobre a literatura
Pontos negativos
Alguns errinhos de revisão
Acaba logo!
Edição de bolso

Título: Uma história da leitura
Título original em inglês: A history of reading
Autor: Alberto Manguel
Tradutor: Pedro Maia Soares
Editora: Companhia das Letras (selo Companhia de Bolso)
Páginas: 384
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Já conhecia o trabalho de Manguel por outro livro seu, Notas para uma definição do leitor ideal. Lemos de maneira tão automática, ainda mais na internet, que nem percebemos que ele também é fruto de uma longa evolução e refinamento na sociedade. Mais do que uma elegia ao livro, é uma forma de resgatar essa história fascinante do ato de ler para nos conectar com aqueles primeiros escribas, com Enheduana, com lady Murasaki, com Kafka, com Borges. Acho que todo mundo que ama ler deveria ler esse aqui. Leitura essencial e uma forte recomendação para você ler também!

Até mais! 📖


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1 Comentário

  1. "Lendo Imagens" também é excelente, li na faculdade e me apaixonei pela escrita do Manguel ali. Agora, quero ler "Encaixotando minha biblioteca".

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