As tábuas de Eva

Uma das disputas mais bobas dentro do mundo literário é sobre e-reader e livros físicos. Quem defende um com unhas e dentes abomina o outro com igual determinação. Essas pessoas me lembram muito uma frase de Claude Frollo, o arquidiácono de Notre-Dame, no romance de Vitor Hugo, alegando que o livro impresso destruiria o livro com iluminuras e a letrada arquitetura medieval. O que Frollo ignorava é que uma nova tecnologia dificilmente aniquila a anterior. E quando o assunto é literatura, novas tecnologias sempre são bem-vindas.

As tábuas de Eva





Em algum momento dos primeiros séculos antes de Cristo, surgiu um conjunto de escritos chamado A Vida de Adão e Eva, ou o Apocalipse de Moisés. Ele reconta a história de Adão e Eva, principalmente depois de sua expulsão do Jardim do Éden, até suas mortes. Os escritos fornecem mais detalhes sobre a Queda do Homem, incluindo uma versão de Eva sobre o acontecimento. O Lúcifer também explica que ele se rebelou porque Deus o mandou se curvar diante de Adão.

Os escritos são basicamente uma biografia do primeiro casal e tal como muita gente hoje curte ler sobre as vidas de seus ídolos, no passado não era diferente. Muita gente ansiava por saber mais sobre os primeiros seres humanos. Assim, um escriba, ou vários escribas anônimos, quem sabe, começaram a compilar as aventuras de Adão e Eva, seus filhos, as tretas entre eles, com reviravoltas e barracos dignos de qualquer novela atual.

Em algum momento no final desses escritos, Eva pede a seu filho Seth (Caim tinha matado Abel faz tempo a essa altura) que escrevesse um relato verdadeiro sobre a vida de seus pais, um que contasse sua versão dos fatos, sem esconder nada. O livro que Seth escreveu seria A Vida de Adão e Eva. É assim que ela diz a seu filho:

Mas ouça-me, meu filho! Faça tábuas de pedra e outras de barro, e escreva nela toda a minha vida e a de seu pai e tudo o que você ouviu e viu de nós. Se pela água o Senhor julgar nossa raça, as tábuas de barro serão dissolvidas e as tábuas de pedra permanecerão; mas se pelo fogo, as tábuas de pedra serão quebradas e as tábuas de barro serão cozidas [ficarão rígidas].

Eva sabia que o conteúdo seria o mesmo, mas queria preservar sua história para que os leitores não entendessem errado suas jornadas (e se tem alguém mal compreendida na Bíblia, é Eva). Por isso ela pede que dois materiais diferentes sejam usados. Altera-se a substância do escrito e não seu teor, assim o leitor não perde nada.

Cada tecnologia nova trouxe ao livro uma capacidade sem precedentes de chegar a mais leitores. Do papiro ao velino, das tábuas de cera às encadernações nobres dos mosteiros, cada uma se expande e alcança mais gente. Os tipos móveis e a expansão da alfabetização tornam o livro um objeto popular, para o desespero daqueles que querem que ele continue sendo restrito às bibliotecas da nobreza e do clero. Por que então temos que escolher entre e-reader e livro físico, entre o livro de bolso e o app no celular? Não dá para conciliar todos e garantir que nosso dia esteja coberto pela leitura se assim o quisermos?

Na época da faculdade eu não tinha smartphone e ele teria sido extremamente útil para estudar. Eu poderia ter lido com conforto, pela tela do telefone, no metrô ou no ônibus, sem ter que tirar cópias em papel que amassavam na mochila. Queria ter um e-reader para ler nos ônibus de viagem, na tranquilidade, enquanto percorríamos as estradas nos trabalhos de campo. Mas queria ter livros em edições especiais para poder ler no conforto da minha cama aos finais de semana. Tudo o que eu mais queria era poder LER. Não importava o formato.

Vamos abraçar as tecnologias e não competir para saber quem está certo ou errado. Não caia na falácia de Frollo em O Corcunda de Notre-Drame. Há espaços para tudo, para todos os universos, todas as tecnologias, todos formatos.

Até mais! 📖


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