Resenha: H. H. Holmes: Maligno – O Psicopata da Cidade Branca, de Harold Schechter

Eu já tinha ouvido falar sobre Holmes, um dos maiores assassinos em série dos Estados Unidos, mas não conhecia a fundo sua história nem como ele ainda é influente na cultura pop. Além de um trambiqueiro que passou a perna em muita gente, ele torturava, fazia experiências e matava pessoas com extrema facilidade e prazer.





O livro
H. H. Holmes, ou Herman Webster Mudgett, alcançou um status de mito ao lado de nomes como Jack, o Estripador, Ted Bundy e Ed Gein. Considerados por muitos como um precursor dos crimes em série, Holmes foi um notório estelionatário, bígamo, com mais de 50 processos nas costas por ter enganado meio mundo com seus trambiques. Mas além dos golpes, Holmes tinha prazer em matar e torturar. Com muita lábia e charme, ele conseguiu deixar uma trilha de crimes até finalmente ser preso e julgado.

Resenha: H. H. Holmes: Maligno – O Psicopata da Cidade Branca, de Harold Schechter


Nascido em New Hampshire, Holmes veio de uma família metodista devota. Já adulto, ele viveu em uma época chamada de Era Dourada, um momento da história dos Estados Unidos em que homens enriqueciam rapidamente, alimentando o mito do "self made man", que ainda hoje leva muita gente para este país em busca de riqueza. Houve uma expansão tecnológica sem precedentes, com uma expansão do parque industrial e transformação social em várias cidades, como Chicago. Assim, multidões afluíam para as cidades em busca de oportunidades. Chicago, que tinha sido atingida por um devastador incêndio em 1871, agora renascia como uma fênix e se tornaria um palco perfeito para as intenções de uma pessoa maligna como Holmes.

Em aparência, modos e intelecto, ele era a epítome de sua era. Porém, em relação a sua psicopatologia, de fato foi um homem da nossa época. E, por essa razão, ele é de alguma importância histórica.

Página 19

Holmes sabia explorar a vulnerabilidade dos mais fracos, sabia como explorar em seu benefício, como o fez com uma pobre viúva, dona de uma farmácia, em quem deu um golpe. Uma das principais características de um psicopata é sua capacidade de manipulação e nisso Holmes era perito. Ainda que folhetins sensacionalistas nos anos seguintes lhe atribuíssem dons sobrenaturais para poder fazer o que fez, ele nada mais era do que uma pessoa muito esperta, que se aproveitava das brechas da própria sociedade para transitar.

Ele não se limitava a matar apenas mulheres. Homens, mulheres (jovens, idosas), crianças, sua intenção era realizar experimentos e matar apenas pela perversão da coisa, que lhe dava grande prazer. Usava vários métodos e ainda vendia os esqueletos das vítimas para faculdades de medicina. E até a justiça ser feita, até ele ser preso e finalmente sua sanha assassina parar, demora. O autor não poupa detalhes dos crimes comprovados de Holmes, então não indico o livro para leitores mais sensíveis, ainda que o faça apenas para que saibamos como ele agia e não de maneira a enaltecer seus feitos.

Valendo-se de nomes e biografias falsas, ele se casava e botava a mão no dinheiro das noivas de maneira a expandir seus golpes. Com isso ele fazia dívidas cada vez maiores, sendo obrigado a fugir da cidade algumas vezes e até acabando preso. Mas isso não o impediu de construir o famoso hotel de esquina que se tornaria um castelo dos horrores, de acordo com relatos da época. Chicago foi sede da Feira Mundial de 1893 e havia busca por locais de acomodação. Relatos dizem que o castelo tinha salas secretas, crematórios, locais para tortura que Holmes teria usado em suas vítimas.

Acho que o caso dos Pitezel foi o mais triste do livro todo. O que Holmes fez com essa família foi monstruoso, mas foi também o fim de seus crimes, pois um detetive começou a correr atrás dele em busca de três crianças desaparecidas que estavam sob sua custódia. O fim das crianças é tão ignóbil, que só consigo imaginar a revolta dos policiais que trabalharam no caso. Ele enfim foi preso em 17 de novembro de 1894, em Boston, depois que um escritório de investigadores particulares conseguiu rastrear seu paradeiro.

E como todo trapaceiro, Holmes tentou sair por cima da situação toda, o que é mais revoltante. Ele alegou ter matado 27 pessoas, ainda que a polícia só tenha conseguido comprovar 10 assassinatos. Mas ele também confessou ter matado pessoas que ainda estavam vivas e até a polícia achou difícil corroborar as informações. Ele também alegou inocência, alegou estar possuído pelo demônio, e gostava de inventar mentiras cada vez mais mirabolantes.

Com mais de 400 páginas, é um livro bem escrito e bem pesquisado, ainda que o autor admita não saber de alguns fatos devido à antiguidade da história. Não é uma leitura fácil de se fazer por se tratar de um livro sobre um assassino em série, mas vale à pena conhecer a história e até reconhecer a influência de Holmes na cultura pop, já que ele foi a inspiração para filmes, peças de teatro e até séries de TV, como no episódio "No Exit", de Supernatural.

Mentiras não eram os meros instrumentos de sua carreira, como são para todos os vigaristas e trapaceiros, eram o reflexo de sua mais profunda natureza psicótica. Não se podia confiar ou levar a sério nada do que dizia. Mesmo quando era apropriado para seu propósito se manter próximo aos fatos, suas palavras eram infestadas de maldade.

Página 93

A edição da DarkSide é lindíssima, com um trabalho gráfico impecável, da capa dura trabalhada ao miolo. O autor conta desde as dificuldades de se saber com certeza fatos sobre a vida pessoal de Holmes até o processo e julgamento que levou Holmes a morte. Ele também escreveu um epílogo e um capítulo só com suas fontes de pesquisa. A tradução foi de Eduardo Alves e está muito boa, encontrei alguns problemas de revisão, como letras faltando ou sobrando.


Obra e realidade
Foi difícil não comparar Holmes com Ted Bundy. Holmes foi um assassino em série (muitas décadas antes do termo ter sido criado) que abusava do charme e da lábia para conseguir o que queria, tal como Bundy. Esses assassinos charmosos ficaram cada vez mais confortáveis e engabelaram tanto as pessoas que Bundy fugiu da custódia duas vezes para continuar matando. E aí fiquei pensando o quanto o fato de serem brancos e charmosos, contribuiu para isso.

Ilana Casoy, em Arquivos Serial Killers, comenta que Jeffrey Dahmer engabelou dois policiais enquanto uma vítima que mal falava inglês implorava por ajuda. Um homem loiro, alto, simpático, porte atlético, não chama a atenção da polícia. Assim ele ria, contava piadas, dizia que o namorado estava confuso e que eles voltariam para casa para fazer as pazes. E os policiais deixaram ele ir. Ou seja, esses homens mataram o tanto que mataram porque a sociedade permitiu.

Harold Schechter

Harold Schechter é um escritor norte-americano, especialista em true crime. Foi professor por mais de 40 anos no Queens College, em Nova York, onde lecionou literatura. É pai da também escritora Lauren Oliver.


Pontos positivos
Bem escrito
Bem pesquisado
Trabalho gráfico
Pontos negativos

Violência

Título: H. H. Holmes: Maligno – O Psicopata da Cidade Branca
Título original em inglês:Depraved: The Shocking True Story of America's First Serial Killer (2008)
Autor: Harold Schechter
Tradutor: Eduardo Alves
Editora: DarkSide (selo Crime Scene)
Páginas: 420
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon ou no site da DarkSide com um brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
Se você é fã de true crime e se interessa pela biografia de assassinos em série, então vai curtir este livro. Não é uma leitura fácil, nem deve ser. Os crimes de Holmes são reais e apavorantes. Seu legado ainda permanece. Mas devemos nos lembrar das vítimas, da forma como algumas sumiram e não se ouviu mais falar delas, da forma como ele matou crianças inocentes e enrolou viúvas. É às vítimas que este livro deve ser dedicado. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


MARAVILHOSO!


Até mais!


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