Resenha: Ted Bundy, um estranho ao meu lado, de Ann Rule

Um dos maiores assassinos em série da história foi Ted Bundy. Bizarra e estranhamente, como só a raça humana pode ser em certos momentos, Ted Bundy ainda "encanta" pessoas, especialmente mulheres pelo mundo a fora. Com a produção da Netflix, entre outras mídias falando de Ted, muita gente parece esquecer que ele confessou a morte de pelo menos 36 mulheres com requintes de crueldade, estupro e necrofilia. As autoridades ainda hoje estimam que Ted Bundy possa ter matado pelo menos 100 mulheres, provavelmente tendo feito sua primeira vítima com apenas 15 anos de idade.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro

Ted nunca foi tão bonito, brilhante ou carismático como o folclore criminoso o pinta. Mas, como disse antes, a infâmia lhe caía bem.

Página 18

O livro de Ann Rule é um dos mais importantes já escritos a respeito de Ted Bundy porque ela foi amiga dele e ambos se corresponderam por muitos anos. Os dois trabalharam juntos, lado a lado, por três anos, no disque-suicídio da Clínica de Prevenção de Suicídio de Seattle. Quando ela o conheceu, Ted era um jovem ansioso para cursar a faculdade de direito. Era o começo dos anos 1970. Ted era um estagiário de meio período, Ann ainda sonhava com a fama como escritora e tirava um troco no Centro de Prevenção.

Resenha: Ted Bundy, um estranho ao meu lado, de Ann Rule

É bem estranho que uma pessoa como Ted Bundy tenha ido trabalhar atendendo possíveis suicidas e convencê-los a não ir em frente. Nenhum voluntário era psicólogo, eram apenas pessoas empáticas que queriam ajudar e estavam dispostas a ouvir os outros em profundo sofrimento psíquico. Ann se perguntou muitas vezes como se deixou enganar por Ted por tanto tempo. Sim, ela se recusou a acreditar que aquele jovem promissor e ambicioso pudesse ter algo a ver com uma série de desaparecimentos e ossadas encontradas em vários estados. Não se encaixava na pessoa que ela conhecia e com quem se correspondia, um rapaz comprometido, meio vigarista, mas inteligente e que vinha conseguindo bons empregos junto a políticos influentes. Há no livro, inclusive, cartas de indicação para universidades escritas por esses políticos. É surreal.

Quem é mulher sabe: nossos dias são pautados no medo. Mudamos trajetos, mudamos roupas, andamos em grupos ou acompanhadas, desconfiamos de estranhos, colocamos as chaves de casa entre os dedos, avaliamos horários, distâncias, localidade, tudo isso pelo medo do desconhecido. Então como que aquelas moças universitárias, inteligentes, espertas, conseguiram cair na conversa de Ted Bundy? Bundy era bom em levar as pessoas na laia, mas não tão bom. De cada dez mulheres que ele abordava, talvez uma ou duas caísse na sua conversinha. Não só isso, ele muitas vezes se apresentava com um gesso no braço ou na perna e, com pena, muitas mulheres se dispunham a acompanhá-lo.

Por isso não se deve falar que Bundy fosse um louco, um doido varrido. Doidos varridos não cometem crimes premeditados, nem arquitetam planos elaborados de fuga da prisão - e Ted o fez duas vezes - nem conseguem sustentar uma mentira por tantos anos, levando ao surgimento de um fã-clube que acreditava piamente em sua inocência. Ted só falou de alguns de seus crimes quando viu que a cadeira elétrica se aproximava cada vez mais. Talvez se confessasse, o tribunal trocasse sua pena de morte para perpétua. Isso levou muitos policiais a encontrar semelhanças inquietantes com vários outros crimes. Alguns ele confessou, outros, envolvendo crianças, ele foi bastante relutante e nunca admitiu, ainda que sua proximidade com as vítimas e o modo como elas desapareceram fossem idênticos a outros de seus crimes.

Dois Ted Bundys pareciam emergir. Um, o filho perfeito, o aluno da Universidade de Washington formando ❝com honras❞, o advogado e político novato; o outro, golpista charmoso, capaz de manipular mulheres com facilidade, quer fosse sexo ou dinheiro que desejasse, e não fazia nenhuma diferença se elas tinham dezoito ou 65 anos. E havia, talvez, um terceiro Ted Bundy: que se tornava frio e hostil com as mulheres diante de pouquíssima provocação.

Página 219

Fiquei espantada com a capacidade de Ted de enganar tão bem as pessoas. Não apenas isso, a ilusão de que tinha plena capacidade de defender a si mesmo apenas porque foi estudante de direito. Sabe o "macho palestrinha", que fez curso online de verão e se acha doutor no assunto para te dar uma aula não solicitada? Ted Bundy talvez fosse um desses machos palestrinhas, já que em suas correspondências com Ann Rule ele tentou ensiná-la a fazer o seu trabalho. Ann foi da polícia! E dedicou uma carreira a escrever sobre crimes, a ajudar a polícia e Bundy se sentia confortável em ensiná-la como se ela fosse uma criancinha petulante.

O livro foi lançado em 1980, quando Ted foi condenado por seus crimes à cadeira elétrica. Depois disso, a obra teve várias reedições, com novos capítulos conforme a história se desenrolava nos tribunais. Sim, Ted tentou de todas as formas se livrar da pena de morte, mas não soube fazer sua própria defesa. Dispensou mais de dez advogados durante seus julgamentos e chegou a ser advertido pelo juiz que disse que seu direito à defesa justa, como consta na Constituição, vinha sendo abalada por ele mesmo, pois quando o advogado não fazia o que ele queria, era despedido.

Não é uma leitura fácil por se tratar de uma obra relacionada a um assassino em série e um dos mais brutais. Mas é um livro bem escrito, bem pesquisado, que nos dá um panorama analisado por alguém que não só o conheceu bem, mas que também tentou ajudá-lo, salvá-lo da pena de morte e chegou a duvidar das acusações. Veja até onde Ted conseguiu enganar as pessoas. As descrições que Ann faz dos crimes são bastante técnicas, porém ainda assim chocam. Ann não as colocou para ferir ninguém, apenas para apontar a crueldade e a violência de um Bundy que muita gente ainda admira.

O livro tem quase 600 páginas, não há fotos de locais de crimes, apenas algumas fotos de algumas das vítimas tiradas de seus livros escolares e algumas fotos de Bundy tiradas em seus julgamentos. A capa é dura, macia, páginas amarelas e a famosa fitinha marca-página, marca registrada da DarkSide. A tradução ficou na mão de Eduardo Alves e está excelente, mas o livro carece de uma revisão mais cuidadosa. Palavras faltam aqui e ali, deixando frases incompletas. Em alguns momentos há palavras a mais.

(...) Ted adorava coisas mais do que adorava pessoas. Conseguia encontrar vida na bicicleta abandonada ou no carro velho, e sentia um tipo de compaixão por esses objetivos inanimados, mais compaixão do que jamais poderia sentir por outro ser humano.

Página 463


Ficção e realidade
Algo que senti durante a leitura foi a profunda perplexidade de Ann com relação ao caso. Ela via vários Teds à sua frente. O rapaz que conheceu na clínica e por quem nutria um amor fraternal, pois ele a fez se lembrar de seu irmão que se matou. Depois ela viu o Ted vigarista, que enganava mulheres com extrema facilidade, inclusive suas várias namoradas. Depois foi obrigada a encarar o Ted assassino em série, estuprador e necrófilo, que deixou profundas marcas de dentadas no corpo de uma vítima. Ann não podia esconder de seus leitores os crimes de Ted, pois o mito a respeito dele já se elevou e se estabeleceu. Se o livro servir para convencer as pessoas de quem Ted Bundy realmente era, acredito que seu trabalho estará, enfim, completo.

Ann Rule

Ann Rae Rule foi uma escritora norte-americana de livros e artigos sobre crimes reais. Ela é mais conhecida por seu livro sobre o serial killer Ted Bundy com quem Rule trabalhou e quem ela considerou um amigo, mas mais tarde foi revelado que era um assassino. Ann faleceu em 2015.

Pontos positivos
Análise de criminosos em série
Pesquisa
Bem escrito
Pontos negativos
Problemas de revisão
Descrição dos crimes
Preço

Título: Ted Bundy, um estranho ao meu lado
Título original em inglês: The stranger beside me
Autora: Ann Rule
Tradutor: Eduardo Alves
Editora: DarkSide (selo Crime Scene)
Ano: 2019
Páginas: 520
Onde comprar: na Amazon ou na loja da DarkSide com brinde exclusivo


Avaliação do MS?
Não recomendo a leitura para pessoas sensíveis. Há um aviso no próprio livro que ele também não é recomendado para menos de 18 anos. Ann escreveu sobre Ted Bundy, mas também sobre sua perplexidade com a terrível verdade que ela e o país tiveram que descobrir a respeito dele quando finalmente a confissão foi feita. Acho que para Ann foi também uma jornada para que ela se perdoasse a respeito, para se perdoasse por não ter visto Ted por quem ele era.

Porém, Bundy era um manipulador, sem sentimentos, sem remorsos, que enganou a todos. O que devemos lembrar é de suas vítimas, de como muitas famílias, até hoje, não puderam dar o funeral adequado às suas filhas. São essas que nós devemos lembrar e deixar Ted Bundy cair na obscuridade.


Até mais.


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