O banimento de Maus e a pijamização do Holocausto

Semana passada o conselho escolar do condado de McMinn, no estado do Tennessee, Estados Unidos, decidiu proibir a graphic novel Maus, de Art Spiegelman em sala de aula. Alegando "nudez" e "palavrões", o conselho vetou a obra ganhadora do Prêmio Pulitzer que conta a história real do pai do autor, Vladek Spiegelman, sobrevivente do holocausto. De acordo com os membros do conselho que aprovaram essa barbaridade, as crianças vão aprender sobre o Holocausto, mas não com este livro.

O banimento de Maus e a pijamização do Holocausto




Muitos republicanos nos Estados Unidos estão liderando um movimento para banir livros das escolas, em especial aqueles que tenham assuntos sobre raça e identidade LGBTQIA+. Maus já foi banido uma vez na Rússia por causa da suástica na capa, em uma tentativa de eliminar todos os símbolos nazistas no ano em em que se comemorava a vitória soviética sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial. E em um condado da Virginia dois membros do conselho escolar defenderam a queima dos livros banidos. É isso aí que você leu.

Se tem uma coisa que o ambiente de sala de aula me mostrou é que crianças não são idiotas. Elas entendem que a magia de Harry Potter é uma coisa, realidade é outra. Banir livros vai causar um efeito contrário. Maus explodiu em vendas nos Estados Unidos depois que a notícia sobre o banimento saiu. Ou seja, as pessoas se interessaram ainda mais em conhecer a obra que um conselho escolar proibiu. E aí vão descobrir que a nudez não tem nada de sexual e que os palavrões estão dentro de um contexto específico sofrido pelos personagens da graphic novel.

Justamente por não serem idiotas que os jovens precisam ser ensinados sobre temas como este através dos fatos e não com fábulas. É claro que há momentos para a ficção, para a imaginação, para a metáfora, mas não se deve pintar uma atrocidade com um verniz que nuble a verdade. Um exemplo disso é o uso do livro O menino do pijama listrado para ensinar sobre o Holocausto.

O livro já vendeu mais de 11 milhões de exemplares pelo mundo e virou um filme bem sucedido para os cinemas. Ele fala sobre a amizade de um garoto alemão, filho de um alto oficial nazista, com um menino judeu preso em um campo de concentração. O subtítulo do livro diz "uma fábula", mas infelizmente o livro é bastante utilizado em aulas de história para falar sobre o Holocausto tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos.

E isso é péssimo para educar as crianças sobre o genocídio e sobre as mortes que ocorreram na Segunda Guerra Mundial. Há inclusive um termo bastante adequado para isso, chamado de "pijamização do Holocausto", criado por Gwen C. Katz, lá no Twitter. As autoridades do conselho vão trocar Maus por alguma obra pasteurizada que não vai retratar toda a barbaridade do Holocausto, como se isso fosse proteger as crianças de alguma coisa. Sem contar a mudança de perspectiva. Em Maus nós acompanhamos a narrativa pelo olhar de uma vítima, enquanto no livro de John Boyne acompanhamos um garotinho alemão.

Garotinho esse que é totalmente inocente sobre a guerra, o que é em si impossível se pensarmos pelo ponto de vista histórico. Pela idade e pela condição do pai, Bruno, o protagonista, seria um membro da Juventude Hitlerista, aprendendo sobre a guerra desde cedo. Claro, podemos argumentar que é só uma fábula, mas por que a fábula foca no garoto alemão? Um estudo feito pelo Centre for Holocaust Education mostrou que os estudantes sentem empatia pela família alemã depois do ocorrido com o Bruno no final do filme e do livro, mas não entendem a dimensão da tragédia que foi para os judeus já que tanto livro quanto filme não mostram.

Outro equívoco é mostrar como Bruno ignorava os eventos ao seu redor. Isso reforça a perigosa visão de que os alemães na época não sabiam sobre os campos, nem sobre o que estava acontecendo com seus vizinhos judeus quando eram deportados. Enquanto isso, Maus mostra o preconceito galopante, inclusive das crianças, e também mostra que os campos e as câmaras de gás eram de conhecimento público.

Quando se fala sobre crimes contra a humanidade como a escravidão e o tráfico negreiro, o Holocausto na Segunda Guerra, o genocídio armênio, entre tantos outros, não se deve falar em metáforas, não se deve suavizar o discurso porque algum pai ou mãe ficarão ofendidos. Não se pode transformar uma atrocidade em uma parábola para todo o tipo de preconceito e injustiça, pois assim apagam-se os atores, os motivos e as consequências de tais crimes. O menino do pijama listrado apaga o sofrimento dos judeus para enaltecer a perda da família alemã.

Não há problema em contar uma história de maneira mais acessível para a idade e série das crianças. Mas é preciso fornecer um contexto histórico para as pessoas, para que elas entendam que não havia uma dúzia de Oscar Schindlers em cada cidade. Há também uma crítica à enxurrada de livros que têm enredos se passando no campo de concentração de Auschwitz - O tatuador de Auschwitz, A bibliotecária de Auschwitz, As costureiras de Auschwitz, entre outros. Há uma preocupação genuína entre estudiosos do Holocausto de que esses livros, baseados em fatos reais, acabem assumindo na mente dos leitores o lugar do fato verdadeiro.

Existe literatura sobre o Holocausto desde o fim da Segunda Guerra. O interesse aumentou com a publicação de O Diário de Anne Frank, mas nos anos 1990 houve uma explosão de livros de memórias, biografias e romances ambientados no período. O tabu a respeito, o envelhecimento dos sobreviventes e o fato de que seus filhos e netos queriam mais informações levou o mercado editorial a procurar por mais narrativas a respeito. A abertura dos arquivos soviéticos também levou a uma enxurrada de novas informações que antes eram proibidas.

O que é ótimo. Não me entenda mal. Acredito que sim, devemos ler, falar a respeito, saber dos pormenores, de todos os atores, temos que consultar bibliografia especializada, mas não podemos mascarar os eventos. Boas fontes para se trabalhar o Holocausto em sala de aula não faltam. Mas é preciso diferenciar o que é fato do que é ficção, não usar livros de ficção como se fossem livros de história e, o principal, ser honestos com a molecada.


Sugestões de leitura por especialistas em Holocausto:
Maus, de Art Spiegelman
Uma vez, de Morris Gleitzman
A Noite, de Elie Wiesel
Última parada: Auschwitz, de Eddy De Wind
É isto um homem?, de Primo Levi
Talve Esther, de Katja Petrowskaja
O diário de Anne Frank

Até mais.


Leia também:
What do students know and understand about the Holocaust?


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1 Comentário

  1. Mais um para a extensa lista de livros banidos ou proibidos nas bibliotecas das escolas dos EUA devido a pressões da turma conservadora e demais reaças - nem Rupi Kaur escapou e o livro de Ibram Kendi, "Como ser antirracista", estava prestes a ser substituído no Texas por exemplares da Bíblia cristã.

    "Maus" é uma obra tão grandiosa e HQ fundamental que deveria constar no acervo de todas as bibliotecas escolares - inclusive no Brasil - e que os professores desenvolvessem trabalhos com os alunos.

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