Resenha: O Mundo da Escrita, de Martin Puchner

As pessoas apaixonadas pela leitura, em geral, se interessam por livros assim. O Mundo da Escrita viaja pela história da civilização humana, refazendo os caminhos pelos quais a escrita passou moldando reinos e livros sagrados, fomentando revoluções e guardando a memória viva de povos inteiros. Uma leitura obrigatória em qualquer estante!





O livro
A proposta do autor não era o de traçar a história do livro, muito menos da literatura, mas sim da escrita. Ainda que muitas vezes nós associemos os termos, nem sempre eles andaram juntos. O que dizer de Sócrates, Buda, Jesus e Maomé, que deixaram extensos ensinamentos que mudaram vidas e povos, mas nunca escreveram uma linha sequer? E o que dizer da invenção da escrita em si, vinculada à burocracia estatal e não à literatura e ao livro? Então é preciso desfazer essa associação de que este é um livro que fala sobre a evolução do livro. Sim, de fato, há menções sobre o surgimento dos códices, da prensa e de como chegamos às publicações atuais, de como as histórias moldaram a forma de pensar das pessoas, mas não é esse o foco de Puchner.

Resenha: O Mundo da Escrita, de Martin Puchner


Permitir o acesso ao passado foi a mais profunda consequência da escrita. (...) A escrita criou a história.

Página 70

A escrita foi uma invenção decisiva para a história da humanidade, pois ela é a representação do pensamento e da linguagem humana por meio de símbolos. O que antes ficava relegado ao vento e à memória dos oradores podia agora assumir a forma de registro e se fixar em um meio - pedra, papiro, madeira, pergaminho, papel. O autor discute civilização que desenvolveu escrita e como ela revolucionava suas sociedades conforme se desenvolvia.

O autor não mantém uma linearidade. Ele vai e volta no tempo ao contar histórias específicas sobre a escrita. Começando por Alexandre, o Grande e seu hábito de manter uma cópia de A Ilíada embaixo do travesseiro. O texto de Homero era fundamental para os gregos havia gerações e para Alexandre tinha um caráter quase sagrado, não apenas por estudá-lo em profundidade ao longo da vida, mas por equiparar sua trajetória à do herói Aquiles.

Foi bem interessante ler sobre o hábito de anotar os livros que os povos antigos já tinham. A cópia de Alexandre tinha anotações de seu tutor, Aristóteles, assim como os rolos de papiro na Biblioteca de Alexandria, centenas de anos mais tarde, também trariam anotações comentadas. Usando A Ilíada como exemplo, o autor nos aponta algo incrível: como Homero moldou um povo através da narrativa de A Ilíada, uma obra que não começou como literatura, mas como narrativa oral que, posteriormente, foi escrita.

É muito curioso isso, não? Como encontramos costumes e ideias que achamos tão atuais que, por sua vez, datam de tempos longínquos. Alexandre também tinha o costume de ler à noite, em sua cama, fosse em seu palácio ou em uma cama de campanha em algum território estrangeiro. No que isso é diferente das nossas leituras noturnas, aconchegadas em travesseiros? E estou falando de uma época anterior à era comum, um momento em que nem mesmo o papel era utilizado. É fantástico sentir essa ligação com o passado.

Passando pela invenção do alfabeto e a simplificação dada a ele pelos fenícios, depois pelos gregos, o autor nos leva por uma viagem fantástica em vários continentes. Nos conta sobre a Biblioteca de Alexandria e a obrigação que cada navio tinha de compartilhar com a biblioteca seus textos. Nos conta sobre o rei-escriba Assurbanípal e sua imensa biblioteca de tabuletas de argila. Nos conta sobre o escriba Esdras, que liderou o segundo grupo de retorno de israelitas que retornaram da Babilônia em 457 a.C..

Um dos capítulos que mais gostei foi sobre Lady Murasaki, a dama anônima da corte japonesa que é identificada com o nome de sua protagonista em O Romance de Genji que acabou por revolucionar a literatura japonesa. A história de Murasaki mostra o poder da escrita e das histórias: as mulheres tinham uma série de proibições e protocolos a seguir, mas nem isso impediu essa dama de companhia da corte de escrever e criar. E justamente por quebrar uma tradição que os romances passaram por uma revolução posterior.

A história da literatura é uma história de queima de livros - um testemunho do poder das histórias escritas.

Página 217

Foi muito interessante ler um livro que me mostrou muitas coisas que eu já conhecia, mas que eu não imaginava que tivessem ligação ou que pudessem ser colocadas juntas. Um exemplo foi a prensa de Gutenberg. A invenção não foi dele, mas Gutenberg pegou a tecnologia e a aprimorou. Suas máquinas forma bastante usadas pela Igreja Católica, principalmente para imprimir papeis de venda de indulgências. A coisa chegou a um estado tão descarado que enfureceu um monge, um tal de Martinho Lutero, que se valeu da prensa e da velocidade de impressão de livros para disseminar suas teses e suas críticas à igreja.

Em capa comum e papel amarelo, o livro tem imagens coloridas no miolo e no começo temos uma linha do tempo com eventos importantes para a escrita, como seu desenvolvimento em continentes distintos, o surgimento da internet e o fenômeno Harry Potter. É um livro para aficionados por livros, por pessoas curiosas interessadas em história e literatura, para quem quer se aprofundar no tema e precisa de um lugar para começar. Já figura como um dos melhores livros de 2022. A tradução foi de Pedro Maia Soares e esta ótima.
Escrever não era apenas uma alternativa aos velhos truques de memorizar palavras. Era algo inteiramente novo, uma tecnologia que traria mudanças profundas difíceis de prever.

Página 96


Obra e realidade
Um dos comentários que o autor faz que concordo em gênero, número e grau é o de que escrita permite aos leitores o acesso à mente dos outros, inclusive daqueles que já morreram. Não é fascinante isso? Ao ler A História de Genji, estamos mergulhando na mente de uma dama da corte japonesa que viveu há mais de mil anos. Ao ler As Mil e Uma Noites, lemos variados recortes de povos que costumavam contar histórias fantásticas para se entreter, histórias que percorriam a Rota da Seda, que se tornaram populares nos mercados do mundo árabe.

Escrita é como uma máquina do tempo, capaz de nos levar a qualquer lugar e momento histórico, a planetas exóticos, a selvas exuberantes, a becos escuros, a desertos áridos e mares nunca antes navegados. Podemos andar ao lado de personagens fascinantes, sejam fictícios ou não, vislumbrar seus mundos, conhecer suas ideias, partilhar seu jantar, conhecer suas tristezas. A escrita é uma das maiores invenções da humanidade e por isso mesmo botou medo em ditadores que fizeram piras imensas para queimar aquilo que eles consideravam mais perigoso: os pensamentos dos outros.

Martin Puchner


Martin Puchner é um escritor, filósofo, crítico literário e professor universitário norte-americano. Foi professor da Universidade Columbia e hoje leciona na Universidade Harvard.


Pontos positivos
Bem escrito
Evolução da leitura
Reflexões sobre a literatura
Pontos negativos

Acaba logo!

Título: O Mundo da Escrita: como a literatura transformou a civilização
Título original em inglês: The Written World: The Power of Stories to Shape People, History, Civilization
Autor: Martin Puchner
Tradutor: Pedro Maia Soares
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 488
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Que leitura gratificante! Não tem outra palavra. Me diverti, me entristeci, sorri e me espantei com todas as informações levantadas pelo autor, por sua viagem pelo mundo da escrita e de como ela mudou a civilização humana para sempre. Desde aqueles escribas sentados o dia inteiro lancetando argila até nossos teclados modernos de computador, a escrita está em todo lugar. Bem como as ideias que ela consegue disseminar. Leitura essencial e uma forte recomendação para você ler também!

Até mais! 📖


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1 Comentário

  1. Eu gostei muito também do capítulo da Lady Murasaki. Minha segunda parte favorita foi da poetisa Anna Akhmátova. A história dessas duas mulheres eu não conhecia. Essa parte do livro - de nos apresentar brevemente esses assuntos sobre os quais não fazíamos ideia - é bem positivo. Mas concordo que ele é um pouco longo demais. Principalmente nas partes que ele conta a experiencia pessoal viajando pra lá e pra cá.

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