Resenha: História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari

Se você quiser entender como as epidemias influenciaram a história e a própria história das epidemias, este livro é essencial. Escrito pelo infectologista Stefan Cunha Ujvari, nós mergulhamos na história humana em busca de doenças, epidemias e pandemias, sua evolução, seu impacto na sociedade e como elas mudaram o curso de civilizações inteiras.




Parceria Momentum Saga e
editora Contexto


O livro
Dizer que o mundo foi pego de surpresa pela Covid-19 é ignorar o fato de que a humanidade já caminha ao lado de vírus e suas doenças há muito tempo. A história está repleta de casos de surtos, epidemias e pandemias. Assim que a doença surgiu na China, muitos correram para apontar os culpados, buscando bodes expiatórios para uma doença desconhecida e para a qual não temos defesa. Nem mesmo isso é inédito, como a própria história nos mostra.

Resenha: História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari


Stefan viaja pela história estudando doenças famosas em vários períodos da humanidade. Desde a peste de Atenas, possivelmente a febre tifoide, passando pela Peste Negra, aos surtos de varíola e cólera, o autor discorre também sobre a forma como tais enfermidades eram tratadas. A humanidade por muito tempo acreditou que o ar ruim pudesse ser os causadores de doenças, bem como um desequilíbrio dos humores do corpo. A compreensão da existência de microorganismos causadores de doenças é extramamente recente. Os médicos antigos tratavam seus pacientes mais pela sorte do que por dicernimento.

Muita gente deve ter ouvido falar da "epidemia de lepra" da Idade Média. Eu ouvi isso nas aulas de história no colégio e já vi filmes que se passavam na Idade Média mostrando pessoas escorraçadas por serem leprosas. O autor nos mostra que nunca houve uma epidemia de lepra, pois esta é uma doença difícil de pegar e que demora a se desenvolver. Na verdade, na época, qualquer afecção de pele seria considerada lepra e o dogma religioso também tem sua parcela de culpa, já que Levítico diz que doenças de pele são impurezas da alma que afloram. Qualquer pessoa com o simples problema de pele, como a psoríase, seria banida do convívio com as outras pessoas e tratada com desrespeito, consideradas impuras e hereges. Muitos leprosos foram queimados em fogueiras já que de tempos em tempos eles eram usados como bodes expiatórios para praticamente qualquer coisa.

Outro ponto muito interessante do livro é apontar as origens das doenças ou pelo menos suas rotas de disseminação. Já em 1347, por exemplo, há relatos de que os tártaros arremessavam corpos ou partes de corpos acometidos pela Peste Negra por cima das muralhas de Gênova para causar a doença nos inimigos. Era a guerra bacteriológica em seu exemplo mais nefasto. Em apenas dois anos, estima-se que a peste bubônica tenha matado cerca de 20 mulhões de pessoas. O pavor causado pela doença também fez nascer a primeira consultoria científica que se tem notícia, já que a Universidade de Paris foi consultada sobre uma possível explicação para a doença.

O medo coletivo fazia as pessoas perderem a razão, e o fato de se achar um culpado era uma esperança de pôr um fim à mortandade diária que surgia a cada epidemia.

Página 61


Não faltam críticas ao racismo, à escravidão, ao colonialismo e a violência que estão entrelaçados em vários episódios de doenças da história. A chegada dos europeus às Américas, por exemplo, foi um massacre de povos nativos devido às doenças trazidas do Velho Mundo. A população de 300 mil indígenas da ilha Hispaniola (hoje Haiti e República Dominicana) seria reduzida a menos de mil 50 anos depois após a chegada dos espanhois. Varíola e sarampo varreram o continente americano, deixando pilhas de corpos pelo caminho, eventos comemorados pelos colonizadores.

O Brasil tem capítulos inteiros dedicados ao estudo das epidemias em nosso território. O extermínio dos indígenas brasileiros é bem explicado e rico em dados e fatos. Cerca de 12 mil indígenas goitacases foram dizimados por uma epidemia de varíola espalhada entre eles de maneira proposital pelos portugueses no final do século XVIII e até 1888, cerca de 3 milhões de indígenas foram exterminados por doenças infecciosas trazidas pelos europeus. É difícil passar por essas páginas, mas essencial para termos noção do genocídio perpetrado contra os povos indígenas.

Como a sífilis chegou à Europa, como a febre amarela chegou às Américas, a primeira vacina da história e a polêmica sobre sua aplicação, as aglomerações urbanas como receita para o desastre epidemiológico, tudo isso está bem explicado, com dados e fatos documentados, em uma narrativa que não é cansativa e só te faz querer virar as páginas. Há também capítulos sobre a descoberta da importância da higiene e da lavagem de mãos, a descoberta dos microorganismos e de medicamentos de fato eficazes no tratamento de doenças.

Achei muito interessante a parte que fala do precursor da cloroquina, o quinino, medicamento contra a malária levado pelos jesuítas à Europa em 1632. Extraído da casaca de uma árvore peruana, ele era usado com sucesso contra as terríveis febres da malária, mas ao ser aplicado a outras febres, não tinha sucesso, o que levou muitos médicos a questionarem sua eficácia. A descoberta do quinino, infelizmente, imunizou os europeus em sua exploração no continente africano. A taxa de mortalidade pela malária caiu de 63 para apenas 1 morte em cada mil habitantes.

O livro tem alguns problemas, principalmente de revisão, não de conteúdo. Por exemplo, não se usa mais 'índio' e sim 'indígena', bem como não é papa Benedito XII e sim Bento XII. Existem distância mencionadas em milhas e não quilômetros, uso de galão sem explicar seu volume em litros e repetido à exaustão a ponto de ficar chato o uso de 'homem' como sinônimo de 'humanidade'. Há palavras acentuadas quando não deviam ser pela reforma ortográfica e, tal como aconteceu no primeiro livro do autor que li, senti falta de um capítulo de conclusão, um que fechasse a obra. O que temos no lugar é um capítulo que fala do Covid e o autor admite que escrevia aquele capítulo no auge da pandemia. Espero que mais dados e conclusões sejam adicionadas posteriormente e também espero que os problemas acima mencionados sejam corrigidos.

O livro vem em capa comum e papel branco. Existem algumas imagens em preto e branco no miolo.

(...) nas colônias com poucos médicos e medicação europeia em quantidade suficiente, disseminaram-se as traduções indígenas das plantas medicinais. Os europeus receberam dos indígenas ensinamentos medicinais sobre muitas plantas desconhecidas. Os jesuítas exerceram o papel de médicos filantrópicos desde a sua chega à América, onde fundaram a Santa Casa de Misericórdia, construída entre 1567 e 1582, na cidade do Rio de Janeiro.

Página 155


Obra e realidade
Uma observação interessante que o autor faz no final é que a Covid-19 vai passar, mas se a história das epidemias mostrou algo é que elas tiveram um começo e não um fim. Estaremos sempre à mercê da próxima pandemia do próximo vírus mortal para o qual não temos defesa. As decisões políticas, sociais e econômicas continuam influenciando o andar da pandemia tal como ocorria com as doenças mil anos atrás. A forma como a humanidade vai agir na nova pandemia precisará dos ensinamentos desta e uma maior consciência sobre todos os erros cometidos que levaram ao cenário atual de caos nos hospitais, com mortes batendo as 4 mil ao dia. A peste antonina chegou a matar 2 mil pessoas por dia em Roma, ou seja, temos fartos exemplos sobre o que fazer e o que não fazer e ainda assim erramos a cada surto que surge.

Stefan Cunha Ujvari0

Stefan Cunha Ujvari é médico infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Mestre em doenças infecciosas e especialista em doenças infecciosas e parasitárias pela Escola Paulista de Medicina, foi professor substituto da disciplina de Emergência Médica na mesma universidade.


Pontos positivos
Muitos dados e fatos
Bem escrito e pesquisado
Covid-19
Pontos negativos

Faltou conclusão
Revisão

Título: História das Epidemias
Autor: Stefan Cunha Ujvari
Editora: Contexto
Páginas: 320
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Eu não sabia, honestamente, o que esperar dessa leitura quando comecei. O livro é uma aula perfeita sobre a história não apenas das doenças, mas também da ciência médica em si. Foi um longo e tortuoso caminho até chegarmos ao momento atual e ainda sofremos com doenças, com surtos e epidemias, sem aprender muito a respeito entre uma e outra, o que poderia ter salvado milhares de vidas. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


MARAVILHOSO!

Até mais! 🩺


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