A hipocrisia do escapismo

Os fãs de ficção especulativa (ficção científica, fantasia e terror e todos os seus subgêneros) já ouviram várias vezes que suas leituras favoritas são "apenas escapismo". Não só isso, estamos também acostumadas a ver os grandes prêmios literários preterirem obras que se encaixam neste gênero para aquelas consideradas "literárias", que tenham mérito, ou então eles criam categorias de "entretenimento" para encaixar obras de FC, fantasia e horror (os outros são chatos, então?). Na academia não é muito diferente. Grupos de estudos se debruçam sobre obras literárias que fujam de qualquer ligação com as "ficções especulativas". A elite literária e acadêmica continua repetindo a questão do escapismo dessas obras. Enfim, a hipocrisia.

A hipocrisia do escapismo
Arte de Sylvain Sarrailh



A ficção, toda ela, é por definição uma construção de eventos, lugares e indivíduos irreais e imaginados. Eles podem ser inspirados em eventos, lugares e indivíduos reais, mas nunca serão, fenomenologicamente reais. A mentira é a base e a premissa para a ficção, já dizia nossa saudosa Ursula K. Le Guin que dizia que a função do romancista é mentir. Se um trabalho de ficção conta uma história real, ele passa a ser de não ficção.

Todo e qualquer trabalho de ficção transporta aqueles que o leem para mundos que, apesar de parecerem com a realidade ou de terem semelhanças com a realidade, não são a própria realidade. Para que possamos mergulhar e usufruir do texto ficcional é preciso nos desconectar dos fenômenos reais e da contemporaneidade. É preciso suspender nossa descrença para viajar na ficção.

Quando uma leitora pega um livro como Dom Casmurro, existe um limite bem nítido entre a contemporaneidade da leitora e sua realidade com a realidade do texto. Bentinho nos conta suas histórias e desventuras, em um Rio de Janeiro do século XIX. Não importa que a cidade do Rio de Janeiro exista de fato. A cidade de Bentinho está longe de nossa realidade, de nossa contemporaneidade e também da realidade de críticos literários e acadêmicos. Ao mergulhar no livro que é baseado em uma cidade real, ela ainda está situada em um tempo e contexto específicos - o século XIX. Estamos escapando de nossa realidade contemporânea, de nossa realidade fenomenológica e entrando em um universo ficcional criado por Machado de Assis.

Este escapismo de Dom Casmurro não é diferente do escapismo oferecido por Guerra do Velho, de John Scalzi. É uma realidede diferente da nossa, que sai da Terra e se passa no espaço e em outros planetas, em naves espaciais, mas que discute guerra, política e sociedade, além dos dilemas humanos. É um mundo totalmente ficcional, mas com as mesmas idiossincrasias de nossa realidade, com alienígenas e sobre-humanos atuando em situações familiares. De novo somos transportadas para uma realidade largamente diferente da nossa ao mergulharmos no texto, escapando de nossa contemporaneidade.

Quem tenha preconceito com a ficção especulativa ao ler um livro como esse do Scalzi vai ignorar os comentários tecidos pelo autor sobre guerra, política e sociedade, focando apenas nas naves estelares e nos planetas exóticos. Estes temas podem ser bem mais metaforizados na figura de alienígenas e situações extremas em um ambiente espacial, mas não significa que não estejam presentes.

Ou seja, não há nenhuma diferença entre transportar as leitoras para as ruas do Rio de Janeiro do século XIX ou para os planetas da União Colonial. Para nós no século XXI não há outra maneira de mergulhar nestes lugares sem a ficção. O Rio de Janeiro de Bentinho é tão ficcional para nós quando o planeta Phoenix, sede da União Colonial de Scalzi. Qualquer trabalho de ficção, por mais próximo da realidade que ele seja, não é real; são construtos da imaginação, são criações das mentes daqueles que as escrevem.

É aqui que chegamos à hipocrisia do escapismo e o que prejudica muito a ficção especulativa de ser reconhecida como alta literatura. Se um livro fala de um dilema político e social situado nas ruas de São Paulo dos anos 1990 ele é tido como alta literatura. Se o livro fala dos mesmos dilemas políticos e sociais, mas ele se passa em um planeta orbitando Próxima Centauri, é tido como "ficção de gênero" e jogado na gaveta da "literatura de entretenimento". Críticos e acadêmicos se aproximam de textos literários como Dom Casmurro ignorando seus elementos escapistas, mas não fazem o mesmo com um livro como A Mão Esquerda da Escuridão. Se o livro se passa em outro planeta, de repente não tem valor literário.

É óbvio que ficção especulativa pode ser lida apenas por seu escapismo. Mas esse escapismo é julgado como uma tola frivolidade por aqueles que não consideram a ficção especulativa como algo sério. Ao encarar o texto como apenas entretenimento, eles estão perdendo as grandes discussões do nosso mundo envelopados em raças alienígenas, monstros, planetas e universos paralelos. Uma história é uma série de eventos imaginados intercalados de maneira a evocar o prazer da leitura, do entrenimento, da reflexão. Não importa se é pelas ruas de São Paulo ou à bordo de uma nave espacial.

Usar apenas o escapismo para criticar a ficção especulativa é ser reducionista e elitista, já que qualquer trabalho ficcional é escapista por definição e natureza. Se críticos e acadêmicos dessem a atenção necessária a esses textos como dão para ficções literárias, descobririam que o mundo fantástico tem muito mais a oferecer do que apenas fadas, duendes e alienígenas. Todos os trabalhos ficcionais são escapismo e se forem tratados como tal, talvez o preconceito com esse tipo de literatura diminuísse e, quem sabe, começasse a ser tratado com o mesmo respeito com que outros gêneros são.

Até mais!


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3 COMENTÁRIOS

  1. meu super aplauso a esse texto maravilhoso!

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  2. Tão verdade isso.
    Seu texto evidencia a hipocrisia desses grandes prêmios e elite literária. Insistindo em ignorar novas obras simplesmente por serem fantásticas ou ficcionais, eles acabam também por limitar o público, uma vez que a grande maioria dos leitores não se interessa pelas que costumam ser eleitas. O brasileiro médio por si só já não lê, sendo que dentre o estrito grupo de leitores, o que mais se destaca em questão de números são os jovens. Agora me diz? Que tal se os literatos dessem chance a fantasias que, em meio a “vultuosa embalagem meramente atrativa” trouxessem valores e reflexões que instigassem os jovens a se interessar pela leitura? Seria ótimo, mas preferem selecionar livros considerados enfadonhos que despertam o interesse em quantidade irrelevante de leitores e que, honestamente, os enredos parecem sempre os mesmos. Preferem limitar a abrangência de público em nome do orgulho de manter sempre um padrão considerado acima dos demais, evidenciando que no fundo as escolhas da academia não passam de mera arrogância.
    Não digo que a escolha das obras devam priorizar a comercialização em detrimento de qualidade como certas editoras fazem por aí com seus livros de youtubers, mas, como você afirmou em seu texto, não deveriam literalmente ignorar por completo outros estilos que podem ser muito mais úteis no desenvolvimento de uma nova geração que os que eles escolhem.
    Isso me lembra muito a edição do Prêmio Kindle do ano passado. A maioria dos livros digitais inscritos eram fanfics românticas genéricas e, realmente por não se distinguirem muito umas das outras, já era de se imaginar que não venceriam. Porém, lá tinha sim várias histórias não apenas fantasiosas, mas com enredos bem incomuns e interessantes que, com a adequada divulgação, eram capazes de despertar a atenção em muita gente. Mas o que eles fizeram? Optaram por escolher livros que absolutamente ninguém deu atenção e que, honestamente, até me faz questionar a licitude de certas editoras e premiações porque o lucro é mínimo.
    Ano passado até mostrei o resultado de alguns prêmios literários a um dos meus professores de literatura (muito exigente e seletivo, sendo extremamente crítico a literatura atual). Ele lamentou pela escolha das obras, porque claramente não foram eleitas pela qualidade, mas simplesmente por obedecerem a um perfil que, friso, absolutamente desanimador.

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