O drama dos livros não lidos

Quem é leitora viciada sabe: as prateleiras e o Kindle estão cheios de livros ainda não lidos. Livros que você pegou naquela promoção da Amazon, livro que estava na baciada do supermercado, aqueles ebooks gratuitos do começo da pandemia. Tal como quem escreve, quem lê também é um acumulador de palavras. Mas não se desespere por encarar aquela pilha de leituras que nunca acaba. Isso não é uma coisa ruim.

O drama dos livros não lidos




Por boa parte da minha vida eu tive poucos livros. A questão é que eu simplesmente não tinha dinheiro para comprar. Quando tinha, visitava sebos, trocava com amigos, pedia emprestado. Aliás foi assim que li toda a saga de Harry Potter, pois um colega em uma loja em que eu trabalhava me emprestava depois de ler. Também tinha o costume de reler meus poucos livros quando não tinha novos.

Ter livros não lidos empilhados é algo recente para mim, aconteceu apenas de uns anos pra cá. Devo dizer que por um longo tempo aquela pilha de livros não lidos me incomodava. Era como se eu não lesse o suficiente (mesmo lendo cem livros no ano), como se estivesse ignorando as obras de propósito (o que não é verdade). Sei que muitos se sentem assim também. É difícil resistir a uma promoção de livros, fala a verdade? É difícil ir em uma bienal ou na Feira da USP e não sair de lá com uma sacola cheia. Acredite, eu entendo.

A imagem de uma biblioteca pessoal, com estantes repletas de livros, compartilhada nas redes às vezes parece incomodar algumas pessoas. Uma vez uma editora compartilhou uma foto dos meus livreiros e recebi comentários bacanas de outros leitores, mas também veio gente pedindo doação, já que eu tinha tantos, falando que eu era rica e outros dizendo que esse tipo de foto era só para ganhar biscoito ou para aparecer.

Ter uma biblioteca pessoal é um sonho que agora, com mais de 40 anos, estou conseguindo realizar. Não é para aparecer, não é para me mostrar, não é para ser exibida ou metida, como seu eu fosse melhor ou soubesse mais que os outros. Uma biblioteca para mim é um repositório de conhecimento, um lugar onde tenho acesso a realidades paralelas, um lugar para entrar em outro universo, para consultar e pesquisar. E aí também entram os livros ainda não lidos.

A minha neura com os livros não lidos acabou quando li uma história sobre Umberto Eco.

O escritor Umberto Eco pertence àquela pequena classe de pesquisadores enciclopédicos, inspiradores e divertidos. Ele possui uma grande biblioteca pessoal (que contém trinta mil livros) e separa os visitantes em duas categorias: aqueles que reagem com 'Uau! Senhor professor doutor Eco, que biblioteca! Quantos desses livros você leu?' e os outros - uma minoria ínfima - que compreendem que uma biblioteca privada não é um apêndice amplificador de ego, mas uma ferramenta de pesquisa. Livros lidos são muito menos valiosos do que os não lidos. Uma biblioteca deveria conter tanto daquilo que você não conhece quanto as suas finanças permitissem. Você vai acumular mais conhecimento e mais livros conforme envelhecer, e a crescente quantidade de livros não lidos nas estantes lhe observará desafiadoramente. Na verdade, quanto mais você conhece, maior é a fila de livros não lidos. Podemos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca.

Nassim Nicholas Taleb. The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable.


Antibiblioteca. Um conceito estranho em um mundo em que o conhecimento é usado como ornamento, como posse, como um enfeite a ser exibido e esfregado na cara das pessoas. Aqui o que importa é o que a gente ainda não sabe, o que estamos prestes a conhecer. O conhecimento é válido, claro que é, mas não deve ser visto como um tesouro inviolável que não deve ser dividido, ao mesmo tempo em que o fato de não sabermos algo não deve ser visto como um sintoma de burrice, como algo a ser ridicularizado.

É o não-saber que nos move numa leitura. Mesmo lendo a sinopse, você não sabe de tudo o que acontece em um livro e começa a ler para saber, para descobrir, para mergulhar naquele saber. Nós tendemos a subestimar o que não sabemos e a supervalorizar o que já sabemos, entendendo mal o propósito das surpresas de descobrir coisas novas.

Quando uma pessoa vê os livros que eu li nos meus livreiros, ela não está vendo as pilhas de livros para ler esperando o momento em que a leitura acontecerá. Tem livros que não funcionam em um dia, mas funcionam em outro. Tem livros que nunca funcionarão. Não tem problema! Mas você não deve se culpar pelos livros que estão na fila de leitura. É o não-saber que nos move, é a vontede de saber que nos motiva.

Tsundoku (積ん読) é uma palavra em japonês que descreve o hábito de adquirir livros, mas deixá-los na pilha sem ler. Ter uma antibiblioteca serve como uma curadoria, uma coleção pessoal de recursos sobre temas os quais você tem curiosade. Em vez de uma celebração sobre tudo o que você sabe, uma antibiblioteca é uma ode a tudo o que você deseja explorar e descobrir.

Sei que a vastidão de coisas que não conhecemos pode parecer aterrorizante, e é por isso que muitas pessoas se sentem desconfortáveis com a ideia de acumular livros que não leram, como se fosse um grande desperdício. Porém abraçar o desconhecido é o que impulsiona a descoberta, a surpresa, o inesperado. Uma anti-biblioteca é um lembrete de tudo que não sabemos e não deve ser temido.

A ignorância totalmente consciente é o prelúdio de todo avanço real na ciência.

James Clerk Maxwell

Construa sua antibiblioteca da forma que puder. Troque ideias com outras pessoas que leem e curtem trocar ideias sobre leituras; busque livros semelhantes a um assunto que você já leu ou dê um salto no escuro e tente um livro fora da sua área. Anote fontes relevantes e perca o medo de deixar um livro na pilha até o momento dele chegar. E se a leitura acabar não dando certo, passe o livro para frente, adquira outro e forme seu repositório de conhecimento. Valorize o que você não sabe.

Até mais! 📖


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5 COMENTÁRIOS

  1. Umberto Eco é sempre tão maravilhoso em suas observações. Agora, esse conceito de Antibiblioteca tem em mim todo o sentido. Eu fico fascinada com todo o conhecimento que ainda não adquiri vendo os livros na minha estante que ainda não li, mas que acredito que ainda um dia lerei, por isso eles ainda ficam lá. ^_^

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  2. Tô até mais calma depois de ler esse texto ☺️ vou olhar meus não lidos com novos olhos agora.

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  3. Na era das reuniões on-line é notório como as pessoas gostam de colocar sua biblioteca pessoal como fundo. rsrsrs
    Eu que usou principalmente Kindle sofri na decoração! Adaptei com plantas haha

    Isso de livros não-lidos como uma curadoria da curiosidade é um conceito muito interessante. Obrigado por trazê-lo!

    Penso que temos muito pouco tempo de vida para ler tudo que queremos. Não é porque adquirimos um livro que temos que ser fieis a ele. Às vezes, a leitura não engatou naquele momento, mas no futuro, possa engatar (ou não).

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  4. Depois que soube do conceito de Antibiblioteca do Eco tudo fez sentido pra mim. Não me senti mais uma acumuladora de livros. Porém sempre tem quem fique questionando do porque tenho tantos livros e se já li todos eles 🙄
    Mas textos como o seu, capitã, me ajudam a relembrar no que realmente acredito sobre isso. E me faz erguer a cabeça e responder pra quem fala e pergunta essas coisas que minha antibiblioteca é minha e eu que decido o que fazer com ela (é que cansa ter que responder isso sempre, né? eu quero que me deixem em paz com minha montanha de livros por ler hehe).
    Já disse que seu texto é perfeito! E ele é mesmo.
    ;)

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  5. Que post maravilhoso! E amei o Que Humberto Eco falou também. Toda vez que olhar minha biblioteca vou me lembrar. 🥰😘

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