O Céu da Meia-Noite acerta e erra quase que na mesma medida

O longa dirigido e protagonizado por George Clooney é um dos mais vistos na Netflix: mais de 72 milhões de contas já conferiram o filme baseado no livro Good Morning, Midnight, de Lily Brooks-Dalton (que será publicado no Brasil pela Editora Morro Branco). Estou ansiosa para ler o livro, já que o filme tem muitos altos e baixos e derrapa em apresentar uma ficção científica decente.




O Céu da Meia-Noite acerta e erra quase que na mesma medida


The Midnight Sky tem um grande elenco, tem um ótimo diretor e ator, tem efeitos especiais competentes, mas não consegue manter o bom ritmo da narrativa. Sabemos que algo aconteceu na Terra que a tornou inabitável. Quem fica para trás é o cientista Augustine Lofthouse, solitário e doente em um observatório no Ártico. O ano é 2049. Sabe-se que o nosso planeta sofreria um grande colapso que ninguém achou interessante de explicar nem que fosse em duas linhas de diálogo. Enquanto isso, a nave estelar Aether está voltando para casa do planeta K-23, perto de Júpiter, que também ninguém pensou em elaborar mais. Augustine tenta contato com alguém, enquanto a nave Aether tenta contato com a Terra.

O filme divide as narrativas entre as visões de Augustine, sozinho no observatório e na nave Aether. E enquanto a solidão extrema de Augustine está bem desenvolvida e este é o único mérito que consigo destacar de todo o longa, a nave Aether passa por todas as provações que qualquer nave da ficção científica já tenha passado. Acho inclusive que se Clooney tivesse focado nas ações na Terra e não naquela pataquada à bordo, o filme teria se saído muito melhor.

O longa fala de solidão, de isolamento, de arrependimentos, de perdas. Mas a forma como faz isso te impede de se conectar com os dramas dos personagens. O filme estava tão chato que eu pausei a exibição umas três vezes e fui fazer outra coisa. Quando meu ânimo melhorava, eu apertava o play de novo. Se você não se importa com os personagens, não vai se importar em ver o filme. Não importa quantos atores talentosos o longa tenha, a coisa simplesmente não se sustenta.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos a nave e a solidão de Augustine, nós vemos alguns interlúdios de sua juventude e de seu relacionamento com uma mulher. A conexão a se fazer entre todos os eventos do filme ainda assim não o salva. Você já está tão de saco cheio daquela lenga-lenga que quer é que ele acabe logo para você dar play em outra coisa.

O que eu senti de maneira geral é que ninguém sabia qual história queria contar. Era o drama do retorno da nave à Terra que está desabitada? Era a solidão do Dr. Augustine no Ártico? Eram suas escolhas erradas na vida e as consequências delas no futuro? O arco mais problemático para mim é o da nave, sem dúvida. A nave vai para Júpiter de boas e na volta encontra um monte de problemas, como áreas não cartografadas que levam um monte de perigos à nave e à tripulação. Todos os dramas que você já viu em outras ficções científicas por aí foram recontadas com menor competência em O Céu da Meia-Noite, não tem exatamente nada de novo aqui. E mais uma vez *SPOILER* eu vejo uma personagem grávida no espaço e ninguém pensou no quanto isso é um problema.

Se o filme focasse na jornada de Augustine no Ártico e os perigos que ele enfrenta junto da garotinha que aparece no observatório e o acompanha em sua jornada, este teria sido um grande filme. Acho que Clooney deu personalidade ao personagem e suas interações com a menina ficaram perfeitas. A cena da tempestade de neve é um dos grandes pontos altos da história. Mas depois, quando a grande revelação do final chega, me pareceu que toda aquela interação se perdeu.

Sinto que foi uma grande oportunidade perdida. Se a ideia era fazer um experimento mais artístico e contemplativo, as cenas de ação da nave fizeram o objetivo se perder. Se a ideia era focar no drama espacial, a contemplação solitária de Augustine faz essa parte se perder. Li algumas críticas alegando que o filme fica melhor depois de assistir umas duas ou três vezes. Mas se o filme falha uma primeira vez, será que não vai falhar de novo?

Caoilinn Springall interpreta a garotinha Iris, que acompanha Clooney no Ártico, e é um dos pontos altos do longa. A menina dá um show de interpretação sem dizer uma palavra. Se todo o foco da trama fosse nela e em Clooney, acho que a mensagem de arrependimento, de dor, de perda, que seu personagem sofre teria se desenvolvido de maneira mais satisfatória. Colocar as sequências do espaço para compensar o ar mais contemplativo das sequências de Augustine e Iris acabou com esse sentimento de isolamento, dor e perdas que, acredito, tenha sido a intenção original.

Cheguei ao final com a sensação agridoce de ter visto algo que poderia ser muito melhor e não foi. Aqueles que curtem filmes mais quietos e contemplativos podem acabar se frustrando em igual medida com aqueles que esperam uma ação espacial. Uma pena mesmo.

Até mais!


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1 Comentário

  1. Sim...
    Não gostei do filme, e não entendia o porquê.
    Lendo sua resenha consegui perceber mais como um filme que prometia tanto, foi uma decepção para tantos.

    Será que como livro, ele funcionaria melhor?

    Ótima resenha.

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