Resenha: Palácio da Traição, de Jason Matthews

O primeiro livro dessa trilogia é Operação Red Sparrow, que deu origem ao fraco filme de espionagem estrelado pela Jennifer Lawrence. E sendo sincera, o primeiro livro é bem legal. Eu gosto de tramas de espionagem e quando tem uma mulher espiã fica ainda melhor. Por mais que o autor tenha derrapado aqui e ali no primeiro livro, é uma obra bem coesa e com um final surpreendente, com personagens que você ama odiar. Então quando soube que o segundo volume tinha sido publicado, fiquei feliz por voltar a acompanhar as missões de Dominika. Mal sabia eu que o autor simplesmente despirocou nas personagens femininas.

Pode haver spoilers do primeiro livro!




O livro
Este livro começa alguns meses depois do final do primeiro. Dominika, ex-bailarina e espiã russa do SVR (o serviço de espionagem herdeiro da KGB), retornou para Moscou depois de uma temporada no Ocidente e foi promovida a capitã. O que seus superiores nem ao menos desconfiam é que Dominika é uma agente dupla. Infiltrada nas esferas mais altas do poder russo, Dominika ficará frente a frente com Putin e outros homens poderosos do país. Poucas coisas no mundo são tão perigosas quanto um agente duplo na Rússia.

Resenha: Palácio da Traição, de Jason Matthews


Personagens conhecidos do primeiro livro estão de volta, como o operador da CIA, Nate Nash. A trama aqui é tão ágil e com complicados personagens em jogos duplos de traição e emboscada quanto no primeiro. Acho que neste livro as cenas de ação são mais frequentes. Dominika tem que escapar de uma tentativa de assassinato logo nas cem primeiras páginas. Se tem uma coisa que o autor conseguiu colocar nas páginas é toda a tensão que os agentes sentem em operações secretas e como pode ser perigoso.

Dominika tem uma tarefa aparentemente simples: tornar um físico iraniano um agente duplo, que lhe fornecerá dados secretos sobre o programa nuclear de seu país. O físico não entende por que tem que dar informações secretas a um aliado de longa data do Irã, mas Dominika é extremamente convincente e sempre consegue o que quer. Tendo saído da escola de pardais (escola que treina espiões nas artes do sexo e do romance), ela coloca uma colega sua no caso. Mas nem tudo vai sair como ela quer. Seus chefes na Rússia invejam que uma mulher tão jovem tenha subido tão rápido na hierarquia.

O autor não esconde a sordidez dos serviços de espionagem, de como agentes podem ser comprados e coagidos. Tudo isso está bem descrito. A Guerra Fria nunca acabou de fato quando olhamos para o cenário atual entre Rússia e Estados Unidos. O problema maior do autor foi ele vender a Rússia como um paraíso da corrupção e da troca de favores, com seu povo morre de fome, enquanto nos Estados Unidos chove hambúrguer dos céus. Amigo, NÃO FORÇA A AMIZADE. Estados Unidos, o país mais rico do mundo, têm um dos piores índices de pobreza entre os países desenvolvidos.

Dominika é uma mulher forte, inteligente, sagaz e esperta. Ela também demonstra ser impaciente, sendo às vezes implacável. É uma personagem que eu curti muito no primeiro livro. Aqui ela continua com essas principais características, o que logo desperta a inveja de muitos de seus colegas russos. Mas o autor tinha que acabar com o que estava bom. O livro vai muito bem nas primeiras duzentas páginas. Eu estava atenta à trama da espionagem e aos tantos atores nesse palco de segredos. Acho que o autor se empolgou e estragou o que estava indo bem.

Pra começar, quando Dominika se encontra com uma agente que trabalha com ela e também fora da Escola de Pardais, Dominika a observa por um instante e pensa: "meus peitos são maiores". Tipo, HEIN? Jason, pelamor de deusa! Acredite em mim quando eu digo, as mulheres não se reúnem para ficar reparando no tamanho dos peitos das amigas. E não acaba por aqui. Mais para frente, uma agente da CIA pega um agente bonitão, eles estão lá no vuco-vuco, e quando ele pega na bunda dela, a agente pensa que não passou hidratante naquele dia... #facepalm

Pode parecer uma bobagem, mas a mim isso parece trechos escritos por um amador. É o tipo de passagem que não deveria fazer parte de um livro que tem um tema e uma narrativa tão interessantes, pois isso quebra uma leitura que estava me interessando e estava indo muito bem. Putin é um personagem incrível no livro, alguém que você ama odiar, que você até treme quando aparece. Mas essas e outras passagens desnecessárias pelo livro tiraram meu tesão pela história. Só terminei de ler por causa da intensa trama de espionagem que o autor criou.

O livro vem em capa comum, páginas amarelinhas e foi muito bem traduzido por Marcelo Mendes. Não há erros de revisão ou tradução ao longo da leitura. Como de costume, o autor insere no final de cada capítulo uma receita citada por personagens.

No mundo da inteligência, a importância de um burocrata era medida pela quantidade de permissões de acesso vinculada a seu nome.

Página 169



Ficção e realidade
O ponto alto dos livros de Jason Matthews é o fato de ele ter sido operador da CIA por 33 anos. Acredito que Nate Nash guarde muitas características em comum com o próprio autor. Assim você consegue acreditar nas missões e nas operações dos agentes. Esqueça as engenhocas de 007, aqui é espionagem raiz, como diria o meme. São espiões brutais em suas missões, são perseguições por ruas escuras e muita persuassão e treinamento para chegar ao nível que os agentes aqui apresentam. Pela longa história de espionagem entre União Soviética e Estados Unidos, a Rússia atual tem tudo para ser uma grande personagem no palco internacional da espionagem e Jason consegue trazer isso para as páginas de seu livro.

Um segundo ponto alto do livro é termos uma espiã. Dominika Egorova é uma personagem fascinante, que infelizmente não ficou tão bem no filme. Você se preocupa com ela, quer andar ao seu lado. O autor só precisa aprender a escrever melhor algumas passagens com suas personagens femininas. Em 2020 é inadmissível que duas personagens fiquem comparando tamanho de seios em um livro.

Jason Matthews


Jason Matthews é um escritor norte-americano, autor da trilogia Red Sparrow. Antes de se tornar escritor Matthews passou 33 anos trabalhando para a CIA.

Pontos positivos
Dominika e Nate
Espionagem
Personagens bem trabalhados
Pontos negativos

Perde a noção com personagens femininas
Pode ser lento em algumas partes

Título: Palácio da Traição
Título original em inglês: Palace of Treason
1. Operação Red Sparrow
2. Palácio da Traição
3. The Kremlin’s Candidate
Autor: Jason Matthews
Tradutor: Marcelo Mendes
Editora: Arqueiro
Páginas: 448
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Acho que aqueles que curtem espionagem vão acabar curtindo os livro de Jason. Mas naquelas, né? Relevar as bobagens que ele escreveu aqui e ali com suas personagens pode encher o saco em alguns momentos. É uma pena, o livro tem uma trama excelente, bem escrita, com personagens tortuosos e falíveis e merecia que as personagens femininas fossem melhor descritas. Três aliens para Palácio da Traição.



Até mais!


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