Resenha: Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan

Um dos grandes clássicos da divulgação científica ganhou uma nova edição caprichada pela Companhia das Letras. O livro empresta seu nome da icônica imagem da Terra captada pela sonda Voyager 1, em 14 de fevereiro de 1990, de uma distância de seis bilhões de quilômetros. Nesta imagem, o planeta Terra não passa de um pixel. Um mísero pixel manchado representa nosso lar. Essa imagem poderosa inspirou Carl Sagan a compor este livro




O livro
Pálido Ponto Azul é uma ode à ciência e um livro de um otimismo típico de Carl Sagan. O autor nos leva a uma viagem pelo Sistema Solar e ainda nos coloca no grande tabuleiro cósmico. Tal como o pixel na imagem da Voyager 1, Sagan nos mostra como nosso mundo é minúsculo, frágil e finito, um mundo que devemos preservar e que será nosso trampolim para uma vida no espaço no futuro.

Resenha: Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan


Tal como o planeta, a raça humana é errante. A Terra baila junto do Sol em torno do núcleo da galáxia a cada 225 milhões de anos. E faz parte da nossa natureza migrar. Desde que os primeiros hominídeos surgiram na África que as grandes migrações dos povos - voluntárias ou não - moldaram nossas vidas. Esses antepassados observavam as estrelas e os planetas no céu em busca de respostas para questões fundamentais. A astronomia está tão entrelaçada em nossas vidas que às vezes não percebemos.

Em sua primeira parte, o livro examina as afirmações feitas de que a Terra e a espécie humana são únicas, o ápice da criação. Ainda que muita gente oportunista hoje ganhe dinheiro espalhando mentiras pela internet sobre a Terra - ela é esférica sim! - Sagan explica como a melhoria nos equipamentos levou à uma mudança fundamental na forma como olhamos nossa própria existência no planeta e como devemos ser mais humildes ao analisar nossa posição no universo. E ele explica tudo isso com a sua frequente elegância e educação, apontando como esses antigos pensamentos e ideias estavam errados, mas serviram para nos levar aos fatos científicos.

Depois de nos colocar em posição de humildade diante do universo, Sagan começa uma viagem pelo sistema solar, começando pelas sondas do programa Voyager, do qual ele fez parte. Os desafios técnicos, os problemas mecânicos e de computador, a busca por verbas e o envelhecimento dos equipamentos, tudo isso é bem descrito, bem como o intenso exame que Sagan faz dos planetas visitados pelas sondas. Há também explicações sobre as principais luas do sistema solar e a possibilidade de vida surgir em algumas delas.

O livro é de 1994 (no Brasil foi lançado em 1996), então é natural que ele esteja datado aqui e ali. Os dados e informações sobre os planetas podem ser facilmente conseguidas na internet, mas não vamos esquecer que esses dados e fatos científicos sobre o sistema solar todo só foi conseguido pelos programas espaciais do qual Carl Sagan fez parte. O que temos no livro é informação de primeira mão, básica até, mas que ganhou seu lugar cativo na história pelo trabalho de muitos cientistas dedicados a desvendar os segredos do universo. Foi o efeito estufa em Vênus que levou pesquisadores na Terra a desvendar o mecanismo do efeito estuda e do aquecimento global aqui.

Compreender o destino do universo e do planeta é essencial para compreender o nosso próprio destino. O planeta Terra é finito. Quando o Sol se tornar uma gigante vermelha, nosso planeta será calcinado. A vida já terá desaparecido muito antes disso, mas se a Terra escapar da destruição, será um planeta desértico, incapaz de abrigar vida. Carl Sagan espera que possamos escapar da chacina antes, conquistando e habitando o espaço.

Os desafios, por sua vez, são imensos. Com seu otimismo típico, Sagan supõe que um dia vamos conseguir superar várias barreiras técnicas para enviar nossos emissários pelo espaço a fim de buscar um novo lar para nós. Não será uma jornada sem perigos, afinal o universo é violento e perigoso, mas ele acredita que vale à pena se for para escapar da extinção.

O livro está bem traduzido por Rosaura Eichenberg e bem diagramado. Não encontrei problemas de revisão ou tradução. É um livro bem completo, com bibliografia no final para você expandir os conhecimentos. Há também uma coleção de imagens no miolo, com uma qualidade nem tão boa assim, afinal ele usa imagens da edição original e isso pode desagradar aos leitores mais exigentes.

Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o ccaráter e ensina humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que essa distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.

Página 24



Obra e realidade
Mais do que nunca, nós precisamos desse otimismo de Carl Sagan. É só olhar nosso mundo como está hoje e notar que as coisas, definitivamente, não estão bem. Queria partilhar desse sentimento tão bom pela raça humana que ele tem, mas sou uma incurável pessimista nesse sentido. Acho que quando a consciência coletiva sobre o destino da raça humana e do planeta finalmente mudar, será tarde demais para fazer qualquer coisa. Acredito que nós vamos esgotar os recursos do planeta antes de qualquer coisa. Talvez até criem missões pelo sistema solar na busca de minérios importantes e isso acentuará ainda mais o abismo entre pobres e ricos na Terra. No fim, acho que vamos voltar a uma era pré-industrial, com pobreza generalizada, a volta de doenças antes quase erradicadas e uma população faminta e miserável sendo controlada por um pequeno grupo de bilionários.

É uma visão horrível, eu sei. Por isso que eu digo, precisamos de mais visões inspiradoras, de ideias que nos tornem melhores, que possam inspirar novas gerações a lutar por um mundo melhor. As crianças estão herdando um mundo dilapidado, um mundo único, pois não tem outra Terra logo ali na esquina cósmica. A hora de agir é ontem. Pra já. O mais depressa possível.

Carl Sagan


Carl Edward Sagan foi um cientista, físico, biólogo, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor, divulgador científico e ativista norte-americano, um dos maiores astrônomos da história.

O nosso tempo está oprimido sob o peso cumulativo dos sucessivos desmascaramentos de nossas presunções: somos os retardatários. Vivemos na aldeia cósmica. Derivamos de micróbios e do estrume. Os macacos são nossos primos. Nossos pensamentos e sentimentos não estão plenamente sob nosso controle. É possível que existam muitos seres mais inteligentes e muito diferentes em outros lugares. E, além do mais, estamos estragando o nosso planeta e nos tornando um perigo para nós mesmos.

Página 60



Pontos positivos
Descrições dos planetas
Bem pesquisado e bem escrito
Ciência, mitologia e história
Pontos negativos

Um pouco datado
Qualidade das imagens


Título: Pálido Ponto Azul: Uma visão do futuro da humanidade no espaço
Título original em inglês: Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space
Autor: Carl Sagan
Tradutora: Rosaura Eichenberg
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 336
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Foi uma leitura muito gostosa, ainda que em alguns momentos tenha sido excessivamente técnica e com infodump. Muitas informações ali já foram atualizadas por nosso dados e missões espaciais. Mas não é esse o tema do livro. O livro é sobre nós. Nossa posição no cosmos, nossa humildade diante da vida e do universo, a chance de poder mudar o destino da humanidade se olharmos ainda mais para as estrelas. Uma leitura super recomendada! Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!

MUITO BOM!


Até mais, terráqueo!


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