Resenha: Operação Red Sparrow, de Jason Matthews

Como uma criança que cresceu nos anos 80 e 90, eu assisti a muitos filmes de espionagem e que exploravam a Guerra Fria. Admito: curto enredos deste tipo. Foi por isso que peguei este livro para ler, além da propaganda feita pelo filme. O livro já tinha sido lançado no Brasil com o título de Roleta Russa e foi relançado pela Arqueiro com nova capa e título. Sei que muita gente vai perguntar a respeito do filme e já adianto: o filme alterou vários pontos.



Parceria Momentum Saga e
editora Arqueiro


O livro
Nate Nash é um agente da CIA que pretende fazer sucesso fora da esfera da família. Mas para isso, ele precisa fazer bem o seu trabalho e quando ele quase é pego pela inteligência russa depois de encontrar um importante informante, sua carreira está por um fio. A CIA acha que ele melou a operação e que agora está comprometido e assim decide mandá-lo para fora da Rússia. Mais especificamente para a Finlândia.

Resenha: Operação Red Sparrow, de Jason Matthews

Enquanto isso, acompanhamos os passos de Dominika Egorova, uma moça patriota, que ama a Rússia, mesmo que seus pais, secretamente, odeiem o passado e o presente do país. Dominika não percebe que a Guerra Fria nunca acabou, ela continua da mesma maneira, só que com nomes diferentes. Ela é bailarina, a melhor da companhia, até que uma conspiração entre seus colegas quebra seu tornozelo e enterra sua carreira. Uma característica fascinante de Dominika: ela é sinestésica, o que lhe garante uma ferramenta eficaz na espionagem que ninguém sabe que ela tem.

Seu tio é chefe do SVR, Serviço de Inteligência Estrangeiro, e chantageia a sobrinha para que ela faça um trabalho para ele. E claro, ela vai e dá tudo errado. O jeito é colocar a garota para treinar como espiã. Esse começo lembra bastante o filme, mas vários pontos estão diferentes. No livro, Dominika não vai direto para a Escola de Pardais, isso acontece depois.

Conhecia os rumores que circulavam em torno do tal instituto: tratava-se da extinta Escola Quatro, mais conhecida como Escola de Pardais, onde homens e mulheres eram treinados nas técnicas de sedução para fins de espionagem. O tio a estava mandando para uma escola de putas.

Página 69

Filme e livro são plataformas diferentes e admito que gostei dos dois. O filme precisou se rebolar para adaptar um livro grande, denso e com personagens bem construídos e conseguiu fazer isso muito bem. O filme adaptou várias passagens e comprimiu os eventos para fazer caber num roteiro e os finais também são diferentes. Então, se você curtiu o filme e quiser ler algo bem mais denso e complexo, sugiro fortemente que pegue o livro.

O autor conseguiu criar um enredo de espionagem que não ficasse cafona, que não parece uma imitação das obras oitentistas de espiões em ruas escuras. O enredo se passa nos dias de hoje, mostrando que a Guerra Fria continua mesmo, só que por meios diferentes. Putin é um personagem temível no livro, aparecendo pontualmente para dar esporros a torto e a direito. E os personagens, todos eles, foram muito bem trabalhados, eles não são rasos ou facilmente manipuláveis. Ninguém ali é inocente a ponto de não saber o que precisa ser feito para conseguir informações.

A Dominika do livro me agradou muito mais que a do filme e os diálogos que ela tem com Nate sobre seus respectivos países são alguns dos melhores do livro. Jason trabalhou a personagem o suficiente para destacá-la sem tantos estereótipos e sem criar uma relação de dependência das ações dela com relação à mãe, que para mim foi o maior erro do filme. Dominika é inteligente, é autossuficiente, o que ela faz tem uma razão que só ela conhece, não depende de ameaças ou chantagens dos superiores. Só há um ponto negativo que desabona a escrita de Jason que ele, felizmente, usa bem pouco: mulheres se despindo de maneira sensual. Jason, amigo, mulheres não tiram a roupa sensualmente na frente do espelho e depois empinam a bundinha para ver se estão sexys. Acho que em 2018 não se escrevesse mais desse jeito, pelo visto me enganei. Ele fez só duas vezes, pelo menos isso.

Até os personagens secundários são bem escritos, assim como as ambientações das cenas. Mesmo que seja uma cena rápida, você está inserido nos locais, que variam de Moscou para Helsinque, de Washington D.C. para Atenas. E o legal é que toda vez que um personagem está comendo, aparece uma receitinha no final do capítulo. Leitura dá fome, literalmente. E o mais surpreendente: quanto cheguei ao final, descobri que tem uma sequência.

A edição da Arqueiro foi traduzida por Marcelo Mendes e está muito boa. Praticamente não tem problemas de revisão ou tradução. A capa remete ao poster do filme, mas acredito que as duas obras encontraram maneiras diferentes e bem sucedidas de contar uma história parecida. Mas seu fosse você, ia no livro.

Ficção e realidade
Uma das coisas mais interessantes é que o autor é um ex-agente da CIA. Se o livro que ele criou é totalmente ficção ou não, achei bem verossímil e completo, sem as engenhocas engraçadas dos filmes de espionagem dos anos 1980 e bem antenado com o momento político que estamos vivendo. Ele atuou em vários países estrangeiros, coletando informações confidenciais e atuou principalmente no Leste Europeu no auge da Guerra Fria. Trabalhou por 33 anos e hoje vive na Califórnia.

Jason Matthews
Jason Matthews

Os russos odeiam os estrangeiros quase tanto quanto odeiam uns aos outros. E já nascem conspiradores. Sabem muito bem que são superiores, mas também são inseguros: têm a necessidade de ser respeitados, sobretudo temidos, exatamente como nos tempos da União Soviética.

Página 27

Pontos positivos
Dominika e Nate
Espionagem
Personagens bem trabalhados
Pontos negativos

Nudez sexualizada
Pode ser lento em algumas partes

Título: Operação Red Sparrow
Título original em inglês: Red Sparrow
1. Operação Red Sparrow
2. Palácio da Traição
Autor: Jason Matthews
Tradutor: Marcelo Mendes
Editora: Arqueiro
Páginas: 426
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Fãs de thrillers de espionagem, com enredos complexos, detalhados, com reviravoltas, vão se sentir contemplados por este livro. Quando você acha que o autor vai seguir por um caminho, ele pega a próxima saída e entra em outra rodovia. Achei que ele seguiria uma cartilha específica de romances, mas não. Felizmente ele sai do lugar comum. Quatro aliens e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!

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