Resenha: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, de Suzanne Collins

A essa altura, você fã de Jogos Vorazes, já está sabendo do novo livro de Suzanne Collins que se passa décadas antes dos eventos da saga principal, certo? Muito tem se falado sobre o livro e nem sempre de maneira lisonjeira. Andei lendo algumas críticas muito ácidas ao livro e que ele é inútil, que não acrescenta em nada na vida de ninguém e que é perda de tempo ler. Mas não é bem assim não.

Para a resenha da trilogia de Jogos Vorazes, clique aqui!



Parceria Momentum Saga e
editora Rocco


O livro
Antes de tudo, tenho que alertar que esse livro não é exatamente sobre o jovem Coriolanus Snow, é sobre como os Jogos Vorazes que nós conhecemos, com todo o seu esquema sádico de controle dos distritos, foi iniciado. Acontece que essas história está entrelaçada na história de Snow, um adolescente prestes a terminar o que consideraríamos o ensino médio. A família Snow perdeu tudo na guerra e apesar de morar na cobertura da família com a avó e a prima, Tigris, os Snow são pobres.

Resenha: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, de Suzanne Collins

Essa Capital nem de longe lembra aquela opulência brega e luxuosa que vimos na trilogia. Aqui temos uma cidade no pós-guerra que ainda não se recuperou. Pense em Berlim após a rendição na Segunda Guerra Mundial e suas ruas repletas de escombros e você terá uma ideia do que é esta Capital. Ainda há bombas enterradas, marcas de disparos nas paredes e racionamento de comida. O ódio pelos distritos e pelos rebeldes é o estopim para o estabelecimento dos jogos pelo o que foi feito aos cidadãos da Capital durante a guerra. Então, os jogos nada mais são do que uma vingança. Uma vingança longa e prolongada que durou 75 anos.

Na cabeça de Snow e de outros moradores da Capital, é preciso fazer os distritos pagarem pelo sofrimento, pela fome e pela miséria. Moradores dos distritos que são tributos nos jogos não são tratados como as superestrelas que vimos na trilogia. Eles são transportados em trem de gado, são deixados no zoológico abandonado da Capital, sem água ou comida. É um tratamento semelhante àquele dado aos judeus que iam para campos de extermínio na Segunda Guerra, de onde Suzanne tirou muitas das alegorias para este novo livro e a trilogia em si.

Uma reclamação que andei lendo por aí dizia que "este não é o Snow que a gente conhece". UÉ? Eu sei que eu não era a mesma pessoa de 30 anos atrás, ou de 20 anos atrás, nem mesmo de 10 anos atrás. Quem esperaria que um adolescente se mantivesse absolutamente igual até chegar perto dos 90 anos? Snow é um adolescente, que tem vivido uma vida de provação, enquanto tenta resgatar a glória perdida da família. Ele vive em um mundo que está exigindo coisas dele que, em sua cabeça, ele não deveria passar, afinal ele é um Snow. O ovo dessa serpente ainda está sendo chocado, mas ainda não rachou.

Apesar de saber da situação terrível da família Snow, você não sente pena dele. Sobre isso Suzanne teve bastante cuidado, pois nos momentos em que você poderia se compadecer do Snow por alguma coisa, ele logo mostrava o grande escroto que é, com pensamentos sobre merecer mais que os outros por ser um Snow. Snow é aquele tipo de sujeito de classe média alta, que sempre teve tudo à mão, e quando vê o colega entrando por cotas na universidade, reclama de desigualdade e fala de meritocracia. É esse tipo de cara que temos aqui.

Os Jogos Vorazes em si tinham o talento medonho de jogar criança contra criança de distrito, de forma que a Capital ficava com as mãos limpas da violência real.

Página 232

Esta edição dos jogos é bem diferente daquela que conhecemos. Jovens prestes a se formar na Academia são selecionados para serem mentores dos tributos da 10ª edição dos jogos. Para Snow, ficou uma moça do último distrito, o 12, chamada de Lucy Gray. Aqui os tributos são largados num estádio abandonado, com armas, eles que se matem pra lá. A população não tem interesse em assistir e, afinal, quem teria? Quem gostaria de ver seus filhos e filhas morrendo numa arena? Nem a Capital tem interesse, afinal é só gente dos distritos. É aí que a lógica perversa dos jogos da trilogia começa a ser arquitetada. E temos respostas de como elas começaram, de quem foi a ideia.

Muitas coisas familiares aparecem aqui. E foi uma reviravolta excelente a Katniss usar a música The Hanging Tree no levante dos Distritos e usá-la contra o Snow. Quem ler esse livro entenderá! Não vou dizer que é um livro maravilhoso e fantástico. Ele tem seus problemas, como o fato de ser longo demais. Nem deveria ter esse tamanhão todo. Algumas partes poderiam ter sido bem mais sucintas. Alguns personagens somem na narrativa, com uma breve menção e depois eles não são mais trabalhados.

A tradução de Regiane Winarski ficou excelente e acho que isso contribuiu para o bom andamento da trama. Eu tentei ler em inglês e estava achando tudo tão chato que parei e esperei o lançamento da Rocco. Aí a leitura fluiu muito bem, melhor até do que na trilogia original, usada como base por Regiane para uma série de termos que revemos em A Cantiga. A revisão do livro deixa a desejar em alguns momentos, dando a impressão de que foi apressada para correr com o lançamento e compreendo plenamente a pressão sobre a editora. O livro segue o mesmo padrão gráfico da trilogia original, então dá para colocar na estante sem destoar um livro do outro.

Quem são os seres humanos? Pois quem somos determina o tipo de governo de que precisamos.

Página 272


Ficção e realidade
Sempre achei a trilogia Jogos Vorazes extremamente violenta e realista. É de uma grande crueldade que um governo puna seus cidadãos por uma guerra passada há tanto tempo e ainda diga que isso é uma festa nacional, um ato que liga os cidadãos. Veja o nível de lavagem cerebral que levou à instituição dos jogos como conhecemos com Katniss, de alguém achar que você é uma sortuda por estar participando do evento e não uma vítima prestes a ir para o abate. É uma lógica perversa, precisa e cruel, pois se seus filhos são enviados todos os anos, quem pode lutar contra esse sistema? Quem vai ousar erguer a voz com tantos apoiadores do regime e seus poderes?

E nem precisamos ir muito longe no futuro para visitar essa sociedade que pune adolescentes. Vá em qualquer periferia, veja como os jovens negros são tratados, como morrem nas mãos das autoridades que deveriam nos proteger. Para alguns jovens, é Jogos Vorazes todo dia.

Suzanne Collins

Suzanne Collins é uma escritora e roteirista de ficção científica e literatura infanto-juvenil norte-americana, que já vendeu mais de 85 milhões de livros no mundo todo.


Pontos positivos
Respostas
Lucy Gray
Bem escrito
Pontos negativos
Longo demais
Problemas de revisão
Preço

Título: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes
Título original em inglês: The Ballad of Songbirds and Snakes
Autora: Suzanne Collins
Tradutora: Regiane Winarski
Editora: Rocco
Ano: 2020
Páginas: 576
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Eu estava esperando uma bomba de tão ruim e lamento muito que o livro tenha o Snow como personagem principal, pois eu gostaria muito mais de ler a história da Mags, do Finnick ou do Haymitch. Mas já que é o que temos pra hoje, não achei esse livro o lixo que alguns andam pintando. O livro conseguiu me prender por um final de semana inteiro e eu mal esperava para poder chegar ao final. Se você é fã de Jogos Vorazes, precisa conhecer os primórdios dos jogos e de seu mais sanguinário presidente. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Que a sorte esteja sempre a seu favor!

Sei que é pra punir os distritos, mas já não punimos o suficiente? Por quanto tempo vamos precisar ficar arrastando a guerra?

Página 227


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