A humanidade do Doutor

O Doutor é um dos meus personagens favoritos de toda a franquia de Star Trek. Em sete anos de Voyager, ele cresceu tanto, sucitou tantas discussões, que vejo nele discussões muito melhores sobre o que nos define como humanos (ou não) do que em outros personagens. Foram vários fatores que tornaram o Doutor um ótimo personagem, desde os bons roteiros e episódios inteiros sobre ele à atuação impecável de Robert Picardo.



A humanidade do Doutor em Star Trek Voyager

Quem é o Doutor
Nas naves de Star Trek, a partir da década de 2360, um recurso foi instalado de fábrica nas enfermarias, que é o chamado Programa Holográfico Médico de Emergência, ou EMH. Ele serve para ajudar as equipes médicas em vários procedimentos, inclusive cirúrgicos, até mesmo substituindo algum membro da equipe ou, em casos mais severos, como o da USS Voyager, substituir totaltamente o oficial médico-chefe.

Na metade do século XXIV, a Frota Estelar encomendou ao Dr. Lewis Zimmerman, engenheiro holográfico, um programa holográfico médico de emergência. Criado à sua imagem e semelhança, alguns oficiais médicos como a Dra. Crusher juraram que nunca usariam um desses enquanto estivessem à bordo. O EMH não era conhecido pela simpatia, mas conforme as temporadas de Voyager avançam, vemos que o Doutor ganha contornos de personalidade que sua programação original nunca teria originado.

Kes foi a primeira a notar as necessidades do Doutor e avisou à capitã Janeway de que o médico da nave merecia um pouco mais de consideração. Janeway assim lhe deu controle sobre sua ativação e orientou o resto da tripulação sobre a melhor forma de lidar com ele. Mas mesmo a capitã teve problemas em reconhecer o Doutor como uma forma de vida alguns episódios mais para frente.

No episódio Latent Image, 5ª temporada, 11º episódio, o Doutor descobre que fez uma cirurgia no alferes Kim, mas nenhum dos dois se lembra disso. Ficamos sabendo que ao salvar a vida de Kim, o Doutor entrou em conflito com suas sub-rotinas éticas e ele começa a surtar. Para impedir que o Doutor se deteriorasse ainda mais, Janeway bloqueia o acesso a essas memórias. Com a ajuda de Sete de Nove, ele descobre que a capitã está ocultando a verdade, bem como os outros oficiais, e Janeway então decide fazer tudo de novo, acreditando que ele está com um defeito que precisa ser consertado.

É Sete de Nove, em um brilhante diálogo com a capitã, que abre seus olhos. O Doutor não é um disco rígido com defeito para ser abandonado no primeiro conflito que ele tem. O Doutor é bem mais do que isso.

— Quando você me separou da Coletividade [Borg], eu era um risco para a sua tripulação e ainda assim você me manteve à bordo. Você permitiu que eu evoluísse para me tornar uma pessoa.
— Você é um ser humano. Ele é um holograma.
— E você permitiu que esse holograma evoluísse também, que excedesse sua programação original. E agora você escolheu abandoná-lo.

Vendo que Janeway estava inflexível, Sete de Nove replica:

— Isso me perturba. Você diz que sou um ser humano e, no entanto, também sou Borg. Parte de mim não é muito diferente do seu replicador. Não muito diferente do Doutor. Você um dia vai escolher me abandonar também? Sempre olhei para você como meu exemplo, meu guia para a humanidade. Talvez eu tenha me enganado. Boa noite.

Janeway percebe que seus próprios preconceitos a respeito do Doutor basearam sua decisão 18 meses antes e então decide dar ao Doutor a chance de aprender com as memórias traumáticas que tanto perturbaram suas sub-rotinas e enquanto ele luta para entender sua decisão, sempre tem alguém com ele, nem que seja apenas para fazer companhia. Foram poucas linhas de diálogo, mas muito importantes para o episódio discutir a humanidade do Doutor.


Humano X Inumano
As discussões sobre o que é humano em Star Trek não surgiram com o Doutor. De Spock ao Data, ao Odo e às irmãs Soji e Dahj, é uma das principais características da franquia. Enquanto na série Enterprise ainda há um resquício de preconceito contra os alienígenas, vemos que para as outras tripulações não se discute mais se os seres sencientes de outros planetas são indivíduos plenos. Mas há discussão em torno de Data (discussão que retornou com Star Trek Picard) e há também com o Doutor.

Os dois são seres artificiais humanoides que excederam sua programação. Mas ainda assim as pessoas da Federação têm problemas em reconhecê-los como um indivíduo. Bruce Maddox quis desmontar Data para estudar suas habilidades e o Doutor sofreu com falhas de memórias pelo acúmulo de sub-rotinas e até foi vendido uma vez. Já discuti a questão de humanidade aqui no blog várias vezes e um dos pontos discutidos foi o que é que nos torna humanos.

Se você largar um bebê em uma floresta e ele for criado por lobos, ele se comportará como um lobo quando crescer. Os registros de encontros com crianças selvagens mostram que a ressocialização delas é quase impossível depois de certa idade. Nós começamos a falar, andar e a nos comportar baseado no exemplo dos mais velhos. Se uma criança tiver apenas o comportamento de um cão como seu exemplo, ela vai aprender, replicar e se comportará como um. Ou seja, nós todos nascemos com o potencial para nos tornarmos humanos, mas apenas nos tornamos depois de um longo caminho de aprendizado. Esse potencial precisa ser aproveitado.

E mesmo que as definições de humanidade fiquem um tanto borradas por conta da matriz holográfica do Doutor, não tem como dizer que ele não é um indivíduo, uma pessoa. Se ele é só um padrão de repetições gravadas em seus bancos de memória, o que podemos dizer de nós? Ele pode não ser orgânico em origem, mas certamente é uma pessoa. E para o universo de Star Trek, os cidadãos da Federação são plenamente capazes de considerar alienígenas, o Data, o Doutor, como indivíduos sencientes que exigem respeito. A coisa ficaria bem complicada na nossa realidade, onde alguns grupos são dotados de direitos humanos e outros não.

A ficção científica discute as questões de humanidade justamente pelos desafios tecnológicos impostos, mas também porque há preconceito, racismo, xenofobia, misoginia e homofobia ainda em níveis alarmantes em nossa sociedade. Colocando-nos para pensar sobre a humanidade do Doutor ou do Data, pensamos sobre a humanidade em geral. Antropomorfizamos nossos animais de estimação e até objetos inanimados, temos pena da situação do Doutor ou de alguém querendo desmontar o Data, mas na vida real tem muita gente defendendo extermínio e desumanização como se isso fosse um direito. Alguns simplesmente não enxergam as metáforas que a ficção praticamente esfrega na cara deles.

Até mais! 🖖🏼


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1 Comentário

  1. Sem contar que o médico podia "interditar" o seu capitão em casos de saúde (inclusive mental).
    Bom se o Brasil fosse assim.

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