Blade Runner, Frankenstein e os limites do que é humano

O que Mary Shelley pensaria de ver as influências de sua obra nos dois séculos seguintes, aquela que surgiu de um desafio sugerido por Lord Byron aos seus convidados na Suíça? Frankenstein inaugurou todo um gênero moderno, trazendo aos leitores as inquietações existenciais vitorianas que ainda são refletidas em obras contemporâneas. De maneira direta ou indireta, muitas obras respiram aqueles ares góticos de Frankenstein, readaptando e ressignificando as discussões levantadas por Mary, como a desconexão com a natureza, a irresponsabilidade por seus atos e o terrível medo da substituição.

Blade Runner, Frankenstein e os limites do que é humano



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Uma das inquietações causadas pelos androides em Blade Runner é a forma como são tratados. Isso fica bem evidente pelo tratamento dado ao policial K e como ele foi feito para obedecer, nunca revida nenhuma das provocações. Ele é virtualmente igual a um ser humano. Diferente dos robôs atuais em que é bem evidente que eles são sintéticos, um androide em Blade Runner é feito de maneira tão parecida a um ser humano que apenas um longo teste psicológico - teste Voight-Kampff - pode identificar uma máquina. Semelhante a um teste Turing, a intenção é determinar se aquela pessoa é ou não um androide.

Mas sabemos hoje que uma máquina pode ligar num restaurante ou num dentista e marcar um horário para você, como vimos na demonstração do Google assistente pouco tempo atrás. Isso não faz, necessariamente, a IA do Google algo inteligente. Sabemos que as máquinas são muito boas em fazer o que foram programadas para fazer, mas quando se trata de espontaneidade, elas começam a mostrar falhas. Mas não os androides de Blade Runner. Não a criatura do livro Frankenstein.

O teste Voight-Kampff enfatiza as emoções humanas e se nos basearmos nas emoções, os androides do primeiro filme são absurdamente humanos. Tememos muito mais estes seres do que a criatura feita pelas mãos de Viktor Frankenstein. Isso porque a criatura é única, enquanto temos batalhões de androides fazendo serviços que humanos não podem ou não querem e expandindo as fronteiras espaciais e das colônias.

As memórias falsas implantadas dão espontaneidade, dão reações humanas aos androides. Voltamos à questão abordada pelos Humanics na série Extant, onde o criador desses androides alega que você só terá um robô que possa agir como ser humano se for criado como um. E só assim um robô dará valor à humanidade. Os androides de Blade Runner já saem de fábrica com a obsolescência programada, pois vivem apenas 4 anos. E eles querem de fato VIVER, não apenas existir, por isso vão atrás de seu criador na Terra na esperança de terem suas vidas expandidas. Rachel quase engana Deckard no teste, pois o policial precisou de mais do que as 30 questões usuais para determinar que ela era uma máquina.

Essa necessidade de viver dos androides do primeiro filme é igual à da criatura da obra de Mary Shelley, rejeitada por seu criador, rejeitada pelas outras pessoas e que assim se afunda no ódio e no desprezo por nós. Quando volta em busca de uma igual, seu criador o desaponta, tal como Tyrell desaponta Roy Batty. Tanto Viktor quanto Tyrell tinham o complexo do criador, eram "deuses" diante de suas criaturas que quando se revoltam são logo rechaçadas, expulsas, empurradas para a obscuridade.

Com medo das máquinas superiores, a humanidade expurga as máquinas e cria outras, as subservientes, que obedecem, que não criticam, que não fogem da linha. K é a definição desse novo androide que não se ergue em insurreição contra seu criador. Ufa, humanidade salva! Exceto pelo fato que Niander Wallace quer ser deus. Sua busca pelo híbrido androide e humano em 2049 não é para libertar seus androides, mas para torná-los a massa adoradora à sua figura. Niander será elevado a um status de pai divino. A chefe de K sabe o que pode acontecer: isso vai quebrar o mundo, K!

Niander não se preocupa com a humanidade como Viktor se preocupou ao se negar em fazer uma companheira para sua criatura. Niander quer isso, quer uma multidão de androides escravos ao seu dispor que o idolatrem. A humanidade certamente não resistiria ao domínio de androides mais fortes e resistentes, que não só são capazes de se reproduzir como também obedecem às ordens de um empresário psicopata.

Aqui chegamos a um dilema: um ser que foi criado de maneira artificial não é um ser humano? A criatura foi feita com partes de cadáveres costuradas e juntadas por Viktor. Não vemos a produção de um androide pela companhia Tyrell ou pela Wallace, mas sabemos que, apesar de serem explorados para trabalho braçal por serem mais fortes e resistentes, eles são orgânicos em essência. Qual é a definição de um ser humano adotada nos filmes? E um bebê de proveta, depois implantado em um ser humano, ele não é uma pessoa? E uma criança gerada em um útero artificial - algo que possivelmente gera os androides do filme - essa criança não seria um ser humano?

Um simples diagnóstico em um teste de empatia como o Voight-Kampff não tem condições de determinar o que é humano e o que não é. Nem a tecnologia que trouxe esse ser ao mundo nem o tempo de vida que temos, algo que Roy Batty não compreende inicialmente ao pedir por mais vida a Tyrell. Ser humano é uma construção social e quanto à empatia, alguns seres humanos não são dotados dela. Esses, provavelmente, não passariam no Voight-Kampff.

É o que fazemos que dá sentido e significado às nossas vidas e nos torna humanos, tanto bons quanto ruins. É o ato de poupar a vida de Deckard que dá sentido à existência de Roy antes de morrer, não os anos a mais que ele queria viver; é o fato de K reunir um pai e uma filha há muito distantes; é Luv matar para proteger seus interesses; é Rachel poder se apaixonar; é a criatura buscar um sentido em sua vida em busca de uma existência plena. Um único teste não tem como abraçar a complexidade humana, nem tem como definir quem é humano e quem não é, nem pode limitar sua existência.


Até mais!


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1 Comentário

  1. Escrevo livros com androides. No meu universo, o que diferencia androides de humanos é a existência de uma alma. Ainda não existem almas sintéticas, embora uma das personagens acredite poder desenvolver uma.

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