Resenha: Última parada Auschwitz, de Eddy De Wind

Quando estudamos a história, é natural haver um distanciamento. Não estivemos lá, não vivenciamos os eventos e acabamos restritos a datas, batalhas e relatos que podem ou não ser confiáveis. Quando se trata de genocídio, o distanciamento é perigoso, pois a tendência é relativizar, até mesmo negar que tal assassinato em massa tenha acontecido. É por isso que livros como o de Eddy De Wind são tão importante.



Parceria Momentum Saga e
editora Planeta


O livro
Eddy De Wind era um jovem médico judeu que adorava velejar, tocar clarineta e saxofone, curtindo um jazz com os amigos da banda Rythm Rascals. Estudante aplicado, foi o último médico formado pela Universidade de Leiden antes de ser fechada pelos nazistas. Em 1943, ele foi voluntário para trabalhar no campo de Westerbork, um campo de trânsito que realizava a deportação de judeus no leste da Holanda.

Resenha: Última parada Auschwitz, de Eddy De Wind

O motivo para se tornar voluntário era para tentar impedir a deportação de sua mãe. Disseram a Eddy que se ele trabalhasse como médico no campo, sua mãe ficaria isenta da deportação. Porém, Eddy não sabia que ela já fora enviada a Auschwitz a essa altura. Em Westerbork, Eddy conheceu sua primeira esposa, a jovem enfermeira Friedel, com quem se casou ali mesmo. Naquele mesmo ano, ambos foram enviados em trem de carga para Auschwitz.

Já no trajeto, os roubos começaram. Os nazistas entravam nos vagões exigindo tudo o que tivessem de valor. Eles sabiam que estavam sendo enviados a Auschwitz, mas o nome dizia muito pouco a eles. Ninguém sabia o que significava, era só um nome. Se hoje Auschwitz já evoca a terrível lembrança de um campo de concentração, na época era apenas um lugar. Mas ao descerem dos vagões eles enfim tiveram noção do que os aguardava.

Eddy criou um personagem que narra suas próprias experiências no campo, Hans. Nos dois anos que ficou em Auschwitz, Eddy viu de tudo e temeu pela vida da esposa, dos companheiros, olhando com desesperança para as longínquas montanhas azuis, que significavam a liberdade perdida.

Sabemos que é apenas uma carapuça que encobre a morte aos nossos olhos. Sabemos que essa morte é uniformizada, porque na torneira de gás há um homem com um uniforme: SS.

Página 9

Ao chegar, entre socos e agressões, as pessoas perdiam gradualmente sua identidade. Cabelos cortados, uniformes iguais para todos, um número tatuado no braço. Aqueles que tinham alguma utilidade trabalhariam no campo e por isso Eddy temia por Friedel, separada dele assim que desembarcaram. Aqui, como estamos limitadas à visão de Hans/Eddy, nós temos o dia a dia do campo, a luta pela sobrevivência, o medo constante do narrador. Não há uma descrição gráfica de todos os horrores. O que temos é uma rica experiência pessoal sobre um sobrevivente que ficou marcado para sempre.

O principal pensamento que tive ao terminar a leitura foi: como continuar vivendo depois de tudo? Como voltar a ser um cidadão, voltar a ter uma identidade, de voltar ao trabalho, a estudar, a flertar e fazer amizades? E a família morta? Os amigos? Acredito que a decisão de Eddy de se tornar um psiquiatra teve muito a ver com o que ele viu no campo e do efeito da guerra na mente dos prisioneiros. Se soldados voltam traumatizados para casa, o que dizer daqueles que foram enviados a um campo de extermínio?

A experiência de Eddy em Auschwitz marcou toda a sua família depois da libertação pelos soviéticos. A família sentia a presença do campo nas reuniões, almoços e jantares. É uma experiência muito mais vívida do que apenas ler os relatos históricos, pois aqui é uma pessoa que sobreviveu, que contou sua história de dentro do campo, em primeira mão. Conforme os soviéticos se aproximavam, os nazistas tentaram esconder o que fizeram. Eddy se escondeu no campo enquanto a Marcha da Morte se estendia em todo o território nazista.

É muito difícil, digo até impossível, ler o relato de Eddy e não se sentir tocada, emocionada, revoltada. Tente se colocar por um segundo nessa situação e você se sentirá do mesmo jeito. Parece que esse exercício não anda sendo feito com frequência, se passarmos os olhos pelas notícias diárias. A sociedade ainda exerce a desumanização constante, junto da ignorância e da burrice. #NazismoÉdeDireitaSim

O livro vem em capa comum e papel amarelo. No meio tem fotos em papel branco especial da juventude de Eddy, algumas na aula de anatomia. É um livro curto, mas que não será fácil de ler por conta do seu teor. A tradução foi feita do holandês por Mariângela Guimarães e está ótima. O livro não tem grandes problemas de revisão ou diagramação. No final tem um esquema do campo de Auschwitz.

Não, Auschwitz era mais que uma provocação em grande escala. Com suas fábricas e minas, era uma parte importante da área industrial da Alta Silésia e os operários eram mais baratos que em qualquer lugar do mundo. Não precisavam de salário e comiam quase nada. E quando estavam esgotados e iam para a câmara de gás, ainda havia oponentes políticos e judeus suficientes na Europa para completar o número novamente.

Página 95


Ficção e realidade
É interessante notar que o livro foi publicado outras vezes, mas acabou passando despercebido pelo público e pela crítica. Um ano depois de Eddy voltar ao seu país, o caderno com suas memórias foi publicado por uma pequena editora comunista, mas ninguém se interessou em reviver o horror. Ele foi republicado em 1980 e, de novo, não houve interesse pelos relatos do médico. Foi só agora, 30 anos depois da morte de Eddy por infarto em 1987, que o livro ganhou espaço nas prateleiras e foi vendido para mais de 25 países.


Eddy De Wind

Eddy De Wind foi um médico e psiquiatra holandês, o último médico judeu a formar-se na Universidade de Leiden, na Holanda, antes do fechamento pelos nazistas.


Pontos positivos
Relato em primeira mão
Fotos
História de Eddy
Pontos negativos

Violência
Hoocausto

Título: Última parada Auschwitz
Título original em holandês: Eindstation Auschwitz
Autor: Eddy De Wind
Tradutora: Mariângela Guimarães
Editora: Planeta
Ano: 2020
Páginas: 240
Onde comprar: na Amazon!



Avaliação do MS?
Não vou dizer que será fácil ler este livro. Nem acredito que deva. É preciso ler relatos como este para termos uma noção do que acontece. Não teremos a experiência completa, mas sem entender o que foi o Holocausto e como isso impactava as pessoas, a tendência é relativizar o que aconteceu e destilar ignorância por aí. É um livro ainda mais pertinente nos dias atuais em que o revisionismo histórico de certos grupos quer mascarar o que houve e apontar outros culpados. Não caia nessa! Leitura mais que indicada, é uma leitura essencial!

Até mais!

Coisas terríveis estão acontecendo no mundo hoje. As pessoas não vão mudar. E a única coisa que podemos fazer por nós mesmos é estar atento, ler e compreender como se manter humano em tempos de horror e desespero. O livro ajuda nisso. É uma história terrível, mas nos ajuda a entender.

Melcher De Wind, historiador e filho de Eddy


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