Resenha: O Céu de Pedra, de N.K. Jemisin

E chegamos ao fim! Eu não queria, sério mesmo. Sou apaixonada pela história e a NK Jemisin é uma inspiração. Tentei postergar a leitura o máximo que pude para não deixar a Quietude e seus personagens, mas tive que virar a última página. A trilogia multipremiada é a única a ganhar uma estatueta do Hugo Awards em cada um dos livros da série. Ninguém na história do prêmio conseguiu tal feito. ♡

Esta resenha pode conter alguns spoilers dos livros anteriores!



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
No mundo do continente da Quietude existem cinco estações. As quatro que nós já conhecemos e mais uma, o fim do mundo. Conhecido pelo intenso tectonismo, o mundo enfrentou vários momentos de quase que total extermínio. É o mundo dos quietos e dos orogenes, (de orogenia, processo de formação das montanhas). Estes últimos são capazes de controlar as forças da terra, de acalmar terremotos, de destruir barreiras de corais. Era de se esperar que eles fossem especiais e reverenciados, mas na verdade eles são perseguidos, temidos, mortos apenas por serem quem são. Eles inclusive são chamados pelo pejorativo nome de "roggas", neologismo criado pela autora derivado de "nigga", que vem de "nigger", termo ofensivo usado contra os negros.

Resenha: O Céu de Pedra, de N.K. Jemisin

Seguindo um modelo parecido com o segundo livro, O Portão do Obelisco, aqui nós temos uma narrativa oscilando entre Essun, Nassun, sua filha perdida e uma terceira narrativa que só vai ficando clara para nós conforme avançamos na leitura. Essun mal sobreviveu ao fim do livro anterior e começamos a jornada com ela em uma espécie de coma enquanto é carregada pela estrada. O mundo está acabando e Essun ainda procura por Nassun, a filha que perdeu quando o marido a levou embora.

Eles têm medo porque nós existimos, ela diz. Não fizemos nada para provocar medo exceto existir. Não há nada que possamos fazer para conseguir a aprovação deles exceto deixar de existir... então podemos ou morrer, como eles querem, ou rir da covardia deles e continuar vivendo.

Página 134

Essun se pune por uma série de decisões que tomou na vida. Sendo uma orogene habilidosa e poderosa, ela sente que não há lugar neste mundo que odeia seu povo para se viver. Andando com a comu (comunidade) de Castrima pela estrada, em busca de um lugar seguro, ela precisa ser lembrada pelos outros de que ali pode ser um lar para ela e, quem sabe, para sua filha, Nassun.

Nassun é uma criança, mas que precisou amadurecer rápido demais em um mundo que odeia orogenes. E como essa menina cresceu neste livro. Ela segue rumo a um lugar específico, sabendo que tem uma missão a cumprir. Assim como Essun, ela precisa completar uma missão que pode estabilizar o planeta e acabar com a quinta estação de uma vez por todas. Mas os desafios pelo caminho são muitos. Esta estação está sendo muito severa com as comus da Quietude, as pessoas estão morrendo, a fome se espalha e pode não haver um futuro para eles.

Eu estava muito curiosa para saber mais sobre o passado da Quietude e Jemisin me surpreendeu mais uma vez. Adorei a forma como ela contou a história dos obeliscos, de como as estações começaram, como surgiram os comedores de pedra e como cada um deles estava interligado desde tempos imemoriais. Concordo com alguns críticos que estão dizendo que a trilogia da Terra Partida é uma das maiores e melhores sagas de fantasia e ficção científica dos últimos tempos, pois certamente merece.

Nossa jornada com Essun desde o primeiro livro foi longa. Acompanhamos praticamente sua vida inteira, desde que era criança a até a maturidade e cada perda, cada dor e alegria que ela viveu, as vidas que salvou e que tirou enquanto orogene, o preconceito que viveu por ter nascido. É uma trilogia sobre opressão, sobre ódio, mas também sobre força e superação. Se tem uma coisa que aprendemos nesta saga é que algumas coisas, uma vez quebradas, não podem ser mais consertadas. E é verdade. A vida é assim e temos que aprender a conviver com isso.

Jemisin não perde o ritmo da narrativa em nenhum momento. Mesmo quando os personagens desaceleram é por alguma razão explicada logo adiante. Você não tropeça na leitura por conta de parágrafos mal escritos e mesmo nas explicações científicas não há dificuldade em entender como esse mundo funciona. Para mim, que sou formada em ciências da Terra, foi um imenso prazer ler uma história tão bem escrita, com uma ciência tão bem feita e que me é tão familiar.

A edição da Morro Branco segue o padrão das edições americanas e dos dois livros anteriores. O livro tem um mapa inicial da Quietude, com um glossário no final. Esta edição tem dois extras: uma carta do editor, comentando a importância da autora e da obra e a transcrição do discurso de Jemisin quando ela ganhou o terceiro Hugo e fez história. A revisão da editora é que merece um cuidado maior, pois existem errinhos bobos aqui e ali, alguns até mudando o sentido de algumas palavras. A tradução ficou na mão da Aline Storto Pereira e está ótima.


Ficção e realidade
Perguntaram para Jemisin de onde vêm as questões de opressão e perseguição aos orogenes que vemos na trilogia. Acho que está bem evidente para quem leu que muitas das opressões apresentadas são aquelas sofridas pela população negra (e não-branca em geral), desde o período da escravidão ao racismo diário e suas agressões constantes. Orogenes são incompreendidos e perseguidos por pura ignorância e desconhecimento. Antes que pudessem ser resgatados e educados no Fulcro, muitos eram mortos por espancamento e linchamentos quando demonstravam ter o poder da orogenia, exatamente como aconteceu a muitos negros linchados e espancados antes e hoje em dia.

No próprio discurso da autora, Jemisin diz que a trilogia, além das opressões ao longo da história da raça humana, é também uma história sobre viver em um mundo difícil. Quando você pertence a grupos historicamente oprimidos (negros, mulheres, pessoas com deficiência, LGBTQ+), é preciso celebrar cada vitória, não importa o quão pequena. É preciso celebrar a vida já que é tão fácil perdê-la para um mundo que te odeia. A Terra Partida é sobre isso.

N.K. Jemisin
A maravilhosa N.K. Jemisin

NK Jemisin mora no Brooklyn, é psicóloga e conselheira educacional de formação e hoje é escritora em tempo integral. Foi resenhista do The New York Times por três anos e é também autora da Trilogia Inheritance, inédita no Brasil, além de vários contos. Mora com seu gato, Ozzy.

Para alguns crimes, não existe justiça adequada... somente reparação.

Página 298


Pontos positivos
Essun e Nassun
Personagens bem escritos
Ciências da Terra
Pontos negativos

É o último livro!
Erros de revisão

Título: O Céu de Pedra
Título original em inglês: The Stone Sky
Série Terra Partida:
1. A Quinta Estação
2. O Portão do Obelisco
3. O Céu de Pedra
Autora: Nora K. Jemisin
Tradutor: Aline Storto Pereira
Editora: Morro Branco
Ano: 2019
Páginas: 512
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Eu nem tenho mais palavras para descrever esta saga, porque eu amei cada página, cada angústia, cada porrada na cara, cada luta e lágrima que derramei por Essun e Nassun. Por ser centrado na minha área de formação, as ciências da Terra, me deleitei com termos que me são conhecidos há muito tempo. É uma obra poderosa, tanto em sua construção quanto em suas mensagens e que deveria ser aqueles livros obrigatórios para qualquer fã de ficção científica. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!

(...) para uma sociedade construída com base na exploração, não existe ameaça maior do que não restar mais ninguém para oprimir.

Página 401


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1 Comentário

  1. poxa, quero muito ler, mas fica aqui um adendo à Morro Branco.

    Fui nas principais livrarias aqui de Brasília: em duas Culturas, Leitura, duas Saraiva, e não encontrei o livro. Não existe versão kindle também.

    Agora é esperar uma semana para a encomenda chegar.

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