Blogar é escrever

Chamar alguém de "blogueira", para muitos, equivale a um insulto. Um tempo atrás, pediram indicações de ficção científica e me indicaram como uma referência. O sujeito desdenhou porque eu sou uma "blogueira". Você sente o tom pejorativo na forma com que a pessoa fala. A escrita, por si só, já é um campo desvalorizado. São poucas as pessoas que conseguem viver apenas daquilo que escrevem e publicam. Mas se você escreve pela internet, se você consegue tirar um troco com aquilo que escreve, aí as pessoas vão começar a se questionar como é que você faz isso sendo que você é "só uma blogueira". Mas olha só: blogar é escrever. E não é demérito nenhum em ser blogueira.

Blogar é escrever



Muita gente ainda tem a impressão de que um escritor, uma escritora, é aquela pessoa que tem publicações impressas, físicas, à venda nas livrarias, que faz noites de autógrafos, que passa a madrugada na frente da máquina de escrever na companhia do café. O estereótipo é uma caricatura, porque é incompleto. Artistas em geral fazem sua arte em seu tempo livre, pois não podem viver disso. Então o fazem em seu tempo livre, em seu tempo de descanso, férias, finais de semana, feriados, madrugadas. Muitas vezes virando a noite.

Com o advento da internet e das plataformas de escrita, muitas gratuitas, escrever se tornou algo muito acessível. O blog ainda é uma plataforma segura de disseminação de conteúdo, de prática de escrita e, principalmente, de contato com outras pessoas, especialmente aquelas que também escrevem. Então o estereótipo do escritor com sua pilha de livros numa noite de autógrafos nem sempre corresponde à realidade. Muitos escrevem e têm suas publicações em plataformas digitais. O ebook nada mais é do que uma forma de ler livros, não quer dizer que o livro acabou.

A facilidade de se ter blogs, de sentar e começar a escrever, leva a muita geração de conteúdo. Tanto bom quanto ruim, mas ficou um mito de que blogs são coisa de desocupado, que por ser feito de qualquer jeito, que o trabalho é mais um qualquer; aliás para alguns o trabalho intelectual não é trabalho (mas você trabalha ou só dá aula?). Tem coisas boas e ruins em tudo nessa vida. TUDO. Existem textos chatos, mal escritos, ofensivos; por incrível que pareça há leitores e até mercado para esses textos. E ninguém tira o status de escritor dessas pessoas. De alguma forma o mito de que blogar é algo inferior ficou e ainda é perpetuado, disparado como ofensa com um olhar blasé como se uma blogueira fosse uma criatura inferior na cadeia alimentar.

Comentei em um post passado de como o blog que mantenho há 9 anos me ajudou a evoluir e muito a minha escrita. Como ofício, a escrita é algo que se aprende e precisa ser exercitada. O blog foi uma maneira de me manter escrevendo sem a necessidade de ser apenas ficção. Os espaços que ocupamos na internet com a nossa escrita são uma maneira de praticar, de exercitar, de encontrar novas formas de nos expressar. Ler os escritos dos outros também é um exercício. E o poder das palavras nunca pode ser subestimado.

O que você escreve está atingindo alguém neste momento. Usamos as palavras para informar, criticar, ensinar, aprender, dar conforto, gerar ideias e levar novos conceitos às pessoas. Com a prática da escrita, a blogueira é uma multiplicadora de ideias. É o ofício da escrita, só que em um blog.

Não há diferença entre um blogueiro e um escritor. Ainda há uma aura elitista sobre a pessoa que escreve como se ela fosse um ser iluminado, cujo talento é soprado pelos deuses. Eu sou escritora que tenho um blog, então pode me chamar de blogueira sim, mas não como maneira pejorativa, como se o que eu faço aqui não tivesse valor. Nem todo escritor bloga, mas todo blogueiro escreve.

Tem alguém escrevendo esse texto, tem alguém escrevendo as tirinhas de jornal, tem alguém escrevendo o roteiro da sua série favorita, tem alguém escrevendo uma série de fantasia, tem alguém escrevendo poesias num caderninho enquanto está no transporte público, tem alguém escrevendo no seu barraco na favela com a luz de um lampião usando um caderno gasto e um toco de lápis. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém só porque não fez o lançamento do seu livro no Conjunto Nacional. Você bloga, então você escreve. Você é uma escritora.

Até mais.

Não seja seduzido pelo pensamento de que o que não dá lucro não tem valor.

Arthur Miller

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4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bacana, Sybylla! As pessoas têm uma ideia muito errada do que é ser blogueira. Eu acho bobo até o pessoal que critica as blogueiras de maquiagem, afinal, é um trabalho ou um hobby como qualquer outro. E demanda empenho e dedicação, ainda mais quem costuma ter uma agenda pra manter o conteúdo atualizado com regularidade. As pessoas subestimam as coisas boas que podem sair de um blog, o estudo por trás, ou até o quanto aquilo pode ser importante pra vida pessoal daquela blogueira. Aquilo muitas vezes se torna parte da nossa identidade e da nossa autoestima! Acho isso muito saudável até. Então bora nos valorizarmos mesmo, né?! c;

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  2. Sensacional! Sou blogueira há mais de dez anos, e tenho me aperfeiçoado cada vez mais, inclusive artisticamente, por causa do e para o meu blog. E a escrita é para mim como o ar que respiramos: essencial e inegável.

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  3. Eu também sou um "veterano" dos blogs. Ótimo texto. Lembro que lá pelos idos de 2007, 2008, o debate era justamente se blogs eram literatura e os blogueiros, evidente, seriam escritores. Para mim sempre ficou muito claro a sua afirmação ao fim do texto: "Se você bloga, então você escreve". Logo, todos os blogueiros e blogueiras são escritores. Claro que à época esse debate acabou tomando rumos estranhos, com aquele "arzinho" de pedantismo e elitização da literatura que bem conhecemos, mas essa é outra história. O importante é que cá estamos e por muito tempo continuaremos. :)

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