O futuro pelos olhos da ficção científica

Semana passada saiu um texto falando que a Nike e a Boeing estavam contratando escritores de ficção científica para imaginar cenários futuros possíveis para nortear os investimentos de tais empresas. E o que mais me surpreendeu: teve gente dando risada dessa informação. Das duas uma: ou não entendem o potencial criativo da FC ou acham que FC é só tiro porrada e bomba e ET.



O futuro pelos olhos da ficção científica
Arte de Paul Chadeisson, no Tumblr

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Não acho que a ficção científica seja uma boa maneira de prever o futuro (também acho que o futuro não pode ser previsto), mas acredito que a ficção científica é uma maneira de influenciar o futuro.

Cory Doctorow

Eu digo e repito quantas vezes for necessário: ficção científica não tem obrigação de prever o futuro. Ninguém tem como adivinhar o futuro, mas o que as empresas podem fazer, e inclusive pedir, é cenários possíveis, tendências e então se preparar e nortear seus investimentos com isso. É isso o que Cory diz na frase acima e o que muita gente não entendeu e riu a respeito da contratação de autores de FC.

A forma como esses escritores trabalham para as companhias varia. Pode ser escrevendo contos específicos com produtos envolvidos, podem ser palestras e workshops nas sedes das empresas. O que a ficção científica faz, ao contrário da ciência em si e de outros gêneros literários, é nos preparar para o futuro, não apenas nos fornecendo vislumbres sobre o futuro e a tecnologia, mas pensando também nas implicações para as sociedades humanas e para o mundo em geral. Pode nos ajudar a focar nossos pensamentos e esforços na direção certa. A ficção científica planta a ideia, inventores, designers e desenvolvedores vão lá e criam algo inesperado. Lembram do Motorola Startac? Foi inspirado no comunicador da Enterprise na série clássica.

Depois de fazer um curso de escrita criativa, Ari Popper criou a SciFutures, uma iniciativa que ajuda grandes empresas a ter uma melhor noção de seus negócios e os ajuda a coordenar esforços futuros de acordo com cenários possíveis. Percebe como ficção científica não é coisa de meia dúzia de nerds espinhentos trancados com seus quadrinhos do Superman?

Ari trabalha com escritores de FC para gerar conhecimento para empresas e ajudá-los a se preparar para potenciais obstáculos ou oportunidades. Uma mudança climática global aconteceu e agora, como surfar nessa onda? Um escritor de ficção científica pode extrapolar essa ideia e entregar uma graphic novel, conto, curta, modelos de startups e roteiros. Se você é um fã regular de FC sabe que nada é considerado estranho demais para nós. Inclusive adoro.

A SciFuture ajudou a Pepsi a imaginar um mundo onde as garrafas de plástico não mais existiam. Auxiliou a Ford a ver um futuro onde as pessoas compartilham veículos ao invés de comprar um e criou uma graphic novel para a Hershey's que mostrava pessoas usando impressoras 3D para criar barras de chocolate no conforto de seus lares. Para a VISA, todo o interior de um carro foi montado para demonstrar o conceito de se realizar pagamentos enquanto se está preso no trânsito através do computador de bordo. Apple e Google costumam fazer eventos com seus funcionários, convidando autores de FC, para dar palestras e analisar a pesquisa destas empresas.

A Intel tem o seu The Tomorrow Project, que inclusive chegou ao Brasil, "um amplo processo de discussão que engloba livros, vídeos, palestras, eventos e outras iniciativas no mundo real e virtual. É uma discussão continuada entre cientistas, pensadores, autores de ficção científica, empreendedores, celebridades, aficionados por tecnologia e até pessoas comuns sobre o mundo que estamos criando e o mundo que gostaríamos de criar." Você pode inclusive baixar uma antologia da Intel neste link aqui, em inglês.

A variedade de mundos ao qual a ficção científica nos acostumou a ver através da imaginação, é uma maneira de treinar o pensamento para as mudanças atuais - muitas vezes catastróficas, em geral confusas - que o mundo real despeja sobre nós ano após ano. Nos ajuda a evitar o inevitável choque.

Samuel Delany

A Microsoft criou uma coletânea de contos de FC chamada Future Visions, que você baixa de graça (em inglês) na Amazon. Contando com grandes nomes da FC contemporânea como Ann Leckie, Elizabeth Bear e David Brin, a coletânea convidou os autores para visitar os laboratórios da empresa, concedendo-lhes total acesso às suas pesquisas por um ano e deixando-os escrever a respeito e como eles imaginavam o impacto disso no futuro. Os autores usaram essa ciência real para imaginar histórias de ficção científica que podem influenciar tecnologias e produtos que poderão emergir dos laboratórios da Microsoft.

A SciFuture chegou a auxiliar a OTAN a pensar em ideias e cenários para o futuro da guerra. Cerca de 14 contos foram entregues aos analistas da organização envolvendo cenários de combate, que variavam de armas inteligentes hackeadas, cibersoldados e soldados geneticamente criados que emitiam feromônios indutores de medo em tropas inimigas. Todos os contos traziam questionamentos diferentes escritos de maneira a gerar discussão sobre os tópicos apontados pela OTAN.

E não pense que foi só a OTAN. O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos também está usando a ficção científica como maneira de se preparar para ameaças pelos próximos 30 anos. Os fuzileiros lançaram uma competição de escrita entre seus oficiais, pedindo que imaginassem o futuro dos conflitos humanos e seus possíveis cenários. Os trabalhos foram então analisados por escritores de FC & Fantasia, que leram e analisaram as melhores, o que levou à coletânea Science Fiction Futures: Marine Corps Security Environment Forecast 2030-2045, que também pode ser baixada gratuitamente em inglês.

Então agora espero que algumas pessoas tenham parado de rir e comecem a analisar o sério trabalho feito por muita gente para criar e extrapolar futuros e cenários entre os milhares que podem surgir pela imaginação de alguém. Quero também que essas pessoas parem de considerar a FC como invasão alienígena e explosões em CGI e comece a ver o quanto ela pode estar perdendo por puro preconceito.

Ficção científica constantemente analisa o futuro, os fenômenos sociais, as tecnologias e seus impactos na vida das pessoas. Mundos ficcionais permitem que se avalie o impacto de novos produtos, programas, iniciativas e políticas usando-se apenas da criatividade de ousados escritores. Ela audaciosamente nos leva onde jamais estivemos e não deve ser considerada como um escapismo bobo ou coisa de desocupado. O futuro está aí, ao alcance da mão. Imagine, crie.

Ficção científica nos dá uma linguagem para que possamos conversar sobre o futuro.

Brian David Johnson

🖖

Leia também:
Imagining a science-fiction future - CNet
Using science fiction to explore business innovation - Digital Pulse
PWC recommended that corporations should ask science fiction writers about the future - BoingBoing

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