Política e cultura nerd

Essa semana que passou dois paraquedistas na página do blog no Facebook, que acho que nunca leram uma linha de qualquer texto do blog, ou que provavelmente nunca prestaram atenção na vida, no universo e tudo mais, criticaram as postagens da página. Eles disseram que a página tinha que ser apartidária, não tinha que falar de política, que tinha que se ater apenas à cultura nerd "pura".

Tá certo, vamos falar sobre política e cultura nerd.

Política e cultura nerd



Política e cultura
Aristóteles dizia que a política é uma ciência que tem como objetivo a felicidade humana. Teríamos então a política ética, que se preocupa com a felicidade individual dos cidadãos e a política propriamente dita que se preocupa com a felicidade coletiva. Tudo o que se relaciona ao bem estar tanto individual como coletivo, é política. Ela se refere à organização, administração e direção dos Estados nacionais, de maneira a proporcionar aos cidadãos a felicidade e o bem-estar em seus mais diferentes níveis.

Já a cultura neste contexto, segundo a definição de Edward B. Tylor, é um complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e hábitos, as aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membro nativo ou não. É um conjunto de ideias, comportamentos, símbolos e práticas sociais, aprendidos de geração em geração através da vida em sociedade e passados a diante. Cultura é comumente associada às formas de manifestação artística e/ou técnica da humanidade e pode muitas vezes se confundir com desenvolvimento, educação, bons costumes, etiqueta e comportamentos de uma determinada elite. É dessa definição elitizada de cultura que muitos consideram MPB cultura, mas funk carioca não.

Cultura nerd e cultura pop
Se você está vivo neste momento é impossível ignorar a imensa produção cultural que temos à nossa disposição. São filmes, séries, livros, quadrinhos, jogos eletrônicos, peças de teatro, novelas, músicas, comerciais, que estão à nossa disposição 24hs por dia, ao alcance do dedo no smartphone, ao alcance do clique nos computadores. Estamos cercados de mensagens, de visões de mundo e questionamentos. Essas produções têm um enorme significado na formação dos valores e atitudes do público, causando um profundo impacto em assuntos domésticos e internacionais.

Jogos Vorazes, por exemplo, teve a exibição nos cinemas da Indonésia proibida por conta da atitude de Katniss de se rebelar contra o governo. Jovens insatisfeitos com os andares da política de seu país vinham adotando o gesto dos cidadãos pobres de Panem - beijar os três dedos da mão direita e erguer o braço - como uma forma de protesto. Na Índia, a indústria de Bollywood é usada como uma forma de disseminar informação sobre saúde, higiene, maternidade, sexo e família, atingindo principalmente as comunidades rurais que não possuem internet, mas que conseguem consumir o cinema aberto e de massa.

Meryl Streep, no Globo de Ouro de 2017, incendiou a audiência com seu poderoso discurso de aceitação do prêmio pelo conjunto da obra, além de reiterar o papel da classe artística como alguém que reflete seu tempo:

E esse instinto de humilhar, quando é exibido por alguém em uma plataforma pública, por alguém poderoso, é filtrado na vida de todo mundo, porque meio que dá permissão para outras pessoas fazerem o mesmo. O desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita violência. Quando os poderosos usam sua posição para fazer bullying, todos nós perdemos.

Mulheres no cinema

A arte sempre foi usada como forma de manifestação. A arte pode servir às elites, como também serve às classes menos favorecidas como forma de se expressar. Mesmo que o autor negue qualquer viés político em sua obra, um livro com apenas personagens homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais é uma forma de expressão do meio dominante em que o autor está inserido. Você não consegue escapar da política, porque, como disse Aristóteles, somos em essência animais políticos e estamos em busca do nosso bem-estar e da felicidade, ainda que você faça isso lendo um livro ou indo ao cinema.

A internet hoje analisa a política por meio de memes, vídeos, piadas, tira sarro das besteiras que seus representantes fazem e tudo isso como forma de apontar os erros, as incongruências dos discursos, os malefícios de se colocar gente despreparada, ignorante e iletrada nas cadeiras de comando de países, estados e municípios. As notícias falsas serviram de catalizador para eleger pessoas execráveis, valendo-se do sensacionalismo e do desamparo de uma população cada vez mais assustada com inimigos fabricados e moldados para atender aos interesses de uma classe específica.

É nessas horas que nos voltamos para a ficção, para a cultura pop, como uma maneira de refletir o mundo que nos cerca. Com tantos livros juvenis tratando de política, repressão, ditaduras, povos oprimidos, não é de se estranhar que nossos jovens tenham ocupado as escolas públicas de São Paulo para impedir o então governador de reorganizar o ensino público e fechar dezenas de escolas. Também não é de se estranhar a maior participação de jovens na política, nas discussões sobre os rumos do país e como líderes de movimentos, pois eles se viram nestes enredos e decidiram agir para que ninguém decida por eles suas próprias vidas.

Quando crianças negras viram a tenente Uhura na ponte da Enterprise nos anos 60, aquilo foi um ato político. Gene Roddenberry sabia que no futuro, a humanidade já teria derrubado as barreiras de preconceito e que estaria unida na busca de melhorar a si próprios e ao universo. Essas crianças viram um futuro diferente do que a sociedade lhes oferecia. Elas viram a oportunidade de ser o que quisessem, desde que isso as fizesse feliz. Isso, por definição, é pura política entrelaçada em uma série de televisão.

Não se engane achando que política nada tem a ver com você. Não reclame "vocês estão politizando o meu entretenimento!", quando na verdade ele sempre foi político. Hitler tinha um departamento de propaganda que gastava muito fazendo filmes que reafirmassem aos alemães que eles estavam do lado certo e que os judeus que eram o problema. Do alto do seu privilégio, é bem possível que a luta dos divergentes e da Tris em apenas ficarem vivos numa sociedade estratificada lhe passou batida, enquanto negros, mulheres, e comunidade LGBT+ conseguiram se enxergar naquela população. Imagine você no lugar do capitão Sheridan, em Babylon 5, vendo o governo massacrar inocentes em Marte e declarando a estação como um estado independente, por não concordar com as decisões do presidente, pensando que isso não tem nada de político.

Vamos fugir da política então, vamos para os filmes de zumbis... Epa, não dá, pois os zumbis sempre foram usados como metáforas para todo o tipo de crítica social. Enquanto A Noite dos Mortos Vivos tece um forte comentário sobre a luta dos negros pelos direitos civis, Madrugada dos Mortos reflete a preocupação de George Romero com a apatia cultural relegada ao consumo de massa e como as pessoas parecem hipnotizadas, andando como zumbis, enquanto passeiam por um shopping center, amortecidas por seus confortos e tendo seus valores erodidos por uma falsa moralidade.

Os Invasores de Corpos pode ser visto tanto como uma alegoria do comunismo extirpando a autonomia individual como um debate sobre a paranoia a respeito da Guerra Fria. Há também uma crítica aos próprios norte-americanos por sua postura de ver comunista até na sopa, que se iniciou com o senador Joseph McCarthy.

Todos os filmes são políticos. Todos os livros são políticos. Todas as séries de TV são políticas. Você é um ser político. Quem vai dirigir o filme, o roteiro, a forma como sua personagem feminina se veste, a cor e a orientação sexual do seu protagonista, o interesse romântico, quem vai salvar a galáxia, quem vai destruir a Estrela da Morte, quem vai combater o Dominion, quem vai liderar a revolução que vai derrubar a Capital, quem ameaça Wakanda, tudo é pautado numa decisão política.

O que vemos nas pessoas que costumam abominar a palavra é um segmento cada vez maior da sociedade sendo extirpada de sua empatia e educação, tendo sua moral distorcida e manipulada por forças maiores. O mundo tem visto homens, em geral brancos, irados e buscando um culpado em mundo em transformação, por não se sentirem mais o centro do universo, cuja sede por violência, sangue e autoritarismo tem colocado nas presidências de seus países os mais execráveis tipos de criaturas, que magicamente trazem uma resposta superficial para todos problemas.

Você tem duas escolhas: ou enxerga a política como parte da vida e dos produtos que consome, tornando-se o ser político que Aristóteles diz que todos somos, ou continua na caverna de Platão, enganando a si, vendo a vida por lentes embaçadas, acreditando no que você quer acreditar. A caverna pode te trazer um conforto momentâneo, mas você nunca vai saber como é a vida de verdade fora dela.


Até mais.

Leia mais:
How is American Politics Portrayed in Popular Culture? - George Wilmot
All Movies are Political Movies. We Need to Do Better - Filmmaker
Pop Culture, Events and Politics: An Exercise in PR - Fifteen Design
How ‘Pop-Culture’ influences 21st century international politics - IAPSS
The Best of 2016: The Mutualism of Pop Culture and Politics - Esquire

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1 Comentário

  1. Democracia não é só um texto no papel, em leis e toda a parafernália burocrática que sustenta nosso estado.
    Democracia é um sentimento onde as pessoas se sintam seguras e confortáveis de expressar sua identidade e ideias.
    Sem serem, inclusive, coagidas por trolls virtuais.

    O engraçado é que o "apartidário" dessas pessoas só serve quando o outro pensa diferente. Até mesmo o movimento do "apartidarismo" atual, é, de seu modo, uma ideologia partidária!

    Temos no Brasil igreja partidária, militares partidários, juízes partidários, mídia partidária, jogar de bola partidário... Mas o mal do mundo é "professor" de esquerda (antes fosse assim, não teríamos o resultado das eleições que tivemos!). E agora até mesmo um blog escrito por uma pessoa que paga seu próprio blog, tem que ser "neutro". Pelamor!!! Já já vão falar que você é patrocinada pela lei rouanet.

    Esse pessoal não só não leu uma linha do seu blog, como não leram nem mesmo nada de fic ou fantasia... É muito fácil ver os contextos de guerra fria (para os dois lados) nas antigas, ou de empoderamento nas mais novas. Até Harry Potter, a mais introdutórias das fantasias da geração atual, mostra claramente temas como: crítica ao racismo, importância do feminismo e movimento ecológico, o mal que é controle da educação pelo estado autoritário, crítica ao autoritarismo sustentado por famílias oligarcas... Enfim, tudo que o Brasil precisaria refletir.

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