Resenha: O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick

quarta-feira, agosto 29, 2018

Assim que terminei essa leitura comentei no Instagram que tenho uma relação de amor e ódio com o PKD. Adoro os filmes baseados em suas obras, mas tentar ler seus livros é sempre uma experiência complicada, algumas até desagradáveis. E neste caso aqui não foi diferente.



Parceria Momentum Saga e
Editora Suma


O livro
Ragle Gumm é um sujeito com mais de 40 anos, que mora com a irmã e o marido dela, veterano da Segunda Guerra Mundial que passa os dias fazendo cálculos para um concurso de jornal onde ele é o ganhador invicto. Ninguém entende direito o que ele faz, nem como faz, para ganhar o concurso todas as vezes. Seu cunhado trabalha em um mercado e volta e meia questiona como que o irmão da esposa consegue fazer apenas aquilo da vida. Ragle acaba julgado como folgado ou preguiçoso, vivendo às custas da irmã.

Resenha: O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick

Ragle começa a perceber que algumas coisas à sua volta não estão certas. No lugar de um determinado objeto, a imagem se desmancha e tudo o que fica no lugar é um pedaço de papel com o nome do objeto escrito. Ele vai juntando os papéis e começa a se perguntar se alguma coisa é real. Às avessas com a vizinha e seu marido curioso demais, que sempre está enfiado na casa de Ragle, ele e o cunhado começam a ter experiências com essa dissolução da realidade.

A barraca de refrigerantes se desmanchou em pontos. Moléculas. Ele viu as moléculas descoloridas, sem as qualidades que as compunham. Então viu através daquilo, viu o espaço que havia por trás, viu a cortina, as árvores e o céu.

Página 56

Existem muitos autores que não trabalham bem seus personagens, mas conseguem criar enredos em que você consegue se inserir. Existem aqueles que realmente não conseguem escrever enredos com bons personagens e existem aqueles que destilam seu preconceito em cima deles. Philip K. Dick aqui não soube trabalhar os personagens, onde uma das mulheres é chamada de retardada e vadia várias vezes, mas não só isso, o livro se perde em algum momento do enredo. Você começa lendo sobre um lugar onde o protagonista começa a questionar sua realidade e no fim você mal tem uma resposta satisfatória para isso.

É como se o autor tivesse deixado o enredo e lado e depois voltou para terminar de qualquer jeito, esquecendo que ele precisava dar alguma resposta sobre as coisas desaparecendo lá no começo. Eu terminei pensando que tinha pulado alguma parte da leitura, pois Dick não responde. Ele começa uma tensão e não corresponde à ela. Chegamos ao final lendo uma segunda história quase que desconectada do começo.

É possível escrever enredos que deixem para suas leitoras a capacidade de interpretar os eventos. Normalmente o new weird é assim. Não é o caso aqui. O livro é ruim e careceu de um editor para avisar ao PKD que ele deixou algo incompleto pelo meio do caminho.

O que realmente o salva é o lindo projeto gráfico com capa dura que a Suma vez para ele. A tradução de Braulio Tavares está muito boa e não encontrei grandes problemas de revisão.

Ficção e realidade
Acredito que um dos grandes méritos de autores como o Philip K. Dick é de fazer o público se questionar sobre o que é real e o que não é. São discussão sobre o que é real e o que não é e a própria moralidade da realidade. Estes questionamentos nos deixam em dúvida se estamos vivendo ou se estamos em um grande palco onde tudo é ensaiado, forjado, uma grande simulação. Aliás, quem é que não garante que agora não estejamos todos em uma grande matrix?

Philip K. Dick

Pontos positivos
Projeto gráfico
Realidade?

Pontos negativos
Pontas soltas
Personagens rasos
Devagar

Título: O Tempo Desconjuntado
Título original em inglês: Time Out of Joint
Autor: Philip K. Dick
Tradutor: Braulio Tavares
Editora: Seguinte
Páginas: 270
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
É, PKD, nossa relação realmente não funciona. Você teve uma ideia boa, mas não a executou direito e fiquei com a sensação de ter lido algo inacabado, feito às pressas para atender ao calendário editorial. Uma pena mesmo. Dois aliens.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 Comentário

  1. Vale ler mesmo assim ou melhor nem tentar?Pode ser boba a pergunta.Só não diga"depende de você".Abraço

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