A quem interessa uma literatura inacessível?

A quem interessa uma literatura inacessível?

Entre as minhas turmas de ensino médio, uns anos atrás, eu tinha um grupo de alunos que adorava ler. Mas livros eram caros para eles, então eles faziam vaquinha, compravam um exemplar, liam e emprestavam entre si. No intervalo, era comum eu vê-los sentados na sombra, comendo o lanche e lendo os livros já gastos e amassados de tanto passar pelas mãos uns dos outros. A biblioteca da escola era uma negação, não tinha livros e ninguém se preocupava muito com isso lá na direção.

Infelizmente, a professora de Língua Portuguesa não concordava com a leitura desses alunos. Para ela, era tudo "lixo moderno" e Harry Potter não podia ser chamado nem de "subliteratura". Ela os desencorajava na sala de aula, dizendo que aquela leitura era fraca, sem significado e que eles precisavam ler uma "literatura de verdade" para poderem se considerar "leitores sérios".

Você já pode adivinhar o que aconteceu em seguida. Alguns alunos começaram a acreditar no discurso. Ela dava aulas sobre os livros mais clássicos, especialmente para o vestibular e eles tinham vergonha de dizer que não conseguiam entender a linguagem mais rebuscada das obras de Machado de Assis e José de Alencar. Começaram a achar que eram menos inteligentes, que não tinham que "perder tempo" com leitura, se eles não conseguiam ler o que ela indicava, nem podiam ler o que gostavam.

"Literatura de verdade", "55 páginas por dia", "literatura e dinheiro não se misturam", "booktubers são atravessadores", "quem vende livro não tem neurônios" e por aí vai são emanações de um mesmo fenômeno: a elitização da literatura. Em alguns setores, a literatura e, por consequência a escrita, são vistos como artefatos divinos, como uma inspiração sagrada soprada no ouvido de uns poucos letrados autorizados a criar e a consumir este tipo de produção.

Os dados da pesquisa da professora da UNB, Regina Dalcastagné, sobre o perfil do escritor brasileiro consegue nos responder uma parte da questão sobre a inacessibilidade da literatura. Eles refletem nossa sociedade, os preconceitos e valores de um determinado segmento da sociedade.

O perfil do romancista brasileiro publicado por grandes editoras se manteve o mesmo por pelo menos 43 anos. Ele é homem, branco, de classe média, nascido no eixo Rio-São Paulo. Seus narradores, protagonistas e coadjuvantes são em sua maioria homens, também brancos, de classe média, heterossexuais e moradores de grandes cidades.

Revista Cult

Mesmo com o ótimo trabalho de editoras de pequeno e médio porte que surgiram no país nesses últimos dez anos, mesmo com um mercado independente aquecido e com o sucesso de feiras e vendas online, ainda temos um ciclo vicioso de publicações, que são escritas sempre de um mesmo ponto de vista, com os mesmos temas, com perfis de autores muito parecidos. O público recebe isso como sendo a resposta para quem pode ser chamado de escritor no Brasil e o que é considerado literatura.

Sob esse padrão, naturalmente que tudo que saia da curva é visto com desconfiança, com desgosto, é repelido, visto como uma ameaça, é diminuído e ironizado. Determinados tipos de ficção, como a ficção especulativa, a young adult, os best-sellers, todos são incluídos num balaio com uma plaquinha que diz que é uma literatura que não deve ser levada a sério. Escritores, dramaturgos e até TAGs literárias já fizeram declarações de que estes gêneros não precisam de muito esforço do leitor.

Livros podem ser sim escapismo. A gente pode ler para se divertir, para se aventurar. Literatura exige curiosidade, exige empatia, exige confiança e suspensão da descrença. Mas também podemos ter livros que tratem de temas sérios, que trabalhem preconceitos, que falem de ditaduras, que usem a ficção como maneira de falar de temas pertinentes. Quando minha colega disse que Harry Potter não era nem uma sub-literatura, ela ignorou toda a discussão sobre racismo, ditadura, luta do bem contra o mal, amadurecimento, o despertar do amor e do sexo, que os livros fazem. E que ela poderia ter discutido com seus alunos.

Vemos o reflexo dessa dominação no meio cultural e literário na forma como os prêmios são distribuídos, como as críticas em jornais e revistas são feitas. Mulheres, negros, comunidade LGBTQ+ costumam ficar restritos a seus grupos, separados em uma literatura de nicho, enquanto a literatura dos homens é tida como "universal". E conforme a internet abriu um leque de oportunidades para que todo mundo tivesse acesso aos meios de publicação e divulgação, começamos a sair do gueto literário e nosso trabalho começou a aparecer.

Não só a aparecer, mas a agradar. Pessoas apaixonadas por livros começaram a ganhar espaços na internet, falando do que gostavam, do que não gostavam, trazendo para o público um contato direto e mais fácil do que uma crítica em um jornal ou revista. Saímos dos intermediários e ganhamos as telas de smartphones, tablets e computadores. Existem canais que discutem clássicos, que tratam de obras obrigatórias de vestibular, que falam de autoras e autores nacionais, que trabalham terror, ficção científica, fantasia, obras juvenis e infanto-juvenis.

Demonizar o livro que desperta o desejo de leitura em alguém é apenas a manutenção da leitura como status, como uma grife, algo possível a apenas uma parcela mínima da população que possui os "requisitos necessários" para apreciar a "arte".

Íris Figueiredo

Se a literatura é um reflexo da nossa sociedade, é ótimo ver o quanto os jovens estão agitando o mercado literário e como estão consumindo livros, discutindo-os, indo a feiras e bienais. É um movimento lindo, pois mostra nossa sociedade evoluindo. Mas justamente por ser um reflexo de uma sociedade preconceituosa que está se remexendo para mudar que tal movimento assusta um segmento que vê sua superioridade abalada e que não quer que nada mude. Quer continuar na bolha de privilégio.

Vou dizer a quem a literatura acessível interessa: as editoras, obviamente e aos escritores, afinal todos temos contas a pagar. Leitoras e leitores que estão sedentos por novidades, bienais, bibliotecas e feiras, sites e blogs, canais do YouTube e booktubers. Todos queremos uma literatura acessível. E por ser um mercado, é lógico que rola dinheiro. É lógico que se você tem um meio de comunicação que atinge a muita gente, um valor será cobrado para se fazer publicidade nele. Ou você acha que a Livraria Cultura não cobra pela exposição das vitrines? Será que a Superinteressante colocaria um anúncio de uma página do meu livro se eu pedisse com jeitinho? Oi, revista Galileu, publica um anúncio do meu livro, por amor à literatura?

A literatura inacessível interessa apenas àqueles que a querem como um bem cultural da própria elite, do mesmo grupo que publica e se lê há décadas, que se premia e se divulga, que se destaca do "resto". O mesmo grupo que acha um absurdo "misturar literatura com dinheiro", mas não distribui livro de graça na rua, nem me mandaria um PDF do arquivo pra eu ler por aqui. Que acha absurdo ler 55 páginas ao dia, mas quando alguém mostra que é possível sim ler o triplo disso, é desdenhado, porque não lê "literatura de verdade".

Como produtora de conteúdo, escritora e leitora, eu tenho uma grande responsabilidade ao publicar uma resenha ou um texto sobre um determinado livro aqui. Eu sei que minha opinião pode influenciar a compra e a leitura de alguém. E existe gente picareta e mau caráter em qualquer segmento humano. Dizer que todo booktuber é um aproveitador, um atravessador, um mercenário que nada entende de literatura é desdenhar de um serviço que se consolidou e está agitando editoras e mercado, atingindo um público que nunca antes se atingiu com a "crítica especializada de revistas".

É desdenhar também dos gostos e peculiaridades de cada resenhista, de cada canal que mostra que literatura não é um bicho de sete cabeças, que pode ser consumido, discutido, vendido e comprado; é desdenhar do público que consome estes conteúdos, seja em vídeo, seja em texto, seja em podcast. É rir de mim, e de cada blogueiro literário, de cada escritor que está sendo divulgado, é desdenhar da literatura em si. Ou seja, quem faz isso não é diferente da minha colega que desestimulou os alunos a ler, porque desdenhava do que eles gostavam. Que se acha superior a qualquer ser mortal.

Aqui vai o pulo do gato: escrita é um ofício e como tal se aprende, se ensina, se aprimora. Ele não é um dom soprado por deusas a semi-deuses. A diferença entre mim e a Margaret Atwood é que ela escreve a mais tempo. Você não é especial por ter uma ideia e colocar uma palavra na frente da outra e compor um livro. Não é necessário faculdade ou mestrado, nem mesmo um computador, para ser uma escritora. Mas é preciso muita empáfia para gritar que o trabalho dos outros é inferior apenas por não concordar com ele.

A literatura brasileira vem reproduzindo padrões de exclusão da própria sociedade. Não é de se admirar que tenha escritor desdenhado dos booktubers, dos blogs literários, de gente cobrando pela publicidade de seus espaços e lucrando com isso. A literatura não deve ser tratada como uma arte superior, de acesso a poucos iluminados. Todos nós temos direito à ela, a produzi-la, consumi-la, desconstruí-la e remodelá-la conforme evoluímos a escrita, os temas e os formatos. O que essa discussão levanta é quem vai prosseguir pela estrada e quem vai andar para trás pelo mesmo caminho.

Até mais!

Leia também:
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Meet the YouTube Stars Turning Viewers Into Readers - The New York Times
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Comentários

  1. Sybylla,perfeito o seu texto! Parabéns! Eu também bato na tecla da dessacralização da literatura, cultuada e tratada como uma divindade da qual apenas os "mais inteligentes" têm acesso no alto de sua torre de marfim. É preciso continuar com esse trabalho de divulgação e não esmorecer, pois a elite cultural já rebaixou tantos gêneros e estilos literários e hoje eles estão aí, reconhecidos e apreciados - como as HQs e Literatura de Cordel, apenas para citar dois exemplos.

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  2. Que vontade de esfregar esse texto na cara dos meus colegas e professores da faculdade de letras.

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  3. Que texto é esse? o.O Estou aplaudindo em pé! Perfeita em todas as suas colocações. Eu fico completamente sem reação quando leio um "literatura séria" e "literatura de entretenimento" ou até mesmo "baixa literatura". Como assim??? Tudo é literatura. Não importa quem escreveu e qual gênero ou tema quis trabalhar. Cresci lendo Paulo Coelho e Jules Verne e tá tudo certo. Leitor é aquele que lê e a literatura pertence à todos, sem distinção. Confesso que sempre detestei literatura clássica nacional, justamente por essa visão de que essa era a única literatura que importava. E pela "obrigação" de ler. Adorei demais teu artigo e vou recomendar pra todo mundo!

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  4. Pensando como professora de literatura, eu acho que a nossa tarefa é dar as ferramentas que o aluno precisa pra ler qualquer tipo de literatura que ele deseje. Isso também é popularizar, no sentido de "olha, você pode entender sim Machado, você é capaz disso, precisa só encontrar a chave de leitura correta pra ele, como pra todo e qualquer livro". Aí ele lê YA e se quiser também pode ler outros gêneros (considerados mais difíceis de entender), literatura de outras épocas e outros contextos. É claro que essa coisa de "Literatura séria", "Alta Literatura" afasta os alunos pq eles não se identificam. A literatura deve ser acessível em todas as suas formas. Ou porque comunica alguma coisa que faz parte já do universo do leitor e interessa a ele, ou porque ele tem as ferramentas ideais pra se aproximar e entender a literatura mais distante dele. A escola é um dos lugares pra se aprender isso e é inegável que o booktube está contribuindo ao fazer essa aproximação leitor+livro clássico que ele achava que não era pra ele.

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  5. Esse texto é de 2018 mas lendo agora percebo como você foi cirurgica em todas suas colocações. Li concordando com cada frase porque, realmente, a escola acaba muitas vezes por ser esse lugar de elitização literária e quantas vezes não ouvi que o que eu lia/escrevia não era literatura. Enfim, parabéns pelo texto.
    https://riotbooks.blogspot.com/

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