Resenha: Black Dog - Os Sonhos de Paul Nash, de Dave McKean

quinta-feira, agosto 02, 2018

Eu não sabia bem o que esperar desta obra quando ela chegou. Sabia pela sinopse do que se tratava e nada mais além disso. Acredito que uma das funções de um artista, seja da área que for, é refletir o seu tempo, o momento em que vive. Nesse sentido, penso exatamente como a Nina Simone que afirmou que é uma obrigação artística de olhar para seu tempo e fazer dessa reflexão uma arte. E Dave McKean conseguiu refletir a obra de Paul Nash e os horrores da Primeira Guerra Mundial em Black Dog.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


A graphic novel
Nas aulas de geopolítica nós estudamos muito os dois grandes conflitos mundiais e uma das coisas que nosso professor falava era como a Primeira Guerra Mundial foi muito mais suja e cruel na questão de combates do que a Segunda. No segundo conflito nós já tínhamos aviões e baterias anti-aéreas, enquanto no primeiro os combates corpo a corpo eram a regra. Havia gás e cavalos transportando cargas e suprimentos e trincheiras sujas e doenças espalhando-se entre soldados mal nutridos, feridos, desesperançados. Tudo isso me veio à mente quando comecei a ler esta edição.


Paul Nash foi um pintor surrealista e artista de guerra, fotógrafo, designer e escritor. Essencial no desenvolvimento do modernismo na arte britânica, Paul produziu algumas das pinturas mais icônicas da Primeira Guerra Mundial, inspiradas em sua vivência como oficial do Exército. Em 1914 ele se alistou como cabo e depois em 1916 fez o curso para oficial. No ano seguinte, como segundo-tenente, ele foi enviado para o fronte ocidental no regimento de Hampshire.

Foi inspirado no trabalho do artista que Dave McKean, músico, cineasta, desenhista e ilustrador criou Black Dog.

Quando olho para o trabalho de Paul Nash, sempre sinto como se visse um sonho. Parece que estamos olhando para o mundo real pelo filtro da imaginação de Nash. Muitas pessoas se afastam de suas experiências de guerra, nem mesmo querendo falar a respeito, mas artistas e escritores conseguem usar a experiência de alguma forma. E você vê isso no trabalho de Nash: suas impressões sobre as pessoas, as paisagens e como isso refletia na psicologia de sua própria experiência. Acredito que ele foi incrível nisso.

Entrevista de Dave McKean no The Guardian

Em sua autobiografia, Paul comenta sobre seus sonhos e como um cachorro preto sempre estava por perto com uma forte presença, em especial quando ele era criança. O animal se torna uma figura de perda, especialmente depois da morte da mãe, internada em um hospital psiquiátrico. Se Paul usou a pintura para refletir a Primeira Guerra Mundial, Dave usou sua arte e ilustrou a vida e as experiência de Nash através de seu traço, de seu filtro da realidade.

Não só a história em si é poderosa, afinal tudo o que está em Black Dog foram eventos que Paul Nash viveu, como o traço de Dave tornou a experiência vívida. Aquelas imagens que vemos do fronte da Primeira Guerra, em tons de marrom, preto, cinza, foram magicamente transportadas para as páginas da edição da DarkSide. Você mergulha em memórias, em eventos, em pensamentos, nem todos fáceis, mas certamente necessários para entender o que Paul Nash viveu.


Não dá exatamente para dizer como a história anda, porque são eventos conectados pela experiência de Nash, então você terá que ler para compreender o quanto a guerra marcou a vida do artista, já maculada por perdas e sonhos não concretizados. O que posso dizer, no entanto, é que o artista foi lindamente homenageado, seu legado preservado e os horrores da guerra mostrados em uma obra de arte.

A edição da DarkSide é maior do que suas graphip novels anteriores justamente para conseguir abarcar toda a experiência visual da arte de Dave McKean. É daqueles livros para folhear e admirar, sabe? Capa dura com papel encorpado no miolo e um tratamento especial para os detalhes do título na capa e na lombada.

Obra e realidade
Vi alguns comentários sobre Black Dog que foram bem infelizes. Eram pessoas desapontadas com a obra porque não seguia a linha da DarkSide de obras sanguinárias e sobrenaturais. Que não havia o componente do "escuro" que permeia as obras da editora. Tipo... sério? Isso mostra bem como os conflitos mundiais estão longe do nosso imaginário quando alguém acha que as terríveis experiências de um soldado na guerra não são "obscuras" o suficiente.

Dave McKean

Onde está a insanidade?

Na guerra?

Na natureza?

Dentro da minha mente, onde essas duas coisas se tocam?

Pontos positivos
Primeira Guerra Mundial
Empatia, solidão, luto, guerra
Baseado na vida de Paul Nash
Pontos negativos

Pode ser meio devagar


Título: Black Dog - Os Sonhos de Paul Nash
Título original em inglês: Black Dog - The Dreams of Paul Nash
Autor: Dave McKean
Tradutor: Bruno Dorigatti
Editora: DarkSide
Páginas: 120
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Este livro é mais uma obra de arte e um tributo a Paul Nash e suas experiências do que uma biografia. Biografias existem várias, mas o que Dave quis fazer, e o fez muito bem, foi dar vazão às memórias do conflito, da vida de Nash, inspirando-se em sua arte para fazer outra. Ignore os comentários negativos sobre Back Dog. Dentro de nossas cabeças e vidas existem mais aspectos sombrios do que qualquer artista poderia ilustrar. Cinco aliens para Black Dog e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais! ♥️

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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