Resenha: Dentes de Dragão, de Michael Crichton

Meu relacionamento com as obras de Crichton é complicado. Apesar de curtir seus trabalhos para a TV e cinema, seus livros... Ah, seus livros. Li Congo e O Enigma de Andrômeda uns anos atrás e as resenhas atraem comentários de fanboys raivosos até hoje, dizendo que eu não entendo nada de literatura, porque eu critiquei os livros. Quando vi este lançamento, fiquei na dúvida em pegar ou não. Apesar de ter mestrado em paleontologia, o fato de ser do Crichton me deixou meio hesitante em ler.



Parceria Momentum Saga e
editora Arqueiro


O livro
Esse livro foi encontrado pela esposa de Crichton entre seus rascunhos e correspondências. Escrito em 1974, é baseado em uma competição real entre dois paleontólogos em uma época em que os Estados Unidos ainda se formavam e empurravam os povos nativos para o esquecimento, fome e miséria. Era uma época em que chegar a determinados pontos do país era extremamente perigoso e ainda assim dois sujeitos arriscavam suas vidas e de seus colegas para caçar fósseis.


O oeste dos Estados Unidos era mal ou pouco integrado à costa leste, mas mesmo assim Othniel Marsh e Edwin Cope se arriscam na busca por fósseis inéditos. Essa é uma época em que paleontologia e evolução são termos novos, que causam medo. E medo é algo que William Jonshon, um rapaz impulsivo, estudante de Yale, parece desconhecer. Ele se mete em uma aposta e para não perder mil dólares decide embarcar na missão louca de Marsh como fotógrafo para caçar fósseis de dinossauros.

Mas Marsh é paranoico com uma possível espionagem de Cope e assim se livra de William no meio do caminho, deixando o jovem desamparado. Sem saída, ele acaba trombando com a equipe de Cope e sem opção, se junta à expedição que fará uma importante descoberta em território hostil, pressionado de um lado por Marsh e sua equipe, pelos nativos buscando locais seguros e de caça e o exército norte-americano que faz incursões pela região.

O livro começa com um mapa mostrando o caminho seguido por William e pelas expedições, o que é bem legal para poder entender o quão longe eles iam para conseguir um fóssil bem preservado. Os dois paleontólogos chegava a criar fósseis falsos para enganar um ao outro. Há momentos em que a disputa é infantil, de tão longe que ela vai e William acaba no meio dessa briguinha de colégio dos dois.

Os personagens possuem a mesma assinatura característica de Crichton: vazios, incompletos, rasos feito um pires. O autor nunca se preocupou muito em aprofundá-los. O que importa aqui é a corrida e a disputa dos fósseis. Vai chegar um momento em que as pessoas duvidarão que William esteja guardando fósseis mesmo, tamanho o cuidado que ele tem ao cuidar das caixas de Cope e isso vai gerar todo tipo de problema para o jovem de Yale. William é quem tem alguma evolução, porque deixa de ser o moleque mimado que torra o dinheiro do pai e amadurece.

O mais natural seria achar que as vítimas da injustiça pensariam duas vezes antes de repetir a mesma injustiça com alguém; mas elas o fazem sem nenhum pudor.

Página 73

Os preconceitos com mulheres e nativos estão presentes no livro, o que dá mais uma amostra do pensamento da época (e até um pouco do pensamento atual). Vez por outra Crichton para e explica algo sobre a rivalidade de Marsh e Cope ou então sobre a natureza dos fósseis em si e depois retoma a narrativa. Não chega a cansar, mas você sabe que ali vai ter uma parada.

A edição da Arqueiro está muito boa. Encontrei poucos erros de digitação ou revisão, porém eles não chegam a atrapalhar totalmente a leitura. No final, há um perfil breve sobre os personagens que são reais e como a esposa de Crichton encontrou o livro, além de uma bibliografia.

Ficção e realidade
A rivalidade imbecil entre Othniel Charles Marsh e Edward Drinker Cope deflagrou a assim chamada Guerra dos Ossos. A sana era tamanha para desbancar o outro que eles recorriam a métodos desonestos, roubos, subornos e até a destruição de fósseis e amostras, apenas para impedir um ao outro de pôr as mãos nelas. Até em seus trabalhos científicos eles recorriam aos ataques pessoais e tentavam desacreditar as descobertas alheias. Que recalque, né? Fala sério.

Michael Crichton por Jonathan Exley

Ainda assim, a disputa entre os dois rendeu grandes descobertas paleontológicas, como os tricerátopo e o estegossauro. Se não fossem dois cabeçudos recalcados, possivelmente a paleontologia teria tido muito mais contribuições.

Pontos positivos
Fósseis
Baseado em fatos reais
Ciência bem escrita
Pontos negativos

Personagens rasos
Violência

Título: Dentes de Dragão
Título original: Dragon Teeth
Autor: Michael Crichton
Tradutor: Marcelo Mendes
Editora: Arqueiro
Páginas: 368
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Para quem curte os thrillers científicos de Crichton, este aqui é um prato cheio. É uma aventura, um faroeste, uma jornada do herói. Tem as características típicas de um livro de Crichton que todo fã vai reconhecer imediatamente. Quatro aliens e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais! 🦖

Já que você chegou aqui...

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4 COMENTÁRIOS

  1. Legal! Já li outros livros dele e gostei, soube recentemente dessa tradução e agora estou ansiosa para ler.

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  2. Quando terminei de ler o livro, também tive esse sentimento de personagens rasos. Talvez isso expliquei porque o livro nunca tenha sido publicado. Mas ali tu fala que isso é uma assinatura do autor, o que me deixa um pouco receoso, pois está quase chegando O Enigma de Andrômeda e, ainda que eu tenha gostado muito da adaptação feita em 2008, fiquei com um pequeno "medinho" de não me dar bem com o livro :/

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    Respostas
    1. O Enigma de Andrômeda foi um livro bem chatinho de ler. Congo também. É uma característica dele, infelizmente.

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  3. Quem lembra de certa forma o Crichton é o Alastair Reynolds, autor da série Revelation Universe (que é excelente, tanto pelos temas de escala cósmica, quanto pelo desenrolar da trama), com personagens igualmente rasos e bidimensionais. Felizmente, em seus trabalhos mais recentes, ele mostrou que aprendeu a trabalhar melhor suas personagens, em especial no Revenger, que quase cria seu próprio nicho de space opera retrô com bildungsroman de protagonista feminina FORTE (com maiúsculas sim senhora). Recomendo.

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