Mas e aí, é bom?

Quando eu faço resenhas, seja filmes, quadrinhos, livros, eu coloco pontos positivos e pontos negativos resumidos lá perto do final do texto. Eu sempre tento tirar o que há de bom de tudo o que leio ou assisto. E assim como tudo nessa vida, você tem um lado bom e um lado ruim. A morfina tem o seu lado analgésico que alivia a dor de muita gente, mas em demasia a danada vicia. Café é bom! Mas demais te deixa ligadona e ansiosa.

Com os produtos da cultura pop é assim também. Mulher-Maravilha é um dos meus novos filmes favoritos para a vida, mas ainda acho que ela tem pele demais exposta; ela pode ser uma semideusa, mas sabemos bem porque ela tem o corpo tão exposto.

Pois bem. Recebi um comentário curioso um tempo atrás. O cara estava "confuso" porque eu dei uma nota baixa para o livro, mas ainda assim consegui ver coisa positiva nele. Então na verdade eu "estava enganando o leitor" para "forçá-lo a comprar o livro".

A questão de gosto

Respira fundo, conta mil ao contrário e senta que lá vem história.

Como fã fervorosa de ficção científica e literatura, é muito difícil eu verdadeiramente abominar alguma coisa. O Marcelo, do Holodeck, comentou uma vez que quando você gosta de FC, você meio que gosta de tudo o que se produz. É mais ou menos isso o que eu sinto. Star Trek tem um apelo maior para mim, mas eu curto Star Wars, uma comparação direta que muita gente faz. Se eu fosse mais "xófem", talvez fosse mais passional e dissesse que de fato O-D-E-I-O alguma coisa. Só que a gente amadurece, lê e assiste a muita coisa, começa a perceber que existem coisas que você acaba gostando em algo. Exceto Friends. Difícil gostar de alguma coisa ali.

Mr. Robot foi uma série que eu não curti muito, assisti à primeira temporada esperando melhorar, ganhar mais ritmo e não deu. Porém as críticas que a série fez à sociedade, aos nossos comportamentos insanos, isso foi sensacional. Uma das melhores que eu já vi. Sense8 é outra série que eu não curti muito, mas ela tem alguns dos melhores personagens que já vi em muito tempo, como Nomi e Amanita.

Eu tento ver o que há de bom e de ruim nas coisas que consumo porque não existe nada absolutamente ruim, nada absolutamente maravilhoso. Tem coisa ruim até nas coisas que amamos. E tudo bem! É assim que a banda toca, minha gente. Você não pode odiar e ofender alguém que não gosta exatamente das mesmas coisas que você ou que criticou algo que você gostou. Isso não é maternal, nem jardim de infância.

Eu costumo gostar de algumas coisas que a geral abomina. U2, por exemplo. Se eu falar no Twitter que eu adoro o U2 é capaz que perca seguidores numa sentada. Não sei exatamente de onde surgiu o ódio ao U2, ao Nickelback, mas eu até evito falar que curto essas bandas, porque já chega gente com dedo na cara 'COMASSIM VOCÊ CURTE ISSO?". Ué, tá proibido?

O filme Lucy é um filme que eu adoro. E claro, eu sei que o lance de que usamos só 10% do cérebro é balela, mas vamos suspender a descrença, assim como suspendemos com aquelas batalhas espaciais cheias de efeitos sonoros e curtir a história que basicamente diz "E SE pudéssemos quebrar as barreiras de nosso cérebro orgânico?".

Aeon Flux é outro filme que eu amo. Aquele visual cyberpunk clean do filme tem um apelo muito grande pra mim. Não apenas adoro Charlize Theron e Marton Csokas, como gosto do enredo de maneira geral. Mas o filme foi uma bomba nos cinemas, na crítica. E blz, você é o Bergman por acaso? Ou presidente da Academia de Artes Dramáticas?

As redes sociais estão criando um comportamento de manada onde gostar de certas coisas é um pecado mortal. Eu gosto de Sai de Baixo e reviro os olhos fortemente para todas as vezes em que eles fizeram piadas com estupro, piadas racistas, blackface, piadas com nordestino, mas dou risada com o Caco falando das coisas de pobre, como a capa do botijão de gás, a capa do vaso sanitário, a capa do garrafão de água, o pano de prato com o nome dos dias da semana, porque aqui em casa é assim. É brega, mas faz parte da minha criação. Já tirei foto com o urso de pelúcia em cima da colcha nova da cama. Já fiz misturadão de forno com tudo o que tinha de resto na geladeira. E qual é o problema?

A série Married With Children tira sarro da tradicional família norte-americana, aquela dos comerciais de margarina, aquela do modo de vida americano e Al Bundy faz piada machista o tempo inteiro. Há coisas na série que não envelheceram bem, mas a crítica da família desestruturada que se ama é fantástica.

Quando eu era adolescente, me sentia culpada por gostar de perfume e maquiagem. Porque isso era o que a turma das "patricinhas" usava. Elas usavam calça bailarina, usavam pulseiras de corda de violão, usavam blusa amarrada na cintura, e eu e minhas amigas "nerds metaleiras" odiávamos tudo aquilo, pois "éramos melhores que elas", mais inteligentes. A gente assistia ao Beakman, poxa vida! Nós líamos os clássicos da literatura que vendiam na banca (mesmo sem entender direito aquele palavreado clássico), enquanto as "outras" liam Capricho.

É óbvio que essa picuinha tosca é típica de adolescente idiota e depois que eu cresci percebi que podia sim gostar de perfume e maquiagem e ainda continuar sendo a nerd metaleira. Que eu podia ler o clássico e a revista. Acho que o que quero dizer é: Toda as vezes em que tentei me encaixotar para caber num padrão, eu fui infeliz.

E é isso que as redes sociais andam condicionando hoje em dia. Caiba na caixinha da galera descoladona. Se não, deixa de seguir, silencia, bloqueia, executa. Somos complexos demais para caber na caixinha, especialmente se for a dos outros. Por isso, se você curte alguma coisa, curta. Tenha consciência de que ela será passível de críticas e também saiba de seus problemas, mas seja feliz. Entenda que nunca existirá algo que seja 100% perfeito, é algo impossível. Para sabermos o que é a perfeição é necessário conhecemos a imperfeição. Assim como para termos a luz, precisamos da escuridão. Coisa boa e coisa ruim sempre vão andar lado a lado.

Entenda também que não estou defendendo coisas preconceituosas ou sistemas de exclusão e opressão. Só estou dizendo que você tem o direito de gostar do filme ou do livro que a crítica não aplaudiu, que você pode gostar da banda que o Twitter não gosta, você pode cantar desafinado e desenhar torto, porque você tem esse direito. É necessário sim reconhecer todos os problemas que essas produções possuem, criticar e apontar quando for necessário, mas no fim quem pode dizer o que você pode gostar ou não é só você mesma.

Até mais!

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