Resenha: Mauricio - A história que não está no gibi, de Mauricio de Sousa

quarta-feira, abril 11, 2018

Assim como muitos adultos da minha geração, eu fui criada no bairro do Limoeiro, embaixo dos pés de goiaba do Nhô Lau, batendo papo com o Cranícola e fugindo das doidices do Louco. A Turma da Mônica faz parte da minha educação e das minhas primeiras leituras. Aprendi muito com as revistinhas que comprava na banca, na esquina de casa, com o troco da padaria que minha mãe deixava em cima da geladeira. Foram ensinamentos sobre amizade, respeito às diferenças, de não tolerar bullying e trollagem, de responsabilidades.



Parceria Momentum Saga e
editora Arqueiro


O livro
O livro é em primeira pessoa e foi contado a Luís Colombini. O tom da narrativa é o de uma conversa mesmo, como se você se sentasse com o Maurício numa tarde, acompanhados de um café. Logo no começo um aviso de Maurício: tudo o que está na minha biografia é verdade, aconteceu mesmo, ou que acha que aconteceu. E espere muita sinceridade nos parágrafos, até mesmo nas passagens pessoais e haverá momentos em que você vai dizer "Porra, Maurício!".

Biografia do Maurício de Sousa

Dividido em 39 capítulos, alguns mais curtos que os outros, a história começa com Maurício tomando um não categórico quando tentou conseguir um emprego como desenhista do jornal que viria a ser A Folha de São Paulo. O chefe de arte pegou sua pastinha com seus melhores trabalhos, olhou e disse:

- Desista, menino. Desenho não dá dinheiro nem futuro para ninguém. Vá fazer outra coisa da vida.

Página 11

Sem ter terminado a escola e precisando de dinheiro para sustentar a mãe e os irmãos, Maurício ficou desolado. Mas antes de sair, conseguiu um emprego no jornal, como copidesque, depois foi promovido a jornalista, com direito a sobretudo e chapéu de Dick Tracy. Como bom garoto do interior, ele era tímido, introvertido, mesmo tendo uma família de pessoas ousadas e arrojadas, com histórias de aventuras e fugas para viver uma história de amor. Maurício nos conta sobre como seus pais precisaram fugir para poderem viver juntos, a contragosto da avó, que abominava a relação.

Seu pai o colocou para trabalhar ainda criança, o que não durou muito tempo. Seu pai era muito criativo, inventivo, escrevia bem e era um ferrenho crítico do governo, tendo impresso jornais nos fundos de casa, sempre alfinetando as política regionais e federais. Foi por volta dessa época que ele encontrou um gibi no lixo. Era um exemplar de O Guri, amassado, sem capa, mas para o garoto era uma preciosidade. Começava aí sua paixão pelos quadrinhos e uma luta pelo reconhecimento dos ilustradores nacionais, sempre botados para escanteio para favorecer os quadrinhos gringos.

Existem passagens bem curiosas, como o fato de Roberto Marinho não querer comprar os direitos para publicar tirinhas em seus jornais, porque não enxergava viabilidade financeira na empreitada. Errou feio, Robertão! Maurício curtia personagens que fossem gente como a gente, sem superpoderes, o que influenciaria seus personagens para sempre. Logo após sua paixão pelos quadrinhos começar, surgiu a censura da igreja e houve até uma queima de gibis para tentar impedir a molecada de comprar. Mas a gente sabe que proibir é a melhor forma de estimular o consumo.

Personagens são como pessoas, têm suas características, suas idiossincrasias e manias. Como gente de carne e osso, também mudam com o tempo, de aparência ou comportamento, evoluindo sempre, de um jeito ou de outro.

Página 69

Este não é um livro apenas sobre a vida pessoal e profissional de Maurício de Sousa, mas é também um resgate dos primórdios do quadrinho, de como ele foi popularizado, da valorização dos artistas nacionais, do surgimento das tirinhas de jornal e dos cadernos infantis nos jornais, que consumi muito. Fala da visão de Maurício que, para sustentar a família, começou a enviar suas tirinhas para os jornais do interior devido à censura na capital paulista, porque ele foi considerado "comunista". Uma ação que começou no desespero se tornou o veículo que popularizou as histórias da Turma da Mônica, intrinsecamente ligadas à infância de Maurício e sua família. No dia que o acusaram de ser misógino, e depois de procurar o significado da palavra no dicionário, ele se inspirou em sua turrona filha Mônica para criar uma das personagens mais queridas do país.

O livro tem várias fotos, tanto coloridas quanto em preto e branco. Ele fala também de como a Turma da Mônica convenceu os editores nacionais de que crianças liam sim heróis nacionais, tanto que no início da década de 70 a revista da Mônica vendia 20 vezes mais que que Batman ou Superman. Ele também fala de algumas polêmicas recentes, como o que aconteceu com a Turma da Mônica Jovem e o quanto uma fala da Mônica foi tirada do contexto associada à defesa ao aborto por reaças de internet. Fala de algumas tristezas profundas como o sequestro de um de seus filhos e a morte precoce de um deles.

A edição também está muito bonita, com as contracapas decoradas de quadrinhos. E no final há um quadrinho da turminha finalizando a biografia, em que os personagens discutem a respeito da leitura. A capa macia torna a leitura super agradável e não encontrei grandes problemas de revisão ou digitação.

Obra e realidade
Quando eu entrava de férias do colégio, minha primeira providência era comprar o Almanacão da Turma da Mônica. Eu tinha passatempo e historinhas para um mês inteiro com ele. Foi com os quadrinhos da turminha que eu tive contato com mundos diferentes, ensinamentos e aventuras. Criança criada na grande metrópole, as aventuras do Chico Bento sempre foram as minhas preferidas. Mas minha personagem favorita é e sempre foi a Magali.

Se alguém se sente ofendido com algum apelido, alcunha ou qualquer outra coisa, é no mínimo uma questão de consideração e respeito evitar se referir a essa pessoa desse modo. É muito justo e necessário, o tipo de causa que a turminha gosta de abraçar.

Página 270

Tive a oportunidade de dizer isso ao Maurício há vários anos, quando ele foi com dois de seus filhos numa loja em que eu trabalhava. Obviamente que a loja parou, todo mundo querendo conversar com ele, pedindo autógrafos e ele atendeu a todo mundo. Fui uma das últimas a falar com ele, pois eu era do caixa, eu precisava concluir os pagamentos de suas compras, mas com muita simpatia, ele me perguntou qual era minha personagem favorita, falei que era a Magali e ele a desenhou para mim ali, com caneta vermelha, com o meu nome e um balãozinho dizendo "Um abraço!". Cheguei em casa flutuando, porque as historinhas da turminha eram minhas companheiras de sempre e muito me ensinaram.

Me ensinaram a ser eu mesma, independente do que os trolls me dissessem. Me fizeram companhia nas minhas tardes sozinha em casa, enquanto minha mãe trabalhava, me fizeram crescer e rir como nunca. Um dia, eu mandei uma cartinha, escrita com a minha horrível letra infantil, dizendo o quanto eu gostava das histórias e como eu amava toda a turminha. Para minha surpresa, uma carta chegou para mim algum tempo depois, agradecendo pelo carinho. Para uma criança, isso é um mundo inteiro. E só posso agradecer por tudo o que a turma fez por mim.

Pontos positivos
História da Turma da Mônica
Vida e obra de Maurício de Sousa
História do quadrinho nacional
Pontos negativos

Porra, Maurício!
Pode ser meio lento em algumas partes

Título: Mauricio - A história que não está no gibi
Autor: Mauricio de Sousa em depoimento a Luís Colombini
Editora: Primeira Pessoa (grupo Sextante/Arqueiro)
Ano: 2017
Páginas: 336
Onde comprar: AmazonCompra a biografia do Maurício de Sousa

Avaliação do MS?
Se você é fã de quadrinho, se é fã de Turma da Mônica, não pode deixar de ler esse livro. Você vai se emocionar, vai rir, vai chorar, vai se encantar com os causos e até haverá momentos em que vai se irritar com algumas passagens. Mas é uma história real. Na vida de todos nós há momentos vergonhosos, momentos que gostaríamos de apagar ou de fazer certo. O importante é reconhecer esses momentos. Uma leitura essencial e obrigatória.

Até mais!

Aristóteles dizia que a potência que não se transforma em ato se encerra na sua inutilidade de nada ser. Jeito bonito de dizer que não dá para ser feliz se você tem uma ideia, um projeto, um sonho e não vai atrás, deixando as oportunidades se esvaírem.

Página 294

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Nossa, trocava gibi com meus amigos, ia na banca e lia lá (até mandarem ou eu comprar, ou ir embora), implorava o almanaque nas férias, e até cartinha já mandei!!!

    É legal que até hoje às vezes dô uma lida naquelas história curta, de fim de gibi.


    Onde treino quando a pessoa não se alonga, a gente brinca, fala que não pode ter bracinho de Horário, tem que esticar até onde dá.

    Fico muito triste com o pessoal mais novo não entende a piada! Como assim não conhecer o Horário?
    haha

    Ps: só não gostava do Astronauta!!!

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  2. Ele tem publicado no Instagram alguns trechos deliciosos. Uma das melhores foi sobre a tentativa em desenhar HQs de terror (!) e o Jayme Cortez, grande mestre dos quadrinhos, aconselhou que ele parasse de desenhar "aquela merda" e continuasse com o Bidu. :D Porra, Maurício, terror??? Já imaginou a Turma do Penadinho naquela pegada ao estilo "Cripta do Terror"? Adorei a resenha, que maravilha você ter a chance de encontrá-lo, falar com ele.

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