Ellen Ripley, maternidade e franquia Alien

Acredito que Ellen Ripley é um nome que todo fã de ficção científica já ouviu, certo? Pode até não ser um grande fã de Alien e seus filmes seguintes, mas certamente este nome já pipocou em algum momento. Isso porque Ripley é a grande heroína da FC e provavelmente a primeira mulher desde segmento, o que pavimentou o caminho para várias outras que viriam, como Sarah Connor. Já falei de Alien aqui no blog diversas vezes, inclusive como o roteirista de Alien, o Oitavo Passageiro, se valeu do estupro para chocar a audiência masculina.




Mas o aspecto mais importante da franquia Alien e da própria Ripley é como a maternidade foi subvertida. Quando Dan O'Bannon decidiu que estupraria a audiência masculina e os faria gestar uma criatura alien no corpo, ele já subverteu uma prática institucionalizada no cinema, que é a de usar estupro como ferramenta narrativa para elevar os personagens masculinos. O estupro, a morte, a agressão de uma mulher coloca estes nobres seres em uma jornada de conhecimento e você pode encontrar essa muleta criativa em diversos enredos.

O Oitavo Passageiro
A liderança de Ripley é silenciada diversas vezes nos quatro filmes em que a personagem aparece. A começar em O Oitavo Passageiro, em que Ash contraria a ordem da oficial superior e permite a entrada de Kane, Dallas e Lambert na Nostromo, sem ter que passar pela quarentena. Depois, a desconfiança de Ripley a respeito de Ash é novamente subjugada por ordem do capitão Dallas e quando Ripley descobre o plano de Ash, ele tenta silenciá-la enfiando uma revista pornográfica em sua boca, talvez a tentativa mais violenta de uma superioridade masculina de tentar calar uma voz feminina que o cinema já viu. E o silenciamento não para no primeiro filme: no longa seguinte, os executivos da Weyland-Yutani, preocupados com a perda de material e de sua nave, ignoram os avisos de Ripley a respeito da colônia LV-426.

Alien, o Oitavo Passageiro, por sua vez, mesmo com uma narrativa violenta contra a autoridade de Ripley, deixa uma única sobrevivente, uma mulher determinada e que sabe defender seu ponto de vista, que no fim é a única a perseverar. Enquanto isso, o resto da tripulação, começando por Kane (violentado pelo facehugger), são brutalmente mortos pelo Alien à solta pela Nostromo. E enquanto O Oitavo Passageiro é um filme de terror por excelência - uma versão espacial da casa mal assombrada - Aliens é um filme de ação com uma camada a mais de complexidade.

Aliens, O Resgate
Aliens, O Resgate rendeu uma indicação ao Oscar da Academia de Melhor Atriz para Sigourney Weaver na época de seu lançamento. Ripley é obrigada a voltar para o planeta-satélite - LV-426 - onde a nave com os ovos alienígenas foi encontrada. E sua ida é espontânea, mesmo que a Weyland-Yutani resolva lhe devolver sua licença de voo. Há muito interesses em jogo para a companhia, que envia os fuzileiros coloniais comandados por um oficial fraco e inexperiente. É quando entra a liderança nata de Ripley, que tenta salvar o que restou do batalhão, a si própria e Newt, a única sobrevivente da colônia, uma criança.

Diferente de muitos filmes de terror, em que a moça pura sobrevive no final, enquanto as moças "promíscuas" são todas sacrificadas durante a insana série de assassinatos, em Alien temos uma heroína que não foi nem sexualizada nem masculinizada para o seu papel de sobrevivente. Quando descobrimos em Aliens que Ripley é mãe, isso ainda não a define. Ela não deixa de ser a mulher, oficial de voo, sobrevivente da Nostromo quando ficamos sabendo sobre Amanda Ripley. Ela é uma mulher que por acaso é mãe também.

O "monstro-feminino" como representação simbólica de diferentes ansiedades com relação ao corpo da mulher, reprodução, nascimento e sexualidade são cartas batidas no cinema desde a era dos filmes mudos. Algumas obras até mesmo deixaram a mulher totalmente de fora da tentativa de criar vida, como Dr. Frankenstein e suas experiências sem nenhuma ética com cadáveres. Dan O'Bannon se vale desta ignorância e medo do público masculino para colocar em seus corpos a responsabilidade, ainda que forçada, de gerar um novo ser, que vai acabar por matá-los no final.

Essa feminilidade feroz e primitiva representada pela rainha Alien é rebatida pela posição da maternidade benéfica em Ripley, que precisa defender os seus e luta com a criatura. As duas estão protegendo suas crias, protegendo aqueles que lhe são mais queridos. Ripley sabe que não pode deixar a rainha vencer essa luta, pois a própria humanidade correria perigo com estes seres à solta. Há sim a presença de uma masculinidade feroz e totalmente ineficaz na figura dos fuzileiros coloniais, quase todos dizimados e utilizados como incubadoras.

Alien 3
Mesmo sem ser, nem de longe, o melhor filme da franquia, este filme subverte mais uma vez a maternidade. Infelizmente, Ripley precisa suprimir sua feminilidade por estar em uma colônia penal com prisioneiros extremamente violentos, alguns deles estupradores. Mas quando a fraca administração colonial acaba subjugada, é para ela que os prisioneiros se voltam, pois apenas Ripley tem o conhecimento necessário para impedir a criatura. E quando ela descobre que está gestando uma rainha, em um ato marcante, Ripley se joga em um poço de chumbo fervente para impedir que a companhia bote as mãos nela. É a mãe se sacrificando, junto de sua cria, para impedi-la de nascer, contrariando qualquer suposto instinto materno de manter a cria viva. Em uma concepção forçada, foi a única saída cabível para Rippley.

Geralmente, as mulheres nos filmes precisam carregar o fardo da simpatia, apenas ganhando vida quando um homem aparece. Será que ninguém sabe que mulheres são incrivelmente fortes?

Sigourney Weaver para a Revista Time

Alien 4
Sim, eu sei que esse filme é uma bomba de tão ruim, mas há uma concepção interessante nele a respeito da maternidade. Ripley é clonada a partir do material coletado pelo médico da colônia penal Fúria 161. Ela foi criada única e exclusivamente para isso, para trazer o embrião da rainha Alien de volta à vida. Mas a mistura do material genético humano com alien acabou por transferir características genéticas entre as duas. Enquanto Ripley se torna mais forte, mais ágil e tem o sangue levemente ácido, a rainha ganha um útero e dá à luz uma criatura bizarra e ainda mais mortal que sua mãe. Mesmo com conflitantes sentimentos maternos com relação à criatura, Ripley opta pelos seres humanos mais uma vez.


Sabendo de antemão o quão inteligente é a rainha Alien - que consegue ver em Ripley uma rival, que entende que o elevador pode levá-la até ela e ainda consegue se infiltrar na nave de transporte que ruma para a Sulaco - vemos em Alien 4 Ripley se desligar da criatura que ajudou a trazer à vida para proteger outras pessoas. Ela sai da zona da maternidade monstruosa e se mantém na maternidade benéfica que a fez lutar com a rainha em Aliens.

Essas mensagens são poderosas. Ripley não é definida pela maternidade, ao contrário de Sarah Connor, que serve como útero ambulante no primeiro filme para uma mãe paranoica e super protetora no segundo. A maneira como sua personagem age, com pouca simpatia pelos colegas, mas mesmo assim servindo de liderança para salvá-los, já quebra um estereótipo muito comum, de mulheres fofas, simpáticas e amorosas. Ripley não é simpática, nem de longe, com outros seres humanos, como na cena em que ela bate a porta na cara de Carter Burke.

Não sabemos o que será de Ripley ou se a indústria a trará de volta. As tentativas frustradas de Ridley Scott de repetir uma personagem feminina forte em Prometheus e Alien Covenant apenas nos fazem sentir ainda mais saudades de nossa heroína imperfeita e feroz, capaz de se sacrificar pelos outros. Sigourney Weaver já tem 68 anos, a indústria misógina dificilmente a traria de volta em uma nova aventura. E se for para estragar tudo, melhor deixar como está. Temos nossa mulher, oficial de voo, lutadora e mãe perfeita como está, com suas imperfeições e antipatia juntas.

Até mais!

Leia também:
The first action heroine - The Guardian
Reproduction and the Maternal Body in the Alien Series - mister jonze
Ellen Ripley, a Feminist Film Icon, Battles Horrifying Aliens… and Patriarchy - Bitch Flicks

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