Resenha: Ordem Vermelha - Filhos da Degradação, de Felipe Castilho

Ordem Vermelha é a aposta da Editora Intrínseca na fantasia nacional! Produzido em parceria com a CCXP, que lançou o livro na última edição, a obra é um frescor necessário à ficção especulativa brasileira e uma obra que pode atrair o interesse das grandes editoras para nossa produção literária de gênero, quase sempre à margem de livros estrangeiros. Pegue sua espada e se jogue em Untherak!



O livro
O livro começa trazendo a mitologia do reino e como uma batalha selvagem levou ao reino de Untherak e à deusa Una, que a todos governa há mil anos. Junto da bizarra Centípede e do pavoroso general Proghon, o poder é mantido por tanto tempo, em um mundo onde múltiplas raças vivem na opressão, na pobreza e na semiescravidão.


Admito que quando cheguei na parte sobre as diversas raças do Untherak temi que o livro caísse no "tolkienismo": anões, elfos, etc., etc.. Felizmente, a construção das características dessas raças foi muito bem feita. Os seres humanos compõem uma das raças mais fracas; depois temos os sinfos, pequenos seres ligados aos animais e à natureza, mas com uma vida bem curta; os robustos kaorsh, que podem mimetizar o ambiente e se camuflar; os gnolls, ligados à água, quadrúpedes e ferozes e; os anões, mestres da construção, mas que perderam muitos ensinamentos ao longo do tempo. Gigantes existem, mas são raros, pois estão praticamente extintos.

Este é um mundo opressor. Há viciados em carvão, há os servos e você tem uma chance de comprar sua semiliberdade por um preço. Ainda assim ela é parcial. Além de todo esse rígido controle social há a proibição da cor vermelha. E admito que aqui não consegui deixar de fazer um paralelismo irônico com nosso país, onde gente já foi agredida e ofendida na rua apenas por usar uma peça de roupa desta cor. Se você olhar com cuidado, verá um retrato do Brasil na obra, intencional ou não, não importa: um povo diverso, separado por preconceitos e um governo corrupto que faz de tudo para se manter no poder.

Acompanhamos, inicialmente, o surgimento de Aparição, que usa uma capa com a proibida cor vermelha e que começa a causar uma série de problemas para Untherak. Temos Aelian, um falcoeiro esperto e Raazi, uma kaorsh que tem um plano ousado de participar do perigoso Festival da Morte. A forma como começamos a conhecer os personagens parece que nos levará a um beco sem saída ou à uma típica jornada do herói, mas Felipe consegue sair do mais do mesmo novamente.

Mais perturbador do que fugir do lugar onde se perdeu tudo é retornar por vontade própria.


Raazi, Aelian e mais um grupo de insatisfeitos e renegados vão compor um grupo improvável, que visa levar a verdade à população. Estes personagens não são rasos, foram construídos de maneira a representar uma sociedade diversa, tanto sexual quanto racialmente, ainda que vista com maus olhos pelo sistema, o que também vemos acontecer aqui na vida real. Com nomes e expressões própria, isso pode parecer confuso em um primeiro momento, mas há um glossário no final com todos eles. As personagens femininas foram bem construídas, e em espacial Raazi, minha preferida.

Há grandes reviravoltas na história, mas senti que faltaram algumas explicações para algumas coisas que foram descritas (e seu falar o que, vou entregar spoilers), como uma determinada matança lá pelo meio do livro. Terminei com a sensação de que faltaram algumas linhas para alguns dos eventos. A menos que isso volte no segundo livro. Não vi grandes problemas de revisão no livro, exceto por um nome trocado perto do final, o que pode prejudicar a compreensão de quem estiver lendo. Tem que prestar atenção nessa hora para saber quem está falando com quem e não se confundir.

Ficção e realidade
Existe um questionamento de longa data dentro da ficção especulativa nacional: o que seria uma FC, Fantasia ou Terror genuinamente brasileiros? É sabido que muitos leitores têm preconceito com a literatura nacional. Culpo em grande parte a escola e os cursinhos com suas leituras obrigatórias de vestibular. Se você obrigar o leitor, é provável que ele não goste do que vai ler, por mais legal que o enredo seja.

Felipe Castilho

Obras como Ordem Vermelha podem ajudar a mudar esse cenário e essa aversão ao brasileirismo. Livros que consigam retratar personagens complexos, bem construídos, mas que ainda consigam conversar com nossa realidade.

Pontos positivos
Ótima construção de mundo
Raazi, Aparição e Aelian
Livro de autor nacional
Pontos negativos

Pode ser lento em algumas partes

Título: Ordem Vermelha - Filhos da Degradação
1. Ordem Vermelha - Filhos da Degradação
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Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Páginas: 448
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Ordem Vermelha foi uma grata surpresa e mal posso esperar pela continuação. Um universo rico, bem construído, que foge de alguns dos estereótipos da fantasia, com personagens com os quais você simpatiza e quer caminhar junto. Quatro aliens para Ordem Vermelha e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

Já que você chegou aqui...

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3 COMENTÁRIOS

  1. Gosto muito de suas resenhas.

    Realmente poucos livros de Fic Brasileiras parecem bons.
    Esse me interessou, obrigado.

    Lendo bem por cima, um livro com os pontos positivos destacados por você (um governo realista, uma boa construção de raças fora do padrão das Fic) é o livro Estação Perdido. Já leu?

    Abraços

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  2. A resenha já me conquistou quando mencionaste o paralelo com a realidade brasileira atual. E, claro, por ser de autor brasileiro.
    Por mais brasileiros fazendo FC e Fantasia!

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  3. Eu estava curioso e o texto me animou! Durou vai ser arrumar tempo fazendo estágio da facu...

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