Síndrome do Capitão Barbosa

domingo, junho 11, 2017

Ontem na Feira Intergaláctica da Editora Aleph, durante a palestra sobre Autoras de Ficção Científica que Amamos, eu comentei sobre a icônica e bem conhecida entre os autores nacionais Síndrome do Capitão Barbosa. Como não deu tempo de explicar direito o que ela é, achei que seria legal trazer o assunto aqui para a nossa nave. Você com certeza já foi acometido por ela como alguém que lê. E como alguém que escreve também.




Essa síndrome também é conhecida como "aversão ao brasileirismo". Um capitão de nave estelar chamado Barbosa passa muito menos credibilidade do que um capitão Jensen, ou Parker, ou Hirota. Cunhada pelo escritor brasileiro Bráulio Tavares, nos anos 1980, muitos autores não se sentiam confortáveis em criar cenários, enredos e personagens que tivessem tons brasileiros, com nome, maneira de falar e se comportar como a dos brasileiros. Era preferível seguir os moldes estrangeiros, especialmente norte-americanos.

E dá para entender porque, já que consumimos praticamente tudo o que é produzido por lá em filmes, séries de TV, livros, games e quadrinhos. Estes produtos se tornam, muitas vezes, a fonte onde buscamos inspiração para criar, até mesmo para nos tornarmos escritores destes enredos especulativos que tanto amamos.

Com leitores isso também acontece. Uma obra que mostre uma batalha de vampiros no estacionamento de um shopping em São Paulo não parece melhor do que o vampiro Edward Cullen querendo se matar na Itália. Vampiros em Londres soa muito mais obscuro do que um vampiro no Recife, ou em Belo Horizonte para muito leitor. Já vi gente descartando os livros de Eduardo Spohr, ou de André Vianco, por serem nacionais, por ocorrerem nas cidades que frequentamos, que conhecemos, com nomes que nos são familiares.

E é aí que está, não deveria nos ser estranho. Vejo que de uns tempos para cá leitores e escritores brasileiros têm apostado em centrar enredos na América do Sul, no Brasil, sem medo de nomear seus personagens com nomes que nos são familiares. Porém, um autor nacional no Brasil tem que lutar muito mais para conseguir uma editora do que um autor estrangeiro. Por isso tantos autores acabam em editoras de menor porte e apostando na autopublicação. Com plataformas como Clube de Autores e Amazon KDP tem ficado mais fácil mostrar nosso trabalho, mas ainda assim angariar público contínua sendo tarefa árdua.

Não sei bem de onde vem o preconceito com nossa literatura nacional, que pode refletir em muito autores que caíram na Síndrome do Capitão Barbosa. Seria a escola a culpada? Por querer empurrar obras da literatura clássica sem formar leitores para a devida compreensão? Eu cresci lendo a Coleção Vaga-Lume, mas no ensino médio, quando começamos a trabalhar as obras de Machado de Assis, José de Alencar, o estranhamento me fez ficar distante da literatura brasileira. Eu só voltei a ler obras nacionais quando me indicaram os livros do André Vianco e da Giullia Moon, e sem acreditar muito, comecei a ler e me senti acolhida por ver vampiros brigando nos lugares que conheço, acompanhando personagens que me eram familiares.

Seria o tão propagado "Complexo de vira-lata", cunhado por Nelson Rodrigues, o problema? Termo cunhado depois da derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo em 1950, o "viralatismo" se refere a uma inferioridade nossa diante do resto do mundo. Inferioridade esta, em geral, voluntária, pois não fomos jogados no porão pelos outros países. As origens dessa baixa auto-estima brasileira podem ser traçadas até o século XIX, com passagens racistas sendo proferidas por muitos autores, como Monteiro Lobato, que culpava a miscigenação como a causa de nossa "degeneração".

Um país que não se leva a sério vai produzir material cultural que reflita isso. Enquanto eu buscava informações para este texto, caí em páginas e fóruns que tiravam sarro do Capitão Barbosa, que se ele estivesse em um enredo, seria em uma nave caindo aos pedaços, faria cagada no final, pagando propinas e depois diriam que "só podia ser brasileiro mesmo". Rir de nós mesmos e de nossas desgraças não deveria ser encarado como viralatismo. Às vezes é a única maneira de lidar com as mazelas atuais. Mas isso não deveria ser escape para denegrir nossa riqueza cultural.

O que fazer para evitar a síndrome, como quem lê e quem produz? Simples, ler mais das obras produzidas aqui. Conhecer o que nossas colegas estão produzindo e publicando. Ainda, infelizmente, vemos muito da síndrome sendo reproduzida por autores nacionais. Passeie pelo Wattpad, pela Amazon, busque essas pessoas. Enquanto autor, saía do lugar comum. Abra um mapa do nosso país, conheça seu território. Ao invés de nomear sua nave como USS Charleston, pense numa USS Xavante. Não precisa alterar todo o seu enredo para "abrasileirar" a coisa.

E nunca, nunca pense que você é inferior diante de obras estrangeiras. Não trate nossa produção como inferior. Ser leitor/escritor é usar a roupa dos outros e caminhar com seus sapatos. Pode apertar, pode machucar, mas a experiência vai te enriquecer.

Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Eu estive ontem na Aleph e não consegui te parabenizar pelo ótimo bate-papo. Sai de lá com várias autoras para minha lista de leitura e várias coisas para pensar, inclusive nessa aversão aos temas nacionais. É algo que realmente preciso mudar, tanto na leitura, quanto na escrita/criação de histórias.
    Abraços.

    Rui Dias

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  2. Na oficina literária que eu frequentava os meninos discutiam muito sobre isso, um dos participantes adora ficção científica e sonha em escrever um romance com um astronauta soltando um sonoro "ôxe" enquanto está a deriva no espaço. Outros dois já tem histórias de malassombros em quadrinhos publicadas que se passam no Recife, trabalho maravilhoso inclusive e que vai estar na Comic Con em São Paulo. Dá uma olhada no Recife assombrado, é muito bom

    http://www.orecifeassombrado.com/

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