Resenha: Tudo Que Deixamos Para Trás, de Maja Lunde

quarta-feira, julho 05, 2017

Quando li a sinopse desse livro, ele me interessou na hora: distopia, problemas familiares, lições de amor e humanidade, colapso das abelhas. Temas importantes, pertinentes e trabalhados na ficção científica me cativam. O livro ganhou o Norwegian Booksellers' Prize de 2015, na Noruega e chegou no Brasil pela Editora Morro Branco, traduzido diretamente do norueguês.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Acompanhamos não apenas uma história, mas a história de três pessoas, em três momentos diferentes do tempo: William, em 1852, na região de Hertfordshire, na Inglaterra; George, em 2007, em um apiário em Ohio e; Tao, 2098, em Sichuan, na China. Parece que eles nada têm a ver um com o outro, mas estão todos ligados pelas abelhas.


Tao vive numa China futurista, onde o colapso das abelhas já aconteceu. Ela trabalha arduamente com polinização manual, subindo em galhos e munida de pincéis e pólen para garantir a produção de alimentos, já que não há mais polinização natural. Tao teve seus sonhos postos de lado pela cruel realidade que o mundo vive. Com o sumiço das abelhas, os países pereceram diante da miséria e da fome com a escassez mundial de alimentos. A China em si mal consegue se manter. Seu único alento é seu filho, Wei-Wen, de três anos.

William, de longe o personagem mais mala do livro, é um adepto das ciências naturais que caiu de cama ao perder a paixão pela descoberta e pela ciência. Afundando na melancolia e na tristeza, ele precisa de um propósito, de uma injeção de ânimo, e torce para que sua família, em especial seu único filho, em meio a tantas meninas, possa tirá-lo do ostracismo. Digo que William é mala pela forma incrível como foi descrito. É impossível não querer sacudir esse homem até ele cair em si. Carregado de todos os preconceitos da época, ele desdenha das filhas e da esposa, se preocupa demais com a opinião dos outros e achei ótima a reviravolta em sua vida causada justamente por causa de uma de suas meninas.

E George é um apicultor, extremamente orgulhoso de sua profissão, de suas origens e de suas abelhas, mas que luta para estabelecer uma relação mais próxima com o filho, que foi para a faculdade. Ele espera que o filho volte para assumir sua herança, suas colmeias, o que gera conflitos entre os dois. Thomas quer ser escritor e recebe apoio do professor, que chega a conseguir-lhe uma bolsa de estudos, para o eterno desespero de George.

Todos esses personagens têm seus sonhos, têm suas expectativas e todos estão de alguma forma envolvidos com as abelhas ou com o sumiço delas. Mas não só isso, eles estão frustrados com a vida que possuem, presos pelas circunstâncias. George, acredito, seja o mais satisfeito com sua vida de apicultor, acreditando que o colapso das colônias nunca o atingirá. Que isso é coisa de apicultor descuidado, que não trata bem suas abelhas. Mas a data estipulada por Maja Lunde para contar sua história não é acidental: 2007 foi um dos anos com maiores perdas de abelhas para os Estados Unidos e quando o colapso das abelhas recebeu este nome.

A abelha morre quando as asas não servem mais, tornam-se desgastadas, usadas em demasia, assim como as velas do navio fantasma. Ela morre no meio do salto, no momento em que vai alçar voo, com uma carga pesada que talvez tenha sido mais pesada que de costume, quando está quase estourando de néctar e pólen, e dessa vez chegou ao seu limite. As asas não aguentam mais. Ela nunca retorna à colmeia, mas despenca no chão, com todo o seu fardo.

Página 415

Com quase 500 páginas, o livro voa na sua mão. Quando você acha que Maja vai nos levar para uma direção, ela dá uma guinada para o outro lado e você vai junto, completamente atordoada com as situações em que os protagonistas estão. Não há uma ponta solta no livro, nada. Quando você se pergunta o que pode ter acontecido com Fulano, Maja nos dá a resposta. Se prepare para chorar, pois ela não tem dó nem do leitor, nem dos personagens. Mesmo com um tema tão preocupante, terminamos a leitura com uma pontadinha de esperança.

Encontrei alguns problemas de revisão no livro, como parágrafos não batidos, letras faltando em uma palavra ou outra e erro na descrição de espécies, que deve vir com a primeira palavra em maiúscula e a segunda em minúscula. Foi apenas em uma, pois outras citadas no livro estão corretas. Maja ainda lista no final as referências que usou, caso você deseje se inteirar mais sobre a crise das abelhas.

Ficção e realidade
O distúrbio do colapso das colônias (ou CCD em inglês) é um grave problema ambiental. Acontece principalmente com abelhas operárias, que abandonam a rainha e a colmeia. Ele vem ocorrendo em vários países, com a mortandade em massa de abelhas, responsáveis pela polinização. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), as abelhas, em especial as silvestres, polinizam 71 de pouco mais de 100 culturas e que respondem por 90% da oferta global de alimentos. Ou seja, o setor de hortifruti dos mercados vai ficar reduzido a poucos alimentos caso as abelhas desapareçam de vez, tal como vemos no livro de Lunde.

As causas do colapso estão relacionadas principalmente a uso de inseticidas e agrotóxicos, uso de antibióticos, mudanças climáticas globais, ácaros e doenças que atacam colmeias. No Brasil, em 2012, após vários casos de CCD, o IBAMA proibiu temporariamente a aplicação de quatro inseticidas em em lavouras que recebem insetos polinizadores, algo feito também pela União Europeia na mesma época. São eles o fipronil, que é um pirazol, e três neonicotinoides (imidacloprida, clotianidina e tiametoxam). Os neonicotinoides agem como neurotoxinas no sistema nervoso dos insetos, o que prejudica o olfato e a memória, que são essenciais para a manutenção de uma colmeia saudável.


Infelizmente, por pressão do agronegócio, o IBAMA recuou nas resoluções, permitindo novamente a aplicação dos agrotóxicos. No ano seguinte, na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, somente um apicultor relatou a perda de 70 colmeias, um volume de 3,5 milhões de abelhas mortas em alguns dias, que produziam uma tonelada de mel por ano. É assustador quando ficção e realidade não possuem distinção. E se continuar desse jeito, o cenário da China futurista e miserável não está tão longe de acontecer com todos os países.

Pontos positivos
Fatos reais
Distopia
Personagens irritantemente bem descritos
Pontos negativos

Problemas de revisão
Pode ser lento em algumas partes

Título: Tudo Que Deixamos Para Trás
Título original em norueguês: Bienes Historie
Autora: Maja Lunde
Tradutora: Kristin Lie Garrubo
Editora: Morro Branco
Páginas: 480
Ano de lançamento: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Terminei este livro de madrugada e fiquei digerindo nos dias seguintes, pensando. Maja Lunde trouxe tantos temas pertinentes para o livro sem deixá-lo cansativo, sem deixá-lo pesado. Mesmo com tantas tristezas em suas páginas, os temas foram tratados com muita delicadeza, com uma brutal realidade referente ao tempo de cada personagem. Você vai aos extremos dos sentimentos em cada momento, em cada frase. Por isso, quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também. E por favor, proteja as abelhas.


Até mais! 🐝

Leia também:
O colapso das abelhas - Eu quero Biologia

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Premissa interessante. Transpor um assunto atual para um "suposto" futuro.

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  2. Nossa, uma ótima premissa e um alerta para todos nós!

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